Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 6
Me acomodo em um assento de couro macio com cor de uísque fino. O sr.
Fuchigami senta à minha frente, deixando o chapéu-coco no colo. Seu
cabelo é grisalho e penteado para trás. As portas do carro batem. Para a
minha sorte, Akio vai na frente. Sua postura é super-rígida. Palavras como
pau e cu vêm à minha mente. Gotas de chuva escorrem por sua nuca. Ele as
enxuga com um lenço cuidadosamente dobrado. Sinto um pouco de ódio.
Até por ele ser bonito demais.
Estamos sendo levados por um motorista com jaqueta de botões de
bronze e luvas brancas.
— Quem está no outro carro? — pergunto ao notar um segundo Rolls-
Royce nos seguindo.
Está um pouco abafado aqui dentro e as janelas ficam embaçadas.
— Ninguém. — O sr. Fuchigami tira as luvas de couro preto. — Está
vazio, é uma precaução caso este carro quebre.
A madeira do interior do carro está brilhando. O motor ronca.
— Este carro já quebrou alguma vez?
O rosto do sr. Fuchigami é inexpressivo.
— Não, é novo.
— Faz sentido. — Só que não.
Policiais em motocicletas brancas nos acompanham. Pegamos uma
rodovia. Os carros param no acostamento para nos deixar passar.
— Aqui está seu itinerário para esta noite e o resto de sua estadia. — O
sr. Fuchigami deposita um maço de papéis no meu colo, com um ar todo
profissional.
Itinerário de Sua Alteza Imperial a Princesa Izumi
22/03/2021
15h32: Chegada no Aeroporto Internacional de Narita
15h45: Partida do Aeroporto Internacional de Narita, tour por Tóquio e pelos jardins imperiais
Olho meu celular. 16h01. Estamos dezesseis minutos atrasados. Não é
minha culpa. Eu já nasci atrasada — três semanas depois do esperado e
pesando quatro quilos, ou seja, tinha quase o tamanho de um maltês adulto.
Minha mãe estava tão enorme que todos pensavam que ela teria gêmeos, e a
enfermeira chegou a brincar que eu devorei minha irmã dentro do útero.
Sorrio com essa possibilidade. O sr. Fuchigami me observa com cautela,
contraindo os lábios. Volto para a programação.
17h01: Preparação para o jantar
17h22: Encontro privado com o príncipe herdeiro
20h00: Recepção de boas-vindas e jantar
— A programação terá que ser ajustada. Entendo que houve uma parada
não prevista no aeroporto — o sr. Fuchigami continua, olhando por alguns
segundos para o rabanete ao meu lado no banco. É meu novo amigo. Eu o
batizei de Tamagotchi 2.0.
Folheio as páginas e mordisco a bochecha. Bem, isso vai ser um desafio.
Já é um milagre eu conseguir seguir o cronograma escolar. Minhas duas
semanas aqui serão lotadas de atividades. Aulas particulares de história,
língua e arte japonesas. Passeios por santuários, templos e tumbas. Visitas à fazenda imperial e santuários de patos selvagens. Banquetes variados.
Passeios com meu pai — partida de beisebol, abertura de exposição de arte.
Tem até…
— Um casamento?
O sr. Fuchigami assente.
— O primeiro-ministro vai se casar em dez dias.
Engulo em seco bem alto.
— Não trouxe nada para usar em um casamento. — Minha bagagem
consiste em leggings e camisetas; uma versão desleixada da marca de
roupas esportivas Lululemon, o que é perfeitamente aceitável em Mount
Shasta. Se bem que arremesso de machado e tombamento de vaca também
são perfeitamente aceitáveis lá.
— Um vestuário foi providenciado para a senhorita. A família imperial
trabalha com diversos estilistas que confeccionam roupas decentes. —
Posso ler a mensagem implícita em sua declaração, em seu tom, em seu
sorriso inescrutável. Você representa a família imperial agora.
— Claro. — Tenho a sensação de que estou quase no meu limite. Não
importa.
— Suas primas, as princesas gêmeas Akiko e Noriko, viajam muito —
ele acrescenta, mais caloroso. — Na semana passada, Akiko voltou da
Escócia. Ela está planejando estudar inglês e transportes medievais na
universidade de lá no ano que vem. Em casa, costumava usar um vestido
muito charmoso e um blazer.
Ah, penso.
— Ah — digo. Mentalmente, faço uma lista das minhas roupas: leggings
e um moletom desbotado do Colégio Mount Shasta. — Desculpa, eu não
sabia… — Paro de falar. Um beijo para todas as garotas que pedem
desculpas demais. Estou com vocês.
— Sim. A senhorita precisa estar ciente de que a imprensa está sempre
observando. Mas não tem importância. Reunimos uma pequena equipe para
ajudá-la, começando pelo sr. Kobayashi. Ele é um poço de conhecimento e
será seu segurança pessoal. A família dele trabalha para a Casa Imperial há
décadas. Pode confiar em sua discrição. — Ah, pronto, agora meu inimigo
jurado vai ser meu confidente mais próximo? Jamais. — Certifique-se de
adicionar o contato dele ao seu telefone, por favor — diz o sr. Fuchigami.
Claro, pode deixar. Vou salvar como “Servo de Satanás”, com emojis de
chifres e de cocô.
Quando vou perguntar ao sr. Fuchigami sobre o resto da programação, de
repente fico sem palavras e sem fôlego. De boca aberta não porque ia falar.
Mas porque fico completamente surpresa. Admirada. Deslumbrada.
Chegamos ao topo de uma colina. Raios de sol passam por uma fenda nas
nuvens, e o desenho irregular de arranha-céus assoma no horizonte. Como
uma miragem, me sinto compelida a olhar. Apoio na janela, enxugo o vapor
do vidro com a palma da mão e levanto o queixo, absolutamente zonza.
Gotas de chuva escorrem, cortando meu reflexo.
— Tóquio — a voz do sr. Fuchigami se infla de orgulho. — Outrora
chamada de Edo, a cidade quase foi destruída pelo Grande Terremoto de
Kantō, em 1923, e depois pelo bombardeio noturno, em 1944. Dezenas de
milhares de pessoas morreram. — O camarista fica em silêncio. —
Kishikaisei.
— O que significa?
Sinto uma pontada no peito. Estamos na cidade agora. Os arranha-céus
não são mais formas recortadas contra o horizonte, mas sim gigantes
cinzentos assustadores. Cada superfície está coberta por sinalizações —
neon e plástico ou faixas pintadas —, e todas gritam por atenção. É barulhento aqui. Há uma cacofonia de músicas pop, buzinas de carros,
jingles de publicidade e trens passando sobre os trilhos. Nada é discreto.
— Algo como “despertar dos mortos e retornar à vida”. Contra
circunstâncias desesperadoras, Tóquio se levantou. Agora, é o lar de mais
de trinta e cinco milhões de pessoas. — Ele para por alguns instantes. — E,
além disso, é a monarquia mais antiga do mundo.
O deslumbramento retorna, multiplicado por dez. Seguro a porta do carro
e grudo o nariz no vidro. Vejo parques verdejantes, prédios limpíssimos,
lojas requintadas, galerias e restaurantes. Para cada construção moderna e
elegante, há uma construção baixa de madeira com telhas azuis e luminárias
brilhantes. É tudo tão intenso. As casas se apoiam umas nas outras como
tios bêbados.
O sr. Fuchigami narra a história de Tóquio: uma cidade construída e
reconstruída, nascida e renascida. Imagino-a sendo cortada feito uma fatia
de bolo, dissecando as camadas. Quase posso ver. Cinzas dos incêndios de
Edo carbonizando as armaduras de samurai, as canetas de pena e as
porcelanas de chá lascadas. Ossos de quando o Xogunato caiu. A poeira do
Grande Terremoto e os destroços dos ataques aéreos da Segunda Guerra
Mundial.
Ainda assim, a cidade prosperou. Está viva e repleta de veias neon.
Crianças de saias xadrez e gravatinhas vermelhas correm entre os
executivos de roupas sociais. Duas mulheres em quimonos carmesins e
sombrinhas combinando entram em uma casa de chá. Todas as pessoas se
parecem comigo. Existem variações, claro, diferenças no formato dos olhos
e do rosto, mas nunca vi tanto cabelo escuro em toda a minha vida. Então
percebo que não sou novidade aqui. Não sou esquisita. Que privilégio é
poder me misturar.
Mesmo assim, ainda parece uma alucinação, como se eu estivesse
espiando uma fechadura. Não consigo absorver tudo de uma vez. O carro
não diminuiu a velocidade em momento nenhum.
E então eu noto.
— Não estamos parando nos semáforos.
O sr. Fuchigami dá uma batidinha no banco de couro.
— Sim. Os semáforos são programados para mudar do vermelho para o
azul para a comitiva real. É de extrema importância que a família imperial
cumpra os horários.
Mais essa. Eu não ligo. Meu corpo está zumbindo, querendo se enfiar em
Tóquio e se perder em todos os cantos da cidade. É aqui que eu deveria ter
nascido, vivido. Aqui, palavras como aceitação e tolerância não teriam
feito parte do meu vocabulário infantil. Eu seria só mais um rosto na
multidão. Bem, a não ser pelos Rolls-Royce e pelas luzes piscantes da
escolta policial.
Encosto no assento, arrebatada e eufórica, ouvindo o barulho suave da
chuva caindo no teto de metal do carro. Literalmente boquiaberta.
Passamos pela água.
— Este é um dos muitos fossos que cercam as terras imperiais — explica
o sr. Fuchigami.
É aqui que meus avós, o imperador e a imperatriz vivem, exatamente no
meio de Tóquio, em uma reserva florestal particular de mais de
quatrocentos milhões de metros quadrados.
O carro fica escuro quando entramos em um túnel. Estamos nos
afastando das propriedades da família imperial.
— Meu pai não mora lá? — Subitamente, entro em pânico.
Lembro de um filme que mostrava uma criança indesejada pela realeza
sendo sequestrada em seu país para ser escondida.
— O príncipe herdeiro mora no Palácio Tōgū, no bairro de Akasaka, a
leste do palácio imperial, onde também residem o resto da família, seus tios
e tias e vários primos. As princesas gêmeas Akiko e Noriko têm mais ou
menos sua idade. O príncipe Yoshihito também. Ele tinha se mudado, mas
voltou para casa recentemente. Você terá bastante companhia. — Ele sorri
como se estivesse me dando um presente.
A inquietação passa quando o túnel termina. Cruzamos um portão etéreo
branco e dourado. Guardas em reluzentes uniformes azuis ficam em posição
de sentido. Um gramado amplo e bem cuidado culmina em uma fonte
grandiosa e emoldura um imponente edifício de mármore.
— O Palácio Akasaka foi inspirado em Versalhes e no Palácio de
Buckingham — diz o sr. Fuchigami. Sei, sei. Tem mesmo aquela vibe que-
comam-brioches da Maria Antonieta. — O palácio está desocupado, mas é
usado para acomodar dignitários visitantes.
Dobramos uma esquina. Muros se erguem. Ainda estamos contornando
Akasaka. Carvalhos retorcidos alinham-se acompanhando as ruas, e os
muros dão lugar a uma cerca de bambu simples, coberta por trepadeiras.
Tudo parece muito inofensivo, mas há câmeras de segurança discretas a
cada dois metros, e guardas imperiais patrulham a área.
A comitiva diminui o ritmo.
À frente, guardas em imaculados uniformes azuis e chapéus com
emblemas brilhantes aguardam em posição de sentido. As borlas douradas
de seus uniformes piscam para mim. Um portão de metal preto abre. Os
batedores da polícia se separam, bloqueando a rua e a entrada enquanto
passamos.
— Ah, chegamos. Este é o Palácio Tōgū — o sr. Fuchigami anuncia
calma e calorosamente. — Bem-vinda à sua casa.
O tempo para e meu cérebro registra cada momento. Sem dúvida, isto
ficará arquivado em meu hipocampo, o lugar onde memórias inesquecíveis
são armazenadas. Como a vez em que fiquei com a garganta inflamada e só
consegui comer bananas. Sempre vou associar banana a dor e doença. Só
que desta vez é o oposto. Isto aqui é beleza e esplendor.
Registro: momento em que percorro uma rua de cascalho flanqueada por
bordos, com azaleias de cor magenta chorando a seus pés. Um parque
estendendo-se para todas as direções, repleto de árvores de ginkgo-biloba,
bétulas-prateadas, pinheiros-negros e cedros. O ar cheira a barro e grama
recém-cortada.
Registro: momento em que desço do carro e estico o pescoço. A chuva
diminui por um segundo. Mesmo que o sol esteja escondido atrás das
nuvens, é como se o edifício emanasse luz própria. Ele está cintilando.
Reluzindo. É o lar perfeito para um homem que acreditava ser um deus
descendente do sol. O Palácio Tōgū é uma maravilha moderna. A extensa
construção de dezoito quartos e dois andares se funde com o ambiente ao
redor. O telhado de bronze oxidado com pátina de jade reflete as árvores à
sua volta.
Registro: o caminho até a entrada, passando por uma fila de funcionários.
Eles se apresentam um por um. Mais camaristas. Um médico. Três chefs
(pra que ter um quando se pode ter três?), especializados em cozinha
japonesa, ocidental, pães e sobremesas. Escudeiros. Arrumadeiras. O
motorista do meu pai. Minha dama de companhia, Mariko. Ela faz uma
reverência.
Mordo o lábio.
— Dama de companhia? — pergunto ao sr. Fuchigami.
— Companheira pessoal — diz ele maliciosamente, com o chapéu-coco
de volta ao lugar. — Ela a ajudará nas tarefas diárias e a ensinará sobre língua, cultura e etiqueta japonesas. Foi escolhida a dedo pelo seu pai. O
príncipe herdeiro achou que a senhorita gostaria de ter a companhia de
alguém da sua idade. Ela vai se formar na renomada Escola Gakushūin em
breve. O pai de Mariko é o poeta laureado Shoji Abe e sua mãe já foi dama
de companhia da princesa Asako. Tem um inglês excelente e é especialista
nas maneiras da corte.
Mordomos estão segurando as portas de vidro. Entro no genkan, a área
de entrada das casas japonesas, e troco meus sapatos por chinelos. Os pisos
são espelhados, e os lustres, cromados. Seguimos depressa e só consigo ter
vislumbres da mansão: telas de seda protegidas por acrílico no corredor;
móveis da sala dispostos em ângulos perfeitos de noventa graus; cores
suaves e relaxantes, amadeirados e beges com toques rosados; divisórias de
papel quase translúcidas em trilhos de madeira. Tudo organizado. Espaçado.
No meu quarto, há uma parede de vidro e, lá embaixo, um lago. É como
se eu estivesse suspensa, flutuando sobre um azul profundo e extenso.
Cisnes deslizam pela água e carpas nadam perto da superfície. Ao longe,
espio Akio. Com o cabelo habilmente despenteado pela chuva, ele está
conversando com outro agente de segurança. Sem dúvida, dando ordens.
Mentalmente, faço uma lista das preferências de Akio:
Ama:
Mandar nas pessoas
Cronogramas
Ternos Tom Ford
Fones de ouvido
Fazer cara feia e mandar nas pessoas mais um pouco
Detesta:
Atrasos
Vibe joie de vivre
Princesas que fazem xixi, veem Downton Abbey ou aceitam
rabanetes de chefs
Falando em rabanete, ainda estou com ele. Não soltei durante a
apresentação dos funcionários e o tour pelo palácio. Agora ele está sobre
uma cômoda folheada a ouro, perto de uma flor-de-íris em um vaso
canelado. Algo na flor me faz querer observá-la de perto.
O arranjo está perfeitamente enquadrado na tapeçaria de seda atrás dele.
As pétalas púrpuras são simples mas elegantes. Sua posição parece
deliberada, quase cerimonial. Só presto atenção nisso porque parece que
meus circuitos estão em pane.
Mariko dá uma batidinha na boca com o dedo.
— A grande questão é: que vestido você deve usar? — Ela dispôs as
opções na cama de dossel: um vestido rosa de seda com estampa floral ou
um amarelo de manga curta com aplicação de contas brilhantes. — Ontem,
a princesa Akiko usou rosa no chá da manhã oferecido para pessoas
notáveis — diz Mariko. Ela é pequena, suas feições são marcantes e
implacáveis, com sobrancelhas finas e queixo pontudo. — Não queremos
dar a impressão de que a estamos copiando. Mas o amarelo é claro demais.
Receio que tenha efeitos indesejáveis na sua pele. — Mariko segura o
vestido contra minha bochecha.
A etiqueta é de seda e diz “Oscar de la Renta”.
Eu: Nhé, não ligo pra estilistas.
Eu também: Preciso tirar uma foto agora e mandar para Noora.
Já sei qual vai ser a reação dela. Não espero nada menos que um
“Mentira, sua cretina”.
— O que você acha, Izumi-sama? — Mariko pergunta.
— Ah, hum. — Finjo não estar ofendida e analiso as opções. Manga
japonesa? Aff. Rosa-bebê? Duplo aff. Nenhuma das opções me atrai. — Não
sou muito de amarelo nem de rosa. Não tem nada mais escuro? Preto,
talvez? — Preferencialmente algo com um por cento de algodão e um
milhão por cento de lycra. Não me leve a mal, eu amo meu corpo. Mas
gosto mais dele de preto. Preto também me ajudaria com um probleminha.
Sempre faço lambança quando como. Agora mesmo há uma manchinha no
meu suéter. É chocolate, provavelmente da família Snickers. Se eu estivesse
com a GGA, não teria problema em lambê-la.
Mariko olha para o closet, que tem uma ilha de mármore no meio. Há
vários vestidos pendurados ali. É um massacre em tom pastel.
— Nada de preto — ela diz, com um suspiro. — Vai ter que ser o
amarelo. — Assente, como se quisesse convencer a si mesma.
Parecer pálida é um risco que precisarei assumir.
Em menos de dez minutos, estou com um vestido amarelo-claro, que no
fim das contas não ficou nada mau, e sou conduzida até a penteadeira.
Luzes são acesas. Mariko lamenta que eu não tenha franja.
— O que vamos fazer com isso? — Mariko pergunta, mexendo no meu
cabelo e avaliando os fios grossos no espelho.
— Eu gosto dele solto — sugiro, achando que ela realmente quer minha
opinião.
Mariko crispa os lábios. Puxa meu cabelo para trás e faz um coque.
Quando ela termina, meu couro cabeludo está gritando. Quer dizer que a
garota gosta de brutalidade, saquei. Para harmonizar o vestido, ela passa um
pouco de ruge em meus lábios e bochechas.
Murmura algo sobre a cor do meu esmalte — rosé cintilante — ser muito
forte, mas não temos tempo para fazer minha unha. Ela coloca em mim
brincos de pérola de Mikimoto e um colar combinando.
— Presentes de boas-vindas da imperatriz. Ela sente muito não poder
estar aqui para cumprimentar pessoalmente sua mais nova neta. — Mariko
diz, prendendo o fecho da corrente.
Vejo uma pessoa diferente no espelho. Sou eu, mas não sou. Pareço um
avatar da realeza. Não sei bem o que pensar disso, não sei direito como me
sinto.
Alguém bate à porta. Mariko permite que o sr. Fuchigami entre. Ele veio
para me levar até meu pai.
— Está pronta? — ele pergunta, me avaliando e, em seguida, aprovando.
Quero dizer que sim, mas galáxias inteiras de palavras morrem na minha
língua. Estou a minutos de encontrar meu pai, a pessoa que espero conhecer
desde que nasci. Estou quase hiperventilando, mas mantenho a calma, pelo
menos por fora. Por dentro, sou um poço de insegurança. Quero que meu
pai goste de mim. Quero gostar dele. É pedir muito, universo?
Tudo o que consigo fazer é assentir. Todos os caminhos me trouxeram até
este momento. Não vou mais andar por aí me perguntando se os
desconhecidos que vejo na rua são meus parentes. As respostas para as
minhas perguntas estão a alguns passos. Quem é meu pai? Será que ele me
quer aqui? Será só uma manobra política? Me empertigo, firmo os pés no
chão e sigo o sr. Fuchigami porta afora, em direção a uma nova vida.