Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 37 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 36

 

O Palácio Tōgū está exatamente como antes. Mariko retoma sua posição, e

é como se eu nunca tivesse ido embora. Deus, como sou abençoada por ter

dois lugares para chamar de lar. Mount Shasta, Tóquio — ambas as cidades

são parte de mim agora e não só peças separadas. Estão trançadas juntas,

emaranhadas, inseparáveis.

Quarenta e oito horas depois da nossa chegada, estou sentada na sala de

estar. Meu pai está aqui, mas minha mãe está dando uma volta. Ela não quer

que nossas visitas a vejam. O cômodo está agitado. Camaristas vestidos

com seus melhores ternos se encontram em diferentes estados de

preocupação. Os funcionários imperiais estão indo e vindo sem parar,

oferecendo refrescos. Meu novo guarda também está presente — um

homem com o maxilar largo e uma predileção por usar óculos escuros

dentro do palácio, o que lhe dá uma constante cara de bravo, como se

mastigasse vespas. Além disso, a imprensa também está aqui — Yui Sato e

seu fotógrafo. Yui é a editora executiva da Women Now!, uma pequena

revista sobre estilo de vida de boa circulação, conhecida por sua postura

progressista em questões femininas. Essa foi a minha ideia. É como aquele

ditado: “Se não pode vencê-los, junte-se a eles”. Isso nunca aconteceu antes

— uma entrevista exclusiva com um membro da família imperial conduzida

por alguém de fora da elite do Clube de Imprensa Imperial. O sr. Fuchigami selecionou algumas revistas femininas, espalhou-as na mesa de jantar e eu

escolhi essa.

Mariko passa uma camada final de blush em minhas bochechas. A

entrevista sairá na edição impressa e contará com fotos. O fotógrafo tira

algumas fotos só para aquecer. Foi acordado que todas deverão ser

aprovadas pela Agência da Casa Imperial. Poderemos ler o artigo em

primeira mão, mas não teremos direito de aprovação — seja lá o que a

revista Women Now! escrever vai sair.

— Tem certeza de que é isso que você quer usar? — Mariko morde o

lábio.

Esta é a quarta vez que ela questiona a roupa que escolhi.

Aliso minha saia azul-marinho e ajeito os botões de pérola do meu

cardigã. Por baixo, estou vestindo minha camiseta “Lute como uma garota”,

embora seja difícil ver o que está escrito. Não tem problema. Eu sei que

está ali.

Yui faz uma grande reverência.

— Obrigada por me conceder esta honra, Sua Alteza.

Inclino a cabeça e estendo a mão para ela. Um momento se passa antes

que ela aceite o cumprimento. Seu aperto é forte e confiante. A insegurança

brota em mim. Questiono minhas escolhas, minha sanidade. O que estou

fazendo? Onde fui me meter? Em vez de repelir meu medo, permito que ele

vagueie livremente, fareje os arredores, vejo que não há perigo algum,

contanto que eu diga a verdade.

Yui se acomoda no sofá. Uma assistente lhe entrega suas anotações. Não

vi nenhuma pergunta com antecedência, nem o sr. Fuchigami. Mariko se

afasta. Quando começarmos, não haverá interrupções — isso também foi

acordado. Na primeira metade, serei apenas eu. Na segunda metade, meu

pai se juntará a nós na entrevista.

O fotógrafo ergue a câmera. Abro um sorriso. Minha postura é firme.

Deus, me dê a confiança de alguém que é capaz de sustentar uma conversa

inteira no viva-voz em público.

— Pronta? — Yui pergunta, com olhos perspicazes.

Ela não vai pegar leve comigo. E nem eu quero que faça isso. Estou

pronta. Saí da pista de Mount Shasta, descartei a estrada de princesa e

peguei um caminho que eu mesma criei. De agora em diante, vou traçar

minha própria rota. Não será fácil equilibrar as responsabilidades imperiais,

manter as tradições e permanecer fiel a mim mesma. Mas é possível. Eu

quero que seja possível.

Assinto.

— Vamos começar.

 

A entrevista durou quase a manhã toda. Yui fez perguntas difíceis. Acho

que me saí bem. Veremos quando a revista for para as bancas daqui a uns

dias. O verão chegou em Tóquio, pegajoso e doce. Apesar do calor da tarde,

decido fazer uma caminhada. Até que não sou totalmente contra usar meus

dois pés, afinal. Uma garota tem o direito de mudar de ideia. Não venha me

apontar dedos. Evoluir faz parte da vida.

Minha mãe e meu pai estão almoçando na cidade. Reservaram um

restaurante só para eles. Acordos de confidencialidade foram assinados, foi

todo um auê. Eles me convidaram, mas recusei.

Em vez disso, escolhi caminhar pela propriedade com o novo guarda

imperial na minha cola. Estou absorta na exploração dos arredores quando

passos soam atrás de mim. As Gêmeas Iluminadas se aproximam, vestidas

com roupas de corrida da mesma cor. Seus cabelos estão presos em rabos de

cavalo elegantes. Elas estão brilhando de suor e suas bochechas têm um tom bonito de rosa. Elas falam em uníssono, o que continua sendo assustador.

Nunca vou me acostumar.

— Prima — Noriko diz.

— Soube que você deu uma entrevista esta manhã — Akiko diz.

Sei o que está por vir. Uma ameaça. Noriko passa a língua pelos dentes.

— Se disse algo sobre a nossa mãe…

Eu meio que já superei essa rivalidade familiar.

— Sim, sim, vocês vão acabar comigo. Já sei bem do que são capazes.

Elas se olham por um instante.

— Como assim? — Noriko pergunta.

Ela deve achar que não sei de nada.

— Bem, tirar fotos escondidas de mim e Akio para vazá-las ao Fofocas

foi bem baixo da parte de vocês.

Akiko faz uma careta.

— Não vazamos foto nenhuma para tabloides.

— Certo. — Minha voz está carregada de sarcasmo. Cruzo os braços.

Meu guarda está perto, com as mãos postas na frente do corpo. As

Gêmeas Iluminadas também têm um par de guardas a tiracolo. Imagino o

que eles fariam se a gente começasse uma briga.

— Sério — Noriko diz.

— Acredito em você. — Não acredito nem um pouco, e deixo isso claro

no meu tom.

— Aff — Akiko fala. — Você acha que nós seríamos capazes de vazar

fofocas para tabloides? Eles têm sido péssimos com a nossa mãe. Com a

gente. Nós nunca submeteríamos alguém ao mesmo tratamento.

Observo as duas. A postura delas é relaxada. Certamente não estão

tentando dar uma de espertinhas. Ou elas têm um nível sociopata de

desonestidade ou estão dizendo a verdade. Faz sentido… Lembro de como elas protegeram a mãe no aniversário do imperador. Talvez realmente

odeiem os tabloides.

Depois de um tempo, Noriko diz:

— A gente quase ficou com pena de você. — Ela fala como se achasse

isso muito irritante, essa coisa de agir como um ser humano e tal.

— Acredite ou não, não fomos nós que te entregamos — Akiko conclui.

Elas retomam a corrida, esbarrando em mim ao passar. Seus guardas vão

atrás.

— Se não foram vocês, quem foi? — grito atrás delas, esfregando meus

ombros.

Noriko fala, correndo de costas:

— Não tenho ideia.

É tudo o que vou conseguir delas. Fico olhando até que desapareçam.

Pego o celular e mando uma mensagem para a GGA no mesmo instante.

Eu

Acabei de encontrar as Gêmeas Iluminadas. Elas falaram que não foram as culpadas pelas fotos vazadas.

Hansani

Como assim?

Noora

Vc acredita nelas?

Eu

Sim, elas vieram com um papo de “A gente nunca faria isso, você não viu o que os tabloides fizeram com a nossa mãe?”

Glória

Reviravolta!

Noora

Se não foram elas, quem foi?

Reflito sobre tudo o que aconteceu. O artigo menciona um informante

palaciano. Eu automaticamente presumi que fossem as Gêmeas Iluminadas,

mas pode ter sido algum outro membro da família… Estremeço ao lembrar

de alguém. A única outra pessoa que tinha acesso irrestrito a mim. De

repente, é como se eu tivesse levado um soco no estômago.

 

Vinte minutos depois, estou na casa dos meus tios. Contorno por fora e

eis que Yoshi está no jardim da frente se bronzeando, com um drinque

ridículo de guarda-chuvinha em uma mesa próxima.

— Fique aqui — falo para o meu guarda. — Você não vai querer ver isso.

— Reina também está por perto.

Dou um aceno brusco. Enquanto me aproximo, Yoshi sorri, mas não caio

mais nessa.

— Soube que você voltou. Vem, senta aqui. Pega um drinque. — Ele

gesticula para a cadeira ao lado. Seu peito completamente depilado está

besuntado com algum tipo de óleo.

— Não, obrigada. Não é nem meio-dia ainda.

Ao ouvir meu tom áspero, seu sorriso desvanece.

— Que mau humor.

— Por que você fez isso? — pergunto, cerrando os punhos.

— Não tenho certeza de que sei do que você está falando. — Ele recosta

na espreguiçadeira, erguendo o queixo para o sol.

— Por que você vendeu aquelas fotos para os tabloides? — Era para eu

me sentir segura com ele.

— Ah. Isso — ele diz, baixinho. Um longo momento se passa. O sol

esquenta minha cabeça. O ar cheira a pinheiro e bronzeador. — Por que as

pessoas fazem o que fazem? Dinheiro. — Ele dá de ombros. — Eu precisava de alguma renda além da fornecida pela família imperial. Sabia

que, como príncipe, eu não tenho nenhuma habilidade comerciável?

Solto um longo suspiro. Pelo menos ele não negou e não me obrigou a

arrancar a verdade dele.

— Pensei que você fosse meu amigo. — Minha dor fica evidente em

meus ombros caídos, em minha voz vacilante, nos meus olhos

lacrimejantes.

Yoshi senta e tira os óculos de sol. Abaixa a cabeça.

— Eu sou seu amigo. Ou, pelo menos, era. Não planejei gostar de você

do jeito que gostei. Queria que as coisas fossem diferentes, mas… — Ele

balança a cabeça. — Você não sabe como é crescer aqui. Não entende esse

fardo… Tem sempre alguém te dizendo o que fazer, para onde ir. Isso não é

vida. — Ele coloca os óculos de novo, se fechando para mim. O Yoshi

polido e despreocupado está de volta. É um bom truque, essa máscara que

ele usa. Pensei que era uma espécie de proteção para seu interior

vulnerável, mas agora vejo a realidade: ele é só um garoto triste e perdido,

disposto a fazer qualquer coisa para conseguir o que quer. — Além disso, te

fiz um favor. Você disse que queria ir para casa.

Meu estômago se enche de náusea. Isso é absolutamente doentio. Ele me

machucou. Machucou Akio. Vidas foram destruídas em sua jornada por

dinheiro. Tudo para que ele pudesse pagar… o quê? Um apartamento? Um

chef particular?

— Essa era uma decisão minha.

— Izumi. — Ele estala a língua. — O que está feito está feito. Enquanto

estamos aqui conversando, meu motorista está guardando minhas malas.

Vou me mudar assim que meu novo apartamento passar por uma faxina e

for mobiliado. — Ele franze as sobrancelhas. — Se vale de algo, sinto

muito. Se as circunstâncias fossem outras…

— Sim, também sinto muito. — Por motivos diferentes.

Sinto muito por ter confiado nele. Sinto muito por ele ser um moleque

tão mimado. Começo a me afastar. Não estou deixando-o escapar. Eu é que

estou escapando. Yoshi é quem vai ter que conviver consigo mesmo. A

minha consciência está limpa. Realmente não quero ficar perto do meu

primo agora. Só que… uma pergunta surge.

— A carta. Você entregou?

Sei qual vai ser a resposta antes que ele diga qualquer coisa. Yoshi

balança a cabeça uma única vez.

— Mas pelo menos não a vendi para os tabloides. Eu poderia ter ganhado

muito com isso. Você a quer de volta?

Engulo em seco, sentindo um vazio no coração no lugar que Yoshi

ocupava.

— Joga fora — digo.

Não importa mais. O que teria mudado se Akio tivesse recebido a carta?

Nada. Ele perdeu o emprego, o legado e o orgulho de sua família. Eu o

magoei demais. Ainda tenho tudo, e ele não tem nada.

Yoshi trinca o maxilar.

— Reina! — ele grita. — Preciso de você. Venha passar bronzeador nas

minhas costas.

Reina vem em nossa direção com uma expressão feroz. Ela viu tudo.

Provavelmente já sabia de todos os segredinhos sujos do chefe, de todos os

seus joguinhos. Fico me perguntando se ela também tem tanto nojo dele

quanto eu. Acho que sim. Acho que sei como punir Yoshi.

— Reina — digo em alto e bom som. Ela olha para mim. — Já pensou

em trabalhar para uma aspirante a princesa que comete muitos erros mas

mantém a vida interessante e nunca assediaria sexualmente você?

Ela engole em seco. Com muito cuidado, ela abaixa o tubo de loção.

— Sua Alteza, está me oferecendo um trabalho?

Ergo o queixo.

— Pense nisso.

WOMEN NOW!

 

 

Sua Alteza Imperial a Princesa Izumi, a Borboleta de

Ferro

 

21 de junho de 2021

Perseguida pelos tabloides até revelarem seu suposto caso amoroso, S.A.I. a Princesa Izumi fugiu de Tóquio. Agora, ela está de volta e tem algo a dizer. Em uma entrevista sem precedentes, S.A.I. a Princesa Izumi se sentou com nossa editora executiva Yui Sato para falar sobre sua infância e o momento em que descobriu que era uma princesa, como foi desvendar a cultura japonesa, aprender um segundo idioma, se apaixonar e vislumbrar um futuro cheio de possibilidades.

Segundo Sua Alteza Imperial a Princesa Izumi, tudo começou com um livro sobre orquídeas raras. Ela se senta ereta, com os tornozelos cruzados e as mãos no colo. Uma postura digna da realeza, embora sua educação tenha sido comum. Suas raízes da ensolarada Califórnia ficam evidentes em um punhado de sardas na ponta do nariz, em uma mecha avermelhada em seu cabelo, e na amabilidade genuína que irradia. Ela é sensata, animada, quase efervescente, especialmente ao descrever a mãe e as amigas. “Foi minha amiga quem encontrou a dedicatória no livro.” A dedicatória em questão era um poema de seu pai, o príncipe herdeiro do Japão, que o escreveu dezoito anos atrás para a mãe da princesa Izumi, Hanako Tanaka.

Por mais de duas décadas, rumores circularam sobre a vida amorosa do príncipe herdeiro. Ávido por atividades ao ar livre, como esqui e montanhismo, ele teve seu quinhão de romances notórios, sendo o mais recente com a nipo-inglesa Hina Hirotomo, cuja linhagem vem de poderosos daimiôs e viscondes dos tempos que antecederam o banimento da nobreza no Japão. Sua vida amorosa é — e

continua sendo — uma grande preocupação para a Agência da Casa Imperial. Há uma grande pressão para que o príncipe herdeiro Toshihito tenha um filho, um herdeiro legítimo. Embora a família imperial tenha acolhido a princesa Izumi como membro da realeza, ela não é legítima. Muito menos homem. Surgiram dúvidas a respeito da linha de sucessão e a possível alteração da lei que exclui mulheres de serem nomeadas herdeiras. A princesa Izumi tem opinião sobre o assunto, como veremos mais tarde nesta reportagem.

Neste ponto da história, ela encontrou seu pai, ou melhor, o homem que ela desconfiava que fosse pai. “Minha amiga é uma excelente detetive, e foi capaz de localizá-lo com suas habilidades. Ela começou entrando em contato com Harvard, mas o bom e velho Google acabou sendo o suficiente.” A mãe da princesa Izumi também estudou em Harvard e é uma ilustre professora universitária de biologia, mas a princesa não compartilha da paixão de sua mãe pela ciência. “Temo ser uma aluna terrivelmente mediana”, ela confessa, entusiasmada.

“Ficou bastante óbvio assim que vimos as fotos do príncipe herdeiro, meu pai. Dizem que sou parecida com ele.” Ela é. A semelhança está estampada em seu nariz e nas maçãs do rosto salientes. “Minha mãe me deu o e-mail de um amigo que eles tinham em comum na faculdade. Escrevi uma carta para ele e…” Ela dá de ombros. O resto já sabemos. Uma semana depois, a imprensa se apossou da história, e a princesa Izumi já estava a caminho do Japão. O que aconteceu a partir daí foi uma série de confusões.

“Minha transição para o Japão não foi nada suave”, a princesa diz, sem nenhum pudor. “Longe disso, na verdade.” Apesar de estar ansiosa para se reconectar com o Japão — ela tem um carinho especial por dorayaki —, a princesa enfrentou muitos obstáculos. O principal foi sua criação estadunidense. “A sensação era a de voltar para casa, mas, ao mesmo tempo, não era bem isso. Ser uma japonesa nos Estados Unidos não foi fácil. Lutei muito para desvendar minha identidade morando em uma cidade predominantemente branca. Então, quando vim para o Japão, minhas expectativas eram altas e nada sensatas. Nunca vou atingir o conhecimento e a consciência cultural de alguém que nasceu aqui [Japão]. Sou uma estrangeira, mas também não sou. É um verdadeiro paradoxo.” Somando-se a suas dificuldades, há a clara barreira linguística. O japonês da princesa Izumi está melhorando, mas, quando ela chegou, não tinha entendimento nenhum do idioma. “Após a Segunda Guerra Mundial [A Guerra do Pacífico], meus avós maternos pararam de falar japonês. Queriam ser

totalmente assimilados aos Estados Unidos. Eles morreram antes de eu nascer. Muito da minha história se perdeu”, afirma.

Os tabloides foram impiedosos ao expor as gafes culturais da princesa. “Foi doloroso ouvir o que disseram, mas também muito útil. Estou sempre aprendendo, o que significa que vou continuar cometendo erros. Tudo que peço é que as pessoas tenham paciência comigo. Estou me esforçando muito para ser digna desta instituição e ao mesmo tempo permanecer fiel a mim mesma. É um equilíbrio delicado”, diz ela. “Afinal, sou filha da minha mãe e do meu pai.”

Sua maior transgressão foi seu relacionamento com o guarda imperial Akio Kobayashi. Fotos vazadas mostraram os dois agarrados em um beijo tórrido, ação que violou duas normas: um membro da realeza não pode demonstrar afeto em público e nem namorar uma pessoa muito abaixo de sua posição. “Tecnicamente, as fotos eram de momentos privados. Não vou negar o que aconteceu, mas também não vou entrar em detalhes”, ela diz. Então, será que o guarda e a princesa ainda são um casal? “Sei que a maior parte da minha vida agora é pública e será comentada pela mídia, mas faço questão de manter alguns momentos particulares, principalmente aqueles relacionados à minha vida amorosa, pelo menos até que eu esteja pronta para compartilhar com o povo. De qualquer forma, gostaria de pedir desculpas ao sr. Kobayashi e à sua família. Nunca foi minha intenção que a imprensa descobrisse, e lamento qualquer dano que isso tenha causado. Além do mais, gostaria de esclarecer a situação. Os tabloides pintaram um retrato muito ruim do sr. Kobayashi. Nosso relacionamento progrediu naturalmente e com reciprocidade. Ele não se aproveitou de mim. Por um tempo, fomos muito felizes.” Sua voz fica melancólica — o tom de alguém que amou e perdeu seu amor.

Uma pessoa sobre a qual a princesa não fala muito é a mãe, Hanako Tanaka. “Ela é muito reservada. Mas quero dizer que é uma mãe maravilhosa, compassiva, gentil e generosa.” Sobre uma possível reconciliação entre o príncipe herdeiro e sua mãe, a princesa se cala, direcionando a conversa para o tema de seu primeiro encontro com o imperador e a imperatriz. “Eu estava muito nervosa”, ela admite. “E muito honrada. Conversamos sobre trivialidades no início, e acho que essa foi a maneira de me deixarem à vontade”, conclui.

Paira a questão: teriam o imperador e a imperatriz desaprovado o caso amoroso do príncipe herdeiro e sua recém-descoberta filha? Terry Newman, o biógrafo imperial e vencedor do Prêmio Osaragi Jiro por seu livro O Imperador Takehito: O homem e seu povo, responde: “A imperatriz é conhecida pela tendência

progressista nas questões que dizem respeito às mulheres, incluindo o tema de filhos nascidos fora do casamento, algo desaprovado até as últimas três décadas. Ela também mantém a cabeça aberta, tendo origem semelhante à de sua nova neta. A imperatriz nasceu em um vilarejo pobre e não sabia nada sobre a vida na corte até que acidentalmente conheceu o então príncipe herdeiro na universidade, que ela teve a oportunidade de frequentar graças a uma bolsa de estudos. Mais do que tudo, o imperador e a imperatriz são extremamente dedicados à família. Eles viraram manchete quando decidiram quebrar a tradição e criar seus filhos em casa. É certo que as apostas são um pouco mais baixas em se tratando da princesa Izumi. Se ela fosse homem, haveria mais preocupações sobre seu direito ao trono enquanto filho ilegítimo”.

Mas e quanto à Princesa Izumi? No passado, já houve debates sobre a possibilidade de uma mulher herdar o Trono do Crisântemo. Será que ela se imagina como imperatriz? “Não sei”, diz, muito franca. “Por enquanto, só estou tentando aprender a ser uma princesa.”

Qualquer que seja o futuro de S.A.I. a Princesa Izumi, uma coisa é certa: seu pai está orgulhoso. E, mais importante, parece que essa princesa tem orgulho de si mesma. Isso é algo que todos nós devemos aplaudir.

Na próxima semana, publicaremos a segunda parte da entrevista, em que o S.A.I. o Príncipe Herdeiro Toshihito se junta à conversa.