Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 14 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 13

 

Estou em um veículo imperial, completamente equipado com motorista e

vidros escuros. Sentada no banco de trás, espero por Akio, que entrou em

uma loja de conveniência. Estamos em uma rua tranquila. Há um jornal

amassado na calçada. O meu rosto está nele. Abro a porta e pego o jornal na

mesma hora em que Akio reaparece com uma sacola preta na mão.

Volto para o carro e ele entra.

— Falei para ficar no carro. — Em seguida, ele dá uma batida na

divisória, sinalizando para o motorista que estamos prontos.

O carro dá partida.

Minha boca está seca e provavelmente estou com um bafo de dragão,

mas ainda assim digo:

— Isso costuma funcionar com você? Dar ordens e esperar que as

pessoas te obedeçam cegamente?

— Sim — ele diz, sem hesitar.

— Isso é ridículo — bufo, tremendo.

O aquecedor está ligado, mas não consigo me esquentar de jeito nenhum.

Akio solta um suspiro, então tira o moletom. A camiseta branca que ele

está usando por baixo levanta um pouco e vislumbro seu abdome

flexionando e relaxando. Nossos olhares se encontram. Ele puxa a camiseta

para baixo. Fico vermelha.

— Aqui. — Ele me oferece o moletom.

— Estou bem. — Levanto o queixo e cruzo os braços.

— Certo. Então vou usá-lo para limpar o vômito nas minhas calças.

Estremeço. Seu jeans tem manchas de vômito. Quando foi que comi algo

laranja?

Ele deixa o moletom de lado, o que considero um desperdício de uma

peça de roupa em perfeito estado. Não há necessidade nenhuma de punir o

moletom e reduzir sua existência a um pano de chão. Tenho certeza de que

ele preferiria vir para mim a ter esse destino. Então visto o casaco, que tem

um cheiro muito bom. Não de perfume, mas de roupa limpa, amaciante. Um

belo contraste com o meu cabelo, impregnado com o fedor de caramujo

frito do izakaya. Eca.

A sacola preta faz barulho quando Akio pega uma garrafa de rótulo azul

contendo um líquido claro.

— Beba.

Está fria e o rótulo diz…

— Pocari Sweat?

— É um isotônico. Tem eletrólitos.

Abro, cheiro o conteúdo e bebo um gole. É bom, tem gosto de toranja.

Não sabia que estava com tanta sede. Em pouco tempo, esvazio metade da

garrafa. Akio pega um pacote triangular embrulhado em plástico. Dentro,

há um bolinho de arroz enrolado em gengibre.

— Você deveria comer algo também.

Dou uma única olhada na comida e meu estômago revira — ele ainda não

está pronto. Talvez nunca mais esteja.

— Não, obrigada.

Akio dá de ombros e coloca o bolinho de volta na sacola. Ficamos em

silêncio. Bebo o resto do Pocari Sweat e fico olhando as luzes neon da cidade suavizarem seu rosto.

— Como você me encontrou? — pergunto.

— Você nunca esteve realmente perdida. Pelo menos não para mim —

diz Akio.

Enigmático demais. Esfrego os olhos. A noite está cobrando seu preço.

Estou sóbria, exausta e nem um pouco a fim de resolver charadas.

— Coloquei um rastreador em você — ele acrescenta.

Fico boquiaberta e endireito a postura de uma vez.

— Você colocou um rastreador em mim?

Ele assente com naturalidade. Minha indignação fica ainda maior.

— Onde? — pergunto, erguendo a voz.

Seus olhos estão brilhando.

— No seu celular.

Solto o telefone como se fosse uma batata quente. Então o pego e o jogo

nele.

— Tira.

Ele olha para o teto com um olhar aborrecido.

— É protocolo padrão.

— Tira. Agora. — Sacudo a mão na frente dele.

Akio pega o celular e tira a capinha. Saca uma espécie de ferramenta bem

pequena do bolso e abre o aparelho com ela. Então remove um minúsculo

disco de metal das entranhas do telefone, coloca a capa e o devolve para

mim. Por fim, ergue a sobrancelha.

Arranco o aparelho de seus dedos.

— Isso não foi legal. Você ultrapassou os limites — digo, brava. — Tem

mais algum rastreador?

— Não que eu saiba.

Meu celular vibra. Yoshi.

Yoshi

Aonde vc foi?

Yoshi

Por favor diga que está bem.

Yoshi

Sabia que eu deveria ter te acompanhado ao banheiro.

Yoshi

Meu Deus, vc caiu na privada?

 

Digito uma resposta que diz mais ou menos: “Está tudo bem, te vejo

amanhã”, e termino agradecendo pela noite incrível. Achei desnecessário

mencionar a história da gaiola de lixo e o resgate imperial. Ainda não estou

pronta para reviver a humilhação.

Encaro Akio por um momento. Com a raiva ainda fervilhando

intensamente dentro de mim, digo:

— Sabe, talvez o rastreador não tenha sido suficiente. Que tal uma

coleira eletrônica? — Invenções horrendas, terríveis. — Quem sabe facilite

as coisas. Assim, você pode simplesmente apertar um botão sempre que

achar que estou fazendo algo errado.

Ele range os dentes.

— E aí? — pergunto.

— Você está mesmo esperando uma resposta? Pensei que fosse uma

pergunta retórica. — Ficamos nos olhando. Ah, cara, queria que meus olhos

pudessem disparar raios laser. Ele passa a mão na cabeça, irritado. —

Desculpe.

Meu queixo cai. Fico esperando que a terra me engula completamente,

que sombras estranhas cortem o céu sinalizando o fim dos tempos. Akio

acabou de pedir desculpas? Levo um tempo para registrar. Sim, pediu.

Aliso meu jeans e olho para o parque pelo qual estamos passando. Um

casal se beija sob uma cerejeira florida, e a luz de um poste contorna a

silhueta deles. Flores pairam ao redor como se fossem enfeites. Os botões

acabaram de abrir e já estão morrendo. Mono no aware — é uma frase

japonesa que expressa o amor pela impermanência, a natureza efêmera de

todas as coisas.

— Escapar do palácio, usar o banheiro e sair pela porta errada

dificilmente podem ser considerados o fim do mundo — digo.

— Você está certa. — A voz dele é uniforme, tranquila. — Mais uma

vez, desculpe. Não estou bravo com você. Estou bravo comigo mesmo.

Você poderia ter se machucado, e teria sido culpa minha.

— Esquece isso — é tudo o que eu digo.

Quando eu tinha cinco anos, decidi que não precisava mais de rodinhas

traseiras na bicicleta. Então, sem o consentimento ou a ajuda da minha mãe,

fui lá e tirei. Pedalei por sublimes cinco segundos sem usar um capacete e

sofri uma queda épica. Precisei levar dois pontos na nuca. O sangue foi

copioso e glorioso, assim como a apreensão da minha mãe. Sua única

defesa contra tal imprevisto foi ficar com raiva, e ela tinha todo o direito.

Ficamos um tempo sem falar nada. Estou entediada olhando pela janela,

mas não quero encarar Akio. O jornal roça minha perna. Meu rosto no

primeiro dia, no aeroporto, está estampado na capa. A curiosidade leva a

melhor.

— O que é isso? — atiro o jornal em Akio.

Ele não tem escolha a não ser pegá-lo.

Surpreso, observa o jornal por um momento.

— É uma foto sua no aeroporto, quando chegou ao país.

Akio deve ter sido treinado na arte de se esquivar de assuntos.

— Muito útil. Mas o que está dizendo aí?

— Acho que não devo falar.

É tão ruim assim? Agora preciso saber.

— Você me pediu desculpas. Se quiser compensar, me conta o que está

escrito.

— Vai me perdoar se eu ler?

Assinto.

Akio passa a mão no rosto.

— O nome do jornal é Fofocas de Tóquio. Não é muito respeitável.

— Bom saber.

— Para que fique registrado, eu não concordo com isso.

— Bom saber também. Agora leia.

Ele suspira, resignado.

— É uma matéria sobre a roupa que você estava usando no aeroporto.

Uma blogueira imperial foi entrevistada. A opinião dela é que você deveria

ter se vestido melhor. — Ai, essa doeu. — Além disso, ela fez alguns

comentários sobre a sua atitude, dizendo que você foi grossa com o guarda

imperial que a acompanhava durante a parada para o banheiro e que se

recusou a acenar para a multidão do lado de fora. Ela descreve você como

uma garota esnobe e difícil. — Putz. Essa doeu mais. Muito mais. — No

entanto, parece que um zelador gostou de você. Ele está vendendo o lenço

que você usou. O dinheiro vai ajudar na aposentadoria. A matéria termina

questionando por que você não tem feito aparições públicas e sugere que a

estão mantendo escondida de propósito.

Só então volto a respirar. É pior do que pensei. Na verdade, eu não estava

nem pensando sobre como seria retratada nos tabloides. Fui proibida de ler

qualquer tipo de mídia, e ando tão focada no relacionamento com meu

pai… Estou pasma.

— O Japão me odeia? — pergunto.

— Como eu disse, esse jornal não é respeitável. — Akio dobra o papel

em um quadrado perfeito e o coloca no assento ao lado. — As pessoas estão

sempre torcendo pela queda dos que estão acima.

— Não pedi isso. Nada disso.

— Entendo. — Será que estou detectando uma suavização na expressão

rígida de Akio? — Mas não podemos mudar as circunstâncias do nosso

nascimento, não é?

Suponho que não. Além disso, eu não mudaria nada nem voltaria atrás.

Até agora, tem valido a pena, apenas pela oportunidade de conhecer meu

pai, mas todo desejo tem seu preço. Este, em específico, está sendo cobrado

em forma de escrutínio público. Encosto a cabeça no apoio do banco.

— Sabe, sou muito boa em um monte de coisas. Soletrar, por exemplo.

Na verdade, já fui campeã de jogo da forca nos Estados Unidos. — Diante

do seu silêncio, explico do que se trata.

— Você foi campeã de um jogo que ensina as crianças que se não

soletrarem corretamente, elas podem ser condenadas à morte?

Abro os olhos e o encaro. Seus lábios se curvam para cima apenas uns

milímetros. Akio está fazendo uma piada. Sorrio.

— Você está certo. Nós, como sociedade, provavelmente não analisamos

isso muito bem.

Sua risada é baixa e rouca. Será que estamos começando a nos entender?

As surpresas não acabam. Pelo visto, existe um coração batendo dentro

daquele peito frio e definido.

— Não podemos usar uma varinha mágica imperial para fazer as pessoas

dizerem coisas boas sobre mim? — pergunto. — Ou, melhor ainda, talvez

eu pudesse dar uma entrevista para esclarecer as coisas.

— Às vezes, o silêncio é a sua melhor arma. É um provérbio japonês

famoso.

— Sério?

Ele dá risada de novo.

— Não. Acabei de inventar.

Cruzo os braços.

— Sarcasmo, sério? Você precisa mesmo disso?

— Não sei. Provavelmente. — Ele me olha nos olhos. — O que eu sei é

que esses tabloides não estão à sua altura. Não merecem seu tempo nem sua

atenção.

Toco meu peito.

— Uau, Akio, acho que essa é a coisa mais legal que você já me disse. —

Ele não fala nada. Desvio o olhar. Estamos passando por um túnel, e há

ladrilhos brilhantes por todos os lados. Não tem muito para ver lá fora, mas

de repente acho a vista fascinante. — Não tenho certeza.

— Do quê?

Meu sorriso é triste.

— Se os tabloides estão à minha altura ou não. — Na maioria das vezes,

me sinto tão insignificante.

Akio se inclina para a frente e me olha nos olhos de novo. Abre as pernas

e apoia os cotovelos nos joelhos.

— Não estão. Confie em mim.

Faço um gesto mostrando indiferença, mas, por dentro, sinto a onda

crescente de ressentimento contra Akio perder a força. O túnel se estende à

frente. Olho para cima, batendo os dedos no assento. Será que me atrevo a

falar mais? Da última vez que tentei fazer amizade com ele, fui chamada de

rabanete.

— Desculpe — ele diz, baixinho. — Sabe, uma vez um superior

comentou que não sou a pessoa mais fácil de lidar.

Olho para ele.

— Não me diga.

Quase vejo um sorriso.

— Tenho tendência a ser rígido demais.

Saímos do túnel. Reconheço os muros de pedras antigas que contornam o

palácio imperial. Estamos quase em casa. Cutuco a unha do dedão.

— Desculpa ter vomitado em você. — Se ele pode ser melhor, eu

também posso.

Vou começar acertando meu despertador para trinta minutos mais cedo. E

vou parar de compará-lo mentalmente a vampiros e serial-killers.

— Já vi coisa pior — ele diz.

— Na polícia?

Ele abaixa a cabeça e não diz mais nada. Não vou pressionar. Talvez um

dia ele queira me contar.

— Não é justo. Você me viu na pior. Acho que o único jeito de

equilibrarmos as coisas novamente é se eu souber algo constrangedor sobre

você.

Ele pensa um pouco, depois olha para mim com os olhos meio fechados.

— Não sei se deveria confiar em você.

— Se não consegue confiar em uma princesa que vive se atrasando e

ainda foge do palácio, em quem você poderia confiar?

— Bem observado — ele diz com naturalidade. — Que tal isto: quando

eu era pequeno, meus colegas de classe me chamavam de Kobuta. —

Diante da minha expressão indiferente, ele explica: — Significa leitão. Eu

tinha bochechas muito rechonchudas.

Enfio os dedos no banco de couro.

— Uau. Eu com certeza vou ter que ver uma foto disso.

Ele dá de ombros.

— Eu adorava biscoitos. Não tenho vergonha do meu passado.

O carro para e o portão do palácio abre.

— Minha mãe me chama de Zoom Zoom. — Acho justo que eu também

compartilhe meu apelido.

Ele dá um meio-sorriso.

— Combina com você.

Sacudo um pouco no banco. O carro recomeça a andar. Só temos mais

alguns minutos juntos. Será que posso confiar nele? Será que devo?

— Não sei se sirvo para ser princesa.

— Entendo. Você está em ótima companhia, então. Não sei se sirvo para

ser guarda imperial. — Ele está sério.

Há uma espécie de vulnerabilidade em sua confissão. Não tenho certeza,

mas talvez eu seja a primeira pessoa para quem ele diz isso.

O carro para e nos afastamos um do outro. Não sei por quê, mas é como

se tivéssemos sido pegos no flagra. O motorista abre a porta. Desço para o

ar frio da noite. Me sinto subitamente sozinha, perdida de novo. Viro,

segurando a porta aberta.

— Obrigada por me salvar.

O pomo de adão na garganta de Akio se mexe. Ele abaixa a cabeça, num

gesto respeitoso que vi outras pessoas fazerem para meu pai.

— É o meu trabalho. — Desencosto do carro e vou em direção à porta do

palácio. Antes de entrar, ouço Akio dizer: — Mas… de nada.