Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 37
No fim, Tóquio se revela uma cidade de românticos, de perdão e de
graciosidade. Desde que a entrevista do Women Now! foi publicada,
ursinhos de pelúcia, luminárias de papel, origamis, pratos de dorayaki e
cartas têm sido entregues nos portões do palácio. Os guardas trazem os
presentes debaixo dos braços, examinam tudo para garantir que não haja
riscos para a minha segurança — tipo uma boneca kawaii que dispara raios
laser pelos olhos — e depois os entregam a mim. A maioria é de
adolescentes. Suas cartas têm forma de coração e expressam seu apoio
eterno ao meu não relacionamento com Akio. Também há cartas de
japoneses nascidos no exterior que se identificam com a minha história e
querem dividir a sua. Tudo isso é impressionante. Nunca pensei que
acenderia tal chama nas pessoas. Estou empenhada em responder todos que
deixaram o endereço. O sr. Fuchigami não gosta da ideia, mas reservou um
tempo na minha agenda para que eu possa escrever as respostas. Então, é
isto.
— Ah, este é um convite para o casamento de alguém — Mariko diz,
segurando um cartão com caligrafia elegante.
Solicitei a ajuda da minha dama de companhia para organizar as pilhas
em categorias.
— Coloque nos diversos — peço.
— E este aqui? — Mariko segura um cartão amarrado a um buquê de
flores. — É uma proposta de casamento de verdade. — Ela abre o cartão.
— Ele afirma que sua renda é superior a cinco milhões de ienes por ano.
Ah! Colocou uma foto. Não é tão ruim assim.
O cara tem o dobro da minha idade e um cabelo escuro que precisa
urgentemente de um corte.
— Diversos — digo, esfregando as têmporas.
Tem sido muito mais trabalhoso do que eu tinha imaginado. Minha mãe
se ofereceu para ficar e ajudar, mas era perceptível que estava ansiosa para
voltar para casa. Todo esse cerco da imprensa ao meu redor a transformou
em uma eremita do mais alto nível (ou seja, alguém que tem um desejo
inegável de se esconder em casa, fechar todas as cortinas e beber água do
banho). Meu pai vai visitá-la em breve. Eu vou com ele. Os dois estão
dando uma nova definição ao termo “ir devagar”. Eles estão além.
— As coisas estão ficando cada vez mais esquisitas — Mariko comenta,
abrindo uma caixinha.
O papel de presente dourado está amassado. Os guardas imperiais
provavelmente desembrulharam o presente primeiro.
— O que é? — Continuo na carta que estou escrevendo. — Se for mais
dorayaki, vamos ter que doar. Não temos mais espaço.
— É um chaveiro com o seu nome.
Ergo a cabeça devagar e olho para o item pendurado nos dedos grossos
de Mariko.
Ela vasculha a caixa.
— Tem um bilhete.
Levanto da cadeira.
— Deixa eu ver.
Pego o chaveiro e o pedaço de papel. O chaveiro é de madeira e tem um
arco-íris pintado. Meu nome foi gravado ali. É um trabalho claramente
artesanal. Pessoal. Contei para Akio sobre isso em Kyoto, na noite da nossa
caminhada, do nosso primeiro beijo. O que ele falou mesmo? Se eu
pudesse, pegaria suas mágoas e as enterraria bem fundo. Fico revirando o
presente nas mãos e depois leio o bilhete.
Agora entendo
Claramente
Contra o vento, chuva, granizo
Parei de acreditar no amor
Até ver as folhas caindo
É dele. Tão certo quanto a Terra gira em torno do Sol, sei que as mãos de
Akio tocaram isto. Meu coração bate rápido e quase sai pela boca.
— Quando esse presente foi entregue?
Não espero a resposta. Já estou me afastando, calçando sapatos e saindo
pela porta da frente. Reina está lá. Ela aceitou minha oferta e é minha nova
guarda-costas. Está arrastando caixas repletas de cartas dos portões de hora
em hora para mim.
Faz uma reverência.
— Sua Alteza.
Não paro. Não posso. Meus calcanhares estão pegando fogo. Estou
correndo para os portões. Reina vem atrás. Então, logo está ao meu lado.
Você sabe, porque não corro muito bem e tal.
— Você não está vestida para uma corrida — ela diz.
Estou com uma calça e uma blusa de seda. Finalmente convenci Mariko
sobre os méritos das calças: bolsos, conforto e a possibilidade de descer do
carro feito uma pessoa. Mais guardas se juntam em meu rastro. Quanto mais nos aproximamos do portão, mais a segurança se intensifica. O
chaveiro está na minha mão. É bobagem sair correndo assim. Estou certa de
que vou me decepcionar de novo. Akio obviamente não está me esperando.
Mas pode ser que esteja. Os pontos com os quais remendei meu coração
estão estourando. Ainda há lugar para ele. Sempre haverá lugar para ele.
Diminuo o passo quando avisto os portões. Já é quase noite. A multidão
dispersou. Os guardas imperiais não têm escolha a não ser abrir o portão
para que eu não dê com a cara nele.
— Não. Não. Não. — Reina é irredutível.
— Desculpa. Não fique brava comigo. É por amor!
De repente, estou na calçada e logo sou notada. A surpresa momentânea
impede que os retardatários se transformem em uma multidão. Os guardas
imperiais formam uma barreira ao meu redor. O tempo para e desacelera.
Caminho ao longo do portão, sorrindo e acenando para as pessoas, fingindo
que tudo isso faz parte do plano. Aperto o chaveiro na palma da mão,
procurando um ex-guarda alto, de cabelos escuros e sobrancelhas emotivas.
— O príncipe nunca tentou me desobedecer. Esta é a primeira vez que
isso acontece — Reina diz, entre dentes.
Pobre Reina. Prometo compensá-la depois.
Meus olhos examinam a calçada, os arbustos, até as árvores, e pousam
em uma figura a seis metros de distância. Alta. Escura. Sem uniforme. Meu
coração bate forte. Akio está ali, emoldurado pelas sombras, com o sol se
pondo às suas costas. Me aproximo devagar. Talvez eu esteja flutuando.
Quem sabe. Ele também me vê. Seus olhos puxados estão cheios de ternura.
Um murmúrio de reconhecimento perpassa a multidão. Uma câmera é
acionada.
— Oi — digo quando estou perto o suficiente para que ele me ouça.
— Oi. — Ele faz uma reverência com um floreio.
Estou um pouco sem fôlego.
— Você deixou isso pra mim? — Abro a mão e mostro o chaveiro.
— Sim. — Sua voz rica e calorosa me preenche.
— Obrigada. — Este é o melhor e mais perfeito presente que já ganhei na
vida.
— De nada. — Ficamos parados, nos encarando em silêncio.
— Por mais que eu esteja gostando dessa reunião, o resto das pessoas
também está — Reina se intromete.
Akio está atônito. Seu cabelo está mais comprido. Ele o afasta dos olhos.
— Você quer entrar? — Aceno para o palácio. — Quero dizer, se não
estiver ocupado.
— Não estou nem um pouco ocupado — ele diz. — Na verdade, tirei uns
dias de folga. Eu tinha que fazer vigília do lado de fora de um palácio.
Planejei esperar o tempo que fosse necessário para ver a princesa.
— Bem, então… — Estou sorrindo feito boba.
Lado a lado, caminhamos para o portão.
— Guarda nova? — Akio acena para Reina.
Ela está sussurrando algo em seu fone.
— Eu a roubei de Yoshi — digo.
Seus olhos se enrugam com um sorriso.
— Aposto que ele detestou isso. — Akio não sabe que meu primo foi o
responsável pelo vazamento da história.
Vou contar depois. Há coisas mais importantes para nos concentrarmos
agora.
— Reina sabe quebrar o pescoço de uma pessoa usando apenas o peso do
corpo. Ela vai me ensinar mais tarde — digo.
Akio diz para Reina:
— Por favor, não ensine isso para ela.
— Eu já disse que não ensinaria — Reina fala, olhando para a frente.
Minha mão está tão perto da dele. Eu poderia segurá-la. Mas cerro os
punhos. Há testemunhas demais. Estamos quase no portão. Nosso progresso
é lento por causa da multidão crescente. Alguém chama meu nome. Fotos
são tiradas. Mas é como se estivéssemos em nossa própria bolha, e eu me
sinto tão leve quanto o ar. Meus membros estão formigando. Akio está aqui.
Ele veio por mim.
Passamos por um mapa do palácio. Há uma seta vermelha com os
ideogramas 現 在 地 . Genzaichi. “Você está aqui.” Logo em seguida, vejo o
portão. Ele se abre e entramos. Continuamos seguindo a trilha até que o
caminho faz uma curva e saímos de vista. Os guardas se afastaram. Só resta
Reina, mantendo uma distância respeitosa.
— Eu li a sua entrevista — Akio diz.
— Leu? O que achou? — Não espero a resposta dele. — Me desculpa,
Akio. Nunca quis prejudicar você nem a sua família.
Ele balança a cabeça.
— Eu é que deveria pedir desculpas. Você foi embora do Japão por causa
do artigo do Fofocas… por minha causa.
— Você foi demitido.
Ele franze o cenho.
— Não fui, não.
Meus pensamentos congelam. O tempo desacelera e se alonga.
— Mas falaram… — Falaram que ele não estava mais na guarda
imperial. — Pensei que você tinha sido demitido.
— O quê? Não. Eu que pedi demissão. Assim que a história vazou,
entreguei meu pedido. Não pareceu grande coisa. Eu já ia fazer isso mesmo.
— Seu tom é despreocupado. Franzo as sobrancelhas. Ele se apressa para
explicar: — Eu estava planejando sair da guarda. Ia te contar naquele dia, durante o almoço, mas então começamos a dançar, e daí… — Ele fica
corado.
Daí nos beijamos. Começamos a pegação.
Também fico corada.
— Não entendi. Seus pais, a imprensa…
Ele assente.
— No começo, foi difícil. Definitivamente não era como eu queria dar a
notícia para o meu pai. Mas ele entendeu, ou pelo menos está tentando. Ele
gosta de você, o que ajuda muito.
Minha expressão é feroz.
— Pensei que eu tinha acabado com sua vida.
— E eu, que tinha acabado com a sua. É por isso que não apareci. Achei
que você não quisesse me ver. Mas então li a entrevista, e a jornalista
insinuou que você ainda tinha sentimentos por mim… Ela estava… Ela está
errada? Temos alguma chance? — Ele para e fica completamente de frente
para mim. — Sei que não sou o homem que você ou a sua família precisam
que eu seja, mas estou me esforçando. Se me der uma chance, prometo
passar a vida toda me esforçando para ser digno de você. Eu me alistei na
Força Aérea de Autodefesa. Em alguns anos, serei um oficial e terei uma
boa renda. Será difícil, mas…
Eu o interrompo grudando meus lábios nos dele. Chega de falação. Só
quero beijá-lo. Suas mãos envolvem meu pescoço e seus polegares
acariciam meu queixo. Nos afastamos um do outro. Ele limpa uma lágrima
debaixo do meu olho.
— Rabanete… Não chore.
— São lágrimas de felicidade — digo.
De agora em diante, só quero lágrimas de felicidade. Uma luz alaranjada
atravessa as árvores. O sol está se pondo. Reina virou as costas para nós. Nos beijamos de novo, suave e prolongadamente.
— Nunca pensei que eu pudesse pertencer a lugar algum — sussurro.
Ele faz um carinho no meu rosto.
— Izumi, você é um mundo próprio. Construa um espaço seu. Que seja
exclusivamente seu. — É exatamente o que pensei.
Damos mais um beijo profundo e longo. Os olhos de Akio são de
chocolate derretido com um anel de prata, inundados pela lua nascente.
Mesmo sem música, nós dançamos, nos balançando de um lado para o
outro. Apoio a bochecha em seu peito, provavelmente sujando sua camiseta
branca de maquiagem. E como não conseguimos nos soltar, continuamos
grudados. Juntos. Deixando a noite cair.
O que vai acontecer depois? Para onde vamos? Este é um felizes para
sempre? Não sei. O que sei é que está sendo bom demais. E isso deveria ser
digno de algum tipo de exibição pirotécnica.
Liberem os fogos de artifício.
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Emiko Jean
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