Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 23 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 22

 

 

É quase meia-noite e não consigo dormir. Estou embriagada de comida

japonesa chique, quimonos de seda, guarda-costas em dívida comigo e

lanternas no céu. Caso alguém já tenha se perguntado se uma garota poderia

se apaixonar por uma cidade, a resposta é sim.

O palácio está dormindo. Mariko se retirou horas atrás, e Reina

finalmente colocou Yoshi na cama. Fico perambulando pelos corredores do

palácio, pensando em Mount Shasta e na garota que eu era. Em como lá

tudo parecia fora de lugar, e aqui tudo parece estar se encaixando, como se

as coisas fossem como têm que ser.

A luz da cozinha está acesa. Eu viro e entro. O ambiente é moderno com

linhas simples, mas as janelas e vigas de madeira do teto são originais. As

luzes do balcão estão acesas. Há uma figura solitária sentada ali. Paro

abruptamente.

— Akio.

Ele ergue os olhos de seu notebook e levanta da cadeira, fazendo barulho

contra o piso de mármore. Está sem paletó e sem gravata, com as mangas

arregaçadas.

— Izumi… Quero dizer, Sua Alteza. — Ele pega o paletó.

Estico a mão.

— Não precisa. Relaxa.

Ele hesita, com o casaco no braço. Reparo nas veias de seu antebraço.

Observo-as correndo até seu pulso. Depois de um momento, ele deposita o

casaco em um banco.

— Você está acordada.

Dou de ombros e entro na cozinha.

— Não estava conseguindo dormir.

— Nesse caso, junte-se a mim, por favor. — Ele gesticula para o balcão.

— Tenho doces.

Ah, as verdadeiras palavras que toda garota gostaria de ouvir. Vou até lá,

acenando para o notebook.

— Trabalhando?

Ele passa a mão no rosto.

— Estou revisando o esquema de segurança. Tive que reorganizar a

agenda com a chegada do seu primo.

— Desculpa por isso. — Sento em uma cadeira ao lado dele.

Akio me analisa de cima a baixo. Estou usando o moletom cinza que ele

me deu naquela noite do karaokê. O zíper está fechado só até a metade e,

por baixo, estou de camisola rendada. Fecho o resto.

— Então, ouvi falar em doces…

Akio vira a cabeça e engole em seco.

— Certo — ele diz, puxando dois pratos.

Reconheço as guloseimas: goma dango, bolinhos de arroz recheados com

anko, um tipo de feijão-vermelho doce, e panquecas dorayaki. Ele

mencionou que gostava de doces naquela noite no carro.

Claro que ataco primeiro o dorayaki. Solto um gemidinho na primeira

mordida.

— Ah, meu Deus, quero ter filhos com esse dorayaki.

Akio pigarreia e fecha o notebook com força. Está evitando contato

visual.

— Então, o que está te mantendo acordada?

Abaixo o dorayaki e balanço os pés, apoiando-os na base do banco.

— Ah, hum… estava pensando em Mount Shasta. Sabe, nos meus dias

pré-princesa.

Ele me encara. Digo a mim mesma que é o açúcar que está me deixando

toda agitada.

— Como é o lugar de onde você vem?

Cutuco o dorayaki.

— É uma cidade turística muito frequentada. As pessoas gostam de

acampar na floresta no verão e esquiar nas montanhas durante o inverno. Só

tem literalmente um semáforo na rua principal.

— Parece legal. — Seus lábios formam uma linha reta e sincera.

Endireito a postura.

— É sim, mas…

— Pode falar.

Meu coração se contorce dentro do meu peito.

— Não sei. É como se… as coisas que fazem aquele lugar ser tão

incrível, as pessoas de sempre, a previsibilidade, também o tornassem

péssimo. Por exemplo, tem umas lojas na rua principal que vendem todo

tipo de bugiganga. Uma em particular tinha uma prateleira cheia de

chaveirinhos de arco-íris com nomes inscritos. Ainda tem até hoje. — Akio

está prestando atenção. — Aos oito anos, eu queria muito um deles. Mas

logo descobri que não tinha com meu nome. Tinha um monte de Carlys e

Lindseys e Emilys, mas nada de Izumi. Culpei minha mãe, acabei

descontando nela. “Por que eu não podia me chamar Olivia ou Ava?”, perguntei. Eu detestava meu nome. Tudo isso aconteceu no meio da loja.

Sou boa em fazer cena. — Dou um sorriso torto.

— O que sua mãe fez?

Desmorono no banco.

— Ela meio que só aguentou. Depois eu me acalmei, e, no carro, ela me

explicou tudo. Me contou que seus pais tinham morrido em um acidente de

carro horrível no verão antes de ela ir para a faculdade. Meu nome foi a

única maneira que encontrou de me lembrar da minha origem. Nunca mais

briguei por causa disso, mas comecei a me apresentar como Izzy. Apaguei

uma parte de mim para facilitar para as outras pessoas, e também para mim

mesma. Às vezes a gente só quer evitar a dor de cabeça, sabe?

— Sinceramente, não sei. Mas sinto muito. — A voz de Akio é profunda

e séria. Abaixo a cabeça e fico olhando para as minhas pernas. Ele segura

minha mão e aperta. — Você não deveria ter vergonha. — Fica assim em

silêncio, até que afasta a mão. — Se eu pudesse, pegaria suas mágoas e as

enterraria bem fundo.

Olho para ele de boca aberta.

— Você passa seu tempo livre ensaiando coisas perfeitas para dizer por

aí?

Ele me olha, calmamente.

— Sim. Na verdade, é isso o que todos os guardas imperiais fazem.

Temos um grupo de escrita com encontros semanais às quartas. Meu amigo

Ichiro trabalha principalmente com haicai — ele fala com uma expressão

neutra.

Sorrio. Quantas pessoas têm a chance de ver seu lado engraçado? Seu

senso de humor seco? Me considero sortuda por ser uma das poucas.

— Que mau uso do tempo vocês fazem — digo.

— Vou repassar suas preocupações ao meu supervisor.

Dou outro sorriso.

— É bom ver você sorrindo de novo. — Ele esfrega a nuca. — Está

cansada?

— Nem um pouco.

Ele olha para as janelas gigantes e para o jardim escuro além.

— Minha mãe costumava me levar para caminhar quando eu não

conseguia dormir. A gente contava as estrelas. Quer tentar?

Assinto e sorrio, brincando com os cordões do capuz.

— Mal não vai fazer.

 

Saímos de fininho. Uma brisa suave balança os galhos mais altos das

árvores. A noite está fresca, mas não muito fria, e está escuro e silencioso,

podemos ouvir apenas a cantoria ocasional dos grilos e o som de nossas

respirações.

Um avião passa, piscando luzes brancas e vermelhas. Inclino a cabeça.

— Sempre que vejo um avião, fico me perguntando para onde está indo,

quem está levando.

Akio olha para cima. Seu perfil forma uma silhueta contra o céu.

— É um avião comercial. Provavelmente uma aeronave regional

bimotora com destino a Tóquio.

Suspiro.

— Isso é consideravelmente menos romântico do que pensei.

Retomamos a caminhada, adentrando o jardim. O palácio some atrás das

árvores.

— Então, aviões…? — Penso nos aeromodelos que vi em seu quarto.

— Quando me formei, dois anos atrás, decidi me alistar na Força Aérea

de Autodefesa — ele diz.

Faço uma careta.

— Então como é que você veio parar aqui?

Ele desacelera um pouco.

— Sempre houve uma expectativa implícita de que um dia eu voltaria e

seguiria os passos do meu pai como guarda imperial. Minha mãe ficou

doente, forçando meu pai a se aposentar mais cedo. Eu cumpri meu dever.

— Parece tão injusto.

Ele solta um suspiro.

— É injusto. Mas meus pais já eram mais velhos quando nasci. Ou seja,

eram os últimos representantes da geração pós-guerra, educados para

valorizar o sacrifício, a disciplina e o dever.

— Uau. Gimu. Mais japonês impossível. — A língua japonesa tem várias

nuances sutis. Há uma infinidade de palavras para descrever o dever, e entre

elas está gimu: uma obrigação vitalícia com a família ou o país.

— Sim. Gimu — Akio concorda, resignado. — Meu pai é complicado,

mas é um bom homem. Ele ama minha mãe, apesar de demonstrar isso de

forma estranha. Outro dia, o ouvi dizendo que a proíbe de morrer antes

dele. Nós, Kobayashi, somos tudo menos autocráticos. — Ele coça a

cabeça. — Os sonhos dele estão no fim, enquanto os meus deveriam estar

começando.

Uma ponte se estende adiante. Cruzo os braços.

— Eu pensava que o mundo pertencesse a mim. Mas estava errada. Eu

pertenço ao mundo. E às vezes… acho que, às vezes, nossas escolhas

precisam refletir isso.

— Exatamente. — Akio dá um suspiro dolorido.

Estamos na ponte agora, e nossos passos ecoam pelas tábuas de madeira.

Akio fica para trás e eu deslizo até a borda, ao corrimão onde os postes são

decorados com florões em formato de sino invertido. Abaixo, a água bate

na margem de cascalho. Mesmo no escuro, é uma visão deslumbrante. Viro para ele e não consigo segurar um sorriso. Ainda estou toda agitada. Ele

está parado no meio da ponte, me observando. A linha de sua mandíbula se

move:

— Izumi, venha aqui — ele diz.

Eu vou. Me coloco à sua frente e ergo o queixo:

— Sim?

— Você sabe o que significa gimu, mas já estudou sobre ninjō?

Faço um esforço para pensar com ele me olhando desse jeito.

— Ninjō?

— Ninjō é uma emoção que geralmente entra em conflito com gimu. Um

exemplo clássico é um samurai que se apaixona pela filha de um xogum.

Preso ao dever, ele não pode agir de acordo com seus sentimentos.

— Ou um guarda imperial que quer mudar de carreira, mas não pode por

conta das obrigações familiares?

Ele assente e se aproxima mais.

— Tenho uma proposta para você.

— Ah, é?

— O que você diria se eu te pedisse para ser Izumi? Eu seria Akio. Sem

títulos. Sem obrigações. — Ele para por um instante. Os músculos de sua

garganta se movem. — E se a gente cedesse ao nosso ninjō?

— Eu diria que é praticamente nosso dever, enquanto cidadãos japoneses.

Ele inclina a cabeça.

— Só esta noite?

— Só esta noite — sussurro.

— Tudo bem então. — Ele estende a mão para mim.

Eu a aperto com força. Estou sem fôlego. A noite parece deliciosamente

interminável. Ele me puxa para bem pertinho. Posso sentir o calor

irradiando de seu peito.

Bem devagar, ele leva os lábios à minha orelha.

— Adorei você com meu moletom.

— Ah, é?

Suas mãos seguram meu quadril e sobem um pouco.

— Que bom, porque pretendo ficar com ele — murmuro, com minha

garganta ameaçando se fechar.

Ar. Preciso de ar. Seus dedos contornam a gola do moletom,

acompanhando minhas clavículas.

— Não acredito que um dia já te achei boba. — Ele faz carinho nas

minhas bochechas. — Fui tão idiota. Não conseguia ver o quanto você é

maravilhosa.

Corro o dedo pelos botões de sua camisa elegante. Também preciso fazer

uma confissão:

— Já que estamos comentando queixas antigas, você deveria saber que,

quando cheguei, arranquei uma foto sua do dossiê e pintei alguns de seus

dentes de preto.

Ele dá risada, mas continua perto, e o calor do seu toque atravessa a

roupa. Nos balançamos para a frente e para trás, dançando ao ritmo da água.

— É mesmo?

Estremeço. Escondo o rosto em seu peito.

— Tem mais. Também desenhei um par de brincos em formato de pênis

em você. Ficaram bem charmosos, na verdade. Delicados e elegantes. Nem

um pouco exagerados.

Ele assente, solene.

— Bom saber. Algo maior teria ficado muito chamativo.

Meus lábios se contorcem. Olho para ele.

— Sinto muito.

Depois de um momento de silêncio intenso, ele pergunta:

— Algo mais? — Seus olhos estão brilhando, radiantes e febris.

Balanço a cabeça.

— Não. Acho que não.

Ele coloca as mãos no meu rosto.

— Que bom. Porque vou te beijar agora.

Akio é um homem de palavra. Lenta, suave e gentilmente, ele pressiona

os lábios no canto da minha boca e depois faz o mesmo no outro lado.

Recua, sorri e suspira. Meu coração afunda de decepção.

— Isso é tudo…

Então ele mergulha em mim. Eu o abraço mais forte, finalmente

entendendo o termo “arrebatada”. Nossos narizes se chocam. Nossas bocas

se conectam. Sinto sua barba por fazer, a vibração de seus cílios na minha

pele. Há uma espécie de empurra-e-puxa em nossos movimentos. Ele

expira, eu inspiro.

O barulho à nossa volta se silencia. E somos apenas nós. Izumi. Akio.

Uma noite perfeita.