Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 22
É quase meia-noite e não consigo dormir. Estou embriagada de comida
japonesa chique, quimonos de seda, guarda-costas em dívida comigo e
lanternas no céu. Caso alguém já tenha se perguntado se uma garota poderia
se apaixonar por uma cidade, a resposta é sim.
O palácio está dormindo. Mariko se retirou horas atrás, e Reina
finalmente colocou Yoshi na cama. Fico perambulando pelos corredores do
palácio, pensando em Mount Shasta e na garota que eu era. Em como lá
tudo parecia fora de lugar, e aqui tudo parece estar se encaixando, como se
as coisas fossem como têm que ser.
A luz da cozinha está acesa. Eu viro e entro. O ambiente é moderno com
linhas simples, mas as janelas e vigas de madeira do teto são originais. As
luzes do balcão estão acesas. Há uma figura solitária sentada ali. Paro
abruptamente.
— Akio.
Ele ergue os olhos de seu notebook e levanta da cadeira, fazendo barulho
contra o piso de mármore. Está sem paletó e sem gravata, com as mangas
arregaçadas.
— Izumi… Quero dizer, Sua Alteza. — Ele pega o paletó.
Estico a mão.
— Não precisa. Relaxa.
Ele hesita, com o casaco no braço. Reparo nas veias de seu antebraço.
Observo-as correndo até seu pulso. Depois de um momento, ele deposita o
casaco em um banco.
— Você está acordada.
Dou de ombros e entro na cozinha.
— Não estava conseguindo dormir.
— Nesse caso, junte-se a mim, por favor. — Ele gesticula para o balcão.
— Tenho doces.
Ah, as verdadeiras palavras que toda garota gostaria de ouvir. Vou até lá,
acenando para o notebook.
— Trabalhando?
Ele passa a mão no rosto.
— Estou revisando o esquema de segurança. Tive que reorganizar a
agenda com a chegada do seu primo.
— Desculpa por isso. — Sento em uma cadeira ao lado dele.
Akio me analisa de cima a baixo. Estou usando o moletom cinza que ele
me deu naquela noite do karaokê. O zíper está fechado só até a metade e,
por baixo, estou de camisola rendada. Fecho o resto.
— Então, ouvi falar em doces…
Akio vira a cabeça e engole em seco.
— Certo — ele diz, puxando dois pratos.
Reconheço as guloseimas: goma dango, bolinhos de arroz recheados com
anko, um tipo de feijão-vermelho doce, e panquecas dorayaki. Ele
mencionou que gostava de doces naquela noite no carro.
Claro que ataco primeiro o dorayaki. Solto um gemidinho na primeira
mordida.
— Ah, meu Deus, quero ter filhos com esse dorayaki.
Akio pigarreia e fecha o notebook com força. Está evitando contato
visual.
— Então, o que está te mantendo acordada?
Abaixo o dorayaki e balanço os pés, apoiando-os na base do banco.
— Ah, hum… estava pensando em Mount Shasta. Sabe, nos meus dias
pré-princesa.
Ele me encara. Digo a mim mesma que é o açúcar que está me deixando
toda agitada.
— Como é o lugar de onde você vem?
Cutuco o dorayaki.
— É uma cidade turística muito frequentada. As pessoas gostam de
acampar na floresta no verão e esquiar nas montanhas durante o inverno. Só
tem literalmente um semáforo na rua principal.
— Parece legal. — Seus lábios formam uma linha reta e sincera.
Endireito a postura.
— É sim, mas…
— Pode falar.
Meu coração se contorce dentro do meu peito.
— Não sei. É como se… as coisas que fazem aquele lugar ser tão
incrível, as pessoas de sempre, a previsibilidade, também o tornassem
péssimo. Por exemplo, tem umas lojas na rua principal que vendem todo
tipo de bugiganga. Uma em particular tinha uma prateleira cheia de
chaveirinhos de arco-íris com nomes inscritos. Ainda tem até hoje. — Akio
está prestando atenção. — Aos oito anos, eu queria muito um deles. Mas
logo descobri que não tinha com meu nome. Tinha um monte de Carlys e
Lindseys e Emilys, mas nada de Izumi. Culpei minha mãe, acabei
descontando nela. “Por que eu não podia me chamar Olivia ou Ava?”, perguntei. Eu detestava meu nome. Tudo isso aconteceu no meio da loja.
Sou boa em fazer cena. — Dou um sorriso torto.
— O que sua mãe fez?
Desmorono no banco.
— Ela meio que só aguentou. Depois eu me acalmei, e, no carro, ela me
explicou tudo. Me contou que seus pais tinham morrido em um acidente de
carro horrível no verão antes de ela ir para a faculdade. Meu nome foi a
única maneira que encontrou de me lembrar da minha origem. Nunca mais
briguei por causa disso, mas comecei a me apresentar como Izzy. Apaguei
uma parte de mim para facilitar para as outras pessoas, e também para mim
mesma. Às vezes a gente só quer evitar a dor de cabeça, sabe?
— Sinceramente, não sei. Mas sinto muito. — A voz de Akio é profunda
e séria. Abaixo a cabeça e fico olhando para as minhas pernas. Ele segura
minha mão e aperta. — Você não deveria ter vergonha. — Fica assim em
silêncio, até que afasta a mão. — Se eu pudesse, pegaria suas mágoas e as
enterraria bem fundo.
Olho para ele de boca aberta.
— Você passa seu tempo livre ensaiando coisas perfeitas para dizer por
aí?
Ele me olha, calmamente.
— Sim. Na verdade, é isso o que todos os guardas imperiais fazem.
Temos um grupo de escrita com encontros semanais às quartas. Meu amigo
Ichiro trabalha principalmente com haicai — ele fala com uma expressão
neutra.
Sorrio. Quantas pessoas têm a chance de ver seu lado engraçado? Seu
senso de humor seco? Me considero sortuda por ser uma das poucas.
— Que mau uso do tempo vocês fazem — digo.
— Vou repassar suas preocupações ao meu supervisor.
Dou outro sorriso.
— É bom ver você sorrindo de novo. — Ele esfrega a nuca. — Está
cansada?
— Nem um pouco.
Ele olha para as janelas gigantes e para o jardim escuro além.
— Minha mãe costumava me levar para caminhar quando eu não
conseguia dormir. A gente contava as estrelas. Quer tentar?
Assinto e sorrio, brincando com os cordões do capuz.
— Mal não vai fazer.
Saímos de fininho. Uma brisa suave balança os galhos mais altos das
árvores. A noite está fresca, mas não muito fria, e está escuro e silencioso,
podemos ouvir apenas a cantoria ocasional dos grilos e o som de nossas
respirações.
Um avião passa, piscando luzes brancas e vermelhas. Inclino a cabeça.
— Sempre que vejo um avião, fico me perguntando para onde está indo,
quem está levando.
Akio olha para cima. Seu perfil forma uma silhueta contra o céu.
— É um avião comercial. Provavelmente uma aeronave regional
bimotora com destino a Tóquio.
Suspiro.
— Isso é consideravelmente menos romântico do que pensei.
Retomamos a caminhada, adentrando o jardim. O palácio some atrás das
árvores.
— Então, aviões…? — Penso nos aeromodelos que vi em seu quarto.
— Quando me formei, dois anos atrás, decidi me alistar na Força Aérea
de Autodefesa — ele diz.
Faço uma careta.
— Então como é que você veio parar aqui?
Ele desacelera um pouco.
— Sempre houve uma expectativa implícita de que um dia eu voltaria e
seguiria os passos do meu pai como guarda imperial. Minha mãe ficou
doente, forçando meu pai a se aposentar mais cedo. Eu cumpri meu dever.
— Parece tão injusto.
Ele solta um suspiro.
— É injusto. Mas meus pais já eram mais velhos quando nasci. Ou seja,
eram os últimos representantes da geração pós-guerra, educados para
valorizar o sacrifício, a disciplina e o dever.
— Uau. Gimu. Mais japonês impossível. — A língua japonesa tem várias
nuances sutis. Há uma infinidade de palavras para descrever o dever, e entre
elas está gimu: uma obrigação vitalícia com a família ou o país.
— Sim. Gimu — Akio concorda, resignado. — Meu pai é complicado,
mas é um bom homem. Ele ama minha mãe, apesar de demonstrar isso de
forma estranha. Outro dia, o ouvi dizendo que a proíbe de morrer antes
dele. Nós, Kobayashi, somos tudo menos autocráticos. — Ele coça a
cabeça. — Os sonhos dele estão no fim, enquanto os meus deveriam estar
começando.
Uma ponte se estende adiante. Cruzo os braços.
— Eu pensava que o mundo pertencesse a mim. Mas estava errada. Eu
pertenço ao mundo. E às vezes… acho que, às vezes, nossas escolhas
precisam refletir isso.
— Exatamente. — Akio dá um suspiro dolorido.
Estamos na ponte agora, e nossos passos ecoam pelas tábuas de madeira.
Akio fica para trás e eu deslizo até a borda, ao corrimão onde os postes são
decorados com florões em formato de sino invertido. Abaixo, a água bate
na margem de cascalho. Mesmo no escuro, é uma visão deslumbrante. Viro para ele e não consigo segurar um sorriso. Ainda estou toda agitada. Ele
está parado no meio da ponte, me observando. A linha de sua mandíbula se
move:
— Izumi, venha aqui — ele diz.
Eu vou. Me coloco à sua frente e ergo o queixo:
— Sim?
— Você sabe o que significa gimu, mas já estudou sobre ninjō?
Faço um esforço para pensar com ele me olhando desse jeito.
— Ninjō?
— Ninjō é uma emoção que geralmente entra em conflito com gimu. Um
exemplo clássico é um samurai que se apaixona pela filha de um xogum.
Preso ao dever, ele não pode agir de acordo com seus sentimentos.
— Ou um guarda imperial que quer mudar de carreira, mas não pode por
conta das obrigações familiares?
Ele assente e se aproxima mais.
— Tenho uma proposta para você.
— Ah, é?
— O que você diria se eu te pedisse para ser Izumi? Eu seria Akio. Sem
títulos. Sem obrigações. — Ele para por um instante. Os músculos de sua
garganta se movem. — E se a gente cedesse ao nosso ninjō?
— Eu diria que é praticamente nosso dever, enquanto cidadãos japoneses.
Ele inclina a cabeça.
— Só esta noite?
— Só esta noite — sussurro.
— Tudo bem então. — Ele estende a mão para mim.
Eu a aperto com força. Estou sem fôlego. A noite parece deliciosamente
interminável. Ele me puxa para bem pertinho. Posso sentir o calor
irradiando de seu peito.
Bem devagar, ele leva os lábios à minha orelha.
— Adorei você com meu moletom.
— Ah, é?
Suas mãos seguram meu quadril e sobem um pouco.
— Que bom, porque pretendo ficar com ele — murmuro, com minha
garganta ameaçando se fechar.
Ar. Preciso de ar. Seus dedos contornam a gola do moletom,
acompanhando minhas clavículas.
— Não acredito que um dia já te achei boba. — Ele faz carinho nas
minhas bochechas. — Fui tão idiota. Não conseguia ver o quanto você é
maravilhosa.
Corro o dedo pelos botões de sua camisa elegante. Também preciso fazer
uma confissão:
— Já que estamos comentando queixas antigas, você deveria saber que,
quando cheguei, arranquei uma foto sua do dossiê e pintei alguns de seus
dentes de preto.
Ele dá risada, mas continua perto, e o calor do seu toque atravessa a
roupa. Nos balançamos para a frente e para trás, dançando ao ritmo da água.
— É mesmo?
Estremeço. Escondo o rosto em seu peito.
— Tem mais. Também desenhei um par de brincos em formato de pênis
em você. Ficaram bem charmosos, na verdade. Delicados e elegantes. Nem
um pouco exagerados.
Ele assente, solene.
— Bom saber. Algo maior teria ficado muito chamativo.
Meus lábios se contorcem. Olho para ele.
— Sinto muito.
Depois de um momento de silêncio intenso, ele pergunta:
— Algo mais? — Seus olhos estão brilhando, radiantes e febris.
Balanço a cabeça.
— Não. Acho que não.
Ele coloca as mãos no meu rosto.
— Que bom. Porque vou te beijar agora.
Akio é um homem de palavra. Lenta, suave e gentilmente, ele pressiona
os lábios no canto da minha boca e depois faz o mesmo no outro lado.
Recua, sorri e suspira. Meu coração afunda de decepção.
— Isso é tudo…
Então ele mergulha em mim. Eu o abraço mais forte, finalmente
entendendo o termo “arrebatada”. Nossos narizes se chocam. Nossas bocas
se conectam. Sinto sua barba por fazer, a vibração de seus cílios na minha
pele. Há uma espécie de empurra-e-puxa em nossos movimentos. Ele
expira, eu inspiro.
O barulho à nossa volta se silencia. E somos apenas nós. Izumi. Akio.
Uma noite perfeita.