Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 15 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 14

 

 

Enfim tenho um dia de folga. Coisa rara. Sem precedente. Inconcebível. O

sr. Fuchigami diz que posso ir a qualquer lugar de Tóquio. E sei exatamente

onde quero passar o dia: nos Canis Imperiais. Honestamente, ir aos canis é

algo necessário. Extremamente necessário. Mesmo que Akio tenha dito que

o Fofocas de Tóquio não está à minha altura, tem sido difícil tirar aquela

matéria da cabeça, e é mais difícil ainda não pensar em tudo o que posso

fazer de errado. A partir de amanhã, começa uma série de eventos, e vou

acompanhar meu pai em diversos passeios públicos. Câmeras e a imprensa

estarão presentes nessa espécie de iniciação suave antes do casamento do

primeiro-ministro. Meus nervos estão à flor da pele. O que vão dizer sobre

mim? Que sorri demais? Ou que sorri muito pouco? Preciso urgentemente

de um montinho de cachorros imperiais.

Estamos a caminho do canil. É um belo dia, o sol está reluzindo, não há

nenhuma nuvem no céu. As flores de cerejeira finalmente desabrocharam e

enfeitam os galhos. Mariko está ao meu lado, exalando um cheiro tipo eu-

preferiria-estar-em-qualquer-outro-lugar. Há um removedor de pelos

enfiado em sua bolsa e um pacote de lenços de papel, porque cachorros a

fazem “espirrar”. Akio está na nossa frente, distraído e um pouco desligado

hoje. Mais ranzinza que o normal. A cada dois minutos, seu celular vibra e ele desliza o dedo para ignorar as notificações, mas não desliga. Já

mencionei sua carranca? É digna de nota.

Me pergunto se não é uma namorada. Ele nunca comentou que era

comprometido. Imagino que espécie de mulher Akio namoraria, sua

equivalente feminina. Conheço o tipo. Já vi nos quadrinhos e nos filmes de

ação. Linda. Perigosa. Se diverte com jogos de guerra. O celular dele vibra

de novo.

— Tem algo errado? — finalmente pergunto.

Ele balança a cabeça uma vez.

— Não, Sua Alteza. — Ele segura o aparelho com firmeza.

Mariko fala com ele em japonês. Faço uma careta para ela. Não gosto

quando faz isso, e ela faz com frequência, de propósito, para me deixar de

fora das conversas. O pior é quando eu sei que ela está falando de mim,

porque ouço meu nome intercalado entre palavras que soam raivosas. Desta

vez, meu nome não surge, mas entendo outra palavra: okāsan. “Mãe”.

A resposta de Akio é curta, concisa.

A boca de Mariko se contrai de preocupação.

Agora eu preciso saber o que está acontecendo. Cutuco minha dama de

companhia. Ela afasta o cotovelo de mim e o esfrega como se eu a tivesse

machucado.

— O que está acontecendo? — pergunto em voz alta.

— Está tudo bem — Mariko diz.

Claramente, não está.

Encaro Akio.

— Tem algo errado com a sua mãe?

Sua postura está rígida.

— Não é nada, Sua Alteza. Minha mãe precisa de um remédio e meu pai

não pode deixá-la sozinha agora para ir à farmácia. Ele está pedindo que eu vá comprar, mas avisei que não posso deixar o trabalho.

— Ah. — Afundo no assento, pensando. Não há dúvidas do que precisa

ser feito. — Onde é a farmácia?

— Perdão? — Akio retruca.

— A farmácia. Qual é o endereço? — repito.

Ele franze os olhos, balançando a cabeça.

— Nome e endereço, por favor — insisto.

Ele fala baixinho, mas consigo ouvir a resposta. Antes que eu esqueça as

informações, abaixo a divisória que separa o assento do motorista.

— Tivemos uma mudança de planos — digo alto. — Vamos para a… —

Dou o endereço da farmácia. — E depois para… — Viro para Akio. —

Qual é o endereço da sua casa?

— Eu não acho…

Mariko se intromete:

— Ele mora em Kichijōji, perto do templo. — Sob o olhar perplexo de

Akio, Mariko diz: — Se é para lá que a princesa quer ir, é para lá que

vamos.

Akio avalia a situação e, após alguns minutos, fala:

— Dez minutos na farmácia e dez minutos na casa dos meus pais.

Depois, para os canis.

Dou de ombros.

— Como quiser. — Lembro da nossa conversa na varanda do palácio.

Tecnicamente, eu sou o seu chefe. — Afinal, você é o chefe.

 

Logo, estamos em frente à farmácia. Akio me faz prometer duas vezes

que não vou mudar de ideia, então sai apressado.

— É muito gentil da sua parte fazer isso — Mariko diz, um pouco a

contragosto. — Nossos pais se conhecem. Minha mãe trabalhava como dama de companhia quando o pai dele era guarda imperial. O que está

acontecendo com ela… — Ela se interrompe. — É tão injusto.

Engulo em seco. É a primeira vez que ela diz algo legal a meu respeito, e

acabo ficando emocionada.

— Obrigada por dizer isso.

Mariko bufa, me lembrando de que não gosta de mim.

— Ah, bem. Qualquer coisa para evitar os canis, sabe…

A porta do carro abre, e Akio está de volta com uma sacola na mão.

Meia hora mais tarde, estacionamos na frente de uma casinha entre duas

torres de concreto. Um homem alto com cabelo grisalho e ralo espia pelas

cortinas. O pai de Akio. Eles têm os mesmos lábios finos e olhos

encapuzados. É bom saber que essas sobrancelhas preocupadas são de

família.

A tela do celular de Akio se ilumina.

— Meu pai está vendo o carro e sabe que você está aqui. Está oferecendo

sua hospitalidade. Não se preocupe, vou inventar uma desculpa.

Akio sai do carro. Eu o sigo depois de esperar Mariko por um instante,

mas ela sacode a cabeça. Beleza, pode ficar no carro, se quiser.

Akio não me nota. Vou me ferrar. Ele realmente acredita que, sempre que

dá uma ordem, será cegamente obedecido. Ele passa pelo portão e eu o

seguro antes que feche. Nossos passos ressoam no ladrilho coberto de

musgo. Ele vira de repente.

— Você não ficou no carro.

— Sim, Akio, eu adoraria conhecer seus pais e ver a casa onde você

cresceu. Obrigada por perguntar. — Dou um sorriso, piscando.

— Minha mãe está doente.

— Isso eu entendi. É contagioso? Estão preocupados comigo? Ou com

ela?

Ele balança a cabeça.

— Não, mas…

— Então, por favor… — Estico a mão e aumento o sorriso. — Vai na

frente.

Ele dá um suspiro muito alto antes de virar. Seu pai nos cumprimenta na

porta, fazendo uma reverência, então sai para preparar um chá depois de me

acomodar na sala de estar. Quando sento, Akio desaparece no corredor com

a sacola branca.

Claro que não fico parada onde me deixaram. A sala é mobiliada com

simplicidade — um sofá azul-marinho e cadeiras de madeira. Prateleiras

abarrotadas com vários livros revestem uma parede inteira, e as lombadas

chamativas dão cor ao ambiente.

Vou até as fotos penduradas no corredor. É uma linha do tempo da vida

de Akio. Tem fotos de quando ele era recém-nascido, criancinha, na pré-

escola, e é verdade: suas bochechas pareciam a de um esquilo guardando

nozes para mais tarde. Sua pequena carranca se contrapõe à fofura. Então

ele sempre foi assim. Em seguida, me deparo com uma grande foto de sua

cerimônia de entrada no ensino fundamental. Sua mãe está de quimono, seu

pai, de terno, e ele exibe um randoseru novinho em folha, uma mochila de

material rígido. Continuo vendo as fotos e concluo que ele é filho único.

Ahá! Sabia. A gente reconhece os nossos de longe. Provavelmente é por

isso que brigamos tanto. Estamos acostumados com as coisas do nosso

jeito. Pelo menos acho que aprendi a dividir. Noora concordaria totalmente.

A última foto é recente. Ele está todo confiante em seu uniforme de guarda

imperial. Seus pais estão ao seu lado, radiantes de orgulho.

No fim do corredor, há duas portas. Ambas entreabertas. Em uma delas,

vejo as costas de Akio. Ele acomodou seu enorme corpo em uma cadeira ao lado de uma cama. Está falando baixinho enquanto segura a mão de sua

mãe. Ele vira por um momento, e eu sigo para o outro quarto depressa.

Há um futom, uma televisão e uma escrivaninha, além de pôsteres

colados nas paredes. Aeromodelos cobrem todas as superfícies disponíveis.

Toco a ponta de um deles, fazendo a hélice girar.

— Este era o meu quarto. — Tomo um susto com a voz de Akio.

— Era? — As prateleiras têm uma fina camada de pó.

— Moro na propriedade imperial. No alojamento de funcionários.

Assinto vagamente, apesar de estar surpresa. Pelo visto, não me

preocupei muito em conhecer meu guarda pessoal. Mas nada de chorar pelo

leite derramado, não é mesmo?

— Aeromodelos, hein?

Ele não fala nada. Certo, próximo assunto então.

— Sua mãe está bem?

— Está. — Ele entra no quarto. A porta está parcialmente fechada. A

casa está tão silenciosa que parece até que estamos sozinhos, como se

fôssemos as únicas duas pessoas no mundo. — Ela tem demência precoce.

— Akio para a hélice com o dedo. — Meu pai se aposentou da guarda

imperial para cuidar dela. Agora ele passa os dias como enfermeiro,

preenchendo os buracos da sua memória.

— Sinto muito.

Ele dá de ombros, como se não fosse nada. Nada mesmo. Mas imagino

que seja um fardo terrível de se carregar.

— Ela tem dias bons e dias ruins. Às vezes, fica perambulando por aí.

Por isso, ele não gosta de deixá-la sozinha. — Ele fica em silêncio por um

instante. — Obrigado por isso.

É minha vez de dar de ombros.

— Imagina. Sou uma enorme fã de mães, no geral. — Bem, de mulheres,

na verdade, porque somos incríveis. Ele dá um sorriso muito discreto. É

bom ver isso de novo. Ser capaz de alegrá-lo um pouquinho significa muito

para mim. Olho para o chão. — Sabe, pensei que talvez fosse sua namorada

que estivesse ligando.

Ele parece achar graça ao responder:

— É mesmo?

Ouso encará-lo. Sim, ele está achando graça.

— Não que eu me importe, claro. Mas acho que eu deveria saber se você

tem outros compromissos que podem te distrair do trabalho. — Mordo o

lábio.

Corro os olhos pelo quarto, fingindo naturalidade.

— Uma namorada não seria uma distração. Eu não permitiria — ele

explica. O que provavelmente é verdade. — Mas, só para constar, não tenho

namorada.

Meus lábios se contraem, mas contenho o sorriso.

— E você? Tem alguém nos Estados Unidos? — Seu tom é leve, casual.

— Alguém que possa te distrair de suas obrigações imperiais? Acho que eu

também deveria saber, só por precaução, por motivos de segurança.

Nada mais justo.

— Não. Até já namorei, mas terminamos um ano atrás. Ele tirava selfies

demais na frente do espelho. — Para constar, uma selfie só já é demais.

Ele faz uma cara estranha.

— Nunca tirei uma selfie no espelho.

— Bom saber.

Dei uma volta completa no quarto. Paro de frente para Akio de novo. Na

parede atrás dele, há uma colagem de fotos suas em diferentes idades, com

amigos e professores.

— Eu nunca nem tirei uma selfie — ele diz.

— Melhor ainda. — Se bem que meu celular está cheio de selfies. Em

quase todas, estamos Noora e eu fingindo pegar Mount Shasta entre os

dedos e fazendo gracinhas. Observo um avião verde, com corpo prateado e

listras amarelas nas asas.

— É um Mitsubishi A6M Zero, usado na guerra. A maioria das

aeronaves desse modelo foi usada em missões kamikaze no final.

Estou familiarizada com o termo. Kamikaze. “Vento divino.” Minha

mente se enche de imagens de aviões rodopiando no céu feito marimbondos

furiosos até eventualmente explodirem com o impacto, com os pilotos ainda

lá dentro.

— Você faria isso?

Ele pisca.

— Morrer pelo meu país? Sim, claro.

Deve ser um pré-requisito para ser guarda imperial. A ideia de Akio

levando uma bala no meu lugar é insuportável. Minha garganta fica seca.

Não quero mais falar disso.

— Mariko disse que seus pais trabalharam com os dela.

— A maioria das posições imperiais é como um legado, passado de

geração em geração.

— Como a monarquia — observo.

— Sim.

Outra coisa que temos em comum. Nascemos para cumprir papéis

determinados. Nossos destinos são pré-traçados.

Estamos bem próximos. Akio me encara por um longo tempo. Fico me

perguntando se ele também sente essa onda de eletricidade. Começo a ficar

um pouco constrangida.

— Tem alguma coisa na minha cara? — Passo a mão na bochecha,

procurando migalhas ou maquiagem borrada. O que estou dizendo? Mariko

nunca permitiria algo assim.

Ele balança a cabeça.

— Não.

— Então o que está olhando? — Estamos ainda mais perto, nossos peitos

quase se tocando. Minhas mãos não param quietas. Nossas respirações

estão sincronizadas.

— Só estou tentando te entender.

Só isso?

— Boa sorte. Homens mais aptos do que você tentaram e falharam. —

Mentira. Para uma princesa, eu beijei uma quantidade considerável de

sapos. Falo, baixinho: — Me avise quando tiver uma resposta.

— No começo, pensei que você fosse meio idiota. — Uau. Direto. —

Mas eu estava errado… Acho que você é muito responsável com as coisas

que lhe são importantes. Acho que você age com o coração.

Ficamos nos olhando.

Alguém pigarreia na porta. Assim como naquela noite no carro, nos

afastamos. A onda de eletricidade se dissipa. O pai de Akio fala em

japonês.

— O chá está pronto — Akio traduz, seco.

O chá é servido na sala de estar: ocha verde brilhante em uma xícara de

porcelana azul. Enquanto bebemos, lanço olhares para Akio, fico vermelha

e viro o rosto. Suas últimas palavras ficam ressoando na minha cabeça.

Acho que você age com o coração.

FOFOCAS DE TÓQUIO

 

Flagra: A Borboleta Perdida e seu pai, o príncipe

herdeiro, passeiam pela cidade

 

2 de abril de 2021

Enquanto Suas Majestades Imperiais o Imperador e a Imperatriz Takehito estão fora do país em uma visita oficial ao Vietnã, seu filho, Sua Alteza Imperial o Príncipe Herdeiro Toshihito, tem feito aparições pela cidade em uma série de eventos públicos não oficiais com sua filha, Sua Alteza Imperial a Princesa Izumi.

Na segunda-feira, os dois participaram do 42o Festival Ásia-Pacífico e do bazar beneficente em Tóquio. Enquanto perambulava pelo local, a princesa tomou a frente e cumprimentou Sua Excelência o Embaixador Sam Sorm no estande de artesanatos da Embaixada Real do Camboja — literalmente, um passo em falso. Pelo visto, ninguém informou a princesa de que ela deveria ter esperado seu pai, o príncipe herdeiro, cumprimentar Sua Excelência antes de tudo. Provavelmente, a princesa estava apenas honrando uma de suas tradições estadunidenses: “Primeiro as damas”. Não é isso que os ocidentais costumam dizer?

Na quarta-feira, os dois compareceram à inauguração de uma galeria. Na ocasião, a princesa Izumi puxou conversa com a polêmica artista Yoko Foujita, ferrenha oponente da família imperial. Os assessores da Casa Imperial rapidamente interromperam a conversa, mas o Fofocas de Tóquio conseguiu obter uma foto exclusiva do momento (detalhe em anexo).

Finalmente, na quinta-feira, pai e filha foram vistos na partida de beisebol de abertura da temporada. Eles estavam na cabine imperial, usando bonés iguais e dividindo um copo da sobremesa kakigōri (abaixo, S.A.I. a Princesa Izumi

apontando para os jogadores). Mais tarde, os dois cumprimentaram os times, e a princesa pareceu priorizar um dos jogadores por tempo demais.

O casamento do primeiro-ministro Adachi se aproxima — toda a família imperial comparecerá ao evento oficialmente, com exceção do imperador e da imperatriz. Quem não está na lista de convidados? A irmã do primeiro-ministro, Sadako Adachi. Os dois estão no meio de uma guerra ferrenha desde que Sadako escreveu uma contundente denúncia de que o primeiro-ministro seria infiel e teria ligações com a yakuza. Há rumores de que o primeiro-ministro demitiu um funcionário apenas por ter mencionado sua irmã. Uma pena que repórteres não terão permissão para entrar no casamento e na recepção. Assim como o resto de Tóquio, só poderemos assistir do lado de fora. Mas que espetáculo o evento promete ser…