Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 23
Yoshi fica por mais uns dias. Passeamos pela cidade, visitando vários
lugares e perambulando por ruas estreitas, ladeadas por lojinhas de telhas de
cerâmica. Em duas noites seguidas, jantamos no McDonalds e pedimos
hambúrguer de camarão, sanduíche de frango, milho doce e shaka-chicki —
frango frito servido em um saquinho de papel com vários molhos. Nossa
diversão acaba depois de quarenta horas.
Voltamos para Tóquio juntos. A viagem de trem é agitada. No meio do
caminho, o furão de Yoshi escapa da gaiola e causa uma confusão. Não
gosto muito de ver os guardas imperiais perseguindo a criatura pelos
vagões. Bem, talvez um pouco.
— Vou mandar fazer um casaco de pele daquele roedor — Reina ameaça,
voltando a se sentar.
Sua testa está coberta de suor, e seu casaco preto está cheio de pelos
brancos. Um guarda segura o furão com as duas mãos e o obriga a voltar
para a gaiola de couro com o monograma imperial.
Yoshi faz beicinho e diz:
— Não acredito que você faria uma coisa dessas com nosso amado
filhinho.
Reina não responde, mas seu olhar passa uma mensagem bem clara:
espero que você morra.
Levanto do assento de veludo roxo, pego uma lata de Pocari Sweat no
bar e procuro Akio pelos vagões.
— Sua Alteza. — Ele faz uma reverência. Gosto de como seu tom mudou
comigo. É mais baixo. Delicado. Íntimo. Ele tá de volta em seu terno, todo
abotoado e perfeito. Mas agora sei como é sentir aquele colarinho
engomado sob os meus dedos.
Abro a latinha e a ofereço a ele.
— Tenho quase certeza de que Reina está no limite com Yoshi. — Ele
aceita a bebida.
Nossas mãos se tocam e paralisamos. Um. Dois. Três segundos. Nos
afastamos.
— Gimu — digo, desolada, nos trazendo de volta à terra.
Não aqui. Não agora. Talvez nunca mais.
— Certo. Gimu. — Ele limpa a garganta.
Viro, com a intenção de voltar para o vagão.
— Izumi. — Paro.
Não olho para ele, mas fico toda acesa por dentro só de lembrar do nosso
beijo ardente. Um papelzinho é colocado na palma da minha mão. Fecho os
dedos em volta dele.
De volta ao meu vagão, escolho um assento no canto e me encolho, de
costas para o resto do trem. Com muito cuidado, abro o papel. São cinco
linhas. Trinta e uma sílabas. É um waka, um poema, de Akio.
A terra esquece mas
Sempre me lembrarei
Dos karaokês
Farmácias, xícaras de chá
E pratos de dorayaki
Quando chegamos à estação, Yoshi e eu somos levados para direções
opostas.
Sigo para o palácio imperial. As ruas estão enfeitadas com bandeirolas
vermelhas e crisântemos dourados, preparando-se para o aniversário do
imperador. Há uma espécie de zumbido no ar, tudo é arranjado para ativar
substâncias felizes no nosso corpo, para nos fazer acreditar que o mundo é
um lugar maravilhoso. Ainda assim, meu estômago dá cambalhotas de
nervoso. Kyoto parece fácil em comparação a Tóquio, especialmente
porque ainda não falei com meu pai desde que ele voltou. Trocamos
mensagens, mas tenho mandado respostas vagas e genéricas. Não estou
mais brava, mas é melhor dizer algumas coisas pessoalmente. Ou talvez eu
só esteja evitando o confronto… Sim, provavelmente é isso. Tão típico. No
assento ao meu lado, há um pergaminho enrolado com uma cordinha
vermelha, um presente para o meu pai.
Mariko percebe meu humor e fica em silêncio. Garota esperta. Chegamos
ao palácio. Akio abre a porta do carro, mas fico parada, alisando meu
vestido azul-marinho e mexendo na barra da saia. Demoro tanto que meu
pai começa a me procurar com os olhos. Ele está parado na varanda, me
esperando.
— Ele vai gostar do presente — Mariko diz.
— Sim — respondo, lembrando a mim mesma que meu mundo não vai
parar nem recomeçar com a aprovação do meu pai.
— Então… vou sair do carro agora, tudo bem? — Mariko avisa,
lentamente. — Lembre que temos prova de vestidos para o aniversário do
imperador. Onze horas em ponto. — Ela sai e faz uma reverência ao passar
pelo meu pai.
Conto até cinco e desço do carro, seguindo-a. Com o pergaminho em
uma das mãos, ergo a outra para cumprimentá-lo.
— Oi.
Akio está atrás de mim. Seu poema está enfiado no bolso do meu vestido.
Um lembrete que vou guardar para sempre comigo.
— Izumi, oi — meu pai responde.
Ficamos nos encarando mais ou menos do mesmo jeito que fizemos no
nosso primeiro encontro.
— Como foi de viagem? — pergunto, me aproximando.
A porta do carro fecha. Não preciso olhar para saber que Akio não está
mais lá. Ouço passos, a bagagem sendo descarregada, e então o veículo
imperial vai embora.
— Bem — ele diz. — E como foi a sua viagem?
— Boa — respondo, apertando os olhos contra o sol da manhã.
— O que é isso? — Ele aponta para o papel enrolado.
— Ah. — Minha mão se fecha um pouco em torno do pergaminho. —
Hum. É um presente para você.
— Você trouxe um presente para mim? — Ele pisca.
— Bem, sim. Não é nada de mais. Só algo que eu fiz. — Lembro do
antigo divã do embaixador francês em sua sala de estar. Do relógio Patek
Philippe do imperador em seu pulso. Da baia com meia dúzia de cavalos
árabes do sultão de Brunei.
Ele balança nos calcanhares, com uma expressão consideravelmente mais
calorosa.
— Também trouxe um presente para você.
— Para mim?
— Está no meu escritório. Vamos entrar? — Ele murmura.
Um mordomo abre a porta para nós. O cheiro do Palácio Leste é familiar
— leve e fresco, com um toque cítrico. É bom estar de volta. O escritório
do meu pai está igual, exceto por uma nova aquisição. Olho para a orquídea em sua janela, disposta em um vaso de bambu enfeitado com uma borla
roxa. Suas folhas amarelas e verdes são longas e estreitas, listradas feito a
cauda de um tigre. As flores são minúsculas, brancas e perfumadas.
— Fūkiran — meu pai diz. — É uma espécie de orquídea cultivada
desde o Período Edo pelos senhores feudais, que costumavam oferecê-la de
presente para o xogum ou para o imperador. — Ele fecha a porta de correr
do escritório.
— Eu sei. — Sorrio porque conheço essa espécie. Minha mãe tem uma
xilogravura dela sobre sua mesa de cabeceira. Neofinetia falcata. — É a
favorita da minha mãe.
— Sim.
Levanto a cabeça de uma vez. O sorriso do meu pai é um pouco tímido,
reservado.
— Eu as cultivo para ela.
Finjo naturalidade, com o pergaminho esquecido na minha mão.
— É mesmo? — Eu sabia. Sabia.
Ele dá um passo à frente e toca a borla.
— Você soube assim que viu a estufa. — Ele dá de ombros, e sua
expressão se torna contemplativa. — Acho que pensei que poderia manter
uma parte dela comigo. Funcionou por um tempo. As lembranças pareciam
ser suficientes. Mas ter você aqui me fez questionar se são mesmo. Não
preciso manter essa parte da minha história separada. Foi por isso que pedi
para o jardineiro colocar uma orquídea aqui. Eu gostaria de ser o homem
que fui um dia e o homem que sou hoje. Você acha que isso é possível?
Será que posso unificar os dois?
Minha garganta parece seca.
— Acho que tudo é possível.
Ele assente e franze as sobrancelhas, olhando para baixo.
— Estou feliz por você estar de volta. Não gostei de como as coisas
ficaram entre nós na última vez em que nos vimos. Quanto ao casamento,
minha reação… Me desculpe. Eu estava bravo…
— Não precisa se explicar. Eu entendo. — Não é necessário reviver todo
aquele constrangimento, como eu quase causei um escândalo digno dos
tabloides, como eu o humilhei. Quero que ele se orgulhe de mim, dessa
pessoa que ele fez. Quero mostrar a ele que sou capaz de ser uma princesa,
de ser parte do Japão e de ser sua filha.
— Entende? — Seu rosto é tomado por alívio.
Murmuro concordando.
— No começo, pensei que Kyoto fosse uma punição.
— O quê? Não…
— Mas então encarei como uma oportunidade. Você estava certo —
acrescento, animada. — É como a vez em que engoli um ímã aos quatro
anos e minha mãe teve que me levar para o pronto-socorro. Eu me acabei de
chorar porque tinha deixado minha mãe brava e me metido em encrenca.
Mas o médico me ensinou várias coisas sobre os polos norte e sul, e acabei
aprendendo muito naquele dia. Kyoto foi mais ou menos assim também.
Faz sentido?
— Perfeitamente. — Ele sorri. — Sinto muito mesmo. Só para esclarecer,
Kyoto não foi uma punição. Eu adoro a cidade, é um dos meus lugares
favoritos. Pensei que você fosse gostar, com toda a sinceridade.
De repente, fico emocionada.
— Está tudo bem — digo. — Vamos deixar isso pra lá.
— Seria ótimo — ele diz.
Por mim, podemos começar do zero. Está tudo bem. E vai continuar
assim se eu não estragar tudo de novo.
Meu pai abre as mãos.
— Então… Vamos aos presentes?
Engulo em seco. Fico olhando para o pergaminho.
— Claro.
Nos acomodamos: ele atrás da escrivaninha, eu em uma cadeira estofada.
Cruzo os tornozelos e lhe entrego o papel.
— Como eu disse, não é nada de mais. Só andei praticando kanji. — Ele
o pega como se fosse uma peça de vidro e o desenrola com cuidado,
revelando seu nome. — Você não precisa fazer nada com isso…
— Que lindo. — Seus olhos marejados encontram os meus. Ele está
genuinamente emocionado. — É o melhor presente que já ganhei. Vou
mandar emoldurar e pendurar naquela parede ali — ele aponta para a
parede dos fundos —, para que eu possa olhá-lo todos os dias.
Não estou chorando. Você que está.
— Obrigado. — Ele fica admirando o pergaminho por um tempo. Em
seguida, pega um envelope pardo no canto da escrivaninha e me dá. — Para
você.
Seguro o envelope por um tempo. É grosso e pesado.
— Posso abrir?
— Por favor.
Mordo o lábio e tiro o que tem dentro. Fotos em preto e branco se
destacam de um álbum e caem no chão.
— A história da família Tanaka… — leio em voz alta.
— Antes de partir para Kyoto, perguntei por que você veio ao Japão.
Lembra o que respondeu?
— Para me encontrar — sussurro.
— A minha parte da família é literalmente um livro aberto. A família
imperial tem sido catalogada há gerações. Mas a família da sua mãe… Bem, pedi a um professor da Universidade de Tóquio que investigasse a
genealogia da família dela.
Percorro as páginas. Tem tanta história ali. Nomes e datas que remontam
a cerca de cem anos. Chega a ser difícil imaginar. Há até um kamon, o
brasão da minha família materna: um azevinho de três folhas. Passo o dedo
pela imagem.
— Sua avó materna era uma noiva de guerra. — Meu pai levanta e dá a
volta na mesa. Pega uma fotografia do chão e me entrega. A foto mostra
uma mulher de quimono ao lado de um homem em um terno de tweed. Vejo
minha mãe nos dois. — Parece que ela escolheu a vida nos Estados Unidos
em vez de um casamento arranjado no Japão, embora também não deixe de
ser uma espécie de casamento arranjado. Suponho que ela quisesse escolher
seu próprio destino.
— Talvez ela quisesse viver uma aventura. — Fico olhando para a foto,
para todos os documentos. É coisa demais para analisar agora, e estou me
coçando para começar a leitura. — Este é… o melhor presente que já me
deram.
— Agora você sabe de onde veio.
— Obrigada. — Estou impressionada. Eufórica. Não me sinto mais
perdida.
O relógio bate. Onze horas em ponto. Mariko ou algum assistente vai
bater na porta em breve. Nosso tempo não é propriamente nosso. Meu pai
também sabe disso. Levanto da cadeira. Ele me leva até a porta, mas hesita
antes de abri-la.
Penso que vai me abraçar. No entanto, ele baixa os braços, fecha as mãos.
Yoshi disse que demonstrações públicas de afeto não são muito comuns no
Japão. Então me contenho e espero.
— É bom tê-la em casa — meu pai finalmente diz.
Eu não poderia concordar mais. Um sorriso surge em meu rosto. Abraço
os papéis.
— É bom estar em casa.
Depois do jantar, encontro Akio fora do palácio. O sol está se pondo,
deixando tudo com um tom alaranjado e vermelho brilhante. Guardas fazem
suas rondas e meu pai está no escritório. Se ele olhar pela janela, pode me
ver. Melhor sermos rápidos.
Me aproximo com cuidado com um bilhete na mão e o coração batendo
acelerado nas costelas feito um pássaro desesperado na gaiola.
— Akio — chamo, e ele vira.
— Acho que você deixou isso cair mais cedo. — Estico a mão e ele pega
o papel dobrado.
Primeiro, ele franze as sobrancelhas. Mas, depois, sorri ao entender.
Inclina a cabeça. Fico sem ar.
— Obrigado, Sua Alteza.
Sigo para a porta da frente e viro no último minuto, a tempo de ver Akio
desdobrar o bilhete e abrir um sorriso tão grande que toma todo o seu rosto.
Agora entendo
A solidão do sol
Seu trabalho interminável
Subindo, subindo
Incendiando tudo o que vê