Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 24 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 23

 

 

Yoshi fica por mais uns dias. Passeamos pela cidade, visitando vários

lugares e perambulando por ruas estreitas, ladeadas por lojinhas de telhas de

cerâmica. Em duas noites seguidas, jantamos no McDonalds e pedimos

hambúrguer de camarão, sanduíche de frango, milho doce e shaka-chicki —

frango frito servido em um saquinho de papel com vários molhos. Nossa

diversão acaba depois de quarenta horas.

Voltamos para Tóquio juntos. A viagem de trem é agitada. No meio do

caminho, o furão de Yoshi escapa da gaiola e causa uma confusão. Não

gosto muito de ver os guardas imperiais perseguindo a criatura pelos

vagões. Bem, talvez um pouco.

— Vou mandar fazer um casaco de pele daquele roedor — Reina ameaça,

voltando a se sentar.

Sua testa está coberta de suor, e seu casaco preto está cheio de pelos

brancos. Um guarda segura o furão com as duas mãos e o obriga a voltar

para a gaiola de couro com o monograma imperial.

Yoshi faz beicinho e diz:

— Não acredito que você faria uma coisa dessas com nosso amado

filhinho.

Reina não responde, mas seu olhar passa uma mensagem bem clara:

espero que você morra.

Levanto do assento de veludo roxo, pego uma lata de Pocari Sweat no

bar e procuro Akio pelos vagões.

— Sua Alteza. — Ele faz uma reverência. Gosto de como seu tom mudou

comigo. É mais baixo. Delicado. Íntimo. Ele tá de volta em seu terno, todo

abotoado e perfeito. Mas agora sei como é sentir aquele colarinho

engomado sob os meus dedos.

Abro a latinha e a ofereço a ele.

— Tenho quase certeza de que Reina está no limite com Yoshi. — Ele

aceita a bebida.

Nossas mãos se tocam e paralisamos. Um. Dois. Três segundos. Nos

afastamos.

— Gimu — digo, desolada, nos trazendo de volta à terra.

Não aqui. Não agora. Talvez nunca mais.

— Certo. Gimu. — Ele limpa a garganta.

Viro, com a intenção de voltar para o vagão.

— Izumi. — Paro.

Não olho para ele, mas fico toda acesa por dentro só de lembrar do nosso

beijo ardente. Um papelzinho é colocado na palma da minha mão. Fecho os

dedos em volta dele.

De volta ao meu vagão, escolho um assento no canto e me encolho, de

costas para o resto do trem. Com muito cuidado, abro o papel. São cinco

linhas. Trinta e uma sílabas. É um waka, um poema, de Akio.

 

A terra esquece mas

Sempre me lembrarei

Dos karaokês

Farmácias, xícaras de chá

E pratos de dorayaki

Quando chegamos à estação, Yoshi e eu somos levados para direções

opostas.

Sigo para o palácio imperial. As ruas estão enfeitadas com bandeirolas

vermelhas e crisântemos dourados, preparando-se para o aniversário do

imperador. Há uma espécie de zumbido no ar, tudo é arranjado para ativar

substâncias felizes no nosso corpo, para nos fazer acreditar que o mundo é

um lugar maravilhoso. Ainda assim, meu estômago dá cambalhotas de

nervoso. Kyoto parece fácil em comparação a Tóquio, especialmente

porque ainda não falei com meu pai desde que ele voltou. Trocamos

mensagens, mas tenho mandado respostas vagas e genéricas. Não estou

mais brava, mas é melhor dizer algumas coisas pessoalmente. Ou talvez eu

só esteja evitando o confronto… Sim, provavelmente é isso. Tão típico. No

assento ao meu lado, há um pergaminho enrolado com uma cordinha

vermelha, um presente para o meu pai.

Mariko percebe meu humor e fica em silêncio. Garota esperta. Chegamos

ao palácio. Akio abre a porta do carro, mas fico parada, alisando meu

vestido azul-marinho e mexendo na barra da saia. Demoro tanto que meu

pai começa a me procurar com os olhos. Ele está parado na varanda, me

esperando.

— Ele vai gostar do presente — Mariko diz.

— Sim — respondo, lembrando a mim mesma que meu mundo não vai

parar nem recomeçar com a aprovação do meu pai.

— Então… vou sair do carro agora, tudo bem? — Mariko avisa,

lentamente. — Lembre que temos prova de vestidos para o aniversário do

imperador. Onze horas em ponto. — Ela sai e faz uma reverência ao passar

pelo meu pai.

Conto até cinco e desço do carro, seguindo-a. Com o pergaminho em

uma das mãos, ergo a outra para cumprimentá-lo.

— Oi.

Akio está atrás de mim. Seu poema está enfiado no bolso do meu vestido.

Um lembrete que vou guardar para sempre comigo.

— Izumi, oi — meu pai responde.

Ficamos nos encarando mais ou menos do mesmo jeito que fizemos no

nosso primeiro encontro.

— Como foi de viagem? — pergunto, me aproximando.

A porta do carro fecha. Não preciso olhar para saber que Akio não está

mais lá. Ouço passos, a bagagem sendo descarregada, e então o veículo

imperial vai embora.

— Bem — ele diz. — E como foi a sua viagem?

— Boa — respondo, apertando os olhos contra o sol da manhã.

— O que é isso? — Ele aponta para o papel enrolado.

— Ah. — Minha mão se fecha um pouco em torno do pergaminho. —

Hum. É um presente para você.

— Você trouxe um presente para mim? — Ele pisca.

— Bem, sim. Não é nada de mais. Só algo que eu fiz. — Lembro do

antigo divã do embaixador francês em sua sala de estar. Do relógio Patek

Philippe do imperador em seu pulso. Da baia com meia dúzia de cavalos

árabes do sultão de Brunei.

Ele balança nos calcanhares, com uma expressão consideravelmente mais

calorosa.

— Também trouxe um presente para você.

— Para mim?

— Está no meu escritório. Vamos entrar? — Ele murmura.

Um mordomo abre a porta para nós. O cheiro do Palácio Leste é familiar

— leve e fresco, com um toque cítrico. É bom estar de volta. O escritório

do meu pai está igual, exceto por uma nova aquisição. Olho para a orquídea em sua janela, disposta em um vaso de bambu enfeitado com uma borla

roxa. Suas folhas amarelas e verdes são longas e estreitas, listradas feito a

cauda de um tigre. As flores são minúsculas, brancas e perfumadas.

— Fūkiran — meu pai diz. — É uma espécie de orquídea cultivada

desde o Período Edo pelos senhores feudais, que costumavam oferecê-la de

presente para o xogum ou para o imperador. — Ele fecha a porta de correr

do escritório.

— Eu sei. — Sorrio porque conheço essa espécie. Minha mãe tem uma

xilogravura dela sobre sua mesa de cabeceira. Neofinetia falcata. — É a

favorita da minha mãe.

— Sim.

Levanto a cabeça de uma vez. O sorriso do meu pai é um pouco tímido,

reservado.

— Eu as cultivo para ela.

Finjo naturalidade, com o pergaminho esquecido na minha mão.

— É mesmo? — Eu sabia. Sabia.

Ele dá um passo à frente e toca a borla.

— Você soube assim que viu a estufa. — Ele dá de ombros, e sua

expressão se torna contemplativa. — Acho que pensei que poderia manter

uma parte dela comigo. Funcionou por um tempo. As lembranças pareciam

ser suficientes. Mas ter você aqui me fez questionar se são mesmo. Não

preciso manter essa parte da minha história separada. Foi por isso que pedi

para o jardineiro colocar uma orquídea aqui. Eu gostaria de ser o homem

que fui um dia e o homem que sou hoje. Você acha que isso é possível?

Será que posso unificar os dois?

Minha garganta parece seca.

— Acho que tudo é possível.

Ele assente e franze as sobrancelhas, olhando para baixo.

— Estou feliz por você estar de volta. Não gostei de como as coisas

ficaram entre nós na última vez em que nos vimos. Quanto ao casamento,

minha reação… Me desculpe. Eu estava bravo…

— Não precisa se explicar. Eu entendo. — Não é necessário reviver todo

aquele constrangimento, como eu quase causei um escândalo digno dos

tabloides, como eu o humilhei. Quero que ele se orgulhe de mim, dessa

pessoa que ele fez. Quero mostrar a ele que sou capaz de ser uma princesa,

de ser parte do Japão e de ser sua filha.

— Entende? — Seu rosto é tomado por alívio.

Murmuro concordando.

— No começo, pensei que Kyoto fosse uma punição.

— O quê? Não…

— Mas então encarei como uma oportunidade. Você estava certo —

acrescento, animada. — É como a vez em que engoli um ímã aos quatro

anos e minha mãe teve que me levar para o pronto-socorro. Eu me acabei de

chorar porque tinha deixado minha mãe brava e me metido em encrenca.

Mas o médico me ensinou várias coisas sobre os polos norte e sul, e acabei

aprendendo muito naquele dia. Kyoto foi mais ou menos assim também.

Faz sentido?

— Perfeitamente. — Ele sorri. — Sinto muito mesmo. Só para esclarecer,

Kyoto não foi uma punição. Eu adoro a cidade, é um dos meus lugares

favoritos. Pensei que você fosse gostar, com toda a sinceridade.

De repente, fico emocionada.

— Está tudo bem — digo. — Vamos deixar isso pra lá.

— Seria ótimo — ele diz.

Por mim, podemos começar do zero. Está tudo bem. E vai continuar

assim se eu não estragar tudo de novo.

Meu pai abre as mãos.

— Então… Vamos aos presentes?

Engulo em seco. Fico olhando para o pergaminho.

— Claro.

Nos acomodamos: ele atrás da escrivaninha, eu em uma cadeira estofada.

Cruzo os tornozelos e lhe entrego o papel.

— Como eu disse, não é nada de mais. Só andei praticando kanji. — Ele

o pega como se fosse uma peça de vidro e o desenrola com cuidado,

revelando seu nome. — Você não precisa fazer nada com isso…

— Que lindo. — Seus olhos marejados encontram os meus. Ele está

genuinamente emocionado. — É o melhor presente que já ganhei. Vou

mandar emoldurar e pendurar naquela parede ali — ele aponta para a

parede dos fundos —, para que eu possa olhá-lo todos os dias.

Não estou chorando. Você que está.

— Obrigado. — Ele fica admirando o pergaminho por um tempo. Em

seguida, pega um envelope pardo no canto da escrivaninha e me dá. — Para

você.

Seguro o envelope por um tempo. É grosso e pesado.

— Posso abrir?

— Por favor.

Mordo o lábio e tiro o que tem dentro. Fotos em preto e branco se

destacam de um álbum e caem no chão.

— A história da família Tanaka… — leio em voz alta.

— Antes de partir para Kyoto, perguntei por que você veio ao Japão.

Lembra o que respondeu?

— Para me encontrar — sussurro.

— A minha parte da família é literalmente um livro aberto. A família

imperial tem sido catalogada há gerações. Mas a família da sua mãe… Bem, pedi a um professor da Universidade de Tóquio que investigasse a

genealogia da família dela.

Percorro as páginas. Tem tanta história ali. Nomes e datas que remontam

a cerca de cem anos. Chega a ser difícil imaginar. Há até um kamon, o

brasão da minha família materna: um azevinho de três folhas. Passo o dedo

pela imagem.

— Sua avó materna era uma noiva de guerra. — Meu pai levanta e dá a

volta na mesa. Pega uma fotografia do chão e me entrega. A foto mostra

uma mulher de quimono ao lado de um homem em um terno de tweed. Vejo

minha mãe nos dois. — Parece que ela escolheu a vida nos Estados Unidos

em vez de um casamento arranjado no Japão, embora também não deixe de

ser uma espécie de casamento arranjado. Suponho que ela quisesse escolher

seu próprio destino.

— Talvez ela quisesse viver uma aventura. — Fico olhando para a foto,

para todos os documentos. É coisa demais para analisar agora, e estou me

coçando para começar a leitura. — Este é… o melhor presente que já me

deram.

— Agora você sabe de onde veio.

— Obrigada. — Estou impressionada. Eufórica. Não me sinto mais

perdida.

O relógio bate. Onze horas em ponto. Mariko ou algum assistente vai

bater na porta em breve. Nosso tempo não é propriamente nosso. Meu pai

também sabe disso. Levanto da cadeira. Ele me leva até a porta, mas hesita

antes de abri-la.

Penso que vai me abraçar. No entanto, ele baixa os braços, fecha as mãos.

Yoshi disse que demonstrações públicas de afeto não são muito comuns no

Japão. Então me contenho e espero.

— É bom tê-la em casa — meu pai finalmente diz.

Eu não poderia concordar mais. Um sorriso surge em meu rosto. Abraço

os papéis.

— É bom estar em casa.

 

Depois do jantar, encontro Akio fora do palácio. O sol está se pondo,

deixando tudo com um tom alaranjado e vermelho brilhante. Guardas fazem

suas rondas e meu pai está no escritório. Se ele olhar pela janela, pode me

ver. Melhor sermos rápidos.

Me aproximo com cuidado com um bilhete na mão e o coração batendo

acelerado nas costelas feito um pássaro desesperado na gaiola.

— Akio — chamo, e ele vira.

— Acho que você deixou isso cair mais cedo. — Estico a mão e ele pega

o papel dobrado.

Primeiro, ele franze as sobrancelhas. Mas, depois, sorri ao entender.

Inclina a cabeça. Fico sem ar.

— Obrigado, Sua Alteza.

Sigo para a porta da frente e viro no último minuto, a tempo de ver Akio

desdobrar o bilhete e abrir um sorriso tão grande que toma todo o seu rosto.

 

Agora entendo

A solidão do sol

Seu trabalho interminável

Subindo, subindo

Incendiando tudo o que vê