Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 26 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 25

 

Era uma vez, uma época em que xoguns governavam o Japão. Uma rígida

sociedade hierárquica se estabeleceu durante dois séculos e meio.

Tokugawa, o último xogum, caiu em 1868, quando dois clãs poderosos

(cujos nomes não me lembro) uniram forças e tomaram o controle. Eles

colocaram o imperador de volta ao trono e abriram as fronteiras. Esse foi o

fim do feudalismo. O sistema de classes foi abolido. O Japão moderno

surgiu. O país se transformou em uma potência mundial.

Estou no novo palácio imperial, que foi construído no topo do Castelo

Edo, a antiga residência do xogunato Tokugawa. Na verdade, os edifícios

foram queimados e reconstruídos algumas vezes. O solo abaixo dos meus

pés testemunhou nascimentos, mortes e coroações. Guerras foram travadas,

perdidas e vencidas. Tudo isso aconteceu dentro deste projeto de cidadela.

— Que tal perto das janelas? — O fotógrafo imperial me pergunta, sua

voz ecoando pelo espaço.

A imensa sala em que estamos geralmente é utilizada em jantares

oficiais, mas hoje está vazia.

Ajusto a bainha do meu vestido desenhado pela estilista Hanae Mori —

rosa-claro com motivo floral e mangas de chiffon — e me aproximo da

janela iluminada pelo sol que vai do chão ao teto. Fico olhando para fora

enquanto o fotógrafo tira uma foto minha de perfil. Uma multidão se reúne do lado de fora. As pessoas vieram comemorar o aniversário do imperador.

Hoje é feriado nacional. O comércio está fechado, e os terrenos imperiais

estão abertos ao público.

Clique. Flash.

— Obrigado, Sua Alteza. Vou verificar com o sr. Fuchigami, mas acho

que já tenho tudo de que preciso.

Inclino a cabeça para ele. Uma dessas imagens se tornará minha foto

oficial. Sempre que eu olhar para ela, vou lembrar que foi tirada alguns

minutos antes de eu conhecer meus avós. Agora, sim, cheguei oficialmente.

Meu pai já está com o imperador e a imperatriz. No momento, estou

esperando-o na antessala. O fotógrafo se retira. Akio entra.

Verifica as horas.

— Mais alguns minutos.

Para eu conhecer meus avós, ele quer dizer.

Mordo o lábio, preocupada.

— Não pensei que ficaria tão nervosa. Como estou? Não tem nada

constrangedor, tipo papel higiênico nos meus sapatos ou comida nos meus

dentes? — Mostro a ele meus dentes brancos. Por favor, que não haja nada

nos meus dentes.

Ele me olha da cabeça aos pés.

— Você está… — Linda? Maravilhosa? — Bem.

Dou risada. Ele nunca deixa de me surpreender.

— Uau. Não acredito que já cheguei a pensar que você não era

encantador. Mas vou encarar como um elogio. Só queria me encaixar.

Ele dá um sorriso torto.

— Talvez você não tenha sido feita para se encaixar. Talvez tenha sido

feita para se destacar. — Meu coração bate forte e depressa. Ele faz uma reverência. — Você é linda, Sua Alteza. — Ele olha para baixo, hesitante.

— Eu provavelmente não deveria ter dito isso.

— Não, provavelmente não. Mas, só para esclarecer, sou linda feito um

unicórnio que tomou um banho de purpurina?

— Não. — Fico decepcionada com sua resposta enfática. — Eu nunca

diria algo assim.

— Claro que não.

Ele se aproxima. Estamos a trinta centímetros de distância um do outro.

A voz de Akio é baixa, rouca e cheia de uma melancolia doce quando diz:

— Se eu fosse livre para falar, diria que você me lembra Kannon, a deusa

da misericórdia, com seus cabelos escuros que absorvem toda a luz. Ela era

tão linda que, quando os homens a olhavam, acabavam cegos… Não estava

ao alcance dos mortais. — Com um dedo, ele contorna o meu rosto,

deixando um rastro de faíscas.

— Bem, acho que isso é melhor.

Ele se afasta e abre um sorriso irônico.

— Acho que sim.

Prendo a respiração. Estou lutando para encontrar palavras para dizer a

ele que, quando estamos juntos, é como se estivéssemos na proa de um

navio e eu pudesse sentir a maré e o vento em meus cabelos.

— Akio, eu…

— Precisamos conversar — ele fala ao mesmo tempo.

Suas palavras cortam a bruma em que me encontro.

— Parece sério. — Meu tom despreocupado não é convincente. De

repente, a sensação é a de engolir uma colmeia de abelhas.

Minhas entranhas se contorcem de apreensão.

Akio franze as sobrancelhas.

— Não, não é nada disso. É sério, mas é bom. Pelo menos eu acho.

— Por favor. Pode me dizer qualquer coisa.

As portas se abrem. É o sr. Fuchigami.

— Sua Alteza.

O momento é péssimo, mas isso era inevitável.

— Te encontro depois, durante o almoço — digo, baixinho.

Akio assente, já com sua máscara de guarda imperial firme no lugar.

Deixei minhas luvas no parapeito da janela. Vou pegá-las e depois sigo o sr.

Fuchigami. Akio também se encaminhou para a porta. Quando passo por

ele, Akio toca levemente meu pulso com o dedo. Isso me dá coragem. Meus

passos ficam mais seguros. É incrível como um único toque pode significar

tanto.

 

Meu pai está me esperando no corredor. Ele sorri com gentileza e

começamos a caminhar pelo tapete vermelho, eu me mantenho um passo

atrás. O corredor está repleto de luminárias de bambu uniformemente

espaçadas, e eu as conto conforme nos movemos.

Quando nos deparamos com um conjunto de portas, ele para.

— Não se deixe intimidar. Basta se lembrar que eles assistem a novelas e

a lutas de sumô à noite — ele sussurra com uma piscadela. — Vamos só

conversar um pouco. Depois, vou acompanhar meus pais até a varanda.

Você pode assistir dos bastidores, se quiser. Eu fazia isso quando era

menino. — Somente os membros da família imperial que atingiram

determinada idade podem ficar na varanda e saudar o Japão. É a tradição.

Relaxo um pouco. Sorrio. Tento aparentar confiança. Meu pai acena para

dois criados de luvas brancas. As portas são abertas, dobrando-se feito um

origami elegante. Agora entendo. Essas portas de correr fazem parte do

estilo japonês. Todos nós somos apenas uma parte do todo.

Meu pai entrará no cômodo primeiro, como manda o protocolo imperial.

Vou seguir sozinha, sem Mariko, sr. Fuchigami ou Akio nas minhas costas.

Estico a coluna. Respiro fundo algumas vezes. Digo a mim mesma que um

pouco de pressão faz bem. É assim que os diamantes são feitos.

A Sala de Audiências é enorme. Há vários representantes ali, incluindo o

Grande Camarista, chefe do chefe do sr. Fuchigami. Uma quietude paira no

cômodo, um silêncio de templo. Mas não há frieza. A sala é toda feita de

cipreste. As paredes são revestidas de papel de parede com padrões de

bambu, dando um efeito caloroso e convidativo. No centro, a imperatriz e o

imperador estão sentados em cadeiras estofadas de seda, com uma mesa e

um jogo de chá entre eles. Simples. Caseiro.

Me aproximo, entrando em uma espécie de transe enquanto faço

reverências e menciono os títulos honoríficos corretos. Quando termino

meus cumprimentos, aguardo com a cabeça baixa. Na minha visão

periférica, vejo meu pai. Ele também está de pé. Nada se move. Nem

mesmo o tempo.

— Por favor — a imperatriz fala. Seu tom é cordial. — Sente-se.

Cadeiras são arrastadas. Meu pai e eu nos acomodamos. Deposito as

luvas no colo, cruzo as mãos sobre elas e mantenho meu olhar ali. Um

criado serve o chá, colocando a xícara e o pires na mesa à minha frente.

Minhas mãos estão tremendo quando os pego.

— Izumi-chan — a imperatriz fala.

Sua escolha pela forma de tratamento afetuosa me surpreende. Levanto o

olhar e logo o baixo de novo, envergonhada. Mas, neste instante, consigo

vê-la melhor. Sua personalidade é perceptível em suas feições: um rosto

oval com um nariz pequeno e olhos bondosos. Sua pele enrugada tem cor

de papel-manteiga, seu cabelo grisalho e brilhante está dividido ao meio, puxado para trás em um coque perfeito. Ela usa um quimono de seda

marrom com listras douradas e prateadas. É muito graciosa.

— Seu pai fala muito bem de você.

Ergo a cabeça de novo. Desta vez, olho da imperatriz para o imperador.

Há uma aura de impecabilidade sobre os dois. Meu avô é pequeno, já

próximo de sua nona década de vida. Um par de óculos redondos está

empoleirado em seu nariz e círculos negros se formam abaixo dos olhos —

provavelmente ainda não se recuperou por completo da fadiga. Seu terno

está um pouco folgado. É como se ele estivesse encolhendo com o tempo.

Seu nome imperial é Takehito. O sufixo “hito” sinaliza o nível mais alto de

virtude.

— Sono yōna shōsan ni ataishimasen — respondo, dizendo que não sou

digna de tal elogio.

— O sr. Fuchigami nos contou que você está indo bem nos estudos — a

imperatriz fala, os olhos brilhando.

Com a mão delicada e manchada pela idade, ela pega a xícara de chá e

beberica devagar.

— Ainda tenho muito o que aprender — respondo com tranquilidade.

A imperatriz contrai os lábios.

— Sim — ela diz, pousando a xícara na mesa com um leve tinido. —

Você não escolheu um hobby.

— Não, mas adoro botânica. — Uau, que baita improviso, Izumi.

Ela inclina a cabeça.

— Isso seria aceitável. Seu pai tem certo apreço por orquídeas. — Será

que ela sabe que o interesse do meu pai por orquídeas tem relação direta

com seu interesse pela minha mãe? — São sensíveis demais para mim.

Prefiro azaleias. Quando eu era pequena, bebia o néctar das flores.

Sorrio um pouco.

— Eu também fazia isso. — Minha mãe tinha azaleias por todo lado. Ela

me ensinou a retirar a flor do caule e sorver o néctar a partir da ponta,

conforme aprendeu com a mãe anos antes. Sempre pensei que fosse uma

coisa única para nós, da nossa família. Mas talvez seja mais que isso. Uma

espécie de conexão com o Japão, um fio invisível. — Eu gosto bastante da

espécie omurasaki.

Consegui cativar sua atenção.

— É uma linda flor. Sua mãe é botanista?

— Ela é professora de biologia em uma universidade, mas a botânica é

uma de suas paixões, sim.

Ela me lança um olhar astuto.

O imperador bate os dedos no braço de sua cadeira.

— Seria melhor se seus pais fossem casados.

Minhas entranhas se contorcem.

— Por favor, não comece — meu pai diz para o pai dele.

Meu avô acena a mão, mostrando quem manda ali.

— Mil e quinhentos anos de monarquia e nunca tivemos um filho

nascido fora do casamento.

— Isso não é verdade. — Meu pai está vermelho. — Ou esqueceu os

antigos aposentos das concubinas, hoje estábulos de cavalos?

O imperador levanta as sobrancelhas grossas.

— Você deveria se casar com a mãe dela. Ter mais filhos. Um menino.

No Japão, apenas homens podem herdar o trono. Isso vai contra o que

acredito. Tive discussões acaloradas com o sr. Fuchigami sobre o assunto. O

Japão teve várias imperatrizes até o século XVIII. Então, no século XIX, a

Constituição Meiji proibiu as mulheres de se tornarem herdeiras do trono.

Meu pai diz:

— Talvez seja hora de mudar as leis.

Meu coração quase para. A maioria das mulheres nascidas na família

imperial acaba se casando com plebeus, como minha prima Sachiko. Ela

está noiva do herdeiro de uma grande indústria de arroz. Quando se casar,

vai deixar oficialmente a família imperial e perder seu título. Parece que

vou seguir o mesmo caminho em algum dia bem longínquo. Mas meu pai

está aqui, sugerindo que eu me torne imperatriz. Uau, acho que ainda não

estou pronta para lidar com uma informação dessas.

— Izumi-chan — a imperatriz fala —, o que você acha disso?

“Pense no que você normalmente diria, então diga o contrário”, esse foi o

último conselho que Mariko me deu. A questão é que preciso comentar essa

discriminação de gênero. Por mim e por todas as mulheres. Na verdade,

tenho várias observações sobre esse assunto. Afinal, sou filha da minha

mãe.

Com cuidado, deposito minha xícara na mesa enquanto penso na resposta

mais diplomática.

— A Lei da Casa Imperial estipula que apenas filhos homens de

imperadores podem herdar o trono. No entanto, alguns estudiosos

argumentam que tal lei viola o princípio de equidade entre homens e

mulheres, conforme estabelecido no Artigo 14 da Constituição.

— Você estudou a Constituição? — A imperatriz me observa com

interesse.

— Sim — digo, com toda a educação. Valeu por essa, Mariko e sr.

Fuchigami. — Historicamente, há precedentes para o reinado de mulheres.

— Listo as oito imperatrizes que estudei, por interesse próprio. O que me

parece válido. Afinal, os homens têm feito isso há anos. — Podemos até

dizer que a deusa Amaterasu foi a primeira governante do Japão —

completo calmamente.

Meu pai cobre a boca para rir.

A imperatriz bebe um gole de seu chá.

— Estou inclinada a concordar com você.

— E a tradição? — o imperador pergunta. — Três gerações se passaram

desde que o estatuto Meiji entrou em vigor — ele fala sem emoção, como

se estivesse apenas desfrutando de um bom debate.

Meu pai se intromete:

— Tradições são importantes. Mas acredito que podem tanto unificar

quanto dividir. O senhor e minha mãe quebraram várias ao longo dos anos.

Criar os filhos em casa…

Assinto, sabendo a que ele está se referindo. Mariko me mostrou alguns

recortes de jornal. O imperador foi criado longe dos pais, e a nação ficou

chocada quando ele não seguiu os passos deles. Moderno demais, disseram.

O fim da monarquia, previram. Mando a meu pai um agradecimento

silencioso.

— Uma nova tradição nasceu depois disso — diz a imperatriz,

suavemente.

Meu avô dá tapinhas no joelho.

— De qualquer forma, a decisão não cabe a nós, mas ao povo.

Todos concordamos. Grandes coisas estão em jogo aqui, e obviamente

essa não é uma decisão que uma pessoa sozinha deva tomar. Somos parte de

uma instituição. Eu também sou filha do meu pai. Todos nós temos nosso

lugar.

O que não significa que a história não possa mudar. Apenas influencia

como essa mudança vai acontecer.

Além disso, nem sei se quero ser imperatriz. Ser princesa já é complicado

demais. Se bem que eu gostaria de pelo menos poder escolher. Esse é o

cerne da questão: escolhas.

O imperador levanta, seguido pela imperatriz. A sala volta à vida.

Assistentes e criados se aproximam. Meu pai levanta. Eu também. Ainda

segurando as luvas.

A imperatriz fala para mim:

— Você vai se sair bem aqui.

Sinto que é minha obrigação ser honesta e descarto o conselho de

Mariko.

— Meu período aqui tem sido cheio de contratempos, Sua Majestade.

— Não. Você vai se sair bem. Não se trata de uma previsão. Eu realmente

acredito.

Bem, é difícil argumentar contra isso. Ela sai atrás do imperador.

Meu pai se inclina e sussurra:

— Você sobreviveu.

Acabou. Respiro fundo e sinto como se tivesse inalando o ar depois de

voltar do fundo da piscina.

Meu pai começa a caminhar. Eu fico para trás, planejando seguir em um

minuto e assumir meu lugar entre as vigas. Um murmúrio percorre a

multidão. A imperatriz para na porta. Fala seriamente com o imperador, que

concorda com um aceno brusco. Ao ouvi-los, meu pai volta para o meu

lado.

— Suas Majestades solicitam que toda a família se apresente na varanda.

— Seu sorriso é largo, orgulhoso e contagiante. — Uma nova tradição.

Minhas mãos estão vibrando. Meu coração entala na garganta. Palavras

são impossíveis.

O salão está repleto de oficiais, homens de ternos, guardas de trajes

completos e o resto da família imperial. Há uma comoção quando eles são

informados do novo plano: toda a família vai se reunir na varanda. O

imperador e a imperatriz vão na frente. Meu pai e eu seguimos logo atrás. Depois, saem meu tio Nobuhito e suas filhas, as Gêmeas Iluminadas. Sua

esposa, a mãe delas, não está presente. Ninguém comenta. Depois vêm o tio

Yasuhito e a tia Asako, seguidos pelos filhos: Sachiko, Masahito e Yoshi,

que pisca para mim. A procissão imperial começa.

Um conjunto de portas duplas é aberto por guardas imperiais em

deslumbrantes uniformes verdes, com cordas vermelhas em volta dos

ombros. Eles fazem uma reverência. Quarenta e cinco mil pessoas se

reuniram do lado de fora para desejar felicidades ao imperador.

Meu avô vai na frente, seguido pela imperatriz. Todos tomamos nossos

lugares ao lado dos dois, com meu pai imediatamente à esquerda do

imperador e eu ao lado do meu pai. Os outros se posicionam ao lado da

imperatriz. Estamos atrás de um vidro blindado, que não é suficiente para

silenciar o estrondo. É ensurdecedor, vivo e carregado. Milhares de

bandeiras Hinomaru flamulam no ar. O imperador fala em dois microfones.

Faz um discurso, agradecendo ao povo por ter vindo celebrar seu

aniversário. Em troca, lhes deseja saúde e felicidade. Os espectadores ficam

encantados. Ele dá um passo para trás e acena.

A multidão entoa o cântico Tennō Heika. “Soberano celestial.” O barulho

fica mais alto ainda, com as pessoas batendo palmas, gritando, festejando.

Dou um aceno, assim como meus parentes. Juntos. Como se fôssemos um.

A alegria borbulha no meu peito. Orgulho também. Este é o destino. Não

tem como ser mais óbvio. Eu estava destinada a estar aqui. Eu pertenço ao

Japão.