Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 24
Alguns dias depois, estou a caminho de um evento público em um hospital
próximo. Estou no carro com Mariko, que vai recitando instruções e
informações importantes.
— As princesas Akiko e Noriko estarão lá — ela diz.
Tóquio passa veloz pela janela. Como se trata de uma visita oficial, os
semáforos foram previamente programados. Sem sinais vermelhos. Nada de
pausas para mim. Não consigo nem recuperar o fôlego. Saber que minhas
primas estarão lá não ajuda nem um pouco. Bem, toda história precisa de
uma vilã. Só queria que a minha não viesse em dobro.
— Era para a mãe delas estar lá, como membro honorário do conselho.
Mas ela está… indisposta — Mariko fala, tomando cuidado.
Ela não precisa dizer mais nada. A princesa Midori está sendo
massacrada pela imprensa. Era uma atriz de novela famosa, e agora tem
dificuldade em desempenhar o papel de princesa — as expectativas são
altas demais. A Agência da Casa Imperial chama isso de “transtorno de
adaptação”.
— Ah, sō desu ka — digo. “Sim, entendo.”
Mariko se acalma um pouco com a minha resposta em japonês.
— Sua pronúncia está melhorando.
— Arigatō.
Leva apenas um ou dois segundos para ela recomeçar as instruções:
— Você vai cortar a fita de inauguração da nova maternidade com as
gêmeas, depois vai visitá-la para distribuir cobertores às novas mães e seus
bebês. Lembre-se de não ficar mexendo as mãos. Nada de cutucar as unhas.
— Mariko mordisca o lábio. — Confirmei a cor da fita: branca. O tapete é
azul. Não vão contrastar com a sua roupa. — Estou usando um vestido
laranja e um chapéu pillbox creme. — Talvez seja melhor praticar os acenos
mais uma vez?
Esta conversa está me irritando.
— Mariko. — Faço uma careta.
Ela me imita.
— Izumi-sama.
— Relaxa.
Ela não faz exatamente o que peço, mas se acalma um pouco, e consigo
aproveitar os três minutos que restam da viagem. Fico olhando para Akio,
que está sentado na frente. Uma noite atrás, encontrei um avião de
dobradura em meu travesseiro, com um recado na asa.
Ao olhar as nuvens
Acho impossível
Caminhar, correr… ficar
Como manter os pés no chão quando
Sou sempre cheio de céu?
Respondi ontem. Amarrei meu poema em uma fatia de bolo e o entreguei
dizendo que o chef queria a opinião de Akio sobre a receita de uma nova
sobremesa.
Nasci estrangeira
Levo comigo duas metades
Máscaras que visto
Vou aonde não me encaixo
Como torta e mochi
Meu devaneio é interrompido cedo demais. Já estou fora do carro, sendo
escoltada pela entrada dos fundos do hospital. Dezenas de seguidores
imperiais me cercam — uma massa de homens vestidos de preto e azul-
marinho.
O corte da fita ocorre como o planejado. Câmeras são acionadas. É
aquela coisa de sempre: clube imperial de imprensa, grande imprensa e
assessores do hospital. Sorrio roboticamente, mantendo distância das
Gêmeas Iluminadas. Noriko sussurra com o canto da boca:
— Prima, seu vestido é tão luminoso. Que bom para você. Eu nunca
conseguiria usar isso.
— Adoro como você consegue usar qualquer coisa — Akiko acrescenta.
Logo depois, somos conduzidas à nova ala. Algumas pacientes já estão
aguardando, embora eu suspeite que elas tenham sido plantadas ali. As
novas mães e seus bebês estão arrumados demais — cabelo penteado,
roupões de caxemira, bebês rosados em cobertores macios. Hansani tem
uma irmãzinha. Uma bebê bônus, segundo seus pais. Meses após o parto,
sua mãe disse que se sentia uma bela porcaria. Confessou mais de uma
dúzia de vezes que se esquecia até de colocar calcinha. Além disso, acabava
fazendo xixi quando dava risada. Eu não queria saber disso, mas aconteceu.
Cruzo as pernas sempre que a vejo.
Cortinas separam os leitos. Para cada mãe, há uma criaturinha minúscula
e cor-de-rosa dentro do que parece um Tupperware transparente em um
suporte de rodinhas. Sei lá. Com certeza existe um nome específico para esses miniberços de humanos. As Gêmeas Iluminadas estão à minha frente,
distribuindo ursinhos de pelúcia com olhos muito grandes. Estou cuidando
dos cobertores de crochê feitos pela imperatriz e seu clã de damas de
companhia. Um fotógrafo, Mariko, o sr. Fuchigami e Akio me seguem.
Paro para conversar com uma mulher que parece apenas um pouco mais
velha do que eu. Ela deu à luz há dois dias e ainda não está totalmente
recuperada. Fala um pouco de inglês. Eu sei um pouco de japonês. Damos
um jeito de nos comunicar. Ela quer saber como é ser princesa. Dou uma
maquiada na situação, mantendo a narrativa politicamente correta. Falo
sobre meu amor pelo Japão. Estou admirando o bebê que dorme
profundamente quando um grito corta o ar.
O recém-nascido no leito ao lado acorda chorando. Em seguida, outro
acorda. Logo, estão todos aos berros. Depois, ouvimos um barulho. Será
que é um tiro? Não sei. Todo mundo está agitado e o lugar vira um caos.
Sem pensar, me jogo sobre o bebê no pote de Tupperware. Minhas
narinas se enchem com o cheiro de talco. Meu coração bate feito um
martelo dentro do meu peito. Fecho os olhos e espero. Um corpo me cobre.
Mãos apertam as minhas.
— Fique abaixada. — É Akio.
Segundos se passam. O silêncio é pesado. Devagar, levanto a cabeça. As
pessoas vão acordando do estupor uma por uma. Uma câmera dispara. Não
é uma boa hora para fotos.
— Falei para ficar abaixada — Akio sibila.
Suas palavras roçam meu pescoço. Estou consciente demais da
proximidade dele.
— Acho que já entendemos que não sou muito boa em seguir instruções
— sussurro.
Akio me aperta mais, mantendo-me presa, mas dou um jeito de virar a
cabeça. Vejo tudo de uma vez. Um guarda imperial está prensando um
homem no chão com um joelho em suas costas e a mão feito uma algema
em seus pulsos. É um dos novos pais. Eu o vi duas cortinas atrás. Seus
olhos estavam vermelhos pela falta de sono. Atrás dele, há um carrinho de
cobertores virado. As Gêmeas Iluminadas soltam um gemido. Estão mais
afastadas do carrinho, protegidas por dois guardas.
O sr. Fuchigami levanta as mãos e fala algo. Não entendo tudo, mas ouço
a palavra jiko — “acidente”. O novo papai, privado de sono, derrubou o
carrinho.
Depois disso, Akio me solta devagar. Respira fundo. Outra câmera
dispara. A vida retorna à sala. A mãe ao meu lado começa a chorar.
Hormônios mais uma experiência de quase morte não são uma boa
combinação. Estendo a mão e aperto seu ombro. Não consigo entender uma
palavra entre as lágrimas e soluços. Além disso, ela está misturando japonês
e inglês. Por fim, escolhe sua primeira língua.
Lanço um olhar para Akio. Minhas mãos estão trêmulas, mas ele está
calmo.
— O que ela está dizendo? — pergunto.
Akio ouve atentamente enquanto ela repete a mesma coisa.
— Ela está te agradecendo. Você correu para salvar o filho dela antes
mesmo de se proteger. — Ele abaixa a voz e fala para mim: — Não deveria
ter feito isso.
— Claro que deveria.
Ele fica parado e suspira lentamente. A tensão de seu corpo se dissipa.
— Você está certa — ele diz com uma voz controlada, deliberada, suave.
Seus olhos brilham, abertos e cheios de afeição. — Erro meu. Não vou
esquecer de novo. Você age com o coração.
Naquela noite, Mariko bate na minha porta com um sorriso misterioso no
rosto. Está escondendo algo às costas.
— Posso entrar?
Olho para ela com atenção. Queria poder ter uma visão de raio x. O que
será que ela trouxe? Uma agenda? Mais luvas?
— Estou tão cansada.
— Só vai levar um segundinho, prometo. — Sua voz vira um ronronar
altamente persuasivo.
Depois de um momento, deixo que ela entre. A porta se fecha com um
clique. Mariko vem pelos cantos do quarto, sem me deixar ver o que está
segurando.
— Os jornais ainda não saíram, mas na internet estão falando muito sobre
sua visita ao hospital.
Meu estômago revira.
— Preciso sentar? — De repente, lembro da decepção que causei em meu
pai no casamento.
— Talvez.
— Mariko — minha voz carrega um tom de aviso.
— Está bem — ela diz, finalmente mostrando o que estava escondendo:
um artigo do Fofocas de Tóquio. — Imprimi escondida.
Há uma foto minha cortando a fita e outra jogada sobre o berço do
recém-nascido, com Akio atrás. Não sei dizer se isso é bom ou ruim. Com
base no entusiasmo de Mariko, provavelmente está tudo bem.
— Vou demorar um pouco para traduzir.
Mariko faz um som exasperado.
— Vou ler para você. — Ela arranca o papel das minhas mãos. — “Sua
Alteza Imperial a Princesa Izumi compareceu hoje à inauguração da nova
maternidade do Centro Médico Infantil Metropolitano de Tóquio. O evento marcou o primeiro evento público da princesa desde que voltou das férias
em Kyoto.” — Ela continua, sem fôlego: — “Acompanhada por Suas
Altezas Imperiais as Princesas Akiko e Noriko, a princesa cortou a fita em
nome de sua família. Usava um lindo vestido laranja evasê.” — Mariko
sorri para mim, orgulhosa de sua escolha. Então volta para o texto. —
“Ocorreu uma pequena agitação durante a visita. Enquanto as princesas
distribuíam ursinhos de pelúcia e cobertores, um pai de primeira viagem
privado de sono tropeçou em um carrinho e o derrubou com um
estardalhaço. ‘Pensei que alguém estava atirando! Foi muito assustador’,
disse Sadako Oyami, nossa repórter, que estava presente quando o incidente
ocorreu. ‘Todo mundo se abaixou para se proteger’, ela explica. Todos,
exceto S.A.I. a Princesa Izumi, que se jogou sobre um recém-nascido para
protegê-lo.” — Mariko espera um pouco. Então sorri.
Preciso sentar agora. Recuo aos tropeços até encontrar a beira da cama e
afundo.
Mariko limpa a garganta e continua:
— “Indiferente à própria segurança, a princesa procurou proteger o
precioso bebê. Essa atitude contrasta com a de suas primas, as princesas
Akiko e Noriko, que se enfiaram atrás de seus guardas imperiais.” —
Mariko para e respira fundo, muito animada. Suas bochechas estão
vermelhas. Seus olhos, sonhadores. Então é disso que ela gosta. Bom saber.
— Eles a comparam à imperatriz após o terremoto de 1923! — A imperatriz
arregaçou as mangas e ergueu tijolos para construir uma nova escola. Se
recusou a ir embora até que a cidade estivesse alimentada, e as crianças,
seguras. Há uma foto famosa em que a imperatriz abraça uma mãe que
havia perdido o filho, as duas cobertas de poeira. — Eles encerram
chamando você de “nossa própria realeza”.
Não sei o que dizer. Mariko parece sentir que preciso de um momento.
Ela deixa o artigo no meu colo e sai. Quando se retira, pego o papel. Corro
o polegar pela última frase. Não é a palavra “realeza” que me comove. Não,
são as outras duas palavras. Nossa própria, é o que disseram. Nossa
própria. Sim. Esta sou eu. Uma verdadeira filha do Japão.