Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 16 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 15

 

— Aqui. — Mariko coloca cuidadosamente um último grampo de pérola no

meu cabelo, depois dá um passo para trás para me observar. Minha dama de

companhia bloqueia o espelho grande e balança o rosto, satisfeita. — Está

pronta.

Ela se afasta e eu vejo meu reflexo. Bem, Mariko certamente fez sua

mágica de fada madrinha. Minhas unhas foram lixadas, lustradas e pintadas

com uma cor clara. Chega de rosa brilhante para mim. Minha franja recebeu

um corte reto na altura das sobrancelhas. Meu cabelo está preso em um

coque baixo, adornado com pérolas de água doce. Meu vestido longo cor de

jade é de seda e reluz.

Mariko me entrega uma bolsa de mão da mesma cor. E bem leve.

— Batom e pó, caso você fique suada. Ah, também coloquei seu celular

aí. Mas, por favor, deixe-o no silencioso.

Ergo a sobrancelha no meu modo de dizer não-estou-acreditando. Na

maior parte do tempo, ela esconde meu telefone até que eu termine as

tarefas do dia.

Ela me leva até a porta da frente e me dá mais instruções.

— Não esqueça de deixar seu pai ir na frente sempre que vocês entrarem

em algum lugar. Só fale com quem você já se encontrou ou conhece. Queria

que tivéssemos tido tempo de analisar fotos de todos os convidados para classificá-los de acordo com suas filiações políticas, mas procure apenas

não demonstrar nenhum favoritismo. E não aponte para ninguém.

Nos últimos dias, Mariko foi bastante eficiente em notar qualquer erro

meu, tenha sido no bazar beneficente, na inauguração da galeria ou no jogo

de beisebol. Meus pecados são inúmeros.

Continuo andando, e um nó de tensão se forma entre as minhas

sobrancelhas. Seria melhor se meu pai estivesse aqui, mas ele tem vários

eventos para cobrir esta noite. Vamos nos encontrar só no casamento. Akio

será meu acompanhante. Falando nele…

Está no meio da sala todo de black tie, com as mãos para baixo. Parte da

minha ansiedade se dissipa. Uau. Akio em traje de gala. Aplausos.

— Precisa de mais alguma coisa? — Mariko pergunta.

— Não. Muito obrigada. — Mantenho o olhar em Akio.

— Só não esqueça de sentar ereta. Se precisar de um momento a sós,

peça licença e vá ao banheiro… — ela continua.

Akio sorri para mim. Sorrio desajeitadamente para ele.

— Avisarei quando estivermos voltando para casa — ele diz, sem tirar os

olhos de mim.

Depois de um instante, Mariko diz:

— Claro. Vou deixar o quarto pronto para quando ela voltar.

Akio assente, e ela, pedindo licença, vai embora. Apenas duas lâmpadas

iluminam o cômodo, deixando-o com um ar aconchegante.

— O carro deve chegar logo. Vou ligar para ver onde eles estão — ele

fala.

— Não — interrompo-o. — Espere um minuto, por favor. — De repente,

estou nervosa de novo.

O casamento do primeiro-ministro é um grande evento. A imprensa

estará do lado de fora e, do lado de dentro, terei que lidar com minha família e a nata da sociedade japonesa. Serei minuciosamente avaliada.

Observo com atenção a bainha do meu vestido. Está muito longo? Será que

não vou tropeçar? As coisas ficaram reais demais.

Respiro fundo, tentando desapegar. Penso em Mount Shasta, esperando

que isso me ancore ao presente. Então lembro o que estou perdendo este

fim de semana.

— Amanhã à noite é o baile de formatura. — Alguns dias atrás, as

meninas me mandaram fotos provando os vestidos. O tema é anos oitenta.

— É mesmo?

Fico surpresa que ele não esteja me puxando porta afora. Não estou com

pressa nenhuma. Aparentemente, ele também não.

Estou agitada, incapaz de filtrar meus pensamentos.

— Sabe o que vou perder por não ir à formatura? — Além do ponche

morno, da iluminação ruim e daquele momento constrangedor em que você

topa com seu ex-namorado e a garota com quem ele te traiu? — O baile.

Você dançaria comigo? — Estou um pouco envergonhada. Mas também me

sinto meio corajosa, e linda, pelo menos.

Ele vira o rosto e esfrega o queixo.

— Não sei se é uma boa ideia.

— Por favor. Só uma música. — Quero ficar mais um tempo no conforto

deste quarto seguro e quentinho, longe dos olhares indiscretos. — Pelo baile

que estou perdendo. Só isso.

A verdade: eu provavelmente dançaria com Noora. Já fizemos isso antes.

Então Hansani e Glory se intrometeriam. Porque está implícito: somos o

verdadeiro amor umas das outras.

— Não temos música.

— Ah, dou um jeito. — Pego o celular, avalio as opções, aperto o play e

aumento o volume no máximo.

Coloco a bolsa e o aparelho na mesinha de centro e cruzo as mãos na

minha frente. Agora é com Akio. Não vou obrigá-lo a dançar comigo se ele

realmente não quiser.

E então, de repente, ele está na minha frente, colocando as mãos na

minha cintura. Sinto um leve tremor antes que ele me segure firme.

Posiciono as mãos em seus ombros. Balançamos para a frente e para trás, os

dois todo duros, parecendo crianças.

— Nunca tinha ouvido essa música antes — ele murmura.

— Não é muito conhecida. É o Coro dos Homens Gays de Mount Shasta.

— Não parece um coral completo.

Franzo o nariz.

— Na verdade, são só duas pessoas, Glen e seu parceiro, Adrian. Ambos

são lenhadores e acreditam que Bette Midler é um tesouro nacional. Eles

brigam com qualquer um que diz o contrário. — O álbum inteiro é de

covers de seus maiores sucessos. No momento, estamos ouvindo “The

Rose”.

— É bonito. Gosto da voz deles, especialmente da mais grossa.

— Sim, é de Adrian. Ele praticamente sustenta a dupla. — Akio me

lembra um pouco Glen, um tipo meio rústico.

Ficamos em silêncio, ouvindo a música. Nos aconchegamos mais perto.

De alguma forma, minha cabeça vai parar em seu peito e suas mãos se

entrelaçam na minha lombar. Passo a língua nos lábios, curtindo esse suave

brilho de felicidade.

— Já descobriu mais alguma coisa sobre mim?

Ele faz um barulho que vem do fundo da garganta.

— Bem, deixa eu ver… Você tem mania de falar com as mãos. Seus

dedos são muito efusivos. Você também cantarola enquanto come, é como se não conseguisse controlar o contentamento que a comida te proporciona.

Gosto do fato de você se alegrar com coisas tão simples.

Quero dizer que eu também descobri coisas sobre ele. Akio é estoico,

mas não frio; longe disso. Ele ama profundamente. Eu vi como se inclinou

em direção à mãe, o jeito carinhoso com que tocou sua testa, como lhe

ofereceu um copo d’água.

— Akio? — A música recomeça. Coloquei para tocar de novo. Esperta.

— Já que estamos nos dando tão bem, tem uma coisa que eu queria falar

com você. — Damos meia-volta. Espero um pouco. — É meu codinome,

Rabanete.

— Você não gosta dele?

— Não. Não gosto. Na verdade, odeio. — Odeio especialmente porque a

raiz irrita o trato digestivo.

— O rabanete é um vegetal maravilhoso — ele diz. — O meu favorito.

Que bom que ele não pode ver meu sorriso.

— É verdade?

— Antes não. Mas passei a gostar. O rabanete é subestimado, mas é

muito saudável e cheio de vitamina C. — Minha pulsação acelera e dispara.

A dele também. Posso sentir. — Mas podemos mudar, se quiser.

— Não. Acho que tudo bem. — Olho para ele. Apoio o queixo em seu

peito e toco a gola de sua camisa. — Quando a gente se conheceu, pensei

que você não gostasse de mim.

Paramos de dançar. Nossos pés e peitos estão unidos. Seu olhar é doce e

cauteloso.

— Eu provavelmente gosto de você até demais.

Congelo. Seus olhos estão semicerrados, obscuros. Eu poderia beijá-lo

agora. Eu deveria beijá-lo agora. Fico na ponta dos pés. Ele inclina a

cabeça. Estamos tão perto.

Mas então ele se afasta. Balança a cabeça, limpa a garganta.

— Temos que ir. Não quero te atrasar.

Engulo em seco.

— Certo. Claro. — Que merda foi essa? Minha cabeça está dando voltas.

— Obrigada pela dança.

— Claro.

Dou um breve sorriso, hesitante.

— Estou muito menos nervosa agora.

— Não precisa ficar nervosa. Qualquer pessoa que conseguir falar com

você pode se considerar sortuda. — Sua postura é rígida, mas suas palavras

são suaves.

Solto um sorriso genuíno. Ele vai até a porta e a abre para mim. Eu saio.

Sou apenas uma princesa a caminho do baile.