Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 31 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 30

 

Em 1991, um estudo foi conduzido no Japão para analisar o fenômeno das

respostas neurovegetativas ao estresse psicológico que leva à disfunção do

ventrículo esquerdo. Este estado é denominado cardiomiopatia de

Takotsubo.

Em outras palavras, são evidências concretas para o seguinte: a síndrome

do coração partido é real.

O voo para casa é tranquilo. No desembarque, a comissária de bordo diz:

— Tenha um bom dia. — Seu sorriso é brilhante e bem-intencionado.

É uma frase pronta. Assinto por hábito e respondo:

— Obrigada, mas tenho outros planos.

Estou cansada e melancólica. Sentimentos são uns verdadeiros filhos da

puta. Na primeira oportunidade que eu tiver, vou desligar os meus. Para o

meu azar, sou absolutamente patética em se tratando de emoções. Os filmes

que vi no avião me fizeram chorar. O casal voltando da lua de mel me fez

lacrimejar. Quando a aeromoça perguntou se eu queria peixe ou salada com

queijo de cabra e rabanete em conserva, explodi em lágrimas.

A caminhada pelo aeroporto é solitária. Me acostumei com Akio

franzindo a testa, Mariko se agitando e o sr. Fuchigami me mostrando locais

históricos. Para manter minha vibe de vou-botar-fogo-em-tudo, bloqueei todos os números de telefone internacionais. As únicas chamadas que estou

atendendo são da minha mãe e da GGA.

Desço as escadas rolantes. A mala em meu ombro está carregada com

todos os meus problemas emocionais. Da próxima vez que eu sentir um

desejo incontrolável de procurar meu pai e acabar descobrindo que sou uma

princesa, vou fazer a coisa certa e colocar um ponto-final nessa merda. Sim.

Da próxima vez.

Minha mãe está me esperando. Dou o primeiro sorriso em séculos

quando vejo que ela trouxe Tamagotchi. Eu o pego no colo e ele fica

rosnando e se contorcendo até que eu o coloque no chão. Ele se esconde

atrás da minha mãe.

— Cuidado, tenho quase certeza de que ele comeu cocô de veado esta

manhã.

— Ele sempre gostou de comidas exóticas.

Faço um último carinho na cabeça do Tamagotchi e ele dá mordidinhas

na minha mão. Em seguida, me jogo nos braços da minha mãe, encontro

aquele lugar reconfortante em seu pescoço e choro. Estou tão acostumada a

fazer reverências e assentir que o contato físico parece uma novidade, mas

não indesejada. Ela cheira a incenso e sabão em pó. Enfim, cheiro de casa.

De repente, tudo parece estar no lugar certo, ou pelo menos um pouco mais

ajustado.

Ela me faz cafuné e segura meu rosto com as duas mãos.

— Ah, Zoom. Me conte tudo no carro. Vamos pegar sua mala.

Com os braços nos ombros uma da outra, caminhamos até a esteira. Me

apoio nela e deixo minha tristeza transparecer na moleza do meu corpo. Ela

aguenta o peso.

As bagagens já estão rodando na esteira. Procuro a minha mala e de

repente noto uma placa rosa-choque. Bem-vinda do hospital! A hemorroida sumiu, eba! Três garotas estão sorrindo e acenando freneticamente: Noora,

Hansani e Glory.

— Elas insistiram em vir — minha mãe diz, resignada. Sabe que não é

possível nos conter. O que Deus uniu o homem (ou a mulher) não pode

separar. — Você vai ter que sentar no meio. Vai ser uma viagem apertada.

Não me importo. Saio correndo e abraço cada uma delas.

— Eu disse que a placa era um exagero — Hansani sussurra para mim.

No ensino fundamental, ela já era um pouco linguaruda. Gosta de seguir

as regras e não tem vergonha disso.

Me afasto um pouco e fico olhando para elas.

— Odeio vocês. — Viro para Hansani. — Menos você, você é

maravilhosa. — Em seguida, eu as puxo de volta.

É uma viagem de cinco horas até em casa. Sou o principal

entretenimento, e conto tudo para elas. Todos os detalhes amargos. O

começo conturbado com Akio. O desenvolvimento da minha relação com

meu pai. As sabotagens das Gêmeas Iluminadas, e seu grand finale, com

elas vazando meu romance tabu para os tabloides. Do lado de fora, a

paisagem desértica dá lugar a florestas de pinheiros. Embalagens de

bolinhos se espalham pelo chão do carro. As meninas vieram carregadas.

Glory trouxe até um biscoito do Black Bear Diner.

— Você contou para o seu pai? — minha mãe pergunta.

Fico em silêncio. Contei, sim. Depois do casamento do primeiro-

ministro, tentei explicar que as gêmeas tinham armado para mim, mas ele

não quis saber. Como me senti com isso? Nada bem. Nada bem mesmo.

— Elas me deixam louca — falo, imaginando a cara idiota e maligna das

gêmeas.

— Tenho certeza de que qualquer júri absolveria você — Noora me

tranquiliza.

Pelo espelho retrovisor, vejo que minha mãe está sorrindo. Hansani está

na frente. Ela é uma excelente copilota, animada e atenta, sempre

apontando pontos interessantes. Estou esmagada entre Glory e Noora. Não

me importo. É bom, como um ninho. Quando estou com elas, nada pode me

atingir. Ou, pelo menos, posso esquecer por um tempo todas as coisas que

me atingem.

— Nem ligo mais pra isso. — Ligo, sim, mas há tantas outras coisas em

que me concentrar agora, tipo meu coração partido. — Akio me odeia.

Destruí a vida dele. — É por isso que ele não foi me encontrar aquele dia.

Como poderia, depois de tudo o que eu fiz? O amor pode machucar tanto

quanto pode curar.

— Talvez você só precise dar um tempo pra ele — Glory sugere com

cuidado.

Pelo visto, ela é meio que uma romântica enrustida. Que bom que o

divórcio dos pais não a traumatizou tanto. Ela vai conseguir voltar para o

mundo dos casais, já eu…

Será que fui embora cedo demais? Desisti muito fácil?

— Não — digo. Glory não estava lá. Não ficou esperando na calçada,

vendo o sol descer pelo céu com o coração nas mãos e a alma desnuda e

estraçalhada. — Não importa mais. Nunca fui um deles. O Japão não é pra

mim.

Noora faz carinho na minha perna. Inclino a cabeça para trás e fecho os

olhos. Não existe felizes para sempre. Contos de fadas são pura baboseira.

Fim.