Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 17
Minha fuga é lendária. Sou a Cinderela fugindo do baile, só que não vou
deixar para trás sapatinho de cristal nenhum, e não vou esperar que um
príncipe me salve.
Meus olhos ardem do esforço que estou fazendo para não chorar. Me
recuso a dar essa satisfação às Gêmeas Iluminadas. Vou desabar no carro,
no meu quarto, no banheiro — em qualquer outro lugar com um pouco mais
de dignidade.
Akio me acompanha. Não reclamo de como ele se posiciona, me
protegendo das pessoas conforme saímos. Queria poder agradecê-lo, mas se
fizer isso vou quebrar e derramar todas as minhas entranhas para fora.
Envergonhei meu pai. A mim mesma. O Japão.
O caminho do salão até o carro é um borrão. Felizmente, o Rolls-Royce
imperial está à minha espera. Assim que entramos, ele dá partida.
Akio me oferece um lenço.
— O que aconteceu?
Seco as lágrimas. Não quero dizer em voz alta — o quanto sou uma
imbecil. Meu Deus, pensei… pensei que tinha tudo sob controle. Burra. Sou
tão burra.
— O que significa “gaijin”?
— Quem te chamou disso? — ele rosna.
— Não importa. — Mais uma vez, não quero que saiba que minha
família me odeia. É constrangedor demais. — O que significa?
Ele desabotoa o paletó. Seus lábios se contorcem.
— Significa “estrangeiro”. E não de um jeito bom.
— Entendi. — Minha mandíbula trava.
— Me diga quem te chamou disso e vou resolver a situação.
Fico emocionada com a vontade dele de me defender.
— O que você vai fazer? Bater nas outras duas princesas porque elas
foram más comigo? Você é um fofo, mas prefiro lutar minhas próprias
batalhas. — Só não sei que tipo de armadura me restou. As Gêmeas
Iluminadas conseguiram encontrar meu ponto mais frágil e me dilacerar
com suas unhas pintadas de bege. — Além disso, elas não estão erradas…
É verdade. Eu sou uma estrangeira. Se não tivesse chegado ao Japão
somente na semana passada, saberia sobre a irmã do primeiro-ministro.
Saberia como me vestir melhor para pegar um voo. Saberia que devo
caminhar atrás do meu pai em um bazar beneficente idiota. Saberia quais
artistas se opõem à família imperial. Saberia que assistir a partidas de
beisebol e cumprimentar jogadores são um ato de diplomacia, e que apontar
é grosseiro.
Akio solta um grunhido que eu não sabia que humanos eram capazes de
fazer. Me aproximo e pego sua mão.
— Está tudo bem. — Só que não está nada bem. Sinto uma dor profunda.
A decepção nos olhos do meu pai, o tom que ele usou comigo. A lembrança
me dá um nó no estômago. Os homens podem não assumir que choram,
mas as princesas choram, sim.
Akio segura minha mão com firmeza e depois se afasta. Suspira e esfrega
os olhos.
— Este não é um bom momento… — Seus olhos escuros me mantêm no
lugar. — Você me faz desejar todas as coisas que não posso ter.
— Eu? — Fungo, me sentindo um pouco melhor.
Me inclino para ele, na esperança de que pegue minha mão de novo.
Talvez ele segure meu rosto e diga que vai ficar tudo bem.
— Sua Alteza — ele diz, muito sério.
— Akio — imito seu tom, brincando.
Mas então percebo que sua linguagem corporal não está correspondendo
à minha. Sinto a primeira pontada de rejeição. Me recosto no banco. Agora
estamos ambos rígidos. Desconfortáveis.
— Cem anos atrás, os médicos imperiais não podiam nem tocar o
imperador e a imperatriz sem luvas. — Ele fecha as mãos. — Quando um
príncipe ou uma princesa cavalgava pelas cidades, os aldeões não podiam
encarar. Eles não eram considerados dignos de olhar para os filhos de
deuses e deusas.
Tenho um pressentimento assustador, desagradável e profundo sobre o
que ele está querendo dizer com essa história.
— Isso é um pouco ultrapassado, não acha? Não é mais assim hoje em
dia.
Sua expressão é comedida.
— Você está certa, não é. Mas essa ideia ainda persiste. É um tabu.
— O que está dizendo? — Minha voz diminui.
— Acho que você sabe.
— Acho que preciso que você diga em voz alta.
Quando Forest me traiu, eu o obriguei a me contar todos os detalhes
sórdidos, apesar de já saber de quase tudo. Queria ler nas entrelinhas, ver se
eu conseguia descobrir o que eu tinha feito para afastá-lo. Por que a gente
sempre se culpa?
— Nossa dança… foi um erro. — Ah, agora entendi. Vejo em seus
ombros, na tensão de sua mandíbula. Arrependimento. Minha visão
embaça. — Eu me deixei levar. Foi culpa minha. Passei dos limites. — Tão
nobre da parte dele levar a culpa. — Isso não vai… isso não pode acontecer
de novo.
Cerro os punhos. Queria pular fora do carro neste instante. O que eu não
daria para ser transportada num passe de mágica para o meu quarto.
Lágrimas começam a escorrer, mas eu ignoro. Estrago todo o trabalho que
Mariko fez no meu rosto. Olho para a janela, para a noite escura e sem
estrelas, torcendo para que o tempo passe mais rápido.
— Por favor, não fique triste — ele diz, baixinho.
Izumi vai ficar triste, sim. Com licença, mas Izumi vai ficar
extremamente triste. Não consigo fazer nada direito. Sou faixa preta em
humilhação.
— Diga alguma coisa — Akio pede quando chegamos ao portão.
Dizer alguma coisa? Tipo o quê? A viagem sinuosa até o palácio leva
uma eternidade. Enxugo o rosto com as luvas. Pena que não posso usá-las
para limpar toda a merda que fiz.
Assim que vejo o palácio, avanço para a porta do carro. Quando o
veículo para, puxo a maçaneta e saio correndo, mas Akio vem atrás de mim.
— Sinto muito — ele diz.
Eu viro.
— Não. — Tento trazer leveza ao meu tom, até mesmo dar uma
risadinha. Nenhum dos dois dá certo. — É culpa minha. Eu interpretei
errado os sinais. Que burra, não é?
— Izumi…
O vento agita meu vestido.
— O correto é Sua Alteza, não é?
Akio pisca, surpreso, mas prefiro sua raiva à sua pena. Suavizo o tom.
— Não quero deixar brecha para nenhum mal-entendido.
Ele respira fundo.
— Precisa de algo mais?
Meu queixo treme.
— Não. Obrigada.
— Então, boa noite. Se estiver tudo bem por você, vou esperar aqui e
garantir que entre em segurança.
É totalmente desnecessário. Ainda assim, assinto de modo brusco.
Dez passos vacilantes depois, estou entrando. Espero o carro se afastar,
mas não ouço nada. Ele ainda está lá fora. Sinto um furacão na barriga e
afundo no chão.
Deus. Eu sou uma idiota.