Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 18 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 17

 

Minha fuga é lendária. Sou a Cinderela fugindo do baile, só que não vou

deixar para trás sapatinho de cristal nenhum, e não vou esperar que um

príncipe me salve.

Meus olhos ardem do esforço que estou fazendo para não chorar. Me

recuso a dar essa satisfação às Gêmeas Iluminadas. Vou desabar no carro,

no meu quarto, no banheiro — em qualquer outro lugar com um pouco mais

de dignidade.

Akio me acompanha. Não reclamo de como ele se posiciona, me

protegendo das pessoas conforme saímos. Queria poder agradecê-lo, mas se

fizer isso vou quebrar e derramar todas as minhas entranhas para fora.

Envergonhei meu pai. A mim mesma. O Japão.

O caminho do salão até o carro é um borrão. Felizmente, o Rolls-Royce

imperial está à minha espera. Assim que entramos, ele dá partida.

Akio me oferece um lenço.

— O que aconteceu?

Seco as lágrimas. Não quero dizer em voz alta — o quanto sou uma

imbecil. Meu Deus, pensei… pensei que tinha tudo sob controle. Burra. Sou

tão burra.

— O que significa “gaijin”?

— Quem te chamou disso? — ele rosna.

— Não importa. — Mais uma vez, não quero que saiba que minha

família me odeia. É constrangedor demais. — O que significa?

Ele desabotoa o paletó. Seus lábios se contorcem.

— Significa “estrangeiro”. E não de um jeito bom.

— Entendi. — Minha mandíbula trava.

— Me diga quem te chamou disso e vou resolver a situação.

Fico emocionada com a vontade dele de me defender.

— O que você vai fazer? Bater nas outras duas princesas porque elas

foram más comigo? Você é um fofo, mas prefiro lutar minhas próprias

batalhas. — Só não sei que tipo de armadura me restou. As Gêmeas

Iluminadas conseguiram encontrar meu ponto mais frágil e me dilacerar

com suas unhas pintadas de bege. — Além disso, elas não estão erradas…

É verdade. Eu sou uma estrangeira. Se não tivesse chegado ao Japão

somente na semana passada, saberia sobre a irmã do primeiro-ministro.

Saberia como me vestir melhor para pegar um voo. Saberia que devo

caminhar atrás do meu pai em um bazar beneficente idiota. Saberia quais

artistas se opõem à família imperial. Saberia que assistir a partidas de

beisebol e cumprimentar jogadores são um ato de diplomacia, e que apontar

é grosseiro.

Akio solta um grunhido que eu não sabia que humanos eram capazes de

fazer. Me aproximo e pego sua mão.

— Está tudo bem. — Só que não está nada bem. Sinto uma dor profunda.

A decepção nos olhos do meu pai, o tom que ele usou comigo. A lembrança

me dá um nó no estômago. Os homens podem não assumir que choram,

mas as princesas choram, sim.

Akio segura minha mão com firmeza e depois se afasta. Suspira e esfrega

os olhos.

— Este não é um bom momento… — Seus olhos escuros me mantêm no

lugar. — Você me faz desejar todas as coisas que não posso ter.

— Eu? — Fungo, me sentindo um pouco melhor.

Me inclino para ele, na esperança de que pegue minha mão de novo.

Talvez ele segure meu rosto e diga que vai ficar tudo bem.

— Sua Alteza — ele diz, muito sério.

— Akio — imito seu tom, brincando.

Mas então percebo que sua linguagem corporal não está correspondendo

à minha. Sinto a primeira pontada de rejeição. Me recosto no banco. Agora

estamos ambos rígidos. Desconfortáveis.

— Cem anos atrás, os médicos imperiais não podiam nem tocar o

imperador e a imperatriz sem luvas. — Ele fecha as mãos. — Quando um

príncipe ou uma princesa cavalgava pelas cidades, os aldeões não podiam

encarar. Eles não eram considerados dignos de olhar para os filhos de

deuses e deusas.

Tenho um pressentimento assustador, desagradável e profundo sobre o

que ele está querendo dizer com essa história.

— Isso é um pouco ultrapassado, não acha? Não é mais assim hoje em

dia.

Sua expressão é comedida.

— Você está certa, não é. Mas essa ideia ainda persiste. É um tabu.

— O que está dizendo? — Minha voz diminui.

— Acho que você sabe.

— Acho que preciso que você diga em voz alta.

Quando Forest me traiu, eu o obriguei a me contar todos os detalhes

sórdidos, apesar de já saber de quase tudo. Queria ler nas entrelinhas, ver se

eu conseguia descobrir o que eu tinha feito para afastá-lo. Por que a gente

sempre se culpa?

— Nossa dança… foi um erro. — Ah, agora entendi. Vejo em seus

ombros, na tensão de sua mandíbula. Arrependimento. Minha visão

embaça. — Eu me deixei levar. Foi culpa minha. Passei dos limites. — Tão

nobre da parte dele levar a culpa. — Isso não vai… isso não pode acontecer

de novo.

Cerro os punhos. Queria pular fora do carro neste instante. O que eu não

daria para ser transportada num passe de mágica para o meu quarto.

Lágrimas começam a escorrer, mas eu ignoro. Estrago todo o trabalho que

Mariko fez no meu rosto. Olho para a janela, para a noite escura e sem

estrelas, torcendo para que o tempo passe mais rápido.

— Por favor, não fique triste — ele diz, baixinho.

Izumi vai ficar triste, sim. Com licença, mas Izumi vai ficar

extremamente triste. Não consigo fazer nada direito. Sou faixa preta em

humilhação.

— Diga alguma coisa — Akio pede quando chegamos ao portão.

Dizer alguma coisa? Tipo o quê? A viagem sinuosa até o palácio leva

uma eternidade. Enxugo o rosto com as luvas. Pena que não posso usá-las

para limpar toda a merda que fiz.

Assim que vejo o palácio, avanço para a porta do carro. Quando o

veículo para, puxo a maçaneta e saio correndo, mas Akio vem atrás de mim.

— Sinto muito — ele diz.

Eu viro.

— Não. — Tento trazer leveza ao meu tom, até mesmo dar uma

risadinha. Nenhum dos dois dá certo. — É culpa minha. Eu interpretei

errado os sinais. Que burra, não é?

— Izumi…

O vento agita meu vestido.

— O correto é Sua Alteza, não é?

Akio pisca, surpreso, mas prefiro sua raiva à sua pena. Suavizo o tom.

— Não quero deixar brecha para nenhum mal-entendido.

Ele respira fundo.

— Precisa de algo mais?

Meu queixo treme.

— Não. Obrigada.

— Então, boa noite. Se estiver tudo bem por você, vou esperar aqui e

garantir que entre em segurança.

É totalmente desnecessário. Ainda assim, assinto de modo brusco.

Dez passos vacilantes depois, estou entrando. Espero o carro se afastar,

mas não ouço nada. Ele ainda está lá fora. Sinto um furacão na barriga e

afundo no chão.

Deus. Eu sou uma idiota.