Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 10 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 9

 

Setenta e duas horas no Japão, e eu não estou nem perto de chegar à altura

da família imperial. Na verdade, minha evolução é nitidamente nula.

Da minha cadeira, olho para Mariko. Ela me encara com seus olhos cor

de mel, frios e avaliadores.

— Foco, Izumi-sama. — Sugerindo que estou fazendo qualquer coisa

menos isso.

Seu olhar também indica que sou o equivalente humano de um cabelo

encontrado na salada. Outros também estão presentes: o sr. Fuchigami, que

sorri com benevolência, e um mordomo estranhamente eficiente e educado,

que está reto como uma vara. A chuva bate nas janelas.

Na minha frente, há um jogo de jantar completo. Respiro fundo, sentindo

o elástico da saia se esticar quando expiro. Esta manhã, Mariko me obrigou

a vestir um conjuntinho de saia plissada.

Fico olhando para a mesa. É uma seleção de copos de cristal, talheres

reluzentes e pratos de porcelana enfeitados com um crisântemo dourado.

Movo a mão devagar pelo segundo garfo à esquerda. O sr. Fuchigami suga

o ar por entre os dentes. Ele está com um terno sóbrio e o cabelo de mechas

grisalhas perfeitamente penteado.

Mudo de direção. Mariko faz uma careta.

Se estivéssemos em Downton Abbey, Mariko seria Mary — grossa, um

pouco fria e extremamente séria. Ela é a força motriz por trás das minhas

longas aulas de etiqueta todas as tardes. Praticamos reverências e diferentes

maneiras de dizer “obrigada”. Também experimento vestidos e luvas. Com

base em sua frieza, cheguei à conclusão de que ela não gosta de mim.

Curiosidade: como membro da família real, não tenho direito de votar,

carregar dinheiro ou ter redes sociais.

— Não vamos poder acompanhá-la no casamento — Mariko diz.

O primeiro-ministro Adachi vai casar em pouco mais de uma semana.

Será meu primeiro evento público.

— Sim — o sr. Fuchigami concorda. Os dois estão mancomunados. —

Você vai sentar com o seu pai. Por isso, deve aprender como se comportar à

mesa.

— Não vai poder procurar seus familiares para pedir ajuda no dia —

Mariko acrescenta.

Ela deve ter visto quando Yoshi me colocou debaixo de suas “pernas” no

jantar de recepção. Apesar do meu sangue, não herdei nenhuma habilidade.

Preciso de um incentivo. Estico a mão para o prato de biscoitos senbei

disposto no meio da mesa. Eles são feitos de arroz e ainda estão quentes,

recém-saídos do forno.

— Chega de biscoitos. — O prato é retirado da mesa. Minha boca

permanece aberta enquanto Mariko mantém os biscoitos reféns. — Agora

responda: qual é o garfo para peixe? — Ela acena para a mesa.

Mais uma vez, fico olhando para o jogo de jantar. Me concentro nos

garfos: extra pequeno, pequeno, médio e grande. Começo por eliminação. O

extra pequeno é para ostras. O pequeno é para saladas. Sobram o médio e o

grande. Tenho cinquenta por cento de chance de acertar. Nada mau. Porém,

em um momento ofuscante de clareza, a resposta me vem:

— Este aqui. — Pego o garfo, orgulhosa.

Mariko ergue as sobrancelhas.

— Tem certeza?

— Tenho? — respondo com uma pergunta.

— Acertou. — Ela não parece muito satisfeita, mas coloca o prato de

senbei de volta na mesa.

O sr. Fuchigami limpa a garganta e se aproxima.

— Talvez devêssemos praticar um pouco de japonês. Ogenki desu ka? —

Ele manda de primeira.

Mariko cruza os braços, claramente pronta para aproveitar o espetáculo.

O mordomo começa a retirar a mesa.

De etiqueta à mesa para estudos de língua japonesa. Ignoro o golpe.

Além de curso intensivo de cultura e modos, tenho que aprender japonês.

Comecei com os alfabetos hiragana e katakana e a memorização de frases

comuns, como:

— Genki desu. — “Estou bem”. A resposta perfeita para a sua pergunta:

“Como você está?”. Na verdade, as aulas têm sido um borrão de conjugação

de verbos e aperfeiçoamento do “d” palatal. Para começo de conversa, o

japonês é uma língua hierárquica. Existem diferentes níveis de formalidade,

todos dependendo do orador e de sua relação com o interlocutor.

O sr. Fuchigami assente, aprovando a resposta.

— O jōzu desu.— “Muito bem”. Ele acena para a mesa; com o senbei, há

uma bandeja de frutas secas e uma seleção de castanhas. — Nani ga

meshiagarimasu ka?

Inclino a cabeça, me esforçando.

— Ano… — Esta é uma expressão usada para preencher pausas,

equivalente ao nosso “Hum”. Eu uso com bastante frequência.

O sr. Fuchigami fica com pena.

— Nani ga meshiagarimasu ka? Você quer comer algo?

Me animo:

— Hai. Ringo ga suki desu. Oppai tabetai! — Tradução: “Sim. Adoro

maçãs. Quero comer um monte.”

Só que… o rosto do sr. Fuchigami fica da cor de um tomate e ele desvia o

olhar. Mariko engasga. O criado derruba um copo de cristal, que não

quebra, mas bate em um prato e arranca uma lasca da porcelana chinesa de

valor incalculável.

— O que foi? — pergunto, assustada.

O sr. Fuchigami não consegue me encarar.

Mariko esfrega a sobrancelha.

— Você pronunciou “um monte” errado.

— “Um monte”? Não é “oppai”? — pergunto, repetindo mais algumas

vezes para pegar o jeito. — Oppai, oppai, oppai.

Mariko arregala os olhos.

— Pare. De. Falar.

— Sua Alteza — o sr. Fuchigami diz devagar, com cuidado, baixinho. —

A forma correta é “ippai”. A palavra que você falou significa… — Ele não

consegue dizer, e então vira para Mariko.

Mariko também não consegue dizer nada, mas ergue as mãos diante dos

seios.

— Ah. — Meus olhos se arregalam. Acabei de cantarolar “tetas, tetas,

tetas” para o camarista real e minha dama de companhia. — Ah! — Meu

estômago revira. — Desculpe — murmuro.

O criado foi embora.

O sr. Fuchigami olha seu relógio.

— Preciso… tenho uma reunião. — Olho para o relógio antigo na

parede, que tem animais do horóscopo em vez de números.

Teríamos aula por mais uma hora, até o almoço com meu pai.

— Desculpe — repito, enquanto o sr. Fuchigami faz uma reverência

apressada e sai da sala.

Acho que esperar contato visual seria demais.

— Terminamos — Mariko diz abruptamente, saindo atrás dele.

Finalmente sozinha, levanto da mesa. Saio da sala de jantar e vou até a de

estar, captando meu reflexo em um espelho preto antigo. Continuo com uma

aparência ótima — minha maquiagem não saiu e todos os fios de cabelo

ainda estão no lugar. Mas não é sempre assim? Bonita por fora,

desmoronando lentamente por dentro?

Meus passos me levam até a entrada. Depois de calçar os sapatos,

atravesso a porta e sento no degrau de concreto. Abraço as pernas. Estou

triste e completamente insegura. O ar está fresco e cai uma garoa, mas

permaneço seca, protegida pelo pórtico da varanda. Um movimento chama

minha atenção — Akio. Tão bonito como sempre. O vento bagunça

levemente seu cabelo úmido. Ele está vestindo uma espécie de casaco

escuro. Em suma, está pronto para ser capa da Vogue. Não dou a mínima.

Tão irritante.

Ele franze as sobrancelhas quando me vê, fazendo a carranca de sempre.

Perdi a hora ontem e o passeio pelo santuário de patos selvagens e a

pescaria tiveram que ser remarcados. Mais tarde, deixaram um relógio no

meu quarto… a pedido de Akio. Cruzo os braços e respondo com outra

carranca. Em contrapartida, a dele se intensifica. Tenho certeza de que está

enviando forças do mal na minha direção. Eu também estou, cara. Eu

também estou.

Me afasto dele e discretamente pego meu celular no sutiã. Sucumbo à

minha necessidade patológica de dividir minha humilhação e mando uma

mensagem para Noora.

Eu

Hoje eu pronunciei errado uma palavra e acidentalmente falei pro camarista que quero comer tetas.

 

Brinco com o celular enquanto espero a resposta dela, me perguntando o

que a GGA tem aprontado. Queria poder espiar as redes sociais, mas minhas

amigas têm contas fechadas, e o sr. Fuchigami me obrigou a deletar as

minhas. Protocolos da realeza. Também estou proibida de consumir

qualquer tipo de mídia dentro das propriedades imperiais. Nada de

tabloides, jornais ou televisão.

Finalmente, o nome de Noora aparece na tela.

Noora

Nhé. Poderia acontecer com qualquer um

Eu

Não sei se aguento isso

Noora

Discordo totalmente

Noora

Lembra aquela vez que a Glory disse que vc não ia conseguir comer

uma torta inteira do Black Bear e eu apostei que conseguiria sim e vc

conseguiu mesmo?

 

Eu

E isso quer dizer que…?

Noora

Quer dizer que: eu acredito em vc.

 

Eu

Seeei, porque ser uma princesa é a mesma coisa

que comer torta.

Noora

Não, mas mesmo assim vc é maravilhosa. Os homens choram a seus

pés. As mulheres querem ser vc. Os pássaros caem dos céus,

impressionados com a sua glória.

Noora

Ajudou?

Eu

Um pouco.

Noora

Bom.

 

Noora me anima. Ela nunca me deu conselhos ruins. Tá, só aquela vez

em que me convenceu a raspar as sobrancelhas e fazer um desenho no

lugar. Meu celular vibra.

Noora

Ainda tô esperando a foto daquele guarda

Glory

Idem

Hansani

Sim, por favor.

 

Ela adicionou as meninas à conversa. Muito discretamente, viro para trás

e olho Akio. Ele está encarando o nada ao longe, com as mãos cruzadas

para frente. Seguro o celular, tiro uma foto e mando para o grupo. Ele vira a

cabeça.

— Nani wo shite imasu ka? Você tirou uma foto minha?

Levanto e ajeito a saia.

— Não. Claro que não. — Minha voz sai pesada, impregnada de um tom

que diz “tá louco?”.

A tela se ilumina e dou uma espiada.

Noora

Pqp. Pega ele agora.

Hansani

Eu afundaria com esse barco.

Glory

Aposto que o cheiro dele é delicioso e único, como se seu perfume

fosse feito de lágrimas de pantera. #perfumedepantera

 

Silencio as mensagens. Akio resmunga. Esse homem é um poeta.

Ele se afasta. Não tão rápido. Lembro do relógio na minha mesinha de

cabeceira e meu sangue ferve. Me aproximo. Ele está fingindo vigiar a

propriedade, como se não tivesse me visto.

— Akio?

— Sua Alteza. — Tão rígido. Tão formal.

— Estava me perguntando… Como faz para ser um guarda imperial?

Ele faz uma careta, como se este fosse o pior momento de sua vida.

Ainda não viu nada.

— Prefiro ser chamado de oficial de proteção máxima. Acredito que o sr.

Fuchigami lhe informou minhas qualificações.

— Sim, mas ele mencionou principalmente suas credenciais como

policial. — Piso no cimento com meu delicado sapatinho de salto quadrado.

— É preciso frequentar uma escola de guardas imperiais… desculpe,

oficiais de proteção máxima? — Arregalo os olhos e tampo a boca. — Você

já matou alguém? E, se já, gostou? Aposto que já e aposto que gostou. — É

sempre o tipo forte e calado que esconde o jogo. — Me conta, você tem um

quarto secreto onde ninguém pode entrar?

— Claro que não — Suas mãos estão cruzadas à frente, e suas costas,

perfeitamente eretas. — É um porão. É melhor para controlar a temperatura.

Você sabe, dos cadáveres.

Estreito os olhos.

— Estou meio assustada, porque não sei se você está brincando ou não.

Ele dá um longo suspiro, impaciente.

— Acho que deveríamos estabelecer a cadeia de comando aqui. Eu sou,

tipo, sua chefe? — Por favor, diga que sim. Por favor, diga que sim.

Um músculo na mandíbula dele se tensiona. Talvez ele tenha quebrado

um dente. Se for o caso, conheço um dentista imperial excelente. O sr.

Fuchigami me submeteu a um exame físico e odontológico completo

ontem. Ainda estou com o curativo da coleta de sangue. Os programas de

investigação aparentemente estão certos: o DNA não mente. Sou mesmo filha

do príncipe.

— A sua segurança e proteção são prioridades — ele diz. — Vêm em

primeiro lugar.

— O que significa que…

Agora tenho toda a sua atenção.

— Tecnicamente, eu sou o seu chefe.

Aff, que metido.

Contraio os lábios. Não ligo para nada disso.

— Alguém já te disse que charme não é o seu forte?

Sua paciência se esgota.

— Charme não protege a realeza.

Touché.

— Acho que começamos com o pé esquerdo. — Eu me atrasei. Você

mandou um relógio para o meu quarto. Estamos quites. — Qual é o seu

filme favorito?

— Por que você quer saber isso? — Seu olhar é penetrante, desconfiado.

A chuva voltou. Gotas pesadas batem no chão.

— Só acho que a gente deveria se conhecer melhor. Você me conta algo

sobre si mesmo, e depois eu conto algo sobre mim. Sabe, é assim que se faz amigos. Que pessoas se conectam. — Daí, quando eu descobrir todos os

seus segredos e vulnerabilidades, posso usá-los para te destruir. Estou

brincando. Mais ou menos.

Seus lábios se contorcem. Akio volta o olhar para a propriedade. O

silêncio se estende até que ele finalmente diz, meio ressentido:

— Gosto de Duro de matar.

Pisco duas vezes.

— Duro de matar? Bruce Willis de regata combatendo terroristas? —

Pensei que ele fosse mais do tipo fã de Psicopata americano. Sabe, ternos,

cartões de visita, uma predileção pela ordem e por guardar cadáveres em

armários.

Ele suspira.

— Meus pais trabalhavam muito. Passava na televisão quando eu era

pequeno. — Meu estômago se agita com compaixão. Ele assente. —

Terminamos, Sua Alteza?

Akio gesticula para a entrada. Ouço vozes em seu fone de ouvido, e rugas

se formam ao redor de sua boca.

— Está tudo bem?

— Parece que há uma espécie de comoção no portão.

— Comoção?

— Repórteres querendo entrevistá-la. — As vozes no seu fone ficam

mais altas. — Está pronta para entrar? Preciso ir para lá.

Dou de ombros. Me parece desnecessário, já que não consigo nem ver o

portão do palácio, mas concordo:

— Claro. — É fácil aquiescer quando você não tem opção. Além disso,

aparentemente ele é meu chefe.

Ele toca dois dedos no meu cotovelo, me conduzindo para dentro. Sinto

uma pequena faísca. E daí se ele parece o filho do The Rock com o Daniel Dae Kim que foi criado em uma floresta japonesa? Tenho certeza de que

essa atração não é recíproca. Já tive crushes não correspondidos demais

para perder meu tempo com mais um. Escolho focar toda a minha energia

em odiá-lo. Ainda bem que ele facilita meu trabalho.

— Ei — digo para Akio. — Pensei uma coisa.

— Um passatempo perigoso — ele murmura.

Decido ignorar o comentário. “Não alimente os ursos” é um ditado em

Mount Shasta.

— Qual é meu codinome? Eu devo ter um codinome, certo? Queria poder

escolher.

Ele afasta os dedos do meu cotovelo. Que pena.

— Sim. De fato, você tem um codinome.

— Sabia! — Dou uma voltinha, toda alegre. — Qual é? Cobra?

Tempestade? Ou talvez Pégaso?

— Estávamos te chamando de “Borboleta”.

Hum.

— É legal, acho. — Um pouco fofo demais, mas tudo bem.

— Mas então os tabloides lhe deram a alcunha “Borboleta Perdida”, e

tivemos que pensar em outro.

Olho para ele com interesse.

— Eu que fiz a sugestão — ele diz.

— O que você sugeriu? — Olho para Akio com olhos brilhantes.

As possibilidades são infinitas: Luz do Sol, Dama da Noite, Flor de

Cerejeira. Meus pensamentos são como um trem desgovernado. Talvez ele

goste de mim. Talvez não seja tão malvado quanto parece. Talvez eu o

tenha julgado mal e este só tenha sido um começo ruim para uma amizade

que vai se transformar em amor e durar para sempre. Nossa história vai

inspirar canções folclóricas que serão cantadas diante de fogueiras.

É a primeira vez que vejo Akio sorrir. Seu sorriso é meio maldoso, meio

satisfeito, como se ele tivesse ganhado uma aposta consigo mesmo.

— Rabanete.