Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 36 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 35

 

Minha mãe e eu acompanhamos meu pai até o carro. É como se nós três

estivéssemos tentando desacelerar o tempo. Não quero que isso acabe. A

vida com a minha mãe sempre me pareceu suficiente. Mas agora, a

perspectiva de retornar à nossa existência a dois me enche de uma solidão

aguda. Chegamos na garagem rápido demais. Um guarda imperial está

segurando a porta de um carro oficial.

— Vejo você no fim de agosto, então — meu pai diz. — Daqui a menos

de noventa dias.

— Noventa dias.

Ele me abraça e sussurra:

— Tenho tanto orgulho de você. — Quase engasgo.

Ele olha para minha mãe, toca sua bochecha, se inclina e dá um beijo no

seu rosto. Desvio o olhar para oferecer privacidade nesse momento íntimo.

— Até logo. — Seu tom é uma promessa.

Ele nos encara uma última vez, acena e entra no carro. As portas batem.

O motor dá partida. Ficamos olhando a trilha de luzes vermelhas saírem da

garagem e desapareceram na rua.

Dou a mão para minha mãe.

— Bem, é isso.

Algo brota em minha garganta. Tristeza. Arrependimento. Incertezas.

Ainda estou processando os últimos vinte minutos, todas as palavras dele.

Seu lugar é ao meu lado.

— Lá vai ele — ela diz.

— Ele volta logo — eu a conforto.

— Sim. Muito em breve. — Não sei se ela está tranquilizando a mim ou

a si mesma.

— Sabe, por que eu iria para o Japão? — pergunto, um pouco distraída.

— Por amor — ela responde melancolicamente.

O que eu preciso provar, afinal? E daí que nunca serei aceita? Eu me

aceito. As lágrimas que escorrem pela minha bochecha são geladas. Estou

chorando de tristeza e alegria. A realidade é afiada feito uma navalha. É

tudo tão transparente — uma revelação tão clara e luminosa quanto o pôr do

sol. Não sou americana ou japonesa. Sou uma pessoa completa. Ninguém

pode me dizer se sou japonesa o suficiente ou americana demais.

De repente, volto a mim.

— Mãe?

— Sim, querida. — Ela ainda está olhando para a rua, vendo sua segunda

chance ir embora.

— Acho que tomei a decisão errada. — Isso chama sua atenção.

— Acho que eu também tomei a decisão errada — ela diz.

Dou um sorriso.

 

Não fazemos nossas malas e mal temos tempo para decidir onde

Tamagotchi vai ficar. Jones concorda em cuidar dele, mas se recusa a fazê-

lo usar coleira. Noora aparece durante a confusão.

— Precisamos alcançar meu pai. — Me agarro nela.

Noora pega as chaves do carro.

— Relaxa. Esperei minha vida toda por isso.

Logo estamos no carro de Noora, acelerando pela rua e pela avenida

principal de Mount Shasta. Ela sai costurando o trânsito.

— O que estamos fazendo? Que maluquice! — minha mãe exclama. —

Ah, meu Deus, Noora, se eu soubesse que você é uma motorista tão terrível

assim, nunca teria deixado Izumi entrar no seu carro. Os faróis. Por favor,

ligue os faróis.

Está ficando escuro. Noora dá risada e acende os faróis. Um carro buzina

quando ela o ultrapassa.

Eu meio que apaguei o que acontece a seguir. De alguma forma, pulamos

do ponto A ao B, acabamos perto da rampa para a área de embarque I-5 e

alcançamos a comitiva imperial. Bandeiras japonesas flamulam no capô.

Meu pai está ali, no carro do meio.

Me estico e aperto a buzina. Fooom. Foooom. Fooooom. Luzes

vermelhas e azuis piscam no espelho retrovisor de Noora. O tráfego fica

mais lento por causa da comoção.

— Estaciona, Noora — minha mãe diz. — Não vamos infringir mais

nenhuma lei.

— Eles estão tão perto — Noora responde, desviando para o

acostamento.

Estamos apenas alguns carros atrás. Nem espero Noora parar

completamente e já vou abrindo a porta e correndo no meio do trânsito,

desesperada. Com os braços para cima, grito:

— Esperem! — Sinto uma pontada na barriga.

Juro que se eu voltar para o palácio, vou começar a treinar corrida. Meu

vestido de formatura balança ao vento, assim como meu cabelo. A comitiva

imperial finalmente para. Uma porta abre. Meu pai sai.

— Izumi-chan.

Paro na frente dele, apoiando as mãos nos joelhos. Os carros passam

velozes. Levanto um dedo.

— Preciso de um minuto pra recuperar o fôlego.

Ele vocifera algo em japonês. Uma garrafa de água é lançada para mim.

— O que está acontecendo? — Ele me ajuda a levantar. — Hanako? —

Ele se volta para a minha mãe, que se aproxima.

— Isto está sendo um pouco mais dramático do que pensei — ela fala,

colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.

— A gente… — Gesticulo para nós duas freneticamente e digo,

ofegante: — A gente quer ir pro Japão.

— Vocês querem?

Os limites de velocidade que infringimos. O trânsito que estamos

bloqueando. Eu quase caindo dura no chão de cansaço. Ver o rosto do meu

pai se iluminando de alegria faz tudo valer a pena.

— Tem espaço para duas? — Minha mãe pergunta, um pouco tímida.

Estamos causando um baita tumulto. Os guardas imperiais estão

bloqueando a polícia de Mount Shasta. Evitamos por pouco um confronto e

um incidente internacional.

Meu pai não parece se importar nem um pouco.

— Sempre — ele diz. — Sempre.

 

Decidimos voltar para casa e pegar algumas roupas, trancar as portas,

garantir que Noora não leve uma multa ou acabe presa, esse tipo de coisa.

Meu pai vem com a gente e atrasa seu voo.

No Redding Airfield, um pequeno aeroporto municipal que fica próximo

à minha casa, embarcamos em um avião particular. O interior é luxuoso —

assentos de couro branco com detalhes em mogno, iluminação

aconchegante e tampos de mesa enfeitados com arranjos de flores coloridas. Os camaristas vão na frente, a guarda imperial atrás, e nossa pequena

família se amontoa no meio.

— Sabe — meu pai diz quando o avião está decolando. — Vocês podiam

só ter ligado.

Minha mãe fica olhando pela janela. Sentada ao lado dele, não falou

muita coisa até agora. Está em estado de choque, acho. Não sei o que deu

nela para arriscar tudo por amor. Se vai dar certo ou não, veremos. Minha

própria história de amor certamente não deu, mas tenho grandes esperanças

para eles. Sim, sou desesperada por romances nesse nível.

Depois de alcançarmos três mil metros e atingirmos a altitude de

cruzeiro, os camaristas se aproximam. Eles estão preocupados com a nossa

situação atual. Está decidido que minha mãe será levada para o palácio e

sua visita será mantida em segredo. É o que ela quer. Eu sou o próximo

assunto. O que fazer comigo e como arrumar minha bagunça são tópicos

quentes. Os tabloides ainda estão se banqueteando com o meu caso. Na

ausência de novidades, eles começaram a especular sobre todos os tipos de

histórias bizarras: “Princesa Izumi está grávida de seu guarda-costas”, “O

príncipe herdeiro mandou a filha embora por ter escondido suas tatuagens”.

Os camaristas dão várias ideias. O príncipe herdeiro pode dar uma

coletiva de imprensa? Censurar estritamente todas as mídias? Negar tudo,

alegando que as fotos foram manipuladas?

— Com licença. — Limpo a garganta para me fazer ouvir. Meu coração

dá um solavanco. — Tenho uma sugestão do que eu gostaria de fazer.

Preciso ser convincente. Meu pai é meu maior apoiador. Chegamos a um

consenso sobre o plano. Respiro fundo, olhando para a noite escura. Esse

poder é um pouco inebriante. Quando pousamos no Japão, ainda estou

sorrindo.