Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 19
Mensagens
9h17
Eu
A caminho de Kyoto. Acho que vou ficar fora por um tempo.
Noora
Que inveja. Acabei de comer uma pizza inteira de calcinha e sutiã.
Glory
Eita.
Hansani
É muita coisa pra processar de uma vez.
Eu
Saudades de vcs.
Noora
Idem. O Japão roubou minha melhor amiga. É pior que hemorroida no
verão.
Glory
Isso não é um ditado.
Noora
Bem, estou inventando meu próprio ditado e adoraria receber o seu
apoio.
Eu
Enfim… vcs estão bravas?
Hansani
Claro que não.
Glory
Nem. Alguns cavalos devem correr livres.
Noora
Só não esquece da gente, tá bom?
Eu
Blz. Posso falar só mais uma coisa?
Noora
Sim.
Eu
Se vcs fossem árvores, sabem que espécie seriam?
Glory
Se isso for um trocadilho…
Eu
Do carvalho!
Noora
Eu quebraria qualquer galho por vc.
Glory
Parem, por favor.
Hansani
O que aconteceu com o guarda-costas gato?
Eu
Aff, nem pergunta. Paguei de trouxa. Agora está o maior climão. Quem mandou eu ser cara de pau?
Noora
Não se preocupa, estou aqui. Nossa amizade tem raízes fortes.
Glory
Vcs duas precisam de ajuda.
Sorrio para a tela do celular, recosto no assento de veludo macio e fico
ouvindo o clique-claque do trem em direção a Kyoto. Estamos em um
vagão privativo — eu, Mariko, o sr. Fuchigami e uma equipe de segurança
chefiada por Akio. Quanto ao meu guarda imperial, ele não tem aparecido
muito. Claro que não pulo toda vez que uma porta abre nem me encolho no
assento só para evitá-lo. Isso seria patético. Eu não sou uma pobre coitada.
Brincadeira. Sou, sim. Sou muito.
O aparelho vibra na minha mão. É uma mensagem do meu pai: “Tudo
certo?”. Digito uma resposta de três letras: “Sim”. Em vez de eu mesma
contar que iria para Kyoto, pedi ao sr. Fuchigami que falasse com meu pai.
Agora nos comunicamos exclusivamente por mensagens de texto. Me
chame de srta. Rancor, se quiser. Ele pode ter apresentado Kyoto como uma
oportunidade para eu aprender mais, mas é difícil não pensar que estão
tentando me esconder. Sabe aquela coisa que as famílias imperiais fazem de
levar membros indesejados para o campo para depois abandoná-los?
Largo o celular e observo a paisagem rural do Japão passando pela janela
a trezentos e vinte quilômetros por hora. O monte Fuji aparece e
desaparece, assim como roupas em varais de metal, casas cobertas por
cartazes de festa, velhos campos de beisebol, uma fazenda de avestruz e,
agora, quilômetros de arrozais cultivados por pessoas usando chapéus em
forma de cone e casacos de palha. O Japão está em sua melhor forma esta
manhã, ensolarado e fresco, com poucas nuvens. É o primeiro dia oficial da
primavera. As flores de cerejeira desapareceram com o vento ou afundaram
no solo. Takenoko, a estação do bambu, vai começar em breve.
O sr. Fuchigami está sentado na minha frente. Balança a cabeça para a
janela.
— Está vendo como as aldeias se amontoam?
De fato, reparei nisso. Elas estão agrupadas, cercadas por arrozais ou
plantações.
— Poucas pessoas vivem em altitudes elevadas. As montanhas são
consideradas domínio dos deuses — ele explica. O xintoísmo é a religião
oficial do Japão. Meu avô, o imperador, é o líder, o símbolo do Estado e a
mais alta autoridade. — Mesmo hoje, é considerado tabu viver tão alto.
Ao ouvir a palavra “tabu”, lembro da minha última conversa com Akio.
Levanto bruscamente.
— Com licença. — Me afasto, em direção à porta.
No banheiro, lavo as mãos e penso em jogar um pouco de água no rosto
para ver se consigo resfriar a persistente combustão de constrangimento,
mas Mariko passou meia hora me maquiando esta manhã. Espero uns
minutos, permitindo o movimento do trem me sacudir. Tem algo
reconfortante nesse balanço. Mas não posso ficar aqui para sempre.
Aperto o botão e abro a porta. Saio de cabeça baixa. Não olho para onde
estou indo e dou de cara com um corpo rígido. Filhodafruta. É Akio.
Infelizmente, meu guarda imperial está tão bonito quanto sempre, mas um
pouco mais taciturno. Melhor ainda.
— Sua Alteza — ele diz de um jeito seco. Tão formal. — Não tinha te
visto.
Não consigo olhar para ele direito. Não quero. Afinal de contas, os olhos
são as janelas da alma.
— Certo. Vou fazer questão de te avisar sobre todos os meus futuros
movimentos. — Isso saiu um pouco grosseiro.
Bastante, na verdade. Mas a melhor defesa é o ataque. E isso é tudo o que
sei sobre esportes.
Seu olhar incerto estuda meu rosto.
— Se quiser outro guarda imperial, vou entender. Uma substituição pode
ser…
— Não acho que seja necessário. — Levanto um ombro, me esforçando
para transmitir através da linguagem corporal que o que aconteceu entre nós
não significa nada. — Não há motivos para que não possamos trabalhar
juntos. Já esqueci o que houve. — Mentira. Mentira deslavada. Não
esqueci. Não consigo esquecer. Ainda tenho o seu moletom. Ainda posso
sentir suas mãos na minha cintura, seus dedos se cravando no meu quadril.
— Foi um erro. Um mal-entendido.
Ele contrai os lábios.
— Certo.
A porta do vagão se abre.
— Izumi-sama, o almoço está prestes a ser servido. — É Mariko.
— Sumimasen. — Akio se curva, enquanto pede licença. — Preciso
conduzir uma reunião de segurança.
Tento sorrir, mas tenho quase certeza de que é um fracasso desastroso.
Akio me encara por um minuto agonizante, então se afasta. Mariko fica
olhando. Me parabenizo por manter os olhos focados na janela. Um passo
de cada vez.
— Está tudo bem? — Ela franze a testa, me olhando com atenção. —
Você parece um pouco abatida.
— Tudo ótimo — respondo com firmeza.
Ela respira fundo.
— Akio está impossível hoje.
— Pois é. — Endireito a postura. — Está com fome? Estou faminta.
Deixo Mariko para trás. O almoço é servido à minha frente em uma
bandeja de bentō, um tipo de marmita japonesa. Akio fica parado no fundo
do trem. Não, não vou olhar para ele. Mas será que estou sentindo o peso do seu olhar ou é só o meu desejo falando mais alto? Minha nuca esquenta.
Olho para trás. Ah, ele está me encarando, inexpressivo. Digo a mim
mesma que é o trabalho dele. Só isso. Não há nada para interpretar ali.
Preciso de uma distração. Eu poderia passar o tempo fazendo minha lição
de casa. Consegui dar um jeito de terminar minhas aulas virtualmente. Mas,
em vez disso, pego minha bolsa — uma bolsa de grife que parece um
grande envelope com alças — e procuro meus fones de ouvido. Conecto-os
no celular e ouço hip-hop e “The Rose”, a música que dancei com Akio.
A música abafa o som do trem, o farfalhar do sr. Fuchigami virando seu
jornal, a conversa de Mariko ao telefone e, o mais importante, meus
pensamentos.
Solto um suspiro de frustração, amasso um pedaço de papel-manteiga e o
atiro para o lado. Está tarde, quase meia-noite. As luzes estão baixas. Estou
tremendo na sala fria. Construído no final dos anos 1800, o Palácio Imperial
Sentō foi reformado, mas seu antigo charme foi preservado — telhas que
terminam em curvas elegantes, enormes portas de madeira, piso de tábuas
da rara madeira keyaki e painéis dourados separando os quartos. Se eu
quisesse encontrar minha alma japonesa em algum lugar, seria em Kyoto.
Aqui não há tabloides nem eventos chiques nem distrações.
Minhas mãos estão sujas de tinta, e o tapete Nabeshima azul está todo
coberto com os meus sacrifícios. Estou praticando kanji em uma mesa alta
há horas. Todos na casa se retiraram faz muito tempo. Estou sozinha com os
meus fracassos. Pego outra folha de papel washi, coloco-a sobre um pano e
a pressiono com uma pedra polida.
Mergulho o pincel na tinta. Preparar a tinta — moer o pó, misturar as
cores (dourados, prateados, azuritas) e adicionar a cola — pode levar horas.
Algum dia talvez eu seja capaz de fazer isso. Mas é preciso ter a habilidade de um mestre, e eu sou só uma novata. Essa habilidade pode ser adquirida
através do kata, a arte de repetir algo inúmeras vezes até virar sua segunda
natureza. A caligrafia faz parte da identidade imperial. Portanto, faz parte
da minha identidade agora.
Levo o pincel para baixo, criando o primeiro traço da palavra
“montanha”, yama. Acabo fazendo uma mancha gigante. Derrubo o pincel e
a tinta respinga por todo o papel. Mais uma derrota.
— Você está pensando demais. — diz Mariko. Seu pijama listrado está
abotoado até o pescoço.
Tomo um susto.
— Achei que não tinha mais ninguém acordado. — Ela hesita na porta.
Dou um suspiro tímido. — Está com fome? — Gesticulo para o prato de
dorayaki no canto da mesa.
— Um pouco. — Ela senta comigo. Ficamos comendo em silêncio por
um tempo. O rosto sério de Mariko brilha à luz baixa. — Posso ver? — Ela
pega o papel com a caligrafia que eu arruinei.
Me contorço, enquanto ela avalia meu trabalho sem nem tentar esconder
seu descontentamento. Queria ter o poder de botar fogo nas coisas com o
olhar.
— Sabia. Você está pensando demais. Por causa disso, sua mão fica
pesada. Está forçando as linhas, em vez de deixar que as linhas sejam a
força. Veja.
Ela mergulha o pincel na tinta e dá a primeira pincelada no mesmo papel.
— Não pense no ideograma que está desenhando. Só pense na linha, no
movimento. É como uma dança, entende? Se focar demais os passos finais,
vai perder o momento presente. — Ela faz outro traço, e mais um, e então o
ideograma está completo.
É lindo, digo a ela que dá vontade de pendurar na parede.
Mariko balança a cabeça.
— Ainda tenho muito o que aprender, mas está aceitável. Não precisa ser
perfeito. Kanji é uma expressão da alma.
Mexo na borda do papel.
— Há tanto o que aprender que fico meio perdida.
Ela assente.
— Entendo. Quando vim para o Japão, foi muito intimidador.
Fico olhando para ela, surpresa.
— Você não nasceu aqui?
— Não. Nasci na Inglaterra. Meu pai é japonês. Minha mãe é chinesa.
Nos mudamos para cá assim que fiz cinco anos.
— Não sabia disso. — Como é que eu não sabia disso?
Ela franze as sobrancelhas.
— Você nunca perguntou.
— Aposto que você era fluente em japonês mesmo assim.
— Eu falava um pouco. Mas toda a minha educação foi em inglês.
Quando chegamos, meus pais me matricularam na St. Peter’s International
School de Tóquio. Tive que aprender tudo do zero. Pior, virei motivo de
piada. Crianças podem ser tão cruéis.
Penso em Emily Billings imediatamente. Qualquer coisa boa que alguém
já me disse é apenas uma poeira em comparação com aquele momento
único da minha vida. Engulo em seco.
— Como você lidou com isso?
Ela encara a mesa.
— Tem coisas que a gente simplesmente suporta. No final do ensino
infantil, eu já era quase fluente.
Um sorriso começa a surgir nos meus lábios.
— O jardim de infância ensina mesmo tudo que a gente precisa saber.
— E o sumô. Eu costumava assistir com a minha babá, e decorei os
nomes dos lutadores. — Ela bate no papel. — Montanha era um dos meus
favoritos. — Ela suspira. — Na maior parte do tempo consigo me camuflar.
Mas, de certa forma, sempre serei uma forasteira.
— Eu ofendi o primeiro-ministro — confesso. — Comentei sobre a
ausência da irmã dele no casamento. E quando eu estava saindo, minhas
primas me chamaram de “gaijin”.
— Putz. — Em solidariedade, ela faz uma careta.
— Pois é.
Me debruço na mesa. Olho o papel washi. “Montanha” foi minha última
tentativa. Mas, antes disso, tentei “céu”, “meio” e “sol”. Me concentro no
ideograma do “sol”, o símbolo nacional do Japão. O primeiro imperador do
país, Jimmu, nasceu envolto em raios dourados. Era filho de Amaterasu.
Como algo poderia dar errado quando já se nasce iluminado?
Ela limpa a garganta.
— Essas garotas… A mãe não é muito presente e o pai faz todas as
vontades, como se coisas materiais pudessem compensar a ausência
materna.
— Por favor, não me faça sentir pena delas.
— Não é isso. Elas são terríveis. Pode acreditar. Não me surpreendo que
tenham dito algo assim. Elas não atacam, a menos que se sintam ameaçadas
de verdade.
Fico um pouquinho melhor. Ela aponta o queixo para o papel washi.
— Eu não perderia nenhum segundo pensando nelas. Em vez disso,
concentre-se no kanji.
— Ser rigorosa é seu jeito de demonstrar afeto? — Olho de soslaio para
ela. — Saiba que prefiro outros métodos.
Mariko não responde, apenas ergue as sobrancelhas. Por fim, coloco um
papel em branco na minha frente, mergulho o pincel na tinta e retiro o
excesso. Mantenho a mão leve e paciente, pensando apenas no aqui e agora,
na linha que estou desenhando, e não na palavra. Levo apenas um ou dois
segundos, mas, quando me afasto, um sorriso escapa. Está um pouco
tremido em cima e muito grosso embaixo. Apesar de um pouco fraco, há
uma promessa de força. Definitivamente, posso melhorar. Mas gostei do
resultado. Afinal, é uma expressão da minha alma: confusa e bagunçada.
Mariko examina o trabalho.
— Ainda precisa de dedicação, mas está melhor.
De repente fico animada.
— Ai, meu Deus! Acabei de perceber uma coisa.
— O quê? O que foi?
Dou um sorriso malicioso.
— Você gosta de mim.
— O quê? — Ela faz uma careta. — Eu não…
— Você gosta de mim — digo, assentindo com firmeza.
— Para de falar isso.
— Você gosta de mim e quer ser minha amiga.
— Se alguém te ouvir, vai achar que está louca. — Mariko franze os
lábios, cruza os braços e bufa. — Eu respeito seu esforço. Não é fácil. Você
está enfrentando o desafio. Isso é… admirável, talvez.
— Aham — falo, olhando de soslaio.
Mariko não sabe nem o que dizer. Seu suspiro é longo e arrastado,
melindrado.
— Quer ajuda para praticar seu kanji ou não?
— Sim — digo, radiante. — Amiga — cantarolo.
FOFOCAS DE TÓQUIO
A Borboleta Perdida passeia por Kyoto
21 de abril de 2021
Apesar da fadiga ter interrompido a viagem de Sua Majestade Imperial ao sudeste asiático, os preparativos para seu aniversário de 87 anos estão a todo vapor. Todos os membros da família imperial estarão presentes. Uma audiência foi agendada, na qual Sua Alteza Imperial a Princesa Izumi será oficialmente apresentada a seus avós pela primeira vez.
Recentemente, correspondentes do Fofocas de Tóquio e alguns moradores viram S.A.I. a Princesa Izumi passeando por Kyoto, principalmente à noite (detalhe: a princesa foi vista em um templo e em uma casa de gueixas na semana passada).
Enquanto S.A.I. a Princesa Izumi passeia por Kyoto, suas primas gêmeas parecem sobrecarregadas com seus deveres imperiais, cumprindo funções oficiais em nome da mãe, Sua Alteza Imperial a Princesa Midori, que não é vista fora da propriedade há semanas.
E quanto a seu primo de segundo grau, S.A.I. o Príncipe Yoshihito? Nosso informante do palácio disse que os dois se tornaram próximos. Em um furo de reportagem exclusivo, S.A.I. o Prince Yoshihito foi visto recentemente embarcando no trem imperial. Seu destino? Kyoto.