Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 20 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 19

 

 

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9h17

Eu

A caminho de Kyoto. Acho que vou ficar fora por um tempo.

Noora

Que inveja. Acabei de comer uma pizza inteira de calcinha e sutiã.

Glory

Eita.

Hansani

É muita coisa pra processar de uma vez.

Eu

Saudades de vcs.

Noora

Idem. O Japão roubou minha melhor amiga. É pior que hemorroida no

verão.

Glory

Isso não é um ditado.

Noora

Bem, estou inventando meu próprio ditado e adoraria receber o seu

apoio.

Eu

Enfim… vcs estão bravas?

Hansani

Claro que não.

Glory

Nem. Alguns cavalos devem correr livres.

Noora

Só não esquece da gente, tá bom?

Eu

Blz. Posso falar só mais uma coisa?

Noora

Sim.

Eu

Se vcs fossem árvores, sabem que espécie seriam?

Glory

Se isso for um trocadilho…

Eu

Do carvalho!

Noora

Eu quebraria qualquer galho por vc.

Glory

Parem, por favor.

Hansani

O que aconteceu com o guarda-costas gato?

Eu

Aff, nem pergunta. Paguei de trouxa. Agora está o maior climão. Quem mandou eu ser cara de pau?

Noora

Não se preocupa, estou aqui. Nossa amizade tem raízes fortes.

Glory

Vcs duas precisam de ajuda.

 

Sorrio para a tela do celular, recosto no assento de veludo macio e fico

ouvindo o clique-claque do trem em direção a Kyoto. Estamos em um

vagão privativo — eu, Mariko, o sr. Fuchigami e uma equipe de segurança

chefiada por Akio. Quanto ao meu guarda imperial, ele não tem aparecido

muito. Claro que não pulo toda vez que uma porta abre nem me encolho no

assento só para evitá-lo. Isso seria patético. Eu não sou uma pobre coitada.

Brincadeira. Sou, sim. Sou muito.

O aparelho vibra na minha mão. É uma mensagem do meu pai: “Tudo

certo?”. Digito uma resposta de três letras: “Sim”. Em vez de eu mesma

contar que iria para Kyoto, pedi ao sr. Fuchigami que falasse com meu pai.

Agora nos comunicamos exclusivamente por mensagens de texto. Me

chame de srta. Rancor, se quiser. Ele pode ter apresentado Kyoto como uma

oportunidade para eu aprender mais, mas é difícil não pensar que estão

tentando me esconder. Sabe aquela coisa que as famílias imperiais fazem de

levar membros indesejados para o campo para depois abandoná-los?

Largo o celular e observo a paisagem rural do Japão passando pela janela

a trezentos e vinte quilômetros por hora. O monte Fuji aparece e

desaparece, assim como roupas em varais de metal, casas cobertas por

cartazes de festa, velhos campos de beisebol, uma fazenda de avestruz e,

agora, quilômetros de arrozais cultivados por pessoas usando chapéus em

forma de cone e casacos de palha. O Japão está em sua melhor forma esta

manhã, ensolarado e fresco, com poucas nuvens. É o primeiro dia oficial da

primavera. As flores de cerejeira desapareceram com o vento ou afundaram

no solo. Takenoko, a estação do bambu, vai começar em breve.

O sr. Fuchigami está sentado na minha frente. Balança a cabeça para a

janela.

— Está vendo como as aldeias se amontoam?

De fato, reparei nisso. Elas estão agrupadas, cercadas por arrozais ou

plantações.

— Poucas pessoas vivem em altitudes elevadas. As montanhas são

consideradas domínio dos deuses — ele explica. O xintoísmo é a religião

oficial do Japão. Meu avô, o imperador, é o líder, o símbolo do Estado e a

mais alta autoridade. — Mesmo hoje, é considerado tabu viver tão alto.

Ao ouvir a palavra “tabu”, lembro da minha última conversa com Akio.

Levanto bruscamente.

— Com licença. — Me afasto, em direção à porta.

No banheiro, lavo as mãos e penso em jogar um pouco de água no rosto

para ver se consigo resfriar a persistente combustão de constrangimento,

mas Mariko passou meia hora me maquiando esta manhã. Espero uns

minutos, permitindo o movimento do trem me sacudir. Tem algo

reconfortante nesse balanço. Mas não posso ficar aqui para sempre.

Aperto o botão e abro a porta. Saio de cabeça baixa. Não olho para onde

estou indo e dou de cara com um corpo rígido. Filhodafruta. É Akio.

Infelizmente, meu guarda imperial está tão bonito quanto sempre, mas um

pouco mais taciturno. Melhor ainda.

— Sua Alteza — ele diz de um jeito seco. Tão formal. — Não tinha te

visto.

Não consigo olhar para ele direito. Não quero. Afinal de contas, os olhos

são as janelas da alma.

— Certo. Vou fazer questão de te avisar sobre todos os meus futuros

movimentos. — Isso saiu um pouco grosseiro.

Bastante, na verdade. Mas a melhor defesa é o ataque. E isso é tudo o que

sei sobre esportes.

Seu olhar incerto estuda meu rosto.

— Se quiser outro guarda imperial, vou entender. Uma substituição pode

ser…

— Não acho que seja necessário. — Levanto um ombro, me esforçando

para transmitir através da linguagem corporal que o que aconteceu entre nós

não significa nada. — Não há motivos para que não possamos trabalhar

juntos. Já esqueci o que houve. — Mentira. Mentira deslavada. Não

esqueci. Não consigo esquecer. Ainda tenho o seu moletom. Ainda posso

sentir suas mãos na minha cintura, seus dedos se cravando no meu quadril.

— Foi um erro. Um mal-entendido.

Ele contrai os lábios.

— Certo.

A porta do vagão se abre.

— Izumi-sama, o almoço está prestes a ser servido. — É Mariko.

— Sumimasen. — Akio se curva, enquanto pede licença. — Preciso

conduzir uma reunião de segurança.

Tento sorrir, mas tenho quase certeza de que é um fracasso desastroso.

Akio me encara por um minuto agonizante, então se afasta. Mariko fica

olhando. Me parabenizo por manter os olhos focados na janela. Um passo

de cada vez.

— Está tudo bem? — Ela franze a testa, me olhando com atenção. —

Você parece um pouco abatida.

— Tudo ótimo — respondo com firmeza.

Ela respira fundo.

— Akio está impossível hoje.

— Pois é. — Endireito a postura. — Está com fome? Estou faminta.

Deixo Mariko para trás. O almoço é servido à minha frente em uma

bandeja de bentō, um tipo de marmita japonesa. Akio fica parado no fundo

do trem. Não, não vou olhar para ele. Mas será que estou sentindo o peso do seu olhar ou é só o meu desejo falando mais alto? Minha nuca esquenta.

Olho para trás. Ah, ele está me encarando, inexpressivo. Digo a mim

mesma que é o trabalho dele. Só isso. Não há nada para interpretar ali.

Preciso de uma distração. Eu poderia passar o tempo fazendo minha lição

de casa. Consegui dar um jeito de terminar minhas aulas virtualmente. Mas,

em vez disso, pego minha bolsa — uma bolsa de grife que parece um

grande envelope com alças — e procuro meus fones de ouvido. Conecto-os

no celular e ouço hip-hop e “The Rose”, a música que dancei com Akio.

A música abafa o som do trem, o farfalhar do sr. Fuchigami virando seu

jornal, a conversa de Mariko ao telefone e, o mais importante, meus

pensamentos.

 

Solto um suspiro de frustração, amasso um pedaço de papel-manteiga e o

atiro para o lado. Está tarde, quase meia-noite. As luzes estão baixas. Estou

tremendo na sala fria. Construído no final dos anos 1800, o Palácio Imperial

Sentō foi reformado, mas seu antigo charme foi preservado — telhas que

terminam em curvas elegantes, enormes portas de madeira, piso de tábuas

da rara madeira keyaki e painéis dourados separando os quartos. Se eu

quisesse encontrar minha alma japonesa em algum lugar, seria em Kyoto.

Aqui não há tabloides nem eventos chiques nem distrações.

Minhas mãos estão sujas de tinta, e o tapete Nabeshima azul está todo

coberto com os meus sacrifícios. Estou praticando kanji em uma mesa alta

há horas. Todos na casa se retiraram faz muito tempo. Estou sozinha com os

meus fracassos. Pego outra folha de papel washi, coloco-a sobre um pano e

a pressiono com uma pedra polida.

Mergulho o pincel na tinta. Preparar a tinta — moer o pó, misturar as

cores (dourados, prateados, azuritas) e adicionar a cola — pode levar horas.

Algum dia talvez eu seja capaz de fazer isso. Mas é preciso ter a habilidade de um mestre, e eu sou só uma novata. Essa habilidade pode ser adquirida

através do kata, a arte de repetir algo inúmeras vezes até virar sua segunda

natureza. A caligrafia faz parte da identidade imperial. Portanto, faz parte

da minha identidade agora.

Levo o pincel para baixo, criando o primeiro traço da palavra

“montanha”, yama. Acabo fazendo uma mancha gigante. Derrubo o pincel e

a tinta respinga por todo o papel. Mais uma derrota.

— Você está pensando demais. — diz Mariko. Seu pijama listrado está

abotoado até o pescoço.

Tomo um susto.

— Achei que não tinha mais ninguém acordado. — Ela hesita na porta.

Dou um suspiro tímido. — Está com fome? — Gesticulo para o prato de

dorayaki no canto da mesa.

— Um pouco. — Ela senta comigo. Ficamos comendo em silêncio por

um tempo. O rosto sério de Mariko brilha à luz baixa. — Posso ver? — Ela

pega o papel com a caligrafia que eu arruinei.

Me contorço, enquanto ela avalia meu trabalho sem nem tentar esconder

seu descontentamento. Queria ter o poder de botar fogo nas coisas com o

olhar.

— Sabia. Você está pensando demais. Por causa disso, sua mão fica

pesada. Está forçando as linhas, em vez de deixar que as linhas sejam a

força. Veja.

Ela mergulha o pincel na tinta e dá a primeira pincelada no mesmo papel.

— Não pense no ideograma que está desenhando. Só pense na linha, no

movimento. É como uma dança, entende? Se focar demais os passos finais,

vai perder o momento presente. — Ela faz outro traço, e mais um, e então o

ideograma está completo.

É lindo, digo a ela que dá vontade de pendurar na parede.

Mariko balança a cabeça.

— Ainda tenho muito o que aprender, mas está aceitável. Não precisa ser

perfeito. Kanji é uma expressão da alma.

Mexo na borda do papel.

— Há tanto o que aprender que fico meio perdida.

Ela assente.

— Entendo. Quando vim para o Japão, foi muito intimidador.

Fico olhando para ela, surpresa.

— Você não nasceu aqui?

— Não. Nasci na Inglaterra. Meu pai é japonês. Minha mãe é chinesa.

Nos mudamos para cá assim que fiz cinco anos.

— Não sabia disso. — Como é que eu não sabia disso?

Ela franze as sobrancelhas.

— Você nunca perguntou.

— Aposto que você era fluente em japonês mesmo assim.

— Eu falava um pouco. Mas toda a minha educação foi em inglês.

Quando chegamos, meus pais me matricularam na St. Peter’s International

School de Tóquio. Tive que aprender tudo do zero. Pior, virei motivo de

piada. Crianças podem ser tão cruéis.

Penso em Emily Billings imediatamente. Qualquer coisa boa que alguém

já me disse é apenas uma poeira em comparação com aquele momento

único da minha vida. Engulo em seco.

— Como você lidou com isso?

Ela encara a mesa.

— Tem coisas que a gente simplesmente suporta. No final do ensino

infantil, eu já era quase fluente.

Um sorriso começa a surgir nos meus lábios.

— O jardim de infância ensina mesmo tudo que a gente precisa saber.

— E o sumô. Eu costumava assistir com a minha babá, e decorei os

nomes dos lutadores. — Ela bate no papel. — Montanha era um dos meus

favoritos. — Ela suspira. — Na maior parte do tempo consigo me camuflar.

Mas, de certa forma, sempre serei uma forasteira.

— Eu ofendi o primeiro-ministro — confesso. — Comentei sobre a

ausência da irmã dele no casamento. E quando eu estava saindo, minhas

primas me chamaram de “gaijin”.

— Putz. — Em solidariedade, ela faz uma careta.

— Pois é.

Me debruço na mesa. Olho o papel washi. “Montanha” foi minha última

tentativa. Mas, antes disso, tentei “céu”, “meio” e “sol”. Me concentro no

ideograma do “sol”, o símbolo nacional do Japão. O primeiro imperador do

país, Jimmu, nasceu envolto em raios dourados. Era filho de Amaterasu.

Como algo poderia dar errado quando já se nasce iluminado?

Ela limpa a garganta.

— Essas garotas… A mãe não é muito presente e o pai faz todas as

vontades, como se coisas materiais pudessem compensar a ausência

materna.

— Por favor, não me faça sentir pena delas.

— Não é isso. Elas são terríveis. Pode acreditar. Não me surpreendo que

tenham dito algo assim. Elas não atacam, a menos que se sintam ameaçadas

de verdade.

Fico um pouquinho melhor. Ela aponta o queixo para o papel washi.

— Eu não perderia nenhum segundo pensando nelas. Em vez disso,

concentre-se no kanji.

— Ser rigorosa é seu jeito de demonstrar afeto? — Olho de soslaio para

ela. — Saiba que prefiro outros métodos.

Mariko não responde, apenas ergue as sobrancelhas. Por fim, coloco um

papel em branco na minha frente, mergulho o pincel na tinta e retiro o

excesso. Mantenho a mão leve e paciente, pensando apenas no aqui e agora,

na linha que estou desenhando, e não na palavra. Levo apenas um ou dois

segundos, mas, quando me afasto, um sorriso escapa. Está um pouco

tremido em cima e muito grosso embaixo. Apesar de um pouco fraco, há

uma promessa de força. Definitivamente, posso melhorar. Mas gostei do

resultado. Afinal, é uma expressão da minha alma: confusa e bagunçada.

Mariko examina o trabalho.

— Ainda precisa de dedicação, mas está melhor.

De repente fico animada.

— Ai, meu Deus! Acabei de perceber uma coisa.

— O quê? O que foi?

Dou um sorriso malicioso.

— Você gosta de mim.

— O quê? — Ela faz uma careta. — Eu não…

— Você gosta de mim — digo, assentindo com firmeza.

— Para de falar isso.

— Você gosta de mim e quer ser minha amiga.

— Se alguém te ouvir, vai achar que está louca. — Mariko franze os

lábios, cruza os braços e bufa. — Eu respeito seu esforço. Não é fácil. Você

está enfrentando o desafio. Isso é… admirável, talvez.

— Aham — falo, olhando de soslaio.

Mariko não sabe nem o que dizer. Seu suspiro é longo e arrastado,

melindrado.

— Quer ajuda para praticar seu kanji ou não?

— Sim — digo, radiante. — Amiga — cantarolo.

FOFOCAS DE TÓQUIO

 

 

A Borboleta Perdida passeia por Kyoto

 

21 de abril de 2021

Apesar da fadiga ter interrompido a viagem de Sua Majestade Imperial ao sudeste asiático, os preparativos para seu aniversário de 87 anos estão a todo vapor. Todos os membros da família imperial estarão presentes. Uma audiência foi agendada, na qual Sua Alteza Imperial a Princesa Izumi será oficialmente apresentada a seus avós pela primeira vez.

Recentemente, correspondentes do Fofocas de Tóquio e alguns moradores viram S.A.I. a Princesa Izumi passeando por Kyoto, principalmente à noite (detalhe: a princesa foi vista em um templo e em uma casa de gueixas na semana passada).

Enquanto S.A.I. a Princesa Izumi passeia por Kyoto, suas primas gêmeas parecem sobrecarregadas com seus deveres imperiais, cumprindo funções oficiais em nome da mãe, Sua Alteza Imperial a Princesa Midori, que não é vista fora da propriedade há semanas.

E quanto a seu primo de segundo grau, S.A.I. o Príncipe Yoshihito? Nosso informante do palácio disse que os dois se tornaram próximos. Em um furo de reportagem exclusivo, S.A.I. o Prince Yoshihito foi visto recentemente embarcando no trem imperial. Seu destino? Kyoto.