A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 8 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 8

 

Ela usava o mesmo vestido que Tristan a vira usando da primeira vez que foi até a loja. Algodão simples de uma cor que ficava entre o azul e o lilás.

— Onde está o menino? — perguntou ele.

— O menino tem nome e ele não está aqui. O nome é Duthie, diga-se de passagem, assim como o pai dele.

Tristan virou a cabeça e a olhou com atenção. O Sr. Lawrence deve tê-la informado sobre os direitos legais que ela tinha.

— Que futuro a senhora irá prover para o menino?

— Um feliz — declarou ela, com firmeza. Ela parecia um pouco frágil, mas as costas estavam retas como uma vareta. A expressão era obstinada, como uma leoa defendendo a cria, para dizer o mínimo. Não tinha pensado que ela seria um problema. Talvez devesse ter previsto isto. Mas podia-se dizer que ele não era muito familiarizado com mães.

— Como o futuro dono de uma loja de equipamentos musicais?

— É uma profissão bastante honrada.

— A senhora perdeu o juízo? Eu ofereço a ele rendimentos de milhares de libras por ano, não uma renda escassa com a qual ele mal poderá viver.

— Vamos esclarecer as coisas — disse ela, aproximando-se. — Toda a elegância com a qual o senhor se rodeia, a mesquinharia da sociedade ao seu redor, prefiro que Alfie seja senhor de si mesmo, e que tenha uma vida confortável, a ele entrar em contato com toda a falsidade que o senhor representa.

— Falsidade? Não sei do que a senhora está falando.

— Certo. E quanto ao amor? Vamos falar sobre o amor.

— A senhora só pode estar delirando.

— Amizade. Vamos falar sobre as suas amizades diversas e profundas. — A amizade dele com lady Woolwich veio à sua mente, mas não era nela que ela estava pensando. Caso contrário, seria um exagero dizer que ele tinha amigos. Havia pessoas úteis e inimigos, e, entre eles, nada que fosse digno de nota.

— E a senhora acha que uma loja de equipamentos musicais oferece isso a ele? Só pode estar louca. Não entende o quão precária é a sua situação? A senhora está a um passo da workhouse. É irresponsabilidade da sua parte negar a ele o futuro que eu posso oferecer.

— Seria irresponsabilidade da minha parte colocá-lo sob seus cuidados. Você mal é um ser humano. E com certeza não serve para criar uma criança. Podemos não ter acesso a todos esses pormenores, mas estamos muito bem do jeito que estamos. Não há nada aqui que seja da sua conta. Alfie não será seu herdeiro. Não há dinheiro no mundo que me fará mudar de ideia. Encontre outra coitada com quem se casar, de preferência uma criatura que dê valor ao que o senhor tem a oferecer, e conceba o seu próprio filho. O senhor não vai levar o meu.

— Ou talvez eu só precise esperar um pouco para que a senhora aprenda o quanto o mundo é cruel com as viúvas.

— Não tão cruel quanto é para as divorciadas.

Tristan franziu os lábios. Como inimiga, ela era inflexível ao pensar que estava certa, rebatendo seu sensível argumento com opiniões irrefletidas. Com o tempo ela veria o quanto estava sendo pouco razoável. Ou ela ainda sentia amargura pela perda da posição social quando ele se divorciou dela? Aquilo fazia sentido. As pessoas costumavam ficar incrivelmente obtusas por causa de uma perda, e era o filho da Sra. Duthie que estava sofrendo por causa do rancor dela.

Tinha que haver algum meio de tomar o menino daquela mulher. A diferença de classes sociais tinha que dar alguma vantagem a ele. Infelizmente, o fato de esse homem, Douglas Duthie, estar no certificado de nascimento era um problema. Mas que talvez pudesse ser consertado.

Não, infelizmente, pessoas demais sabiam desse arranjo para que a troca pudesse ser feita. O Sr. Lawrence seria implacável, e o homem não seria convencido a ver as coisas do mesmo jeito que ele. A mudança no registro de nascimento talvez estivesse descartada, mas havia outras formas de ele afastar a antiga lady Aberley da vida do filho dele.

— Talvez eu só precise esperar que a senhora veja o quanto o mundo pode ser implacável.

Ela tinha sido mimada por esse homem que tinha se casado com ela, algum tuberculoso fracote. O que fazia dela uma mãe que mantinha o filho em uma casa com um homem que sofria de uma doença fatal e contagiosa. Talvez conseguisse usar algo assim para atingir o seu objetivo.

O dinheiro, obviamente, não resolveria as coisas, ou foi o que ela deu a entender. A riqueza e a ganância foram os motivos para ela e o irmão surgirem na sua vida. Talvez fosse mais fácil convencer o irmão dela.

Sem dizer mais nada, ele se virou e saiu do ambiente sufocante daquela loja miserável, para evitar abordar como ele realmente se sentia sobre o caráter dela. Depois de tudo o que ela tinha feito, era ridículo ela empinar o nariz para a riqueza e o privilégio em favor dessa intransigência de que estava protegendo o filho. Pessoas como ela, e o irmão, venderiam a própria mãe para conseguir dinheiro.

O irmão era o comparsa dela e talvez precisasse se concentrar nele.

A carruagem esperava do lado de fora. Dessa vez, ele sentiu que seria apropriado levar a própria. Enquanto ia para lá, teve até a esperança de que houvesse uma chance de ele voltar para casa com o menino, mas a ex-mulher estava resolvida a causar problemas.

A recusa dela lhe pareceu genuína ou ela era uma atriz soberba. De qualquer forma, o irmão a faria encontrar a razão. Ele devia isso ao filho. Afinal das contas, precisava lutar pelo que fosse melhor para o menino, especialmente porque o pobrezinho foi fadado a ter uma mãe tão pouco racional.

— Acredito que faremos um desvio até a casa de lady Woolwich. — Era um pouco cedo para visitas, mas, sob as atuais circunstâncias, ela não se importaria. Lady Woolwich sempre foi uma boa conselheira quando ele não sabia muito bem como lidar com algum problema; e ele certamente estava enfrentando um verdadeiro obstáculo com a figura contrita que estava de pé com os braços apertados em volta de si dentro daquela loja de música escura e sem clientela.

Entrelaçando os dedos, ele se sentou e esperou o cocheiro sair. Não tinha certeza se algum dia na vida tinha conhecido uma pessoa tão problemática quanto Sophie Duthie. É certo que ela era bastante recatada quando eles se casaram, quando ela estava tentando cair em suas boas graças, mas aquilo tinha sido uma encenação porque, agora, ela era espinhosa demais.

Finalmente chegaram e ele se anunciou para o mordomo de lady Woolwich, quem o levou para a sala matinal que ficava em frente aos jardins muito bem cuidados nos fundos da casa.

— Tristan, querido — disse ela, enquanto desfilava com o vestido amarelo e o cabelo preso em um penteado mais simples do que tinha se acostumado a vê-la usar. — O que o traz aqui tão cedo?

— Eu fui vê-la.

— Quem? — perguntou Lady Woolwich enquanto se sentava e arrumava as saias.

— A antiga lady Aberley.

— Oh, certo. — Minette estava muito mais interessada agora.

— Ela diz que não vai entregar o menino. Mas procurarei o irmão dela. É mais provável que o homem tenha bom senso. Nada fala mais com ele do que o dinheiro.

— Mas não com a mãe.

— Ela disse que faria um desserviço à criança se a colocasse sob os meus cuidados, ou algum disparate do tipo.

O mordomo trouxe o chá em uma bandeja de prata e Minette o serviu.

— Agora ela é viúva — disse ela, finalmente.

— Por que isso faz diferença?

— Bem, uma viúva costuma ver a si mesma como alguém que tem mais... liberdade.

— Sobre o que você está falando? — perguntou ele, virando-se para a amiga que lhe entregava uma xícara.

— Uma viúva é menos devota a alguém, principalmente se ela se vir como uma pessoa independente. — O que, infelizmente, Sophie pensava ser, já que é dona daquela lojinha ridícula. — Ela pode não seguir os desejos do irmão se ela pensar que isso vai contra o bem-estar da criança.

— É ela quem está agindo contra o bem-estar da criança, condenando-o à pobreza pelo resto da vida. Que tipo de mãe faz uma coisa dessas?

— Acho que uma mulher que tenha uma opinião muito ruim sobre você.

Sim, bem, isso é, mas ele não sabia por que.

— Eu nunca abusei dela, mesmo que o comportamento dela tenha sido desprezível. É claro que ela foi atirada da casa assim que a vantagem que eles tinham já não existia mais. — Sentiu uma picada de desconforto por causa de todo aquele assunto. Tinha sido sórdido e indecente, e só chegou ao fim por causa da tragédia. — Ela ainda sente rancor.

Tomando um gole de chá, Minette fez aquela lenta subida de queixo que fazia quando discordava de alguma coisa. Levou um tempo para que ele entendesse o significado daquele gesto, mas era óbvio que ela discordava.

— Ela pode muito bem acreditar que você não seja muito carinhoso.

— Carinhoso? Não seja ridícula. Eu contratarei uma babá e uma preceptora competentes para que cuidem de qualquer necessidade que ele venha a ter.

— Uma preceptora e uma babá não substituem uma mãe.

— Então talvez seja a separação o que a aflige. Eu não quero aquela mulher na minha casa.

— Então vocês nunca chegarão a um acordo — declarou Minette enquanto pegava um biscoito na bandeja. A mulher realmente estava se opondo a aquilo? Talvez como mãe ela não queira abrir mão dos cuidados da criança. Infelizmente, Minette falava com certeza. Será que Sophie lutaria contra qualquer coisa para não ser separada do filho? Isso seria um problema.