A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 23 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 23

 

Uma rotina foi estabelecida e os dias foram ficando mais previsíveis. Sophie tomava café da manhã com Alfie no quarto das crianças, depois ele começava as aulas com o Sr. Herman, e Sophie passaria o tempo fazendo o que quisesse. Os instrumentos da sala de música estavam tão bons quanto poderia deixá-los. Ela tinha pegado uns livros na biblioteca e todas as coisas estavam muito bem arrumadas nos lugares aos quais pertenciam.

Estava claro que ela precisava de outras atividades com que se entreter. Por causa da loja, nunca teve tempo para coisas como fazer bordados, rendas ou qualquer outra coisa que as damas faziam em seu tempo livre. Mas, ali naquele lugar, essas coisas seriam necessárias, pois não tinha mais nada o que fazer. Verdade seja dita, essas atividades não eram as mais recompensadoras e produtivas, mas não conseguia pensar em mais nada. Talvez devesse desenhar.

Teria feito todas essas coisas no colégio interno, se o pai não tivesse morrido de repente. Mas sua vida tinha enveredado por uma direção totalmente oposta, o início da sua vida tinha sido confortável, a família era de classe média e tiravam o sustento dos negócios, depois disso veio a desastrosa investida na alta sociedade, então a vida mais empobrecida ao lado de Doug. Status e posição social não faziam ninguém feliz, era o que tinha aprendido.

Foi aquele conhecimento e a infelicidade que sentiu e presenciou enquanto era lady Aberley que a fizeram querer um futuro melhor para Alfie. Felicidade era mais importante que dinheiro, mas as coisas não eram assim tão simples. A completa falta de dinheiro era miserável. Prisão, depravação e a total falta de valores humanos. As profundezas em que se podia cair não seriam desfeitas pela felicidade.

Talvez contrariar lorde Aberley tivesse sido uma insensatez, os riscos que eles encarariam acabariam com qualquer felicidade que tivessem, mas ainda temia que Alfie fosse infeliz. Era responsabilidade dela preservar a bondade, a inocência e o entusiasmo dele. Lorde Aberley não era tão indiferente ao menino quanto tinha esperado. Vê-los montar pela janela naquele dia tinha sido surpreendente. É óbvio que ficou preocupada. Sua experiência com lorde Aberley lhe fez saber que ele era um homem frio e indiferente, mas Alfie tinha voltado transbordando felicidade.

Se ao menos lorde Aberley se impedisse de reprimir o menino e a crescente admiração que ele sentia pelo homem que era o seu pai... Pais e filhos tinham um relacionamento que ela nunca poderia entender, mas sabia que o interesse de Alfie pelo pai só cresceria.

E o homem ainda estava lá. Tinha esperado que ele fosse embora logo depois de deixá-los, mas ele ainda não partira. Pelo bem de Alfie, ela se sentiu animada e preocupada. Não tinha controle sobre as ações de lorde Aberley, mas o tinha avisado que as ações dele tinham consequências para o garotinho que não estava acostumado com um comportamento severo e depreciativo.

Lembrou de Aberley a acusando de estar criando um menino molenga. Sim, ela queria que ele fosse afável. Já havia aspereza o bastante no mundo, não era necessário gerar mais.

Sentindo a necessidade de se mover, Sophie quis esticar as penas. Choveu por alguns dias, mas agora o sol tinha saído e ela queria tomar um pouco de ar fresco. Em vez de andar a esmo, iria até a aldeia da qual lhe falaram. Quando chegasse lá, pensaria em alguma nova atividade. O bordado tinha algum apelo, já que poderia resultar em coisas úteis. Apesar de serem atividades de damas, alguma delas tinham usos mais práticos.

Passando o xale sobre os ombros, ela seguiu para a aldeia. Havia uma estrada que levava até lá, então a caminhada não seria difícil. O sol aquecia a sua pele e o ar fresco enchia os seus pulmões. A tensão a abandonou, e ela sentiu o corpo e a mente aliviarem. Tinha mais energia e aquele medo constante, aquela dor, em breve também desapareceria. A dor tinha chegado e eles haviam passado por ela.

Respirou fundo e caminhou, o exercício a aquecia. Levou um tempo para chegar à pequena aldeia. Havia lá uns cinquenta chalés. As lojinhas se enfileiravam ao longo da rua principal, e havia também uma agência dos correios e uma venda. Lá dentro, pôde ver tudo o que era necessário para o funcionamento de uma casa. Bem, talvez não Sommerfield Hall, mas qualquer um dos chalés dali. Havia jarras de doces atrás do balcão, e ela sorriu ao pensar que Alfie encontraria o lugar em algum momento.

Havia também uma pequena padaria, e as mulheres passavam com tortas, que provavelmente seriam servidas para as famílias no jantar, para serem assadas no forno da padaria. Uma escolinha do outro lado da rua. As pessoas falavam umas com as outras e sorriam. Todos se conheciam. Era uma aldeia pequena e encantadora. O tipo que via em ilustrações pitorescas. Aqui a imagem vinha à vida.

Era na venda que encontraria tecidos e linha para bordado. Uma sineta tocou enquanto ela entrava, o homem lá dentro a observou com curiosidade. Era uma estranha naquela aldeia, ela reconheceu. Em Londres havia mais estranhos que conhecidos, mas era diferente em uma aldeia tão pequena como aquela.

— Como posso ajudá-la? Eu sou o Sr. Grees.

— Sra. Duthie — disse ela. — Estou procurando linhas para bordado.

— Ah — disse ele, ainda olhando para ela. — Estou correto em presumir que a senhora está vindo da Hall?

— Faz pouco tempo que moro lá.

— Bem-vinda à nossa pequena região. Você é de Londres, imagino.

O sotaque dele era diferente do dela, então era compreensível ele ter presumido aquilo.

— Sim.

Finalmente, ele sorriu e foi até o longo balcão de onde puxou uma gaveta da parede que havia atrás dele.

— Estas são as linhas que temos em estoque. Se desejar algo em particular, posso encomendar. Recebemos mercadoria uma vez por semana.

— Entendi — disse ela, os dedos afagavam as linhas. Havia fios de lã e de seda. Também um tipo de fita usada para bordado. Sophie escolheu algumas cores, começou pela lã, já que estava, basicamente, treinando. Pegou dois xelins do bolso que tinha costurado na cintura do vestido, hesitando por um momento antes de entregá-los. Seu dinheiro estava diminuindo rapidamente. Era uma questão de tempo até ela ficar sem um tostão. Não demoraria muito e estar totalmente dependente de lorde Aberley. Seria bom pensar que o irmão a ajudaria, levando-se em consideração do que ela tinha aberto mão por ele, mas aquilo demoraria muito a acontecer.

Agradeceu ao homem e saiu da loja sabendo que ele estava tentando adivinhar quem exatamente ela era e qual posição tinha. Talvez as pessoas da aldeia já soubessem. Era mais que provável que a criadagem de Sommerfield Hall conhecesse as pessoas da aldeia. Não sabia bem como seria recebida ali, ainda precisava descobrir este pormenor. Descobriria com o tempo. Eles poderiam rejeitá-la ou aceitá-la com relutância. Talvez eles até mesmo fossem grosseiros com ela. Era difícil dizer.

Colocando o fio no bolsinho, começou a percorrer o caminho de volta para casa. A estrada era muito bem mantida, mas também não viu nenhum movimento ali. A casa ainda não estava a vista quando começou a chover e Sophie apertou ainda mais o xale. O calor do sol tinha amainado e a chuva fria penetrava nas suas roupas. Ela sequer usava um chapéu, um hábito que tinha largado quando conheceu Doug. Para ela, o hábito parecia juvenil e sem sentido, mas com certeza poderia fazer uso de um agora.

A chuva apertou e ela buscou abrigo debaixo de um carvalho, ficou protegida por um tempo, mas não demorou muito e as gotas gordas e frias se infiltraram pela copa da árvore. O frio estava sugando todo o calor do seu corpo, e decidiu que não poderia ficar parada ali o dia todo. Qualquer que fosse a proteção que a árvore oferecia, não seria o bastante. Teria que enfrentar a chuva e ir para casa.

A água encharcou tanto o xale que a peça já não era mais de nenhuma utilidade. O peso da água fez os grampos soltarem do seu cabelo. Ela estava sendo arruinada pela água e não havia nada que pudesse fazer. Embrulhou o xale e enfrentou a chuva enquanto caminhava. Chegou a um ponto em que não poderia ficar mais molhada. O vestido estava encharcado, os sapatos molhados e o cabelo estava solto sobre os seus ombros.

Tecnicamente, estava mais perto da aldeia do que da casa, mas que problema teria ela ficar molhada e suja de lama? Era só um pouco de água. Não era o fim do mundo, mas pensou que da próxima vez traria um guarda-chuva junto. Infelizmente, não tinha os meios para comprar um.