A Esposa Desprezada
Capítulo 32
Tristan não se juntou a Sophie e a Minette para o chá da tarde. À distância, ele viu a carruagem do reverendo Narstop se aproximar, extraordinariamente feliz por não estar lá. Chás da tarde não eram coisas as quais se submetia voluntariamente. Artifícios e polidez. Até mesmo a ideia o fazia estremecer.
O engenheiro de pontes que tinha contratado estava no local com as plantas. Hoje, eles decidiriam qual seria a estrutura.
Naquele momento ele queria que algo mais prático o ocupasse, algo que o afastasse de seus pensamentos. Por alguma razão, os comentários de lady Woolwich, ultimamente, tinham começado a ficar desconfortáveis e até mesmo mordazes. Ele não gostou nenhum pouco disso.
Ele também não gostava da ideia de Sophie e Minette passarem mais tempo juntas. Por alguma razão, aquilo parecia perigoso; como se elas estivessem conspirando. Mas com que propósito? Não havia razão para essa inquietação. Não havia nada de importância para ser decidido, exceto, talvez, a contratação de um novo tutor.
Podia-se dizer que ele estava arrastando um pouco a decisão, já que ele nem mesmo estava olhando os anúncios. O que ele precisava era de algum idoso inteligente e hábil. Seria o tutor perfeito para Alfie. Alguém que tinha décadas de experiência formando jovens mentes.
Alfie queria vir com ele hoje, mas Tristan não permitiu, já que haveria máquinas, estacas e pedras de fundações a serem entregues. Enormes carroças de cavalo. Não era o lugar para um menino de seis anos. Ele teria que se contentar em distrair o vigário, o que, de todo jeito, era um papel que um jovem deveria saber.
Eles se ocuparam no canteiro de obras, o engenheiro delimitava onde as estacas de madeira deveriam ser dispostas no chão, onde as fundações precisariam ser reforçadas. Os trabalhadores foram trazidos para começarem a cavar. O projeto levaria um tempo para ser concluído, mas era necessário. Não ter uma ponte sólida ali colocaria uma boa parte da sua colheita em risco, e isso seria apenas por mal gerenciamento. Aberley detestava incompetência.
Quando começou a chover, fazendo com que fosse difícil continuar a cavar, ele voltou para casa, chegando bem na hora que o vigário partia. Tanto Sophie quanto Minette estavam sob a área coberta da entrada e acenavam para o homem.
Ao que parecia, ninguém estrangulara ninguém.
— Uma pena termos nos desencontrado, lorde Aberley — gritou o vigário de dentro da carruagem. — Talvez outra hora.
Tristan sorriu, lacônico. Não se ele pudesse evitar.
Subindo os degraus, ele se juntou às mulheres.
— Tarde agradável?
— Um homem muito amigável — disse Minette, mas o foco dele estava mais em Sophie, quem estava observando a carruagem se afastar lentamente na estrada. O frio deixou as bochechas dela rosadas, combinando com o rubor dos lábios. Será que o vigário a achava bonita? Ele teria que estar morto para não achar.
— Como está indo a construção da ponte? — perguntou ela, virando-se para ele. Ele sentiu o olhar dela como um prazer físico. Um cacho tinha escapado do penteado e caíra graciosamente sobre o ombro dela. O vigário teria notado aquilo também?
— Já começaram a cavar, mas encerramos as atividades por causa da chuva — respondeu ele.
Os lábios dela se entreabriam, como se ela quisesse dizer alguma coisa, mas parou.
— Ainda há chá no salão matinal, caso deseje. — Ela devia estar sentindo frio lá fora, já que os mamilos estavam aparentes por trás do tecido, dando à sua imaginação uma boa imagem de como eles eram. É melhor o vigário não ter visto isso.
Tristan franziu os lábios e afastou o olhar antes que olhasse descaradamente para os seios dela. Minette, maldita seja a sua bisbilhotice, os observava.
Sophie se virou e entrou na casa e Minette pegou o braço dele, mas o largou logo que descobriu o quão molhado ele estava.
— Você precisa se trocar. Depois tomaremos chá. Falarei para Wellswar mandar outra chaleira. Anda, anda. Não me faça esperar.
— Você me dá ordens como se eu fosse um criado.
— É bastante eficiente.
Uma pequena parte dele queria se rebelar, mas sabia que seria criancice. Na realidade, a distração seria boa, porque a parte de baixo do seu corpo já começava a ficar inebriada, enviando rios de tensão pelo seu corpo. E isso porque a parte irracional da sua mente queria seguir Sophie para onde quer que ela fosse. Queria se arrastar no aroma dela e sentir aquele corpo macio junto ao seu.
Como o corpo dele podia traí-lo desse jeito? E a sua mente? Talvez precisasse de uma boa bebida em vez de uma xícara de chá.
No quarto, ele tirou a camisa por sobre a cabeça e a colocou sobre o respaldo da cadeira. As correntes de ar passaram por sua pele.
Esta era uma clara desvantagem de estar no campo. Não havia alívio para os seus instintos mais básicos, mas ele seria puxado para cá assim que se afastasse. Não havia nada a ganhar.
Não ficaria surpreendido se Minette soubesse da luxúria que sentia por sua convidada. Ele não era feito de pedra. Com a beleza dela, talvez não seria surpreendente, mas não era a beleza que o atraía. Ela era a obstinação que o desafiava o tempo todo. Mesmo que aquilo fosse um total aborrecimento, também o afetava mais, incitava-o a desafiá-la também.
Pegou um calção limpo, vestiu-se e desceu, recusava-se a continuar pensando naquilo. Porque, se continuasse, não haveria dúvida sobre o que fazer. Ele não poderia ficar sentado ali para sempre, desejando a sua nêmesis. Voltar para Londres seria a única saída. Mas a ponte. Na realidade, a ponte não precisaria dele ali todos os dias. Seria perfeitamente possível se corresponder com o engenheiro sobre os assuntos mais importantes.
Afagando o queixo, tentou chegar a uma decisão, mas descobriu que a mente se recusava. A luxúria o enfraqueceu. Sempre fora um pouco fraco, e sempre soube disso. Mas ela nunca o tinha conduzido como estava fazendo agora. Não podia dormir, não conseguia se concentrar.
Minette estava no salão matinal, elegantemente sentada no sofá. Ela vestia um vestido verde-claro hoje.
— Talvez, se estiver de acordo, você pudesse acompanhar Sophie até uma costureira em Bournemouth e dar alguns conselhos de moda para ela.
— Os vestidos dela são bastante simples. Você achou por bem despojá-la?
— Ela não aceitará a minha esmola.
— Não fico surpresa por você colocar as coisas assim. Ela é uma menina orgulhosa.
— Ela é obstinada como uma mula.
Um sorriso cruzou os lábios de Minette.
— Ela está com raiva por você ter se livrado do tutor do filho dela.
— Nosso filho. Não com tanta raiva quanto ela sente por eu respirar. Eu acho.
— Pode ser. Você dois parecem interagir da maneira errada.
— Acho que podemos dizer que ela desperta o que há de pior em mim. Talvez eu deva voltar para Londres assim que possível.
— Por quê? — disse Minette, virando a cabeça para o lado e observando-o.
— Acho que seria uma conclusão mais tranquila para todos os envolvidos.
— O jovem vigário com certeza gostará disso.
Tristan piscou, não estava entendendo completamente o que ela insinuava. O vigário o queria fora do caminho? É claro que sim. Tristan meio que já sabia daquilo.
— Ele parece bastante encantado com ela.
Será que todos os homens caíam sob o feitiço dela? Pensou mal humorado. O pensamento enviou impulsos acalorados para estrangular o homem.
— Não fique com ciúme, Tristan. Ela é jovem, viúva. É natural que ela aproveite a liberdade da posição dela.
Liberdade? Que liberdade? Para seduzir homens?
— Não debaixo do meu teto.
— Não seja irracional. Você não é pai dela, nem marido. Ela é uma mulher livre para tomar as próprias decisões. Jovem demais para ficar trancada dentro de uma casa. Os homens a notam. É simples assim. Ela os deixará se aproximar e, eventualmente, escolherá um para ser seu marido; ou até mesmo seu amante.
— Eu não posso permitir que meu filho seja exposto a tal comportamento — disse Tristan, ameaçador. A raiva estava fervendo dentro dele. O maldito vigário não poderia mais chegar perto da casa.
— Vamos lá, Tristan. Você não é puritano. Sophie é uma bela mulher, no auge da vida. Tudo acontecerá de forma natural, e é inconcebível que você fique no caminho. Você não tem o direito de fazer isso.
— Ela está vivendo sob o meu teto.
— Agora você está sendo irracional. Na verdade, nós convidamos o jovem reverendo Narstop para o jantar daqui a uns dias.
Tristan levantou da cadeira de supetão, sentindo-se traído. A necessidade de se mover era tão urgente que ele não pôde mais ficar sentado.
— Preciso cuidar de algumas coisas. — Com passos fortes, ele saiu do salão, buscando a solidão do seu escritório.
Minette falou atrás dele.
— Deve ser uma noite encantadora. Você precisa superar sua objeção de homens vindo a esta casa. Você não pode, afinal das contas, mandar este para longe do campo.
Aquela megera estava gostando demais daquilo. Talvez ele estivesse reagindo com um pouco de severidade demais. Até mesmo ele podia ver, mas isso não o fez parar de sentir o que sentia. Outro homem encantado pelo sorriso acolhedor de Sophie e sua agradável figura. Parecia que cada maldito homem que ela encontrava se rendia ao feitiço dela: inclusive ele. Vê-los era como uma bandeira vermelha para um touro, e ele sabia disso. Ele tinha total consciência de que estava sendo irracional, mas não conseguia evitar.
Sua nêmesis o reduzira a um cabeça quente irracional que perdia a compostura toda vez que um homem se aproximava dela. Mas Minette estava certa, não havia muito o que podia fazer quanto a isso. A menos que se casasse com ela, o que o ataria a uma mulher que o fazia perder a cabeça. Não que alguma vez ela fosse concordar com o desfecho, mesmo que ele conseguisse convidar tal caos para a sua vida. Era caótico agora e eles nem eram amigos, imagina se fossem casados.