A Esposa Desprezada
Capítulo 16
Conforme esperado, a carruagem chegou pouco depois do meio-dia. Tristan estava de pé perto da janela e observou enquanto Smyth ajudava o menino e a sua ex-mulher a desembarcar. De certa forma, ficou satisfeito por finalmente ter conseguido o que queria, mas também estava nervoso por ter pessoas na sua casa: por ter uma criança na sua casa.
Em algum momento, ele os mandaria para Sommerfield, mas não ainda. Lá do lado de fora, Sophie não parecia satisfeita, os lábios dela estavam franzidos enquanto ela pegava a mão do pequeno Alfred. Olhando mais uma vez para o menino, ele ficou abismado ao ver o quanto eles eram parecidos. Era quase como se olhar quando mais novo.
Os sons dos dois atravessando a porta se infiltraram no escritório e Tristan saiu. Lacaios carregavam os baús deles e Smyth os conduzia.
— Bem-vindos — disse Tristan e tanto mãe quanto filho se viraram para ele. Alfred olhava em volta, maravilhado, e ocorreu a Tristan que o menino nunca tinha visto uma casa como aquela. — Este é o seu novo lar; assim como Sommerfield Hall, que é muito maior.
Os olhos de Alfred se arregalaram novamente, enquanto a mãe comprimia ainda mais os lábios.
— Estamos aqui, como solicitado — disse ela, finalmente.
— Sim, o Sr. Smyth preparou os quartos de vocês. Tenho certeza que os acharão adequados. Uma palavra, se puder. Vai levar só um instante. Precisamos cuidar de alguns assuntos práticos.
— Certo — adicionou ela e se virou para Alfie agachando-se até ficar da altura dele. — O Sr. Smyth vai lhe mostrar o quarto. Você quer vê-lo? — O menino fez que sim. — Eu irei em um minuto. Só conversarei rapidamente com lorde Aberley.
Tristan sorriu enquanto o menino olhava para ele.
— Não vai demorar muito — reiterou ele.
Alfred foi conduzido pelas escadas e ambos o observaram. Pareceria estranho olhar enquanto o filho estava na casa, uma sensação que ainda não tinha conseguido conciliar. Tristan voltou para o escritório, onde se sentou atrás da mesa.
Sophie se juntou a ele, com má vontade, portando-se tão desconfortável quanto antes, sentou-se na beirada de uma cadeira como se estivesse se preparando para sair dali correndo.
Pegando um envelope que tinha chegado do advogado, ele empurrou os papéis pela mesa.
— O que é isso? — disse ela enquanto olhava para ele.
— Uma declaração jurada de que Alfred é meu filho.
Por um momento, foi distraído por um pensamento, agora havia um filho que continuaria o seu legado, seria beneficiário das muitas decisões que ele tomava agora. Isso o incitou a fazer mais, a conseguir mais. Havia um interesse renovado na longevidade desses investimentos que fazia.
— Isso é necessário? — perguntou ela.
— Totalmente. Com isso, ele será reconhecido como meu filho e herdeiro.
Pegando a pena na mesa, ele a entregou para ela. Por um segundo, parecia que ela não ia se mexer, mas, por fim, ela pegou a pena. O objeto pairou sobre a folha por um momento e Tristan prendeu o fôlego. Então ela assinou. Estava feito. Alfred era seu filho, seu herdeiro. Havia vitória e satisfação, e não apenas por ter conseguido o que queria. Ele tinha um filho, uma criança. Era uma sensação interessante. Naquele momento, ele sentiu... algo que achava ser afeto.
*
Levantando-se do assento, ele foi investigar a fonte da risada que tinha ouvido. Era algo fora do comum naquela casa, e ele se viu indo para o jardim dos fundos. Alfred tinha descoberto o jardim, o que era algo que ele com certeza não tivera em casa. Não era o jardim mais bem projetado. Tristan não tinha destreza, ou interesse, para lidar com jardins. Nem o pai tivera, então o jardim foi deixado a cargo dos criados. Na verdade, eles provavelmente o desfrutavam mais que qualquer um.
Indo lá para fora, ele viu que o tempo estava firme, mas a chuva ameaçava cair. A escadaria que levava ao jardim terminava em um gramado rodeado por arbustos. Havia algumas rosas na lateral da casa, e ele não tinha ideia de quem as plantara, ou de quando isso aconteceu.
Sophie estava de pé e observou Alfred perambular pelo jardim. O vestido dela parecia gasto e simples naquele ambiente. O material tinha desbotado em alguns lugares, por causa do uso. A criadagem estava mais bem-vestida. Tecnicamente, ela não era nem um membro da criadagem nem da família, então não era função dele dizer a ela como se vestir, mas ela realmente não parecia pertencer a ali.
— Você pode fazer quaisquer alterações que quiser no jardim — disse ele, opondo-se totalmente ao seu pensamento anterior de que ela não pertencia nem à criadagem nem à família ao oferecer que ela cuidasse do jardim.
Tendo acabado de perceber que ele estava ali, ela se virou para ele.
— Obrigada. Não sou uma boa jardineira.
Bem, eles tinham aquilo em comum.
— Tenho certeza de que o menino vai gostar.
— Sim — concordou ela.
— Só para você saber, eu pedi conselhos a meu homem de negócios sobre um bom tutor para Alfred. Levará uma ou duas semanas. É difícil achar bons professores. Infelizmente, não tenho muita experiência com essas coisas. Nenhuma despesa será poupada.
— E quanto à escola dele?
— A escola dele? Não, isso não é necessário. Ele terá um tutor particular.
— Mas é a escola dele, onde os amigos dele estão.
— Obviamente, o futuro lorde Aberley não pode ser educado em uma escola mantida pela caridade.
— Não é uma escola de caridade.
— Nem tem um bom nível de ensino. Oxford não aceita crianças de... escolas medíocres de Holborn. É claro que você entende.
Sophie voltou a comprimir os lábios. A verdade era que assim que o tribunal legitimasse o menino como filho dele, ela não teria nenhum poder sobre ele. E como pai, ele tomaria as decisões importantes sobre a educação do menino.
— Assim que tudo estiver resolvido, você e o menino irão para Sommerfield Hall.
Ela olhou para ele descaradamente. Os olhos dela eram verdes. Não notara isso antes.
— Não conhecemos nada de Dorset.
— Você gostará de lá. Espaços amplos, belos jardins; presumo. E o mais importante, eu não estarei lá. Tenho certeza de que você gostará desse fato.
Sophie rangeu os dentes e voltou a olhar para o filho, os traços dela se suavizaram. Ela amava o menino, mas ele já sabia daquilo.
— Seu filho é o futuro lorde Aberley. Ele não precisará de nada.
— E eu era lady Aberley, isso não significou muito no final das contas. Descobri que não podemos nos apoiar em algumas coisas.
Estava claro que ela não confiava nele, e, da perspectiva dela, a sorte era fugaz e pouco digna de confiança, ou talvez era nele em quem ela não confiava. Nos dois, provavelmente.
Por que era sempre tão difícil lidar com ela? Desde o momento que a conheceu, sempre tinha sido estranho e penoso.
O desconforto fincou as suas garras. Ele não sabia o que dizer a ela, ou ao menino. Uma criança era um ser desconhecido para ele. De repente, sentiu-se inadequado. Não poderia lidar com a mãe, e não podia lidar com a criança também. Que papel ele tinha que não o de provedor? O pai não tinha escolhido outro papel, mas instintivamente ele soube que aquilo era inadequado e agora temia que seguisse pelo mesmo caminho.
O menino estava agachado, olhando para um inseto. A alegria estava estampada no rostinho dele.
Talvez os temores de Sophie pelo menino fossem justificados. Talvez ele realmente não tivesse o que era necessário para ser um bom pai. Mas desde o momento que percebeu que Alfred era seu filho, não houve outro curso de ação aceitável. Ele não era do tipo que deixaria o filho exposto aos caprichos do mundo, nas duras ruas de Londres; mesmo que a mãe dele se recusasse a enxergar os perigos óbvios. Aquilo provava que ele era um bom pai, não? Ele lutou pelo menino, queria mesmo o melhor para ele. Com o tempo, Sophie se conformaria. Ou não. Por que a irracionalidade dela não era uma surpresa?
Talvez aquilo não fosse justo. Ela via perigo da influência que os outros teriam no menino. Ele entendia alguns pontos, mas ela nunca seria capaz de proteger a criança da dura realidade de viver tão perto da pobreza em Holborn. A loja e o sustento dela tinham escapado. De qualquer forma, era só uma questão de tempo. Foi só por sorte que ele não tivera que resgatar o menino de uma das casas de indigentes.