A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 31 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 31

 

Em parte, foi a curiosidade que arrastou Sophie para o salão naquela noite. Que tipo de pessoa estava de visita, e que tipo de pessoa tinha Aberley como amigo; essa pessoa que aparentemente quase nunca se vestia com simplicidade.

Sophie viu o vestido antes de ver a pessoa: luminosas faixas de seda verde, um elegante bordado rosa e branco. Era lindo. Assim como a dama que o vestia. Olhos bonitos e o rosto em formato de coração. À primeira vista, não teria esperado que esta mulher e Aberley fossem amigos.

— Olá — disse ela. — A menos que eu esteja enganada, você é lady Aberley. A antiga lady Aberley, quero dizer. É um prazer conhecê-la.

— Agora atendo por Sra. Duthie — disse Sophie e trocou um leve aperto de mão com a mulher, quem obviamente era uma lady. Woolwich, se não estava enganada. — O prazer é todo meu. É raro recebermos visitas.

— Tristan trancou a senhora como um ogro em uma torre. Posso ver por que — disse a mulher, sorrindo, e Sophie não sabia muito bem o que ela pretendia com aquela declaração, ou como responder a ela. Obviamente, nada daquilo era verdade, e interessante, esta mulher e ‘Tristan’ se chamavam pelo primeiro nome. Sophie nunca o chamara de Tristan, exceto quando trocaram os votos de casamento.

Como sempre, Wellswar entregou uma pequena taça de xerez para Sophie e ela a aceitou com um sorriso. Às vezes, ela sentia que as intenções de Wellswar eram as únicas que eram sinceras ali.

— Espero que esteja bem acomodada. A casa é linda, não? — Lady Woolwich prosseguiu. — A aldeia é pequena e exótica. E eu conheci o seu filho, é claro, um belo rapazinho. Você deve sentir tanto orgulho dele.

— Sim, é claro.

— Tristan está apatetado, eu acho, o que é encantador. Ele é um homem tão isolado.

Por um momento, Sophie teve que imaginar se lady Woolwich tinha oportunidades suficientes para conversação em sua amizade com Tristan, porque ela parecia finalmente ter encontrado uma oportunidade para dizer todas as coisas de que precisava.

— Eu prefiro meu isolamento, como você o chama — disse Aberley, sentado com as pernas cruzadas em um dos sofás perto delas. — As pessoas não conseguem deixar de ser tediosas.

— Você está me chamando de tediosa, Tristan? — disse lady Woolwich, meio ofendida, meio provocando.

— Jamais. Você é sempre uma fonte de diversão e compreensão.

A mulher voltou a prestar atenção em Sophie e ergueu as sobrancelhas. Sophie também não entendeu aquele gesto.

— Ele pode ser terrivelmente desagradável e ele sabe disso.

Não havia como discordar daquilo. Sophie só podia concordar, pensou enquanto tomava um gole do vinho.

— Há quanto tempo se conhecem?

— Há eras, Tristan, de início, era amigo do meu irmão, mas eu acho que eles se distanciaram por alguma razão.

Mantendo o olhar afastado, Tristan se recusou a responder a provocação.

— No entanto, nós continuamos amigos — prosseguiu ela.

— Então a sua família também é da região de Dorset?

— Não, não. Tristan e Roddy se conheceram em Oxford. Havia um monte de nós por um tempo, mas seguimos caminhos separados à medida que fomos crescendo e começando nossas famílias. Nenhum vivenciou a mesma salacidade dramática que Tristan.

Sentindo-se corar, Sophie tomou outro gole. Ela era um dos escândalos que manchavam a reputação dele. O casamento deve ter sido um escândalo, em primeiro lugar, e depois veio o divórcio. Mais recentemente, o noivado rompido. Isso com certeza era forragem para as fofocas. Talvez, agora com ela vivendo na casa dele, fosse ainda mais. Não sabia. Nem podia imaginar Aberley preocupado demais com as fofocas ditas entre eles mesmos.

Houve silêncio por um momento, o qual foi ficando ainda mais desconfortável.

— Mas é bom finalmente ver Tristan meio domesticado — prosseguiu lady Woolwich.

Talvez essa mulher não o conhecesse tão bem, afinal de contas. Não havia nada de domesticado nele.

— A senhora tem filhos? — perguntou Sophie.

— Sim, dois meninos. Já são quase homenzinhos, eles crescem tão rápido.

Sophie sorriu, entendendo a declaração de que as crianças cresciam rápido demais. Parece que foi ontem que segurava Alfie pela primeira vez, e agora ele estava aprendendo a montar um cavalo. Parecia que a cada dia ele precisava um pouco menos dela. Em vez de estar completamente focado nela, ele explorava o mundo à sua volta.

— O jantar está servido — disse Wellswar.

Sophie deixou a taça de vinho de lado e se levantou, sentindo-se mal vestida e desajeitada em comparação à sua companhia. Ela não queria estar ali, para início de conversa, mas seria rude não ir conhecer um hóspede que estava na casa.

Como convidada, lady Woolwich foi conduzida ao que costumava ser o assento do Sr. Herman.

— Que delícias teremos esta noite? — perguntou ela.

— Cordeiro, milady.

— Eu amo cordeiro — disse ela, animada. — Não nos demoremos com a sopa. Foi um dia longo.

Wellswar fez que sim e direcionou os lacaios que estavam servindo. A sopa era de cebola com seus sabores ricos e notas defumadas. O cozinheiro de Sommerfield tinha um dom. Sophie nunca comera tão bem. A sopa estava deliciosa, mas, seguindo as instruções de lady Woolwich, ninguém se demorou muito com o prato.

— Há algo que deseja ver enquanto está aqui? — perguntou Aberley.

— Só os meus amigos, é claro — respondeu ela, incluindo os dois.

Era estranho o pensamento de considerar amiga uma pessoa como lady Woolwich. Era óbvio que ela estava sendo educada, mas Sophie ainda imaginou como seria ter uma amiga como ela. Verdade seja dita, Sophie não tinha muitos amigos, outros que não fossem seus clientes favoritos. Em sua vida, não houve muito tempo para amizades, e Doug tinha sido toda a sua vida. Até mesmo lorde Aberley tinha um amigo, ao que parecia. Talvez fosse hora de fazer alguns, embora ela não estivesse totalmente segura de que pudesse confiar em lady Woolwich.

Em pouco tempo o cordeiro foi servido, e lady Woolwich claramente desfrutou dele, mas depois de algumas mordidas, ela baixou os talheres.

— Foi um dia cansativo, infelizmente, precisarei me retirar. Não consigo manter os olhos abertos. — Ela não parecia muito cansada.

Aberley se levantou para ajudá-la a sair da cadeira e ela saiu da sala, deixando tanto Sophie quanto Aberley um pouco atordoados com a rápida retirada.

A sala ficou completamente silenciosa. Era como se toda a animação tivesse saído do cômodo, deixando apenas duas pessoas que não queriam muito estar lá, mas eles estavam apenas no meio do jantar.

— Acredito que teremos rocambole de framboesa para sobremesa.

— Parece ótimo. — E era verdade. Pareceria um insulto ao cozinheiro caso eles terminassem o jantar mais cedo porque não queriam ficar na companhia um do outro, sendo que o pessoal da cozinha tinha trabalhando diligentemente para cozinhar esta refeição.

O silêncio preencheu a sala e Sophie continuou a comer. Ao contrário de lady Woolwich, ela não se satisfaria com apenas umas mordidas. Mas a retirada dela para o quarto podia ser entendida, levando-se em consideração a viagem que tinha feito.

Sophie pigarreou.

— Eu convidei o reverendo Nastop para o chá amanhã. Eu tinha feito isso antes de lady Woolwich aparecer, mas já que ela está aqui, ela é mais que bem-vinda a se juntar a nós.

— Provavelmente o aconselhamento divino será de bom uso para ela — disse Aberley, sarcástico. Era um sarcasmo que ela não deveria entender.

Se alguém precisava de aconselhamento divino, essa pessoa era ele.

— O senhor, é claro, também será bem-vindo — disse ela, comendo outro pedaço de cordeiro.

Aberley parou de mastigar por um tempo, como se estivesse procurando o que dizer.

— Tenho muito o que fazer.

Sophie ficou aliviada, sentindo que as trocas deles eram estranhas o bastante sem o reverendo Narstop observando-os. Os clérigos podiam ser proibidos de revelar uma confissão, mas Sophie não tinha certeza se aquilo se estendia ao que ele via. Devia haver um monte de pessoas na região que estavam curiosas sobre as pessoas que residiam em Sommerfield. A verdade da situação poderia não lhe favorecer muito, caso tentasse fazer amigos.

— O senhor já decidiu o que fará quanto a educação de Alfie?

— Ainda não. Ele não sofrerá demais se ficar sem um tutor por um ou dois meses.

— Então o senhor deve ficar ciente de que ele procurará entretenimento e diversão. — O que significava que seria provável que ele procurasse Aberley com bastante regularidade. — Ele poderia ir para a escola da aldeia.

— Definitivamente não.

— Há outras crianças lá.

— Não podemos mandar o herdeiro de Sommerfield Hall para a escola da aldeia. Isso não pode ser feito. Talvez lady Woolwich possa lhe assegurar, caso não aceite a minha palavra. Teremos que conseguir outro tutor. A alternativa é enviá-lo para uma escola como Harrow, mas pode ser um ambiente brutal, principalmente para um garotinho.

— Eu nunca desejaria mandá-lo para longe da família.

— Então nós arranjaremos outro tutor.

Não precisaríamos fazer isso, se você não tivesse enviado o que tínhamos para longe, ela quis gritar, mas manteve a boca fechada.

Caíram naquele silêncio desconfortável mais uma vez. Sophie observou o homem ao lado dela, que parecia focado demais na comida. Era como se eles já estivessem em um casamento ruim. Duas pessoas que não se suportavam, mas tinham que conviver pelo bem de uma criança. O divórcio não significara nada no final das contas. Eles estavam no mesmo lugar que estariam. Ela bufou ao pensar naquilo.

— O quê? — perguntou ele.

— Nada.