A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 30 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 30

 

O desgosto de Sophie se assentou como um pesado cobertor sobre toda a casa. Ela se recusava a juntar-se a ele para o jantar todas as noites e eles raramente ficavam no mesmo ambiente.

Talvez tivesse sido dissimulação ter sugerido o Sr. Herman para a vaga no Cairo, mas o homem levou apenas segundos para decidir que aceitaria a oportunidade. Posições assim não eram oferecidas a homens casados. Poderia, entretanto, que o Sr. Herman estivesse esperando que Sophie continuasse disponível quando ele voltasse? Era óbvio que ele não conhecia Sophie muito bem. Ela não perdoava.

As aulas de equitação não aconteceram, mas Tristan passava os dias com Alfie, ensinando-o a montar. A confiança não era algo que se podia ensinar, entretanto, Alfie a desenvolvera em seu próprio ritmo, mas Tristan poderia dividir tudo o que ele sabia sobre equitação e tratos com os cavalos.

Hoje eles estavam andando a passo lento em volta do cercadinho, Alfie estava aprendendo a mudar de direção. Ele ficava adorável em cima do cavalo. Era difícil acreditar que uma pessoa podia ser tão pequena. As pernas esguias dele mal alcançavam o ventre do cavalo.

À distância, Tristan viu uma carruagem se aproximando. Eles estavam obviamente se aproximando da casa, já que não havia nenhum outro lugar para onde pudessem estar indo. Não tinha ideia de quem era. Não tinha convidado ninguém. Talvez Sophie tivesse. Teria sido gentileza da parte dela tê-lo avisado, se fosse o caso. Tomara que não fosse o irmão dela indo até lá pensando que seria bem-vindo.

Enquanto eles se aproximavam, Tristan viu o brasão e seus ombros decaíram. Era a última coisa que precisava.

— Hora de ir — disse ele a Alfie. — Nós temos visita.

Desajeitadamente, Alfie se virou e escorregou pelo flanco do pônei para poder apear. Nada elegante, mas ele estava fazendo sozinho, mesmo não conseguindo montar sozinho.

— Talvez seja melhor você ir procurar a sua mãe — disse ele para o menino enquanto eles entregavam o pônei ao cavalariço.

Alfie não discutiu e foi correndo para casa. O menino nunca ia andando para lugar nenhum; sempre correndo, como se pudesse perder alguma coisa caso fosse devagar demais.

Com um sorriso tenso, ele esperou enquanto a carruagem de Minette se aproximava da entrada principal.

— Olá, querido — disse ela enquanto colocava a cabeça para fora.

— Minette, que agradável surpresa. Não sabia que estava vindo. — Na verdade, ela nunca tinha ido até lá, mas ele também nunca tinha passado muito tempo ali.

— Você disse que o convite estava valendo.

— É claro.

— Então pensei que eu finalmente poderia vir vê-lo.

Ela estava ali para conhecer e observar Sophie. Ele só não tinha certeza de com que propósito. De alguma forma, tudo isso divertia Minette, provavelmente pela pura exasperação que a situação o faria sentir. Aquilo também a entreteria.

— É uma bela casa — disse Minette, enquanto saia da carruagem com a sua ajuda. O vestido dela era de seda verde com alguns toques de rosa. Um pequeno chapéu amassado prendia o cabelo dela. Ela parecia metade da dama que era. — Posso ver por que você está tão propenso a passar o tempo aqui.

Um golpe direto, se alguma vez tivesse ouvido um.

— Há tanto o que fazer em uma propriedade dessas. Eu a negligenciei por tempo demais.

— É claro que sim — disse ela com um sorriso travesso. Era sempre muito divertido quando as farpas dela estavam direcionadas para outras pessoas, não tão divertido quando eram para ele. E ter Minette e Sophie no mesmo recinto poderia ser tremendamente desastroso. Como Sophie não gostava dele, era certo que ela também não gostaria de Minette, quem estava muito mais arraigada na sociedade do que ele.

— Wellswar, temos uma convidada. Você poderia tomar providências para que o quarto de hóspedes fosse preparado? Tomaremos o chá no salão matutino. — O salão matutino era um lugar ao qual nunca tinha ido. Não havia razão para ir lá. Era onde as damas se sentavam e passavam a manhã. Sophie tinha escolhido o próprio salão no andar de cima, então ela também nunca ficava no salão matutino, mas aquele era um lugar perfeito para Minette.

Com olhos calculistas, ela olhou em volta e tomou nota dos tesouros à mostra. Minette sempre estava avaliando. Era parte de quem ela era.

— Então foi aqui que você cresceu. Tenho dificuldades para vê-lo como um garotinho, mas então, de acordo com o que você disse, seu filho é exatamente igual a você nessa idade. Preciso confessar que estou curiosa. Como estão indo as coisas com a sua pequena família?

— Não familiares, já que você sabe muito que as coisas são mais complicadas que isso — repreendeu-a Tristan. Ela o estava provocando, escavando até ela conseguir o que queria. E o que será que era?

— Onde está o pirralhinho? Tendo aulas?

— Está lá em cima com a mãe.

Minette ergueu as sobrancelhas.

— Ele é um desses meninos que ficam agarrados na saia da mãe?

— Não. Nós perdemos nosso tutor.

— Perderam? Mas que descuidados.

— Surgiu uma oportunidade que ele não podia recusar.

— Mas ele acabou de chegar.

Tristan deu de ombros.

— As coisas só tomaram um rumo diferente.

— Ele era bonito?

— O quê? Não, não particularmente. Um homem bem normal e indistinto. — Aquela conversa o estava deixando desconfortável. Desde quando Minette estava tão concentrada em seu desconforto?

— Bem, é uma lástima.

Wellswar apareceu com o serviço de chá e serviu uma xícara fumegante para cada um deles.

— O quarto já está a sua disposição.

— Obrigada, isso é maravilhoso — disse ela com um sorriso animado.

— Quanto tempo você vai ficar?

— Não fiz planos — disse Minette distraidamente, mas a atenção dela foi puxada para longe dele e ela se remexeu no assento. — E quem é aquele rapaz?

Virando-se, Tristan pôde ver Alfie espiando pela porta.

— Venha aqui, Alfred, e apresente-se.

O menino entrou na sala, meio desajeitado, mas não se aproximou muito. Ele estava rígido feito uma vara. Ele precisava de algumas instruções sobre como cumprimentar as pessoas, Tristan percebeu.

— Que rapaz bonito — disse Minette. — E tão grande para a idade. Quantos anos você tem mesmo?

— Seis — disse Alfred.

— Estou vendo. Você é igualzinho ao seu pai. E onde está a sua mãe?

— Descansando lá em cima.

— Como todos deveríamos estar. O percurso até aqui é atroz.

— Muito ousado de sua parte enfrentá-lo — disse Tristan, lacônico. — Vamos, Alfred — O menino saltou como se estivesse aliviado por ter sido liberado. Eles precisavam muito trabalhar os modos dele. — Estou tratando de algumas falhas na educação dele.

— Não vai ser perdendo o tutor dele. Talvez uma preceptora seja mais adequada se você tiver o hábito de perder os homens que ficam na casa.

— Eu não tenho tal hábito — disse Tristan, sentindo-se ofendido.

— Não, é claro que não. Bobagem minha. Com quem você disse que o tutor conseguiu uma oportunidade?

— Com Faulkness.

— William Faulkness? No Cairo. Tristan, você não precisava banir o pobre homem.

— Era o sonho dele visitar o Cairo. Falava disso sem parar. Ele só conseguiu o que desejava.

Minette o repreendeu com o olhar. Como é que ela sempre conseguia entender o que ele tinha feito? Ele era assim tão fácil de decifrar?

Respirando fundo, ela suspirou e voltou a olhar ao redor.

— Devo me retirar e descansar antes do jantar. Foi mesmo uma longa viagem.

— É claro. Irei lhe mostrar o seu quarto — disse ele tão cavalheiresco quanto podia ser. Talvez não devesse sentir como se aquela visita fosse uma imposição. Ela era uma boa amiga, confiável, mesmo tendo adquirido o novo hábito de provocá-lo impiedosamente. Na verdade, poderia ser útil ter alguém do seu lado.

Oferecendo o cotovelo a ela, ele a conduziu até o andar de cima e foram para o quarto de hóspedes amarelo que tinha sido decorado de acordo com o estilo oriental com vasos de porcelana e sedas amarelas na parede. Era adequadamente suntuoso, e reservado para qualquer convidado de honra. Minette iria gostar.

Com um meneio de cabeça, ele a deixou à porta e ela se trancou lá dentro. Quando chegou à escadaria principal, parou. Em vez de ir para o escritório, ele subiu as escadas e foi procurar Sophie, quem estava confortável em seu salão junto com Alfie.

— Estou certo de que ouviu que temos uma convidada — disse ele, sentindo como se estivesse invadindo o território dela. Esta era a casa dele, mas aquela parte tinha sido anexada a ela. — Lady Woolwich provavelmente ficará muito desapontada se você não se juntar a nós para o jantar.

Os lábios de Sophie estavam apertados enquanto ela o ouvia. Ainda não o perdoara pode ter mandado Herman para longe, ou melhor, por ter facilitado a ida dele.

— Tenho certeza de que ela não está aqui para me ver.

— Eu não teria tanta certeza. Ela certamente não percorreria toda essa distância só pra me ver.

Não havia jeito de Sophie dizer não. Como convidada na casa dele, ela não podia simplesmente negar-se, não que isso a impedisse quando ela estava com raiva dele.

— Ela é muito amigável. Tenho certeza de que se darão bem. Talvez a senhora devesse pensar em usar... — O que ele poderia dizer? O melhor vestido do seu guarda-roupa? O que apenas faria com que as coisas fossem de mal a pior. — Aquele seu belo xale. — Era, literalmente, a única coisa no armário dela que parecia remotamente apropriado. — Lady Woolwich raramente se veste de forma simples.

Talvez Minette pudesse ter misericórdia e ajudar a mulher com alguns conselhos de moda.

O sorriso de Sophie era tenso, mas agora a estranheza tinha aumentado ainda mais. Eles simplesmente não pareciam capazes de ter uma conversa. Sem mais nada a dizer, Tristan partiu. Por que ela tinha sempre que ser tão difícil? Maldição! A mulher mais difícil com quem já teve que lidar. Na verdade, as duas estavam dificultando bastante as coisas para ele. Raios! Mulheres... elas seriam o seu fim.