A Esposa Desprezada
Capítulo 11
A constante vigília na janela da loja se mostrou frutífera, mas não queria ter estado certa quando viu o brasão Aberley em uma carruagem que circulava pela rua. É claro, não havia razão para ele estar ali só de passagem.
Enquanto observava, viu a carruagem parar e a porta preta se abrir. Primeiro avistou o cabelo escuro de lorde Aberley que saiu antes de colocar o chapéu. Os olhos dele a encontraram imediatamente na janela e ele tocou a aba do chapéu com a ponta dos dedos para cumprimentá-la.
Com os braços cruzados, Sophie se recusou a responder. Por que ela não ia em frente e fechava a porta? Porque seria uma atitude infantil. O que precisava era encarar este homem.
— Lorde Aberley — disse ela enquanto ele atravessava a porta. — Que agradável surpresa. Posso presumir que está aqui para comprar uma partitura?
Por um momento, ele ficou calado e parado na porta, então a fechou. Sophie desejou que ele não tivesse feito isso. Não gostava de ficar a sós com ele, mesmo naquela loja que era praticamente um aquário. Não que esperasse que ele fosse representar algum perigo para a sua segurança, mas ele estava ali por uma razão, e era pouco provável que ele tenha ido até ali desarmado, figurativamente falando.
— Foi tão gentil de sua parte ir falar com o meu irmão — disse ela de forma concisa. — Espero que ele tenha lhe transmitido a minha decisão.
Os passos de lorde Aberley ficaram mais pesados enquanto ele se aproximava e Sophie desviou o olhar para a rua. Não gostaria que ele se aproximasse mais. Era estranho pensar que tinha sido casada com esse homem; que vivenciara a intimidade com ele algumas vezes. Tinha dado o seu melhor para sentir alguma coisa por ele, mas nunca conseguiu, o que se provou uma bênção. Mas como alguém poderia sentir algo por um homem tão indiferente?
Lembranças de Doug e de sua gentileza vieram à mente.
— Vim apelar para o seu bom senso — disse ele, por fim, com voz clara e profunda.
Sophie riu daquela reação inesperada. O homem estava mesmo iludido, mas ele pensava que ela iria mesmo vender o filho por determinada quantia, então não deveria estar surpresa.
— Acreditei que eu já tivesse tomado uma decisão. É a sua intenção arrumar uma esposa? Você se livrou da que tinha com bastante rapidez.
— Eu desprezo a mentira.
— Mentira? — disse ela. Bem, talvez tivesse sido. Ela não sabia o que tinha incentivado aquele casamento, então talvez houvesse alguma mentira envolvida. Por alguma razão, este homem tinha permitido que Oliver impingisse uma esposa a ele, e tinha algo a ver com a irmã dele, porque, assim que ela morreu, o divórcio foi iniciado. Oliver, de alguma forma, tinha chantageado lorde Aberley para que ele se casasse com ela.
— A senhora diz que não houve nenhuma mentira envolvida no nosso casamento?
— Provavelmente tenha havido. Eu só não estava a par. — Era jovem e ingênua naquela época. Um lorde bonito ia se casar com ela. Era um conto-de-fadas se concretizando. Exceto que o príncipe era feito de gelo, e que ele tinha aproveitado a primeira oportunidade que teve para se livrar dela. — Penso que concordamos que este foi um acontecimento infeliz e que nunca mais devemos voltar a falar dele.
— Exceto pelo fato de que uma criança foi fruto desse casamento.
— Não, o filho é meu. Nenhum tribunal do mundo discordaria de mim, já que ele poderia muito bem ter sido filho de Doug. — Dado que ele nasceu apenas mais ou menos um mês antes.
— Exceto pelo fato de que ele é exatamente igual a mim.
Sophie deu um passo atrás e deu as costas para ele. O Sr. Lawrence tinha dito que a lei não se importava com quem Alfie se parecia. Doug era legalmente o pai dele. Aquilo era uma inverdade e odiava ter parte nela, mas não tinha escolha.
— E agora eu ofereço a ele uma vida muito melhor do que a que a senhora poderia dar, e a senhora, de forma irracional, a recusa. Até mesmo a sua família pensa que a senhora está sendo irracional.
Bem, Oliver seria quem realmente venderia Alfie por uma riqueza e posição que ele sentia que era devida a ele.
— Eu poderia dizer o mesmo do senhor — disse ela finalmente, e virou-se para ele. — Estou oferecendo a ele uma vida que o senhor jamais poderá prover.
— Uma vida que está a um passo da pobreza? Se a senhora tiver sorte. Só precisa que uma coisa dê errado para o seu castelo de cartas ruir. É aí que a senhora espera que eu venha ao seu resgate?
— Não espero nada do senhor que não seja a sua ausência. O senhor se deu muito bem até agora, então volte para o que estava fazendo.
Afastando-se, ele caminhou lentamente pela loja, verificando a mercadoria.
— Sua situação é precária. Parece que a senhora não entende isso.
Ela entendia muito bem, mas esperava e economizou para que a vida e o sustento deles não fosse destruído. Não era uma situação ideal, mas era o que tinham, e teria que fazer dar certo.
— Qualquer coisa poderia acontecer e acabar com tudo — disse ele. Havia um aviso na voz dele, mas não conseguiu entender o que ele estava insinuando. — Como um novo senhorio aumentando o aluguel. Ou ele simplesmente não querer uma loja de equipamentos musicais em seu estabelecimento. Esta é uma excelente localização e a senhora mal consegue se manter.
— Mas eu estou me mantendo.
— A propósito, eu sou o dono do prédio agora — disse ele, virando-se para ela com um sorriso para que pudesse ver a expressão dela. Homem odioso. — Eu poderia tirar a senhora daqui amanhã mesmo, caso eu desejasse.
Sophie permaneceu com as costas retas e a cabeça erguida. Por um momento não soube o que fazer. Ele era dono do prédio? Isso a colocava totalmente nas mãos dele, como ele já sabia.
— Viu, a riqueza consegue todas as coisas de que a senhora precisa.
— E de alguma forma, não conseguiu uma esposa para o senhor — disse ela, mudando o assunto para algo um pouco mais seguro. Ele a repreendeu com o olhar.
— A razão de tudo isso é conseguir o que eu quero sem precisar de uma esposa, eu acho — disse ele. — Realmente acho a ideia desagradável. Vocês mulheres são criaturas tão mercenárias.
— Se Alfie fosse uma menina, o senhor não teria interesse nenhum em roubá-lo.
— Eu não estou roubando nada, estou simplesmente reclamando o que é meu.
— Ele é uma criança — disse ela, aumentando a voz. — Ele não pertence ao senhor. Ele não é um objeto. E é por isso que eu não vou permitir, por tudo o que há de mais sagrado nesse mundo, que o senhor crie o meu filho. O senhor é um ser-humano desprezível e eu estou pedindo para que saia da minha loja.
— Tecnicamente, a loja é minha. — Ele, com certeza, não seria incitado a sair.
— Bem, eu sugiro que venda o prédio agora mesmo.
— E por que eu faria isso?
Deu um passo à frente para se assegurar de que ele ouviria.
— Porque se o senhor fizer qualquer coisa para ameaçar a minha loja... — Ela respirou fundo, tentando se acalmar, irritada por ele tê-la feito perder o controle. — Deixe-me informá-lo como as coisas serão.
— Por favor, faça isso.
— A posição que eu e Alfie estamos agora, e o senhor não tem nenhum poder ou relevância para nenhum de nós, legalmente ou de qualquer outra forma, se nossa vida aqui se tornar insustentável, teremos que vender todos os meus ativos, e eu tenho o bastante. E então compraremos duas passagens para a América, ou para a Austrália, e iremos começar uma nova vida.
— Austrália? Com cada um dos condenados dos quais conseguimos nos livrar?
— E, ainda assim, todos eles são mais bem comportados que o senhor. Mas sim, nós iremos embora da Inglaterra e é provável que nunca mais voltemos, então, não me pressione, porque eu farei exatamente isso. Não tenho nada que realmente me prenda aqui, e eu farei o que achar que seja melhor para o meu filho. E, para ser honesta, eu acho que a ideia de um mundo sem o senhor e os outros da sua laia tem muito mais apelo.
— Falou como um desses cartistas inveterados.
Ela não era cartista, mas simpatizava com a causa deles. Quem não simpatizaria por aqueles que ganhavam o pão com o seu trabalho suado? Mas os objetivos dela eram diferentes.
— Tive experiência o bastante com o seu tipo para saber que não há nada que eu almeje entre vocês. Nada.
Com toda seriedade, se ele se tornasse problemático demais, teria que fazer exatamente o que ameaçou fazer e simplesmente ir embora da Inglaterra. Seria estressante e assustador ir para um país desconhecido por um futuro que não poderia prever, mas, se fosse necessário, faria exatamente isso.
— A senhora é ridícula — proferiu ele finalmente. Era a vez dele de perder o controle.
— Então, vá em frente, aumente o aluguel o quanto desejar. Faça o que acha que deve fazer e eu responderei à altura.
— Como diabos eu fiquei atado à mais irracional mulher de toda a criação?
— Isso é com o senhor e a sua irmã e com o que quer que o meu irmão tenha usado contra vocês. Era, e ainda é, algo que eu não quero me dar ao trabalho de saber.
A raiva reprimida fez o homem na frente dela tensionar, e ela soube que ganhara essa rodada do que quer que esse jogo perturbador e distorcido fosse.
— E como a senhora sabe que eu não irei atrás de vocês? — disse ele finalmente, e Sophie fechou os olhos, exasperada.
— O senhor nunca conseguiria viver sem os confortos da sua vida mimada. E só está fazendo isso porque acha que é uma forma fácil de resolver os seus problemas. Bem, não é. Eu não vou lamber as suas botas. Lutarei até o meu último suspiro. Não é assim que conseguirá o seu herdeiro, então desista.
— Não! — disse ele rispidamente, a voz ecoou pelas paredes da loja.
— A pior coisa é que — disse ela — eu sei que o senhor está fazendo isso principalmente porque é vingativo.
Agora foi a vez de ele erguer as sobrancelhas.
— Alguma vez já pensou que eu tenho algumas obrigações para com o meu filho?
— E o senhor? Já? — desafiou ela.
— Deixá-lo passar por dificuldades e pobreza só porque a louca da mãe dele não me deixa cumprir minhas obrigações.
Sophie voltou a cruzar os braços.
— Então é melhor o senhor nos deixar em paz, e eu espero que nada venha e perturbe nosso pequeno idílio.
— A senhora está louca — disse ele, e saiu pisando duro, deixando a porta aberta em seu caminho para fora.
A vitória pareceu vazia, mas ainda era uma vitória. Ele fez o pior que podia e ela o tinha encarado. Agora só esperava que ele levasse a ameaça a sério, porque ficava aflita só em pensar em se afastar de tudo o que conhecia e navegar para terras desconhecidas.