A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 24 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 24

 

Enquanto Tristan apertava o casaco junto do corpo, avistou alguém à frente dele caminhando debaixo da chuva. O casaco e o chapéu o protegiam da chuva, mas, à distância, a figura parecia um fantasma. Não era do tipo que acreditava em fantasmas ou espíritos, então incitou o cavalo a um galope, e ficou surpreendido ao ver que era Sophie.

— O que diabos está fazendo? — perguntou ele enquanto se aproximava.

Ela estava completamente molhada. O cabelo estava escuro e encharcado de água, e vestido se agarrava a cada curva do corpo dela. O tecido fino estava, mais uma vez, fazendo um desserviço a ela, deixando muito pouco à imaginação. O material ensopado se apegara aos seios dela, e também à barriga e às coxas. Se alguém a visse assim, seria um escândalo.

— Estava voltando da aldeia quando fui surpreendida pela chuva. Estava quente e ensolarado quando saí, mas o tempo virou. — Os dentes batiam enquanto ela falava e ele percebeu que os lábios estavam secos por causa do frio. Eles até mesmo estavam meio azulados.

E esta mulher idiota decidiu caminhar pela chuva sem estar preparada. Mas ele se lembrou que ela era uma garota da cidade, e a chuva era só um aborrecimento em Londres, onde ela poderia simplesmente buscar abrigo em um café ou pegar uma carruagem de aluguel. As coisas eram diferentes ali. Não havia onde se esconder da chuva. Aquela era uma lição que ela acabara de aprender.

— Estamos próximos do litoral sul. As chuvas perto do mar chegam rápido e são poderosas.

— Ninguém me disse — declarou ela. Ela parecia prestes a chorar.

— Venha, terá que montar comigo, ou encontrará a morte. Isso também acontece aqui na vastidão do campo. — Por um momento, ela pareceu incerta. — Eu não vou morder. A senhora só precisará suportar esta humilhação.

— Eu não estou humilhada — disse ela com a cabeça erguida, desafiante. Era obviamente uma mentira, mas o orgulho dela nunca se curvava a nada. Tristan sacudiu a cabeça e começou a tirar o casaco. Gotas geladas de água encharcaram a sua camisa na mesma hora.

— Vista isto ou eu vou acabar tendo que criar o nosso filho sozinho. A senhora precisa mesmo tomar mais precauções aqui. — Parecia que aquela mulher não tinha um pingo de bom senso.

Ela colocou o casaco sobre os ombros com má vontade.

— Obrigada.

— Bem, não fique parada aí. Venha. — Ela piscou por um momento, não sabendo o que ele quis dizer até que ele deu um tapinha na garupa do cavalo. — Chegaremos em casa em poucos minutos, ou a senhora pode se arrastar pela chuva por mais uma meia hora. Na verdade, eu não vou me arrastar pela chuva. Venha.

Curvando-se, ele ofereceu o braço para ela e ela o olhou por um momento antes de pegá-lo.

— O outro braço — disse ele e ela trocou, e então ele pôde puxá-la. Ele podia sentir os tremores dela. — A senhora terá que passar os braços por mim, do contrário cairá. — A camisa dele estava encharcada agora, e ela envolvendo-o com os braços só piorou as coisas. Na verdade, o calor dos corpos deles era confortável e ela precisava disso. O tecido fino e molhado da roupa dos dois mal formava uma barreira entre eles, e ele pôde sentir a suavidade dela pressionada às suas costas.

Um trote poderia não ser favorável para nenhum dos dois neste momento, então ele incitou o cavalo a um galope e ela o apertou ainda mais. O gesto ia além de qualquer intimidade que ele teve em muito tempo. Certamente era uma intimidade que não tinha com ela há muito, muito tempo. Quase sete anos, na verdade. Uma intimidade que ele não desfrutou da última vez, já que tinha se resignado a tirar o melhor de uma situação terrível. Naquela época, não conseguiu prever uma forma de sair dela, até que a irmã morreu de forma inesperada, e a vantagem que tinham sobre ele deixou de existir. Tinha ficado tão satisfeito por não estar mais preso a eles, mas houve consequências. De acordo com ela, ela até mesmo tentou falar com ele, mas ele tinha proibido a entrada dela na casa.

O calor do corpo dela parecia quase uma queimadura. Foi o medo que a fez se aproximar. Ela temia cair, e aquilo tinha superado qualquer objeção que ela tinha contra ele. A coxa dela encostando na dele só prolongava aquela intimidade.

Manteve o cavalo a uma velocidade constante, e eles logo chegaram à casa. O som dos cascos do cavalo alertou o cavalariço que saiu com um casaco erguido sobre a cabeça.

Ele apeou primeiro e então desceu Sophie. Os lábios dela não estavam mais tão azuis, então aquela proximidade tinha sido benéfica.

— Obrigada — repetiu ela, e então começou a tirar o casaco. O vestido dela estava agarrado ao corpo, mostrando, literalmente, cada detalhe, incluindo o que o frio tinha feito com ela. Ficou cada vez mais consciente do que o cavalariço poderia ver, e provavelmente qualquer outro criado da casa.

— Talvez seja melhor a senhora ficar com o casaco até chegar ao seu quarto. Pedirei a Wellswar que prepare um banho.

Não soube se ela tinha entendido a razão, mas ela concordou, seguiu apressada para porta e então entrou. Sentiu o frio da ausência dela às suas costas, e ele estava parado na chuva, observando-a sumir dentro da casa. Era provável que ele também precisasse de um banho, já que, agora, estava tão encharcado quanto ela.

O rapaz levou o cavalo para o estábulo, Tristan entrou, e pôde ver os passos molhados de Sophie seguindo uma trilha até a escadaria. Suas próprias roupas pingavam no chão e ele tirou o chapéu e o entregou a Wellswar que veio rapidamente ao seu encontro.

— Minhas desculpas, eu não o vi chegar. — A chuva deve ter abafado o som dos seus passos.

— Tanto eu quanto a Sra. Duthie fomos pegos pela chuva, e acho melhor que sejam preparados banhos quentes para nós dois.

— Irei tomar as providências — disse Wellswar, e logo em seguida desapareceu com o chapéu molhado nas mãos. Tristan tirou a camisa enquanto subia as escadas. Seu quarto estava quente e ele pegou uma toalha para se secar enquanto se sentava perto do fogo. A pele estava fria, mas o frio de gelar os ossos não era tão intenso para ele quanto devia estar sendo para ela.

Talvez precisasse enfatizar, mais uma vez, o que ela precisaria levar quando saísse de casa. Ao menos ninguém a tinha visto naquele estado. Principalmente o Sr. Herman, a quem a visão não passaria despercebida.

Curioso, aquele era um pensamento que não esperava ter. Parecia que algo nele não queria que o Sr. Herman a visse em tal desalinho. Vê-la assim seria a mesma coisa que vê-la na intimidade. Ele realmente precisava falar sobre o guarda-roupa dela. Se ela ia se molhar com frequência, ela iria precisar de roupas mais robustas.

Ouviu um barulho às suas costas e suspirou enquanto dois lacaios entravam carregando uma banheira, e logo depois ouviu o som da água sendo vertida na banheira de cobre.

— A Sra. Duthie também está sendo provida? — perguntou enquanto Wellswar entrava.

— As criadas estão preparando o banho dela enquanto falamos.

— Ótimo— disse Tristan. Ele estava bastante cansado. Tinha sido um dia longo. Precisou lidar com uma querela entre vizinhos. Normalmente, ele se recusava a lidar com essas disputas mesquinhas, mas, por alguma razão, ele se deixou ser atraído. Na verdade, ficou mais tempo em Sommerfield do que o pretendido. Havia muitas coisas precisando de sua atenção ali, mas era o menino que o fazia ficar.

O menino estava desenterrando sentimentos que Tristan não estava pronto para entender ou explicar, mas estava claro que ser pai significava mais para ele do que tinha esperado. À medida que interagia com o menino, a profunda satisfação ia crescendo cada vez mais. O garoto sempre o procurava depois que era liberado das aulas. Como um reloginho, ele apareceria no pátio ou no escritório do capataz procurando por ele.

Ele era tanto doce quanto afável. Sophie tinha criado um menino que via as maravilhas do mundo, até mesmo a mais simples das coisas o deixava impressionado. Não havia malícia no garoto. A afabilidade não lhe serviria muito quando fosse para Oxford, principalmente tendo que lidar com os meninos que saíram de Eton e de Westminster, onde a crueldade reinava mais do que qualquer resquício de bondade.

Por um lado, ele entendia as objeções de Sophie. Por trás de toda a arrogância e gracejos da sua classe, havia uma competitividade perversa que era incutida nos meninos desde muito jovens.

Quando o banho ficou pronto, ele entrou na banheira e se recostou, deixando o calor se infiltrar pelo seu corpo. Wellswar ia para lá e para cá, mas Tristan o dispensou.

A fumaça saía da água enquanto Tristan fechava os olhos e deixava os pensamentos vagarem. Talvez quando homens tinham filhos, eles começassem a desejar um mundo melhor. Sophie desejou suavizar o filho para enfrentar o mundo, abrandar os golpes e amortecer qualquer crueldade. Talvez fosse instinto materno. Ele teria sido diferente se tivesse experimentado o mesmo? Seria tão distante das pessoas à sua volta? Mas aprendera que a distância era necessária. As pessoas frequentemente se entregavam à ganância e aos instintos mais baixos, não importa o quão boas elas pareciam ser.

Ele foi pego pela luxúria: ela sempre o tinha nas mãos, mesmo ele sabendo que era uma imitação barata de qualquer coisa que nunca teve, nem nunca conheceu. E quando a luxúria dava as caras, ela podia tanto enganar quanto se enredar pela sua mente. Durante a maior parte da vida conseguiu se resguardar contra as consequências dela. Ainda assim, ele a sentiu se aproximando, sufocante. Aqueles malditos vestidos seriam a sua perdição. E agora ele até mesmo a estava protegendo para que o Sr. Herman não visse as coisas que ele mesmo tinha visto.