A Esposa Desprezada
Capítulo 6
Ao voltar para casa de sua cavalgada no Hyde Park, Tristan viu a correspondência perfeitamente arrumada sobre a mesa do vestíbulo. Convites, que ele ignorava. Sendo um homem solteiro com recursos, sempre havia convites para eventos nos quais mulheres aliciavam as insípidas filhas. O salão das damas não era um lugar onde ele queria passar tempo. Ele nunca ia, exceto quando lady Woolwich exigia a sua presença, mas, dia após dia, ele ainda recebia convites para eventos aos quais não compareceria.
Talvez fosse à estranha festa de caça, mas não gostava muito de viajar. Preferia ficar no clube, e até mesmo nos mais exclusivos antros de jogatina. Ele gostava de seguir certa rotina no que dizia respeito às suas atividades. Talvez a vida finalmente tenha suprimido aquela parte dele que quando jovem queria explorar todos os recantos do mundo. Agora ele só desejava não ser perturbado.
Havia uma carta vinda do escritório do Sr. Lawrence. Bem, o menino não tinha aparecido à sua porta, então, ao que parecia, aquela embusteira estava querendo mais.
Levando a carta para o escritório, ele rompeu o selo e abriu o papel que continha a caligrafia firme do advogado.
“A Sra. Duthie, antiga lady Aberley, recusou, veementemente, a sua oferta”, era tudo o que dizia, excerto pelo “atenciosamente, Sr. Lawrence”.
Veementemente, o que aquilo queria dizer? Obviamente não era um bom resultado para a negociação.
Sentando-se em sua cadeira, ele ruminou a carta tentando entender o que aquilo significava. Recusou. O aborrecimento começou a dar as caras. Por que tinha esperado que ela facilitaria as coisas? Da sua perspectiva, ela estava jogando um trunfo, então não era muito surpreendente que ela estivesse resistindo.
Talvez, no final, as coisas não saíssem a favor dela. Se houvesse uma forma de ele reclamar o menino sem dar a ela um único xelim, ele faria isso. Seria infinitamente mais trabalhoso e ele não tinha certeza se teria tolerância para isso. Só queria que os trâmites acabassem o mais rápido possível. Parecia que teria que aumentar a proposta.
Por um momento, pensou em escrever uma carta, mas decidiu ir ao escritório do Sr. Lawrence, e pediu para o Sr. Smyth mandar o cavalariço preparar o seu cavalo. Smyth foi cumprir a tarefa, deixando Tristan na casa completamente silenciosa. Seria inconcebível ter uma criança barulhenta ali. Crianças não eram algo que Tristan tinha visto desde a infância; na verdade, mesmo naquela época, havia muito poucas crianças em sua vida. O menino teria que ser enviado para Sommerfield Hall, onde um tutor cuidaria da criação dele.
A infância do próprio Tristan tinha sido assim. Anos passados com mestres sérios e singelos em Sommerfield Hall, duas vezes por ano ele era inspecionado pelo pai. Só teve o mínimo de liberdade quando foi para Oxford, até que o pai morreu, então ele teve que assumir seu dever com o título e a propriedade. Os dias despreocupados foram deixados para trás em detrimento da administração da propriedade e dos investimentos.
Não manteve nenhum dos amigos que fez em Oxford, exceto, curiosamente, a irmã de um deles, que se casou com lorde Woolwich. Por alguma razão, sua amizade com Minette tinha perdurado.
De certa forma, os homens da sua classe competiam entre si: alguns tinham títulos mais importantes e mais riqueza, mas poucos tinham aumentando a fortuna da mesma forma que Tristan. Isso o fez ser respeitado nos altos círculos da sociedade.
Pela janela, pôde ver o cavalo sendo trazido e então se levantou e foi até a porta onde Smyth o esperava com seu chapéu e seu casaco na mão.
— Não demorarei — informou Tristan. — Pretendo estar de volta para o jantar.
— Muito bem, milorde — disse Smyth, da mesma forma de sempre.
As ruas estavam um pouco mais cheias do que tinham estado pela manhã, as damas preferiam se aventurar em seus passeios pelo Hyde Park às horas mais tardias. O escritório do Sr. Lawrence não ficava muito longe e ele encontrou um cavalariço para tomar conta do seu cavalo.
— Estou aqui para ver o Sr. Lawrence. Informe a ele que lorde Aberley está aqui — disse ele assim que entrou no escritório e foi atendido pelo escriturário. O funcionário desapareceu e voltou dizendo que o Sr. Lawrence estava terminando de atender um cliente e que o receberia em um instante.
A sala era escura e sorumbática. Tristan tinha certeza de que cairia no sono se tivesse que passar o dia ali, mas os funcionários trabalhavam com diligência.
— Lorde Aberley, que agradável surpresa — disse Lawrence enquanto se aproximava dele.
— Isso dificilmente pode ser considerado uma surpresa, não?
— Não, talvez não. Por favor, venha ao meu escritório. Gostaria de algo para beber?
— Não, vamos logo com isso.
Lawrence o conduziu até o escritório, também escuro e sorumbático, que tinha madeira suficiente para que parecesse o interior de um navio.
— É melhor não fazer rodeios — começou a dizer. — O que ela quer?
Lawrence se sentou atrás da mesa. Tristan não gostava de ficar sentado como se fosse um requerente precisando que esse homem o ajudasse, mas o fez. Era como poderia lidar com a Sra. Duthie. O nome combinava com ela, decidiu, era digno de uma peixeira ou algo do tipo.
— Acredito que as palavras exatas foram: “Nem por cima do meu cadáver”.
Tristan ficou parado por um momento, absorvendo a informação.
— Então o que a convencerá?
— Acredito que a dama — ela com certeza não era uma dama — acha que o senhor seja um monstro e confiar a criança ao senhor seria a mesma coisa que entregá-la ao diabo.
Tristan ergueu as sobrancelhas.
— Então ela não fará isso de bom grado. É o que o senhor está dizendo?
— Sim — disse o Sr. Lawrence, claramente desfrutando de toda a situação. Segundos e terceiros filhos sempre tiveram aquela amargura que os fazia querer criar contendas por ressentirem de seus irmãos mais velhos e mais afortunados. O Sr. Lawrence com certeza não era uma exceção.
— Então deveremos forçá-la.
— Bem, isso será difícil. Ela é a mãe da criança e o tribunal não tem o hábito de tirar crianças das mães.
— Eu sou o pai da criança. É óbvio que ele seria muito mais beneficiado ficando comigo.
— A Sra. Duthie discorda, mas isso não é tão relevante quando o fato de que, legalmente, Alfred Duthie, a criança em questão, é filho legítimo de Douglas Duthie.
— Mas isso não é verdade. Ele é obviamente meu filho, foi concebido enquanto estávamos casados.
O Sr. Lawrence afagou o queixo.
— Exceto que ele nasceu nos laços de um outro casamento e é o nome de Douglas Duthie que está escrito como pai no registro de nascimento. O tribunal tomará isto como fato e mais, o senhor não tem nenhum direito sobre a criança. Se o casamento não tivesse ocorrido, ele seria uma criança ilegítima e seria difícil legitimá-lo, mas como ele é o filho legítimo de outro homem, é altamente improvável que o tribunal vote a seu favor.
O aborrecimento foi fincando as garras a cada palavra que ouvia.
— A criança é minha. Isso é indiscutível. Qualquer um poderia dizer só de olhar para ele. As similaridades são inegáveis. O menino é uma versão mais nova de mim mesmo.
— Infelizmente, isso é irrelevante. Como a concepção dessa criança foi em uma época muito próxima ao início do casamento da Sra. Duthie e o marido, o tribunal não revogará a legitimidade dele, especialmente se a Sra. Duthie discordar. Infelizmente, o Sr. Duthie não está aqui para atestar o contrário.
O corpo de Tristan era uma fogueira de desgosto. Não podia ser. Ninguém diria que a criança não era dele, porque era óbvio que era.
— Ela conseguiu — disse ele por fim.
O Sr. Lawrence não discutiu e por um momento, Tristan sentiu vontade de socá-lo. Ela não se safaria de roubar o herdeiro dele.
— E se ela abrir mão da criança? — disse Tristan assim que conseguiu controlar as emoções.
— Então, mesmo se os tribunais discordarem, o senhor terá o direito de adotar a criança, mas, para isso, será necessária a anuência dela, o que, dado os meus encontros com ela, ela deixou bem claro que você nunca terá.
— Então ela precisa ser convencida. Ela não pode oferecer nada para a criança, e eu posso oferecer tudo.
— Aparentemente, a lady achou a sua oferta ofensiva.
— Ela não é uma lady — disse Tristan com rispidez, sabendo que tinha soado petulante, mas o seu humor estava aos frangalhos.
— Peço desculpas, a antiga lady.
Dado que Lawrence era advogado dela, ele não era a pessoa certa para discutir ações alternativas. Este homem era legalmente ligado ao lado dela na briga.
— O senhor vai ter notícias dos meus advogados com informações sobre como prosseguiremos com isso — disse Tristan por fim, e se levantou. Ele saiu sem dar seus cumprimentos e marchou para o lado de fora, onde sentia que poderia respirar.
Ou a mulher estava fazendo um bom jogo ou acreditava mesmo que ele não fosse adequado para criar essa criança. Que pensamento mais disparatado. Ele ser inadequado... ela era uma mera lojista. Isso só podia ser rancor e amargura por ter sido privada, muito rapidamente, da alta posição que tinha atingido. E ela estava descontando no filho. Só aquilo era um indicativo de que ela era uma mãe terrível. Que mulher recusaria a oportunidade de que o filho herdasse uma riqueza incalculável: um título e uma propriedade secular? Aquilo era um total absurdo.
Era óbvio que a mulher não podia pensar que ele era mesmo um monstro. Como ela poderia? Nunca a tratou com crueldade. Nunca bateu nela, sequer a tinha xingado; tinha até mesmo sido considerado todas as vezes que precisou cumprir com o seu dever. Ao menos ele acreditava que tinha sido o caso. Precisava da coragem do álcool para superar a repulsa por ser forçado ao ato. Talvez tenha dito algo odioso para a mulher; ou mais provavelmente, tenha sido por que ele disse para ela partir sem levar nada consigo, quando o poder que ela, e o irmão embusteiro, tinha sobre ele já não existia mais. Talvez isso a tivesse ajudado a pintá-lo como um monstro.