A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 26 de 43

Páginas do PDF

A Esposa Desprezada

Capítulo 26

 

Aberley foi para Londres, a cavalo, no dia seguinte. A ânsia tinha chegado naquela manhã e ele quis voltar para a própria vida, com os próprios confortos ao redor. E queria quase o mesmo tanto ficar longe de Sommerfield.

Na verdade, havia tantos enormes conflitos dentro dele que sentiu que precisava de um momento de paz.

Sophie estava viva e tomando o café da manhã, mesmo o resfriado tendo-a deixado completamente constipada. Ela não sairia do quarto naquele dia. Ela ficaria perfeitamente bem, mas o que realmente o perturbava, era a preocupação que o Sr. Herman estava sentindo por ela.

Se o homem já não estivesse apaixonado por ela, em breve estaria. Sophie, com a simplicidade e o prazer curioso que sentia pelas coisas que ele fazia, era um par perfeito para um homem como aquele. Era só uma questão de tempo até que ela também percebesse. Ela não tinha problemas para conversar com o homem, praticamente desmaiava com tudo o que o sujeito dizia.

Era tudo um pouco demais, e Tristan sentiu que precisava se afastar. Além do mais, por incrível que pareça, vinha ignorando completamente seus investimentos. Por um lado, ele queria ficar em Sommerfield e passar mais tempo com Alfie, mas as coisas ainda eram incômodas em outros aspectos, talvez estivessem até mesmo ficando ainda mais desconfortáveis.

A montaria o levou para Londres muito mais rápido que a carruagem, e à medida que se aproximava da cidade, sentiu-a invadir sua paz de espírito, ou a falta dela. Londres sempre teve o próprio ritmo e estava cheia de distrações.

A casa da cidade parecia fria e vazia quando voltou, quase como se o espírito dela tivesse desaparecido pelo abandono. O Sr. Smyth o cumprimentou e tinha um sem fim de coisas que gostaria de discutir assim que possível, mas Tristan relegou essas discussões para a manhã do dia seguinte. Tinha sido uma longa cavalgada e ele precisava descansar.

Foi para o quarto e se trancou lá dentro, mas a sensação de ter sido excluído e distanciado o seguiu até lá. Foi a busca daquela mesma distância que o fez ir para ali.

Deitado na cama, imaginou se Alfie estava com saudade dele. Era estranho pensar que alguém sentia a sua falta, que alguém o queria tanto por perto que sentiria sua ausência, caso não estivesse. O desejo pela atenção do pai tinha sido algo constante em sua infância.

Mas aquela era a intenção. Mandar Alfie e Sophie para morarem em Sommerfield, e ele ficaria ali. Mas em algum momento, de alguma forma, tinha se desviado do plano e não tinha encontrado força para partir. Foi apenas o crescente carinho entre Sophie e o tutor de Alfie que afastou qualquer que fosse o mal que o tinha acometido.

Sophie se entregaria ao homem? Ela parecia adorar a pobreza, então estaria feita. Aquele sujeito nunca teria dois tostões para esfregar um no outro. E eles formariam uma feliz, amada e adorada família, todos vivendo debaixo do seu teto.

Mesmo não sendo muito dado às introspecções, ele tinha que concordar que havia certo ciúme irracional que Herman fosse substituí-lo como pai de Alfie; se não no nome, o seria, então, em todo o resto.

Sophie daria toda aquela generosidade e afabilidade para aquele homem, e eles seriam felizes. Não haveria nenhuma utilidade para Tristan lá em Sommerfield Hall, no que dizia respeito a nada. De certa forma, ele tinha acabado de entregar a propriedade familiar para outro homem.

Não, precisava parar de pensar desse jeito. Era até mesmo inconcebível ele estar tendo esses pensamentos, para início de conversa. Os temores de Sophie de que ele deixaria Alfie insensível eram totalmente infundados. Se possível, era Alfie quem o estava deixando brando. Ele não era aquele tipo de homem, e parecia que ele tinha lembrado daquilo hoje.

 

*

Tendo tratado de todos os negócios mais urgentes, Tristan decidiu ir visitar Minette, que estava recebendo visitas em seu salão naquela tarde. Já fazia tempo que a tinha visto, já que ficou em Sommerfield muito mais tempo do que esperara. Na verdade, tinha perdido um evento ao qual prometera ir com ela. A amiga talvez não estivesse muito feliz com ele.

Entrando no salão, ele a viu sentada usando um vestido de seda rosa. Minette sempre teve um excelente gosto. Em muitos aspectos, ela era o total oposto de Sophie.

— Tristan, meu amigo. Como está você? — perguntou ela enquanto ele se aproximava. — Você me abandonou em hora de grande necessidade.

Não era típico de Minette deixar as coisas para lá.

— Sinto muitíssimo. Eu estava distraído.

— Distraído? Pela sua ex-mulher, talvez?

— Não, é claro que não, mas acontece que agora eu tenho um filho, de quem a educação foi lamentavelmente negligenciada.

— Então você está apaixonado pela criança?

— Não sei quanto à paixão, mas talvez eu esteja muito afeiçoado ao menino.

— Não importa o que aconteça, sempre amamos nossos filhos. Foi cruel da parte dessa mulher ter mantido o menino afastado de você.

Bem, ele tinha dificultado para que ela contasse a ele, mas ela não tinha tentado com afinco, dispensou-o como pai para viver com o pobre e adoentado Doug Duthie. Tristan suspirou. Também podia ser verdade que ele estivesse com tanta raiva dela que não se importaria que ela estivesse esperando um filho seu, veria o fato apenas como a cereja do bolo no conluio desprezível do qual ela tinha sido parte, uma aposta que ela tinha perdido. Talvez tenha sido por isso que ela não tivesse tentado contar a ele.

Mas agora ela o substituía mais uma vez, e aquilo era extremamente desconfortável. Ela estava tirando a família dele.

— Sim, cruel — concordou, distraído, incapaz de se afastar dessa ansiedade que se formara dentro dele.

— Ela é bonita?

— O quê?

— Ela é bonita? — repetiu Minette.

A visão dela naquele vestido encharcado que se prendia a cada curva do corpo invadiu a sua mente.

— Sim — admitiu.

— Uma sereia enganadora e sedutora. Acho que eu gostaria muito de conhecer esta criatura.

— No todo, eu acho que ela foi apenas um peão nas tramoias do irmão dela.

— O que ela disse quando você partiu?

— Nada. Eu não informei a ela. Ela estava doente. Não a vi.

— Oh?

— Só um resfriado por ter pegado chuva.

— E você fugiu no meio da noite.

— Dificilmente. Eu só senti que já era hora de voltar para Londres.

— Não é curioso você ter fugido quando a Sr. Duthie ficou doente de uma forma muito parecida com a condição que levou a sua mãe?

— Não é uma conexão que eu tenha feito. Eu era muito jovem quando ela morreu. Não me lembro bem do que aconteceu. Na verdade, eu não me lembro dela.

— Mas o seu filho...

— Eu não gosto das conclusões às quais você está chegando — disse ele, conciso.

— Eu sinto muito, Tristan — disse ela com um sorriso tímido, o mesmo que ela dava quando estava fazendo alguma travessura. Talvez tenha sido um erro ir até lá. Geralmente, os conselhos dela o acalmavam, mas não seria o caso de hoje. — Eu gostaria muito de conhecer esta criatura.

— Bem, eu não tenho planos de vê-la em um futuro próximo.

— É uma pena. Se você voltar, acho que será uma ocasião perfeita para que eu faça uma visita.

— Eu não contaria com isso — disse ele com desdém. Ele não queria mais ficar ali. O problema era que ele também não queria muito ir para casa. Talvez devesse ir para o clube e desfrutar da relaxante companhia masculina, por um tempo. Ou talvez devesse procurar algo mais decadente n’O Pelicano, mas ele correria o risco de encontrar o salafrário do irmão da Sra. Duthie. Não, iria para o clube e jantaria lá.

— Não tenho certeza se você já ficou tão agitado assim, nem mesmo quando Cecilia estava se comportando mal.

— Cecilia nunca se comportou mal. Ela só achou uma oferta melhor.

— Bem, não tenho certeza se está esperando alguma alegria conjugal lá. Disseram-me que ela anda perguntando por você. Acho que será muito bem recebido se for visitá-la. Sua oferta talvez não esteja completamente descartada.

Isso era novidade para Tristan. Pilkerton, o noivo de Cecilia, é um idiota e todo mundo sabia disso. Parece que ela não estava tão disposta a fazer vista grossa para o fato, afinal das contas.

— Que os céus me protejam das mulheres inconstantes — murmurou Tristan. Houve uma época em que pensou que Cecilia seria perfeita. Linda, indiferente e perfeitamente capaz de navegar entre as perigosas águas da alta sociedade, mas ele não podia simplesmente esquecer a traição dela. Lealdade básica era necessária em uma esposa. Ele não podia mais ver Cecilia da mesma forma que a via antes.

Por um tempo, tinha posto Sophie e Cecilia no mesmo saco, usando-as como justificativa para ter uma vida mais despreocupada, sem uma esposa, mas a avaliação não tinha sido precisa. Ou talvez, de certo modo, tenha sido, já que Cecilia o rejeitara por uma conexão mais vantajosa. Sophie não o rejeitara assim, porque ele a atirou na rua, mas a rejeição ainda estava lá, só era por diferentes razões. E a ambas, não tinha dado o que elas queriam. Sophie, porém, queria alguém dedicado, alguém cujo o mundo fosse tão pequeno que só caberiam o filho e ela. Talvez as duas fossem diferentes versões da ganância.