A Esposa Desprezada
Capítulo 25
O banho ajudou Sophie a se sentir melhor. No entanto, ao entrar no quarto a mulher que viu no espelho estava descomposta.
Mais uma vez vestida, ela se sentou com as costas para o fogo e deixou o cabelo secar. O dia tinha tomado uma direção muito diferente do que a que esperara. Ser resgatada por Aberley tinha sido embaraçoso, mas necessário. Como ela pôde sair para uma caminhado longa daquele jeito e não ter esperado que o tempo fosse virar? Porque isso era algo com o que não se preocupava normalmente. Mas o tempo era importante ali. As pessoas viviam a vida baseadas no clima, tomavam decisões por causa do clima. Isso nunca tinha passado por sua cabeça.
Precisava de uma sombrinha. Em algum lugar daquela casa devia haver alguma que ela pudesse usar. Pela manhã perguntaria a Wellswar se ele sabia se havia alguma.
O som de passos lhe disse que Alfie estava procurando por ela e ele logo apareceu à porta.
— Olá, meu amor — disse ela e sorriu quando o viu. — Como foram suas aulas hoje?
— Nós falamos sobre o Nilo — disse ele e foi se sentar no colo dela como fazia algumas vezes.
— Sobre o Nilo, huh? Onde há crocodilos?
— Sim. Muitos e muitos crocodilos e eles devoram as pessoas.
— Tenho certeza de que o Sr. Herman não lhe contou isso.
— E pirâmides.
— Sim, foi o que eu ouvi — disse ela, beijando-o na cabeça. E então espirrou.
— Podemos ir ao Egito?
— Talvez um dia — disse ela. Quando ele fosse lorde Aberley, talvez ele pudesse ir ao Egito. Quem poderia saber?
Seu cabelo já estava quase seco e ela precisava se vestir para o jantar.
— Agora, vá jantar, vou vê-lo mais tarde.
Alfie desceu do colo dela com cuidado e saiu do quarto. Sophie se levantou e sentou-se à penteadeira para prender o cabelo. Voltou a espirrar.
Ao que parece, sofreria as consequências por ter sido surpreendida pela chuva. Estava ficando doente. A comida a deixaria mais forte, então foi até o salão, onde encontrou o Sr. Herman conversando com lorde Aberley.
Já que o xale de lã estava encharcado, ela teve que usar o elegante, o que Doug tinha lhe dado de aniversário. Era lindo, mas não muito quente. Soltou outro espirro quando agradeceu a Wellswar pelo xerez que ele lhe serviu. A bebida a aqueceria um pouco, decidiu.
As escapadas da tarde não foram mencionadas, particularmente não a forma como ela tinha envolvido Aberley com os braços, tendo nada além de tecidos finos entre eles. Sentiu cada músculo e tendão enquanto ele conduzia o cavalo. Foi o mais perto que chegava de um homem em muito tempo. O calor dele tinha infiltrado dentro dela, poupando-a do frio que a tinha envolvido.
Agora achava difícil olhá-lo nos olhos. Particularmente porque ele pensou que ela tinha sido estúpida por ter se permitido ser pega em uma situação daquela. E com toda honestidade, ela não tinha desculpas. Tinha sido desmiolada ao sair despreparada para uma longa caminhada.
— Fiquei sabendo que estavam falando sobre o Nilo hoje, Sr. Herman — disse ela sorrindo, dirigindo-se ao homem menos intimidante da sala.
— Sim, — ele devolveu o sorriso. — Alfie compartilha da infinita fascinação pelo Egito que a nossa era possui.
— O assunto é fascinante para o senhor?
— É claro, a história de um povo tão fascinante e distante. Não dá para não se sentir cativado.
O homem parecia tão sério e sincero sobre suas paixões e interesses. Isso a lembrava Doug. Ele era tão aberto a compartilhar seu entusiasmo com outras pessoas, o contrário de Aberley, que era mais disposto a afastar tudo e todos. Chegou à conclusão de que gostava dele.
— O senhor fez alguma viagem? — o homem perguntou a Aberley.
— Não, muito poucas. Sempre houve muitos assuntos me prendendo à Inglaterra.
— Fui à Itália quando jovem — prosseguiu o Sr. Herman. — Foi maravilhoso. É tudo o que se imagina e um pouco mais. Espero ter a oportunidade de voltar lá.
Sophie nunca tinha saído de Londres, senão para viagens que duravam menos de um dia. Viajar pelo Europa lhe parecia tremendamente romântico.
— Para onde na Itália?
— Roma, é claro. Florença e Veneza. Todas muito diferentes, mas infinitamente fascinantes. A arquitetura dos estados é totalmente diferente. Eu não tive oportunidade de viajar para o sul, mas consegui ir às escavações arqueológicas em torno de Pompeia. Tremendamente fascinante.
Imagines exóticas se formaram na mente de Sophie enquanto ela ouvia. Outro espirro reverberou pelo seu corpo e sentiu a atenção de Aberley sobre ela.
O Sr. Herman prosseguiu.
— Nunca estive no Egito. Mas gostaria muito de ir algum dia. Acredito que viajar pelo continente seja mais fácil agora do que quando eu era jovem. Hoje em dia, deve ser possível percorrer todo o caminho pela ferrovia.
Tudo soava muito romântico.
Wellswar apareceu dizendo que o jantar estava servido. Sophie se sentou no lugar de sempre, em frente ao Sr. Herman, enquanto Aberley sentava-se à cabeceira da mesa. A sopa foi servida, e Sophie se refastelou no calor tanto quanto no sabor.
Comeram em silêncio por um tempo, até que Aberley e o Sr. Herman começaram a falar sobre as diferentes espécies de peixe que há nos lagos da região. As costas de Sophie doíam e ela se sentiu desconfortável na cadeira. Na verdade, ela deveria ir dormir.
— A senhora está pálida — disse Aberley, assustando Sophie com sua franqueza. Ela se retirou contente da conversa, como sempre acontecia quando começavam a falar sobre peixe. — Está ficando doente?
Um espirro abriu caminho pelo seu nariz.
— Acho que peguei um resfriado. Eu sinto muito. Devo estar um desastre. Acho que não voltarei para o salão depois do jantar. — Ela sorriu para os homens. Na verdade, estava se sentindo muito pior do que há vinte minutos, mas estava esperando pelo prato principal, sabia que precisava de sustância. Não era o tipo de mulher que fazia muito drama quando ficava resfriada. Ficaria boa em pouco tempo.
O rosbife foi servido e Sophie se sentiu um pouco melhor ao sentir o ótimo aroma do prato, mas perdeu o apetite após algumas mordidas. Talvez fosse realmente precisar se retirar mais cedo, mas não queria. O jantar terminaria em breve e ela poderia aguentar até lá, mesmo que as costas estivessem doendo bastante naquele momento. Um cansaço intenso tinha roubado a sua energia, mas não era nada que uma boa noite de sono não curasse.
Mas quando a sobremesa foi servida, geleia de maçã com ruibarbo, ela pediu licença. Queria dizer boa noite a Alfie antes de ir para a cama, mesmo não gostando muito da ideia de subir as escadas. Por que diabos aquela casa era tão grande? Qual era o sentido de casas daquele tamanho? Não era como se os nobres tivessem famílias muito grandes. Como todas as outras coisas inexplicáveis, era mais para mostrar do que para fins práticos.
— Acho que vou me retirar — disse ela e então se levantou. Ambos os homens ficaram de pé, como esperado, e ela saiu da sala de jantar.
Aberley foi atrás dela.
— A senhora conseguiu ficar doente — disse ele.
— Sim, obrigada. Estou ciente — disse ela, azeda. Não havia necessidade de ele apontar o quanto ela tinha sido idiota. — Irei me esforçar para levar uma sombrinha nas minhas caminhadas.
Aproximando-se, ele observou o seu rosto e então levou a mão à sua testa. Sophie precisou se esforçar para não se esquivar do toque. Não que sentisse nojo do toque dele. É que parecia errado. Talvez porque a intimidade daquele dia enquanto montavam não tivesse parecido tão errada assim.
Mas a mão dele estava fria contra a sua testa.
— Vou chamar o médico.
— Não é necessário — disse ela. — É só um resfriado.
— Sr. Wellswar. Você poderia mandar uma mensagem para o doutor Torrey vir atender a Sra. Duthie? — disse Tristan para Wellswar, que agora estava parado não muito longe dali.
— Isso não é necessário — disse Sophie, mas ela estava sendo ignorada. Gemendo, ela deixou os dois para trás e começou a subir as escadas. O ato fez a sua cabeça pulsar e tudo o que ela queria era deitar na cama, mas tinha que ver Alfie primeiro, e então foi até o quarto das crianças.
— Alfie, meu amor — disse ela, vendo-o com Mary enquanto ele brincava com os brinquedos que tinham vindo com o quarto. — Não irei beijá-lo esta noite, pois peguei um resfriado. Mas o verei pela manhã.
— Tudo bem — disse Alfie, não muito preocupado como algumas pessoas pareciam estar.
Tendo cumprido a sua tarefa, ela finalmente foi pra o quarto e se deitou na cama. Fechando os olhos, sentiu que tinham se passado apenas alguns minutos quando ouviu a carruagem lá fora, devia ser o médico local. Não demorou muito e ele foi levado ao quarto dela. O médico sorriu ao vê-la.
— Sra. Duthie, presumo — disse ele enquanto abaixava a maleta.
— Sinto muito por ter sido chamado assim. É só um resfriado, nada mais.
— Fiquei sabendo que foi surpreendida pela chuva. — Ele foi até ela e se sentou na cama, colocando a mão sobre a cabeça dela. — Sua temperatura está alta. — Abrindo a maleta, ele pegou um termômetro e o colocou em sua boca.
Aberley estava ali. Não sabia o que o levou a ficar tão preocupado ao ponto de chamar um médico. Ele parecia estar olhando ao redor do quarto, às vezes para o médico, que agora estava examinando o seu pescoço e auscultando o seu peito com um estetoscópio.
— Bem, os seus pulmões estão limpos, o que é o mais importante. Uma boa noite de sono, e em breve estará se sentindo melhor. Mantenha-se aquecida. — Ele guardou as coisas e ergueu a maleta. — O fogo deverá ficar aceso a noite toda.
— Tomarei as providências — disse Aberley, e então os dois saíram do quarto. Ela podia ouvi-los conversando no corredor, mas não sabia se eles estavam falando sobre ela. Ficaria aborrecida, se fosse o caso. Aberley não era responsável pela sua saúde. Ele não era seu marido, e o médico deveria discutir qualquer coisa relevante com ela. Mas, por tudo o que sabia, eles poderiam muito bem ser velhos amigos e estavam falando sobre peixes.