A Esposa Desprezada
Capítulo 18
Uma semana se passou e as coisas permaneceram iguais. Às vezes, ele observava, de seu escritório, Sophie levar Alfred para passear pelo Hyde Park. Um alfaiate foi chamado para cuidar do guarda-roupa do menino, e agora ele estava vestido de forma apropriada. Sophie, no entanto, não fez absolutamente nada para se livrar dos vestidos gastos. Talvez ele devesse mandar chamar uma costureira para ela, assim como chamou o alfaiate para Alfred. Ao mesmo tempo que o guarda-roupa dela o afligia, o tranquilizava, porque por um lado, ela não era sua esposa e não precisava vesti-la de acordo com a última moda, mas por outro, ela era mãe do seu filho e se vestia pior que uma criada. Era um dilema que não sabia como resolver. Talvez devesse mandar que os vestidos dela fossem acidentalmente destruídos enquanto eram lavados.
Ele bateu os dedos sobre a mesa, incerto. O problema da posição dela dificultava as coisas, mas talvez não precisasse se preocupar com aquilo por muito tempo. Recebeu muitas respostas para o anúncio pedindo por um professor. Um parecia particularmente bom. O filho de um clérigo, educado em Oxford, e que tinha trabalhado um tempo com o duque de Cumberland. Este homem era do exato calibre que ele procurava.
Tristan enviou uma resposta convidando-o a vir e discutir os requisitos da vaga. Assim que estivesse frente a frente com ele, Tristan decidiria se o homem era ou não adequado.
Uma batida alta fez a tinta borrar o papel e Tristan ergueu os olhos com raiva. Quem se atrevia a interrompê-lo com tanta grosseria? Sophie estava parada na porta do escritório, as duas folhas da porta estavam abertas. Ela franzia os lábios, já estava bem acostumado a vê-la assim, e os olhos dela estavam semicerrados. Sua convidada não parece feliz.
— Aparentemente — disse ela, ríspida, entrando no escritório e colocando as mãos na mesa dele a apenas trinta centímetros de distância, — o senhor impediu que cada um dos meus conhecidos viesse a esta casa.
Quem estava tentando visitar esta casa? Tecnicamente, Tristan não estava em posição de controlar quem ela via, mas ele podia proibir a entrada de pessoas na casa dele. Obviamente, alguém tinha tentado. Quem? Aquele salafrário do irmão dela?
— Ah sim, eu me preocupo com as pessoas que vêm a esta casa e com a influência que podem exercer. — Tristan disse.
— Influência? O que você está tentando dizer? Quem exatamente o senhor acha que eu traria para cá?
— Seu irmão, para começar. Talvez ele se preocupe que a senhora não esteja sempre disponível para limpar as bagunças dele, o que parece estar inclinada a fazer, não importa o quão atroz seja o comportamento dele.
— E como isso difere do senhor limpando a bagunça da sua irmã? — Aquilo o deixou perplexo por um momento. — Quais consequências está enfrentando por causa do seu mau comportamento?
Tristan bufou.
— Estou tendo o prazer da sua companhia. Isso é punição o bastante para qualquer homem.
— Então eu sou uma prisioneira aqui?
— É claro que não, mas eu não quero o seu irmão perto do meu filho. Nem os seus amigos músicos, ou qualquer outro conhecido que a senhora tenha. — Era com o irmão dela que ele estava preocupado, mas não tinha ideia de a que tipo de gente ela estava associada.
Ela saiu da sala pisando duro, ainda parecendo que queria matar alguém. Ela realmente era muito indulgente com o mau comportamento do irmão, correndo para salvá-lo do que quer que fosse o esquema desmiolado que ele tinha feito. Era aquela exata fraqueza que a tinha colocado ali naquela casa. Uma característica da qual o irmão dela se aproveitava mais que qualquer outra pessoa.
Como antes, jantar em casa tinha sido uma experiência desconfortável. Geralmente, era desagradável lidar com Sophie, e Tristan se viu mais uma vez querendo ir atrás de alguma diversão, enquanto dizia a si mesmo que ela não iria logo atrás dele. Não havia mais aquele ressentimento amargo de antes, só o conhecimento de que eles não se davam bem.
E Alfred também era um total mistério. Ele ainda não era independente da mãe, buscava a aprovação dela e interagia com ela o tempo todo. Francamente, ele não podia lembrar como era ter seis anos, muito menos o que fazia naquela idade.
Tanto quanto tentasse interagir com o menino, ele acabava se esgueirando como uma sombra até que pudesse ver mais ou menos a cautela estampada no rosto do garoto. Quem teria pensado que era tão difícil interagir com o próprio filho? O que quer que seja que as pessoas de quem as crianças gostavam tinham, ele com certeza não possuía aquilo.
Seu clube sempre tinha sido um lar quando não se sentia confortável em casa. Nunca houve desconfortos. A comida era ótima e a companhia, divertida. Havia algumas intrigas entre os frequentadores, mas no todo eram pessoas pacíficas que estavam lá pela mesma razão.
É claro, havia opções muito mais decadentes, mas ele não estava no humor, sentia como se precisasse de uma perspectiva mais calma e racional. Havia também o problema potencial de se encontrar com o irmão de Sophie, que provavelmente estaria irado por causa da forma com que o trataram. O homem tinha a tendência de frequentar os clubes mais repugnantes. É certo que Tristan não temia aquele confronto, mas o homem podia esfriar a cabeça mais alguns dias.
*
O tutor tinha vindo e Tristan decidira que ele era suficientemente capaz para a função. Ele começaria na próxima semana, então já era hora de enviar Sophie e Alfred para Sommerfield. Tristan iria acompanhá-los para fazer as apresentações necessárias. A criadagem de Sommerfield precisaria de instruções.
O relógio da parede tinha soado as nove horas e muitos dos membros do clube estavam indo embora, ou para casa ou para qualquer outro lugar. Talvez devesse fazer o mesmo ou começaria a beber, e se bebesse um pouco mais, ele mesmo iria procurar Oliver Bancroft. Não, era melhor ir para casa.
Chamou a atenção de um dos mordomos e pediu para trazerem a sua carruagem. Em minutos, a carruagem preta com o seu brasão parou em frente à entrada principal, esperando pacientemente por ele. As ruas ainda estavam animadas, alguns vendedores ambulantes anunciavam as suas mercadorias. Toda sorte de perigo se escondia nos recessos sombrios das ruas de Londres. Estava feliz por Alfred estar seguro na cama, em sua casa, onde ele estava protegido. Sophie também, supunha.
Nunca desejou nenhum mal a ela, embora ela parecesse estar bem disposta a expor a si, e ao filho, a riscos para sequer contemplar cruzar o oceano de navio, indo para um mundo desconhecido e para um futuro desconhecido. Aquilo era irresponsabilidade. Ela tinha que entender aquilo de alguma forma.
A carruagem chegou à casa sem incidentes e, não demorou muito, Tristan estava subindo os degraus que levavam às portas polidas. Como sempre, ele bateu e Smyth o deixou entrar. Entretanto, o mordomo não estava sozinho, Sophie estava de pé na base das escadas com os braços cruzados e os lábios comprimidos. Era óbvio que ela estava aborrecida, novamente. Aquele parecia ser o seu estado perpétuo, e ela não era o tipo de pessoa que escondia seu desprazer, e naquele momento ele estava estampado no rosto dela.
Os ombros de Tristan ficaram tensos. Não era de se admirar que ele não se sentisse confortável na própria casa quando era recebido com tal desgosto quando voltava? O que será que a tinha aborrecido agora? Ela também não era o tipo de mulher que ficava calada quando algo a ofendia. Não era exatamente o tipo de flor delicada e recatada que alguém esperava ter como esposa, ou como outra coisa.
Com um sorriso tenso e falso, ele fez uma mesura para ela.
— Sra. Duthie.
—Contratou um tutor sem sequer me consultar? — perguntou ela com autoridade. — Por que faria algo assim?
— Porque o homem era extremamente qualificado. A senhora está bisbilhotando a minha correspondência?
— Não, não precisei olhar a sua correspondência. Ouvi algo de passagem.
Tristan olhou para Smyth, que parecia horrorizado pela acusação ter sido dirigida a ele.
— Eu deveria ter voz ativa no que diz respeito à educação do meu filho — prosseguiu ela.
— Se fosse do seu jeito, ele seria aluno de uma escola para pobres.
— Isso é uma completa mentira, e é injusto, e eu insisto que o senhor peça desculpas.
Será que ele poderia simplesmente estrangulá-la? Qualquer juiz da face da terra entenderia o impulso.
— Certo, peço desculpas por sugerir que a escola inapropriada onde a senhora o matriculou seja mais inapropriada do que realmente é.
— Você chama isso de desculpa?
— Eu não tenho o hábito de mentir.
Infelizmente, ela o seguiu enquanto ele entrava no escritório que ainda estava quente por causa do fogo que queimava na lareira.
— Ainda assim o senhor tomou essas decisões unilaterais das quais sou a última a saber.
Tristan se sentou na beirada da mesa e cruzou os braços, imaginando o que poderia dizer. Não era uma decisão para a qual ela daria qualquer contribuição material, mas dizer aquilo provavelmente a incitaria a agir com ainda mais indelicadeza. Ele tinha a prerrogativa de tomar decisões no que dizia respeito ao filho dele.
— Bons tutores são difíceis de conseguir e foi pura sorte este ser adequado. O que a senhora gostaria de ter adicionado à decisão?
Bufando, ela se virou bruscamente e saiu. Sim, eles estavam se dando bem. Talvez ele devesse tê-la consultado, mas aquilo significava falar com ela, e nenhum deles estava confortável com isso.