A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 13 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 13

 

Estava quase escurecendo quando Sophie foi para casa com Alfie, quem estava contando sobre as lições daquele dia e sobre o menino que tinha se envergonhado na frente de toda a sala. Ela o ouvia tagarelar e sorria. A vida dele era tão descomplicada e não havia nada desagradável. O foco dele estava na nova escola.

No caminho, Sophie parou e comprou presunto com um dos vendedores. Eles teriam pão e presunto junto com a sopa que ela tinha feito no dia anterior.

Quando voltou a se virar, ele estava acariciando o cachorro de um homem.

— Podemos ter um? — perguntou ele, como já tinha feito muitas vezes antes. No passado, os pulmões de Doug tinham sempre sido a razão para que eles não tivessem um cachorro, mas agora isso não era mais um problema.

— Não, eu sinto muito. Não posso ter um cachorro na loja e seria injusto deixar o pobrezinho sozinho o dia todo.

— Ele pode ir para a escola comigo.

Sophie sorriu com a simplicidade com a qual Alfie via o mundo.

— Acho que o Sr. Proctor não permitirá. Vamos, precisamos nos apressar — disse ela. Assim que escurecia, as ruas ficavam muito menos seguras. Se pudesse evitar, dificilmente saía depois de escurecer. Com Doug, não era algo tão ruim, mas agora era só ela e não podia se dar ao luxo de que algo lhe acontecesse. Infelizmente, lorde Aberley estava certo sobre aquilo. Imprevistos poderiam colocar um fim àquele idílio e ela precisava resguardá-los.

— Talvez domingo possamos perguntar ao Sr. Fontescue, o que mora no final da rua, se podemos passear com o cachorro dele. Ele deve gostar da ideia.

Alfie gostou da sugestão e pegou a mão de Sophie enquanto eles iam para casa esquivando-se de carroças e cavalos. Passaram por um carrinho de frutas e Sophie decidiu comprar uma laranja para eles dividirem. Elas eram caras, mas não havia nada que amasse mais que a fruta fresca e suculenta. Sempre a fazia imaginar de que lugar exótico ela tinha vindo.

Colocando-a na mochila de Alfie, eles seguiram caminho, mas uma figura trajando uma capa os estava esperando do lado de fora da porta que levava aos aposentos deles. O homem olhava para baixo, mas dada a qualidade do chapéu, ela sabia que se tratava de um cavalheiro. Olhando rapidamente ao redor, ela viu a carruagem com o brasão de lorde Aberley.

Apertou a mão de Alfie com força e o menino a olhou enquanto ela tropeçava. Respirando fundo, ela continuou a andar. Este homem não desistiria? Esperou que a discussão que tiveram da última vez fosse selar o assunto, mas ele estava de volta um dia depois. Este seria um acontecimento recorrente?

— Lorde Aberley, que prazer vê-lo — disse Sophie, forçada. — Está de passagem? — Não custava nada ter esperança.

Rapidamente, ele ergueu o olhar, mas os olhos dele só ficaram nela por um instante, e então procuraram por Alfie. Seu instinto foi puxar o menino para trás da saia, mas de que adiantava?

— Olá, Alfred — disse lorde Aberley, falando mais com Alfie do que com ela. Então ele voltou a olhá-la. — Dificilmente estaria de passagem por aqui. — Ele deu um olhar mordaz para aquela declaração ridícula e Sophie se viu corar levemente. Ele voltou a olhar para Alfie. — Nós não nos conhecemos. Eu sou lorde Aberley, o seu pai.

Sophie arfou e Alfie olhou para ela, confuso. Era óbvio que ele tinha ouvido a declaração. Virando-se para ele, ela ficou de cócoras.

— Alfie, acho que é melhor você entrar e eu vou lidar com este homem. Entre, agora. — Tirando a chave do bolso que tinha costurado na saia, ela a entregou a ele, e o menino, relutante, entrou enquanto ainda olhava para o homem.

Quando a porta se fechou, Sophie se concentrou em lorde Aberley. Dando um passo à frente para empurrar o peito dele com as duas mãos.

— Como teve a coragem de dizer isso para ele? O senhor não tinha o direito.

Segurando-a pelos pulsos, ele os colocou para baixo. Empurrá-lo tinha sido uma reação instintiva. Agora ele prendia os seus pulsos e os dois estavam perto demais. Ele tomava todo o espaço, o aroma dele era persistente. Uma remota e vaga familiaridade que se obrigara a esquecer. Para não mencionar a intimidade fria e mecânica que compartilharam.

— Ele é meu filho.

— Ele não é. O nome dele é Alfie Duthie, e ele nasceu...

— Ele é exatamente igual a mim. A senhora não tem o direito de impedir que eu conheça o meu filho.

— O senhor quer dizer o seu herdeiro — disse ela com desgosto enquanto torcia os pulsos, mas ele ainda não a soltava.

— E a senhora não pode impedi-lo de saber quem é o pai dele. A senhora não tem esse direito — repetiu ele. — Como se sentiria se isso fosse feito com a sua pessoa?

Na verdade, nunca pensou por aquele lado.

— Eu entenderia se a intenção fosse a de me proteger.

— Ou isso é pura amargura?

— Amargura pelo quê? — disse ela para aquele absurdo.

— Por me divorciar da senhora.

— Não, com certeza não. Isso tem a ver com o seu caráter.

O aperto em seus pulsos diminuiu, e ela se soltou dele, voltando a empurrá-lo com toda a sua força.

— Não — disse ele, apontando para ela e Sophie quis agarrar o dedo dele e quebrá-lo.

— O senhor não tem o direito de confundi-lo assim.

— Eu tenho todo direito. Moralmente, a senhora tem uma obrigação com o menino.

— Oh, obrigação. Quer falar sobre obrigações? Eu sou obrigada a assegurar a saúde e a felicidade daquele menino. O senhor só quer usá-lo para os seus propósitos.

— A senhora quer dizer sustentá-lo, educá-lo e dar a ele os meios para que tenha um futuro confortável.

— Eu estou fazendo tudo isso muito bem — disse ela.

— A senhora só pode estar brincando, ou realmente acredita nessa insensatez?

Uma pessoa parou perto deles. A Sra. Rawley, sua vizinha idosa.

— Você está bem, querida? — disse ela, olhando para lorde Aberley com severidade.

— Não interfira, madame — disse Aberley, conciso. — Isto é entre mim e minha esposa.

Sophie arfou ao ouvir aquela declaração. Por um momento sua mente empacou, então ela se virou para a Sra. Rawley com um sorriso plácido.

— Eu não sou esposa dele — o que provavelmente não deixou as coisas melhores. — Somos divorciados.

— E eu estou aqui pelo meu filho, o que a senhora continua me negando.

— O homem está delirando — disse Sophie, tentando permanecer calma. Isto não faria nenhum bem à sua reputação na vizinhança. Lá em cima, ela viu Alfie olhando para eles da janela. O que ele estaria pensando? Devia estar para lá de confuso por este homem que ele nunca tinha visto e que não sabia que existia, chegar e dizer que é pai dele. Como Aberley pôde ter feito algo assim a eles? — Está tudo bem, Sra. Rawley. Eu cuidarei disso.

A Sra. Rawley olhou para o homem com suspeita antes de atravessar a porta e entrar no prédio. Haveria perguntas sobre o acontecido durante as semanas seguintes.

— É o senhor quem está delirando. Eu não sou sua esposa. Eu tive um casamento longo e feliz com um homem que não era o senhor.

— Foi apenas um deslize.

— Se esta é a sua forma de fazer a minha vida insuportável, o que eu disse antes ainda está de pé. Nós partiremos.

— O que eu também não aprovo. A senhora não tem o direito de manter o menino longe de mim. Não importa a sua opinião sobre a minha pessoa, eu sou o pai daquele menino — disse ele, apontando para a janela. — E isso é uma ligação e um fato que não tem nada a ver com a senhora. Não pode negar isso a ele, não importa o quanto queira. Ele tinha o direito de saber.

— Por favor, vá embora — disse ela, e, por um momento, eles ficaram ali calados, apenas olhando um para o outro.

— Eu não vou desistir. Ele é meu filho e eu vou ser desleixado com os meus deveres para com ele se eu permitir que o relegue a uma vida de pobreza só por causa da sua amargura.

— Isto não tem nada a ver com amargura — disse ela, cortante. — O senhor se divorciar de mim foi a melhor coisa que já me aconteceu. Por causa disso, eu encontrei um homem gentil, que foi um excelente pai para Alfie.

— O homem nunca foi pai dele, e ele está morto agora, no caso de você não ter notado.

Sophie ficou ainda mais irada.

— Deixe-nos em paz.

— Não — disse ele enquanto Sophie foi em direção à porta. A mão dele em seu cotovelo a impediu de prosseguir. — Quaisquer que forem as obrigações que tem como mãe, eu também as tenho como pai. A senhora não pode simplesmente me cortar da vida dele só porque quer. Como pais, a senhora tem uma obrigação para comigo.

Sophie bufou e puxou o cotovelo. Infelizmente, ela sabia que havia alguma verdade no que ele estava dizendo. Esteve tão presa ao fato de proteger Alfie do homem na frente dela que não tinha considerado a perspectiva de Alfie. Este homem era o verdadeiro pai dele, e aquilo tinha sido revelado a ele, queria ela ou não. Ainda assim, ela não concordava que aquilo fosse considerado como obrigação dela. Este homem não traria nada bom para a vida de Alfie, mas ele ainda era o pai do menino.

Havia tanto a explicar quando chegasse lá em cima. Alfie devia estar tão confuso agora.

— Certo, será do seu jeito — disse ela por fim. Notou que a Sra. Rawley olhava para eles da outra janela. — Eu direi a ele o exato jeito com o qual o senhor trata as pessoas, como nosso casamento foi e terminou: comigo sendo jogada na rua sem que me fosse dita uma única palavra. E eu direi a ele a razão exata do seu interesse nele. Como o senhor deseja criá-lo sozinho e sem atenção numa casa afastada sem ele ter a mãe por perto, nada além de uma prisão confortável, sem amigos ou qualquer outra pessoa que ele já conheceu. Que deseja fazer dele outra versão da pessoa fria e miserável que o senhor é. Que está aqui só porque não pode tolerar a ideia de se casar e ter outra pessoa na sua vida com a qual seria forçado a lidar. Talvez ele entenda por que eu nunca falei do senhor.

O homem só olhou para ela.

— Ele nunca entenderá. Este não é um relacionamento entre pais e filhos.

— O que sabe sobre relacionamentos?

— Eu sei que filhos têm o desejo de conhecer os pais — disse ele, enfático. Havia mais naquela declaração do que ele deixava transparecer. Aberley afastou o olhar. Por um momento, ela pôde ver além da casca endurecida que era aquele homem. — Ao contrário do que a senhora pensa, eu não quero que o menino seja infeliz.

— E ainda assim isso foi parte da sua proposta desde o momento em que o senhor apareceu.

— Talvez haja algumas coisas que eu esteja disposto a alterar — disse ele, e Sophie bufou. — Como a separação de mãe e filho.

Pensar que teria que lidar, frequentemente, com essas brigas frustrantes foi como uma bofetada.

— Não, vá embora — disse ela instintivamente. Era muito para lidar. Por favor, só vá embora, implorou em sua cabeça que já estava doendo a essa altura. Sem olhar para trás, ela atravessou a porta correndo. Por que não podiam manter a felicidade que já tinham? Por que este homem tinha que entrar em suas vidas como um elefante enfurecido, destruindo tudo o que encontrava no caminho?