A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 28 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 28

 

No jantar, a familiaridade entre o Sr. Herman e Sophie era mais perceptível. Eles falavam sobre pontos de vistas e observações que tinham em comum. Houve uma mudança considerável. Sophie mantinha a maior parte da atenção focada no Sr. Herman, que parecia muito confortável na companhia dela. Era óbvio que eles tinham passado tempo juntos.

Tristan observou-os durante todo o jantar.

— Então, haverá uma festa na aldeia amanhã — disse Sophie, a animação tinha iluminado as feições dela. Bem diferente de antes. Parecia que a vida em Sommerfield estava fazendo bem para ela. Agora ela até mesmo queria aprender a montar. Uma mudança marcante desde a última vez que a vira e aquilo foi há pouco mais de uma semana. — Eu sei que Alfie adoraria ir. Acho que todos devemos ir.

Ela olhou para Tristan com hesitação.

— A menos que seus negócios o impeçam de ir a tais festejos — adicionou ela.

Ela o estava desafiando? Sugerindo que ele era importante demais para essas coisas?

— Sempre é bom confraternizar com a aldeia — disse ele por fim.

— Então está resolvido — disse o Sr. Herman, soando cordial. — Iremos todos.

Sophie sorriu.

Este sujeito talvez não tenha percebido ainda quais eram as intenções de Sophie, mas ela com certeza tinha alguma. E ele, sendo o homem educado que era, provavelmente concordaria com qualquer coisa que ela sugerisse.

— Há algo interessante se passando em Londres? — perguntou o Sr. Herman.

— Nada significativo — disse Tristan, e então tomou um gole do seu clarete. Por alguma razão, não sentiu toda aquela avidez, até mesmo depois da longa viagem. Ele observou enquanto Sophie partia a torta de limão e merengue com o garfo e a saboreava. Os olhos dela se fecharam por um momento. Era óbvio que ela gostava do doce.

O Sr. Herman falava sobre arquitetura, mas Tristan não achava que nenhum dos dois estava prestando muita atenção nele. Aparentemente, o homem não podia competir com uma torta de limão.

Ela seria feliz com um sujeito assim? Ao que parece, ela parecia acreditar na possibilidade. Eles viveriam naquela pobreza distinta que ela parecia gostar tanto.

Tristan parou para analisar seu azedume. Não era como se a quisesse. Tudo isso estava acontecendo porque ele não queria uma esposa. O que realmente acontecera foi que ele tinha ganhado um filho. Um menino que se apresentou e mostrou a ele todas as coisas que tinha aprendido, parecendo exultante com a atenção. Não era como se o menino estivesse sendo ignorado por Sophie ou pelo Sr. Herman, então o prazer que ele sentiu naquela interação tinha a ver com Tristan e não com o desejo que ele tinha por atenção.

Tristan ainda não sabia muito bem o que fazer com aquilo. Ninguém jamais se interessou por ele da mesma forma que o menino se interessava. Ele gostava de merengue tanto quanto a mãe, ou tinha puxado ao pai que achava que as sobremesas eram doces demais?

A sobremesa acabou e eles foram para o salão tomar um digestivo. Sophie se juntou a eles, mostrando exatamente o quão confortável ela estava com a companhia do Sr. Herman. Era isso que eles faziam todas as noites? Sentavam ali, só os dois?

O salão era mais quente que a sala de jantar e o lugar estava levemente iluminado. Tristan pegou uma dose de brandy e o Sr. Herman se juntou a ele. Sophie se serviu de vinho madeira.

Sophie sorriu enquanto aceitava a delicada taça que Wellswar lhe entregou. Ela bebericou com delicadeza, mais uma vez saboreando. Ela gostava de comida, de sabores. Os dedos finos e elegantes seguravam a haste da taça enquanto ela sorvia o líquido e ouvia o Sr. Herman, que ainda estava falando de arquitetura.

Como ela sequer consideraria ouvir a falação daquele homem pelo resto da vida?

Ela era esguia, e o tecido desses vestidos dela ainda eram finos demais. Não tão ruins quanto ficavam quando molhados.

De repente, os dois se viraram para ele, esperando por uma resposta.

— Sinto muito. Qual foi a pergunta?

— Peço desculpas — disse o Sr. Herman. — Estávamos falando sobre a nova posição do Marble Arch. Deve ter sido bastante trabalhoso movê-lo. Nenhum de nós o viu sendo movido e imaginamos se o senhor tinha visto.

— Sim, eu acho — disse ele. Talvez não tivesse serventia ele dizer que não poderia se importar menos com aquilo. Era uma estrutura bonita, mas que não ocupava um segundo dos seus pensamentos. — Causou caos no trânsito, por meses.

— Óbvio, eles não podiam simplesmente destruir um monumento tão significativo — prosseguiu o Sr. Herman.

Às vezes, Tristan imaginava por que simplesmente não tinham destruído aquele aborrecimento.

Sophie abafou um bocejo. Parecia que ela também estava achando a conversa sem graça. Tendo conseguido escondê-lo, ela voltou a colocar a mão sobre o colo. Ele notou, enquanto ela passava por ele na hora que trocaram de sala, algum tipo de perfume. Ou água de alfazema.

Ela voltou a sorrir, a expressão suavizou as feições dela, e parecia fazer os olhos dela brilharem na luz esparsa. Seria a mais absoluta surpresa se Herman não estivesse completamente apaixonado por Sophie. Se ele não estivesse, aquilo falaria muito sobre como ele era como homem. Sophie era linda – adorável, na verdade. A luz do fogo lançava um brilho dourado no cabelo dela. A pele era clara e macia.

Tristan sentiu a luxúria dar as caras novamente e se distraiu com o brandy, os olhos buscando alguma outra coisa em que focar. Pinturas antigas, esculturas antigas. Nada na sala era tão cativante quanto a mulher que prendia a atenção dos dois homens que ali estavam.

— Preciso me retirar — disse ela, e ambos se levantaram. Com um sorriso, ela saiu tranquilamente da sala, e eles a observaram partir. Ela tinha sido muito agradável aquela noite. Os olhares severos e a desaprovação constante não estavam lá.

Sem ela ali, havia certa estranheza entre ele e Herman. Talvez porque Tristan não tinha interesse em ouvir o falatório do homem.

— Preciso verificar os estábulos antes de me retirar — disse Tristan. Ele não queria, mas sentiu a necessidade de passar um tempo lá fora. — Está tudo bem, Wellswar; não preciso de nada.

Saindo do salão, Tristan caminhou pela escuridão sentindo o vento frio. Ele queria e não queria estar ali. Foi a mesma sensação em Londres. Parecia que, no momento, nenhum lugar lhe daria paz de espírito.

Sophie vagava pelos seus pensamentos queria ele ou não. Talvez não fosse surpreendente já que ela era mais ou menos a única mulher na sua vida. Seu relacionamento com Minette nunca tinha sido do tipo que ele a tivesse olhado de outra forma. Ele também nunca tinha olhado para Sophie de outra forma, até ela se tornar uma oponente formidável. Mesmo ele tendo ganhado a batalha, parecia que a guerra não estava ganha.

Virando-se, ele viu a luz no quarto dela e olhou para lá por um momento, não viu nenhuma sombra se movendo. O que quer que fosse que ela estivesse fazendo, ela estava parada, deitada na cama ou sentada. Lendo, escrevendo talvez. Ela tinha para quem escrever? Talvez para aquele salafrário do irmão dela.

Talvez entendesse por que ela tinha se sacrificado por ele. Ele tinha feito exatamente o mesmo pela irmã. Nenhum deles podia se afastar da família em tempos difíceis. E agora eles eram família. Como mãe do filho dele, ele tinha a obrigação de protegê-la. Ela se sentia do mesmo jeito?

Até onde podia dizer, desdém era a única coisa que ela sentia por ele. É só que não tinha sido o caso, não naquela noite. No todo, ela simplesmente o ignorou. Uma raiva irracional começou a borbulhar quando pensou naquilo. Não gostava de ser ignorado. Especialmente não por causa de um homem tão sem importância quanto Herman. Não havia nada errado com o homem, mas ele não era o tipo de pessoa que deixava uma impressão em um salão.

Começando a sentir frio, ele voltou para dentro. Sophie ainda não tinha apagado a luz quando ele voltou, mas Tristan tinha que parar de pensar no que provavelmente era o lugar quente e macio onde ela se deitava.

 

*

 

A carruagem que seguia para a aldeia estava lotada. O tempo tinha firmado, o que era uma benção. Alfie estava lutando para sentar ao lado de Tristan, o que significava que Sophie e Herman sentariam lado a lado. Eles não se tocavam, havia um embaraço entre eles. Herman não era do tipo que tomaria a iniciativa. Isso ficaria a cargo de Sophie, quando ela estivesse pronta. Era interessante ela não ter feito aquilo ainda. Podia ser que não estivesse tão segura quanto a ele?

Aquele sentimento enjoativo o comia por dentro, parecia algo como esperança. Mas esperança de quê? O que ele queria exatamente? Talvez só ser reconhecido.

— Deveríamos convidar o reverendo Narstop para ir a Sommerfield Hall — disse Sophie. — Não o convidamos ainda, e talvez seja melhor fazê-lo enquanto está aqui, lorde Aberley.

A última coisa que Tristan queria era um vigário do interior na sua casa.

— Ele parece ser muito amigável — declarou Herman. — Imagino em qual seminário ele estudou.

Os olhos de Tristan nunca se afastaram de Sophie, quem, pela primeira vez, encarava-o de volta. Ela o estava desafiando?

— Você pode convidar quem quer que deseje. — Exceto seu maldito irmão.

Felizmente, o percurso não era longo. A aldeia estava repleta de barracas que ofereciam diferentes tipos de jogos e também outras que vendiam artesanato local. Uma banda estava tocando. Era certamente uma festa pequena, mas parecia que toda a aldeia tinha comparecido, inclusive ele. Não estava certo se alguém o queria lá. Seria exagero dizer que os aldeões gostavam dele. O pai nunca tinha entendido a necessidade deles, e Tristan tinha sido ausente.

— Lorde Aberley — disse um homem, e Tristan se virou para ver o reverendo Narstop. — É um prazer o senhor ter decidido se juntar a nós no dia de hoje.

— Eu estava em Sommerfield, e meus convidados queriam vir.

— Sim, fiquei sabendo que há gente morando em Sommerfield agora, incluindo o seu filho, se ouvi direito. Posso presumir que ele se juntará à nossa escola dominical?

— O senhor terá que tratar desses assuntos com a mãe dele.

— Sim, nós fomos brevemente apresentados no último domingo.

Mesmo? Tristan não soube que ela tinha ido ao culto.

— Espero que tenhamos a honra de sua presença na próxima semana. — O homem sorriu, e Tristan ficou feliz por ele não ter abordado seu relacionamento complicado com os habitantes da casa. Ao menos o homem era discreto. Vigários, às vezes, se sentiam no direito de saber todas as idas e vindas da vida dos outros.

À distância, ele viu Sophie jogando bastões de madeira em pinos, tanto ela quanto Alfie pulavam quando ela acertava algum. O sorriso dela encantava as pessoas à sua volta. Parecia que todo mundo a observava, desfrutando da ida dela à aldeia. Mas, novamente, por causa daquele vestido, ela parecia pertencer a uma aldeia como aquela.

Herman se juntou às pessoas que a congratulavam e ela pegou o braço dele enquanto eles iam para a próxima barraca. O desconforto se espalhou pelo seu corpo e ele teve que reprimir a vontade de ir... fazer alguma coisa. De uma maneira distorcida, ele sentia como se quisesse protegê-la. Não queria que nenhum desses homens chegasse perto dela, porque cedo ou tarde, assim que ela tivesse lamentado o suficiente, ela estaria disponível para ser tomada.

E Herman seria tão conveniente, não seria? Eles moravam na mesma casa e cuidavam do mesmo menino. Só ele que não tinha lugar naquele cenário. Ela estava fazendo isso para magoá-lo? Seria isso parte da guerra que estava transcorrendo entre eles?