A Esposa Desprezada
Capítulo 36
O interior da selaria cheirava a óleo enquanto Tristan pegava a sela de amazona. Ela não era usada há décadas, mas estava bem lubrificada e preservada, como todas as selas novas e antigas. Colocando-a sobre o antebraço, ele pegou um chicote e uma manta de sela que também ficavam na parede.
Havia tempo que os seus cavalos tinham sido montados por mulheres, mas eles não fariam nada além de acostumá-la com a sela. Os cavalos tendiam a se acostumar, então talvez eles fossem treinar o cavalo ao mesmo tempo.
— Traga Tempest — disse ao cavalariço, quem voltou ao estábulo para pegar o cavalo escolhido.
Os cascos foram ouvidos antes de a égua aparecer na porteira, um dos menores cavalos do estábulo com uma bela pelagem vermelha. Tinha sido a égua da sua irmã há um tempo atrás.
Colocando a manta e a sela nas costas dela, Tristan apertou a cilha. Atrás dele, Sophie parecia nervosa usando um dos vestidos de sempre por baixo do casaco. Os olhos dela estava arregalados e as bochechas rosadas enquanto ela sorria de forma estranha.
— Pensando bem, talvez não seja uma boa ideia.
— Que bobagem. Isso lhe dará bastante liberdade. Poderá ir a qualquer lugar da propriedade. Só montaremos e caminharemos hoje. Nem deixaremos o cercado.
Um olhar de alívio suavizou os traços dela. O que ela esperava? Que ele fosse fazê-la galopar pelo gramado?
Insegura, ela deu um passo à frente, obviamente sem ter a mínima ideia do que fazer. Bem, ela foi nascida e criada na cidade, e provavelmente nunca esteve sobre um cavalo.
— Talvez seja melhor dizer olá para o cavalo primeiro — ele sugeriu e ela o olhou curiosa. — Afague-a no pescoço, para que ela perceba que não pretende feri-la.
— Certo, é uma ela.
— Tempest. O nome engana. Ela é bem dócil. Uma velha senhora, se quiser saber.
— Certo — repetiu Sophie, mais uma vez.
— Onde está Alfie?
— Está tomando chá com lady Woolwich — disse Sophie. — Ela insistiu.
Estava claro que Minette queria que eles passassem tempo juntos, e tanto quanto quisesse negar, ele também queria. Era bom quando eles estavam juntos e sem gritar um com o outro. O que levou à pergunta do que ele realmente queria, e ele teve dificuldade para responder. Estava preso em uma espécie de limbo. Não podia ir embora, não podia ficar. Havia um imenso desconforto também, mas ele não gostou da ameaça de Minette de ir embora, porque parecia que eles precisavam de um intermediário.
Devagar, Sophie deu uns passos à frente e afagou o cavalo. Os dedos esguios e pálido acariciaram o pelo. O nervoso de Sophie era óbvio e ela se afastou um pouco quando Tempest levantou a cabeça.
— Agora que as apresentações já foram feitas, é melhor a senhora subir no bloco de montar. Precisa se sentar de lado na sela antes de se apoiar no pito, essa parte do cepilho que parece um chifre.
Ela pegou a mão dele enquanto subia e o calor da mão dela se infiltrou na de Tristan. Com as mãos nos quadris de Sophie, ele a subiu até a sela. Aquela saia não tinha sido feita para montar.
— Passe a perna direita sobre o pito. — Não haveria como fazer aquilo sem ajustar a saia e o tecido de algodão branco da combinação em volta do pito. Então a perna direita se encaixou no estribo. A mão dele foi para o tornozelo esguio, a perna dela ficou em exposição antes de ele ajeitar a saia para que cobrisse tanto ela quanto o pito.
Respirando fundo, ele se afastou. Tudo parecia um pouco mais seguro quando não estava tocando aquelas belas pernas.
— Certo — disse ele, tentando organizar os pensamentos. — Segure o chicote na mão direita.
— Acho que não consigo me obrigar a chicotear um animal.
Por um momento, ele piscou confuso.
— Não, ele é usado no lugar da sua outra perna, para informar ao cavalo para onde deseja ir apenas tocando o flanco do animal.
— Oh, entendi — disse ela.
— Ao contrário do que acredita, eu não sou um monstro que usa o chicote em animais indefesos.
As bochechas dela ficaram ainda mais coradas.
— Eu não quis insinuar... — disse ela, deixando a voz morrer.
— Agora as rédeas, elas descansam nos seus mindinhos, e passam por cima dos indicadores. Você as segura com os outros dedos e o polegar. — Ele arrumou os dedos dela em volta das rédeas para formar um bom aperto. — Isso lhe dá melhor controle, mas as suas pernas servem mais para dizer ao cavalo o que quer. Perna e chicote, no seu caso. Puxe-as e ela parará. Com suavidade. A boca do cavalo é sensível.
Agora ela estava pronta e ele a conduziu devagar em volta do cercado. Eles se locomoveram em silêncio e ele sentiu como se a estivesse conduzindo. Por um momento tudo pareceu desaparecer e eles estavam simplesmente caminhando, um homem e uma mulher indo para onde queriam ir. Aquela profunda sensação de satisfação retornou. Parecia que tudo estava como deveria estar.
Eles caminharam em silêncio por volta de vinte minutos, era o suficiente para um dia. Não acostumada a montar, o traseiro dela provavelmente ficaria dolorido. E verdade seja dita, ele não tinha certeza se poderia suportar mais observar o corpo dela se movendo suavemente com os passos do cavalo. Isso trazia coisas à sua mente que provavelmente não deveriam estar lá.
Parando o cavalo, ele deu um passo em direção a ela.
— Basta por hoje?
Ela fez que sim. Com as mãos, ele a ajudou a tirar a perna do pito até que ela estivesse sentada de lado novamente. Talvez isso devesse ter sido feito mais perto do bloco de montar, mas não foi onde eles pararam.
Com as mãos nos quadris dela, ele a ajudou a apear, sentindo uma intensa vontade de puxá-la para si. As mãos dela estavam em seus ombros. Será que ela sabia que aquilo era tortuoso?
— Obrigada por ter disposto do seu tempo para me ensinar a montar. Foi muita bondade sua.
Não parecia bondade, parecia egoísmo. Ele estava usando essa desculpa para... impressioná-la? Ele queria impressioná-la? Sim, ele queria impressioná-la já fazia um tempo, com o seu poder, suas habilidades e sua aptidão como pai.
Ele deveria dizer alguma coisa agora, alguma coisa inteligente e engenhosa, mas não lhe ocorreu nada agora que a tinha ali, praticamente em seus braços, com ela olhando-o fixamente. Como podia ser tão impossivelmente estranho beijar esta mulher? Ele era um homem vivido, um homem que era mais capaz do que todas as coisas que tinha feito, mas não podia se fazer beijar uma mulher que esteve de pé no altar e que tinha dito que o amaria e o cuidaria pelo resto de sua vida. Uma mulher que lhe dera um filho.
— Acho que vai começar a chover logo, logo — disse ela, afastando-se do cavalo, e dele. O material da saia escapou dos dedos dele. — Talvez precisaremos pensar em alguns jogos de salão.
Enquanto ela se afastava, ele a segurou pelo pulso e a puxou de volta. Não havia como voltar atrás agora. Teria que seguir em frente. Os lábios dele procuraram os dela, procuraram a suavidade dela. Um pequeno arquejo lhe permitiu acesso e ele a saboreou, o gosto dela inundou a mente de Tristan enquanto ele fechava os olhos. Ele a envolveu com os braços e a puxou para perto, como tinha querido.
Ela não lutou enquanto ele aprofundava o beijo, explorando o calor dela. Cada parte do seu corpo estava em alerta, tensionado por causa daquele beijo impossivelmente delicado. Ele não podia respirar, mas não precisava de ar, precisava dela. Os seios macios pressionavam seu peito, e ele aprofundou o beijo ainda mais. Na verdade, não tinha certeza se já beijara alguém assim, pegando tanto quanto queria, consumindo tudo dela. O beijo não era mais delicado, e pareceu durar uma eternidade porque haveria a estranheza e provavelmente recriminações quando chegasse ao fim. Naquele beijo eles estavam seguros, estavam unidos. Eles eram um.
Respirando fundo, ele o deixou chegar ao fim, os olhos ainda fechados enquanto descansava a testa na dela. Ele queria mais, ele queria tudo. Talvez aquilo não fosse surpresa para ela, mas ele agiu no calor do momento. Talvez um tapa estivesse chegando à sua bochecha a qualquer minuto, mas teria valido a pena. Foi um beijo roubado, mas ele nunca poderia se arrepender dele.
— Oh — foi tudo o que ela disse. O pulso dela ainda estava em sua mão quando ela o puxou com suavidade. Quando ele finalmente abriu os olhos, os dela estavam arregalados e buscando pelos dele. O que poderia dizer; como ela podia estar surpresa? O desejo por este beijo o estava agitando já havia um tempo, e tinha sido tudo o que esperara. Se tinha sido melhor para ela, ele não tinha ideia. Não tinha uma pista sobre o que estava se passando pela mente dela naquela hora.
Na verdade, ela parecia um pouco aturdida. Aquilo era uma surpresa? Ela não tinha esperado que aquilo seria uma possibilidade depois de ele ter colocado o seu coração sobre a mesa na frente dela?
Aos poucos, ela se afastou dele, saindo dos seus braços. Os dedos dela foram para a parte baixa do pescoço e ela envolveu o outro braço em volta de si. Ela estava evitando olhá-lo enquanto dava outro passo para trás.
Talvez não fosse a recepção calorosa que ele tinha esperado, mas também não recebeu um tapa. Nem ela o tinha afastado, em vez disso, permitiu que o beijo se desenrolasse.
Dando as costas para ele, ela seguiu o caminho de casa.