A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 10 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 10

 

As ruas escuras de Londres abrigavam todo tipo de perigos e prazeres, mas esta noite Tristan estava a caminho de um lugar que raramente frequentava. Um lugar notório pela depravação e pela embriaguez. Era um lugar aberto a todo tipo de homem com dinheiro para gastar. Mais desordeiro que os estabelecimentos onde ele normalmente ia. Quando jovem, este tipo de lugar lhe tinha mais apelo.

Mas não estava lá pelas mulheres ou pela bebida. Esta noite, estava procurando pelo canalha do irmão da antiga lady Aberley. Não havia chegado nenhum bilhete esta tarde, o que o incitou a procurar pelo homem. O que ele estava pensando ao achar que lidar com ele seria mais simples? Nada do que dizia respeito àquele homem era fácil ou proveitoso.

Finalmente a sua carruagem parou do lado de fora do estabelecimento onde as tochas acima da porta queimavam no alto das duas colunas que conduziam às escadas. Era incrível o lugar ter sido chamado de O Pelicano, nome este que estava escrito em letras douradas sobre a porta. Um porteiro o deixou entrar, mas a respeitabilidade do local terminava ali.

Foi atingido pelo barulho assim que subiu a escadaria que conduzia ao enorme salão onde ficava a área principal do clube. Cada centímetro de lá era vermelho e dourado, e havia mesas espalhadas pelo espaço enorme e cavernoso. Jovens machos e libertinos encarquilhados preenchiam cada cadeira, para não mencionar as mulheres trajando seda e cetim com decotes tão baixos que chegavam a mostrar os mamilos.

Este era o tipo de lugar onde ele esperava encontrar Oliver Bancroft.

— Olá, bonitão — disse uma mulher, colocando a mão em seu braço. — Parece que você poderia tirar proveito de um pouco de companhia. — As bochechas pintadas com carmim e os lábios vermelhos escondiam a idade dela.

— Não esta noite — disse Tristan com rispidez. Essas damas pintadas não eram a sua fraqueza. Elas o faziam sentir-se tão ordinário quanto suas belezas artificiais.

A mulher o amaldiçoou enquanto se afastava balançando os quadris e procurando o próximo cliente. Se fosse procurar por companhia feminina esta noite, certamente não seria ali. Mas era óbvio que não havia escassez dessas mulheres naquele local. Outra já estava vindo abordá-lo, e ele foi para o outro lado, procurando nas mesas pelo rosto que buscava.

Oliver Bancroft estava sentado jogando cartas com um grupo que Tristan não conhecia.

— Sr. Bancroft — disse ele enquanto se aproximava e o homem ergueu o olhar, por um segundo viu o tormento nublar os olhos dele. Não era por aquilo que Tristan estava esperando. Será que Sophie também o convencera sobre os seus delírios?

— Lorde Aberley, que surpresa — disse o homem com um sorriso contrito. — Quer juntar-se ao jogo?

Olhando para a mesa, Tristan viu que eles jogavam Faraó.

— Eu não jogo jogos de azar. — Ele preferia muito mais os jogos de habilidades. Preferia não se envolver com jogos sobre os quais não teria nenhum controle quanto ao resultado. Ainda assim, ele se sentou à mesa e, com o dedo, fez um pedido para uma das garçonetes. — Fernet-Branca — disse ele, e ela se afastou enquanto meneava a cabeça.

— Gostaria de uma atualização sobre o assunto que discutimos na última vez em que nos vimos. — Da última vez tinha encontrado o homem ali. Conhecidos que transitavam em círculos mais notórios quando sentiam o desejo lhe informaram que Oliver Bancroft poderia ser encontrado ali. — Acredito que tenha apresentado minha proposta à sua irmã.

— Ela não a ouvirá — disse Oliver finalmente, evitando olhar para ele. — Na verdade, ela me disse para não voltar mais lá.

O desgosto se espalhou pelo rosto de Tristan. Não por que ele se importasse o mínimo com a briga entre o homem e a irmã, mas mais porque parecia que Oliver não tinha nenhum controle sobre ela.

— Então a quem ela ouvirá?

Oliver deu de ombros.

— Mulheres são ilógicas. — Foi tudo o que ele disse. Tristan teve dificuldade para rebater aquele argumento. — Ela pensa que é independente. Não há nada pior do que quando elas pensam que são independentes. Perdem todo o bom senso. E, mais uma vez, não é culpa minha ela ter uma opinião tão ruim sobre o senhor. Essa é uma cruz que terá que carregar — acusou-o Oliver.

— Eu nunca a maltratei, mas eu estava em todo o meu direito de levar em consideração o seu comportamento crasso e desprezível.

— Bem, eu não posso ajudar com Sophie. Ela não quer ouvir. Prefere viver na pobreza do que ver o filho associado ao senhor. Coloca em dúvida a sua declaração de que a tratava bem.

— Eu não ficarei aqui ouvindo essas vis acusações — disse Tristan com seriedade. Alguém como Oliver Bancroft fazendo ataques ao seu caráter era completamente inaceitável. Mas, conforme o esperado, o homem era um covarde e recuou antes que ele pudesse ser cobrado pelo que tinha declarado.

— O mel atrai mais as moscas que o vinagre — disse Oliver por fim. — Se quer que uma mulher faça algo pelo senhor, há formas mais fáceis de convencê-la. — Tristan podia ver a embriaguez nos olhos do homem. — Sussurre palavras doces no ouvido delas e elas estarão nas suas mãos, dispostas a qualquer coisa que pedir. O senhor conseguiu fazê-la abrir as pernas uma vez, talvez consiga de novo.

— O senhor está sugerindo que eu seduza a sua irmã? — disse Tristan, enojado; não sabia se pela ideia ou se pelo irmão dela sugerir que ele fizesse isso com a própria irmã. Isso só confirmava que estava lidando com pessoas baixas e precisava afastar a criança deles antes que o menino fosse totalmente arruinado.

— Se quiser que uma mulher faça algo, essa é a forma mais fácil. — Oliver tomou um bom gole de sua bebida e colocou mais dinheiro na mesa esperando pela nova rodada. De quem será que era o dinheiro que ele estava apostando? Pensou Tristan.

Apesar do mau gosto da sugestão, ela tinha mérito, era só que Tristan tinha zero experiência com sedução. Não era um passatempo ao qual se dedicava. Além de sacudir a bolsa de dinheiro, havia muito pouco que fazia para conseguir uma mulher. Exceto Cecilia Hartright, mas para ser honesto, aquilo tinha sido mais o bom tamanho da sua propriedade. Por isso que uma propriedade maior ganhou a afeição dela, no final das contas.

O tipo de sedução a que Oliver Bancroft se entregava: por poder, manipulação e controle, era algo em que Tristan não tinha habilidade. Só o fato de ele abominar mentir para alguém, incluindo para si mesmo, provava que era uma estratégia à qual não poderia se dedicar. Seduzir mulheres fazendo falsas promessas não era uma arte em que fosse versado, e era pouco provável que fosse funcionar com Sophie. A única razão para ela ter se submetido a ele, em primeiro lugar, foi por que era seu dever de esposa. E, por conseguinte, o dever foi a única razão para ele tê-la procurado, para início de conversa.

Era aquele mesmo dever que o arrastava agora.

Sem dizer uma única palavra, deixou a mesa e saiu do clube. Não havia nada a ganhar ali, a não ser descobrir a profundidade da degradação que a família Bancroft se afundaria para conseguir o que queria. O problema era que ele não conseguiria entender bem o que Sophie queria. Independência, o irmão dela disse. Talvez ele conseguisse entender, de certa forma. Houve anos em que Tristan tinha ansiado por independência. Na verdade, não conseguiu alcançá-la, e não alcançaria até que tivesse um herdeiro. Rindo, ele pensou que eles queriam a mesma coisa. Só que estavam em desacordo, porque ele precisava que ela desistisse do que queria para ele alcançar o próprio objetivo.

— Casa — ordenou ao condutor enquanto a carruagem parava perto dele. Fechando-se lá dentro, ele deixou toda a devassidão d’O Pelicano para trás.

Sophie o contrariava porque ela tinha independência para tal, mas aquilo era uma mera ilusão. Não havia segurança em uma loja de varejo. Talvez precisasse provar aquilo para que ela ouvisse a voz da razão. Eles estavam um passo mais perto de uma workhouse do que jamais estiveram. A situação precária em que se encontravam era algo que ela devia temer. Sua proposta não poderia ser recusada por causa de uma coisa que poderia ruir a qualquer momento. Um sem fim de coisas poderia acontecer a um pequeno negócio pouco rentável. Se ela ficasse doente, ela e o filho estariam em uma workhouse antes de o mês chegar ao fim.

Mostrar a ela o risco talvez fosse uma solução melhor do que desenvolver estratégias para seduzi-la. Obviamente, ela era uma mulher atraente, sempre tinha sido. Ele sempre estivera bem ciente da beleza dela. Como o irmão dela, ele realmente acreditava que ela a usava para conseguir o que queria. Exceto que agora ela queria independência e acabou por dar as costas para todo mundo.

Infelizmente, a senhora Duthie não era tão forte ou tão independente quanto acreditava, e as boas intenções que ela tinha para com o filho a fariam aceitar a sua oferta. Não seria muito difícil convencê-la.

— Smyth — disse Tristan enquanto entrava na casa. — Preciso ver o meu homem de negócios.

— Já passa da meia-noite. Deseja que eu mande alguém à casa dele para acordá-lo?

— Ah, não, suponho que isso possa esperar até de manhã. Mande uma mensagem ao amanhecer dizendo para ele vir. Temos assuntos a tratar. Posso cuidar de mim mesmo. Volte para a cama — ordenou ele, e Smyth trancou a porta da frente.

Sentindo-se mais leve, Tristan subiu as escadas e foi para o quarto.