A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 27 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 27

 

A atmosfera em Sommerfield Hall ficou muito diferente depois que lorde Aberley partiu. A tensão tinha desaparecido. Todo mundo estava mais relaxado, até mesmo a criadagem. Se o Sr. Herman notou a diferença, Sophie não ficou a par, mas ela com certeza sentiu.

Tudo com Aberley terminava em confronto, era como se ele sempre estivesse procurando motivos para rasgá-la aos pedaços, para provar a ela que ela era... Na verdade, não sabia exatamente o que ele estava tentando provar, exceto que o ponto de vista dela estava errado.

Sophie se sentou no enorme sofá da biblioteca e olhou para a paisagem cinzenta e molhada lá fora. Alfie estava estudando no andar de cima e não havia muito para ela fazer. Um livro sobre a história botânica da Inglaterra estava aberto em seu colo, mas ela lutava para prestar atenção nele. Ouviu Wellswar ou algum outro criado movendo-se lá fora.

A separação entre criadagem e convidados não foi alterada, mas Sophie tinha sugerido que eles deixassem a sala de jantar formal e fossem jantar no seu salão, convidando tanto o Sr. Herman quanto Alfie para jantar com ela. Tecnicamente, o Sr. Herman não deveria jantar com a família, e Alfie deveria jantar no quarto das crianças com Mary, ou melhor, sendo supervisionado por Mary.

Era contra essa formalidade vazia que ela lutava, e estava começando a quebrar essas convenções, já que elas não favoreciam ninguém. Isso significava que eles jantavam um pouco mais longe da cozinha, mas o Sr. Wellswar lhe garantira que aquilo não seria um problema.

Então, naquele momento, eles estavam jantando em uma mesa menor, onde as conversas eram informais e agradáveis. Sophie não gostava muito que Alfie ficasse enfurnado no quarto das crianças quando ele seria beneficiado ao jantar com eles.

Era quase como se eles tivessem montado pequenos apartamentos dentro da casa. Dificilmente tinha necessidade de usar o primeiro piso da casa, a menos que precisasse pegar um novo livro na biblioteca. Infelizmente, a coleção de lorde Aberley tinha uma natureza mais prática do que ela preferia.

— Fiquei sabendo que haverá uma festa na aldeia daqui a uns dias — disse o Sr. Herman, desfrutando do que tinha sido servido a eles.

Mesmo Aberley esperando que ela não fosse dar ordens à criadagem no que dizia respeito aos cuidados com a casa, ainda assim eles a procuravam querendo saber o que deveriam fazer. Não para tudo, mas mais sobre as refeições que eles serviriam e qualquer coisa que estivesse relaciona ao funcionamento dos quartos e da rotina deles.

Eles tinham aprendido que o Sr. Herman, com sua mente analítica, não era necessariamente a melhor pessoa para perguntarem sobre assuntos mais práticos, então mais e mais dúvidas estavam sendo direcionadas a ela.

Alfie estava com saudade de Aberley, não havia mais ninguém para continuar com a sua educação equestre. Infelizmente, ele precisou parar e agora não podia fazer nada mais do que percorrer, em círculos lentos, o pequeno cercado perto do estábulo. Ele tinha seis anos, Sophie não estava preparada para deixá-lo ir a qualquer lugar sozinho. Imagens de acidentes tomavam a sua mente cada vez que pensava no assunto.

O Sr. Herman o levou para pescar no arroio em um dia que fez sol. Alfie tinha se divertido muito. Sophie os observou pela janela enquanto eles voltavam, vendo o peixe amarrado no final da vara que o Sr. Herman trazia sobre o ombro. Ele era um homem tão bom e gentil. É óbvio, ele era um pouco austero, mas não havia rabugice no comportamento dele.

Juntos, os três funcionavam muito bem. Eles jantavam juntos todos as noites, e o Sr. Herman e Alfie passavam os dias na sala de aula. Sophie ainda lutava para encontrar algo para fazer enquanto passava o tempo. O bordado foi um desastre, era óbvio que aquilo não era para ela. Talvez devesse aceitar a oferta de Aberley e aprender a montar. Não que aquilo ainda fosse uma oferta. Não tinha ideia de quando ele voltaria. Pelo que sabia, a intenção dele era de que eles vivessem separados. Talvez devesse escrever para ele e pedir um instrutor de equitação para ela e para Alfie.

Não tem havido nenhuma comunicação. Até mesmo a ideia de escrever para ele a punha nervosa, imaginava-o sentado em seu escritório em Belgravia, lendo a carta com a sua costumeira desaprovação. Mas aquele nervoso era profundo. Esteve lá desde o dia em que se casou com ele.

Ele era um homem que nunca entendeu, e nunca entenderia, mas um dia ele lhe foi apresentado como o homem que seria dela, algo que ela sentiu bem lá no fundo. Uma agitação que alcançava alturas inexplicáveis quando ele ia até ela. Um segredo entre marido e mulher. Tinha sido tanto inebriante quanto excitante, mas era algo que nunca a deixou à vontade.

Doug a fazia se sentir à vontade. Não havia nervosismo entre eles, só gentileza e afabilidade.

O ruído de cascalho interrompeu suas abstrações e ela foi até a janela. Eles dificilmente tinham visitas, então Sophie não tinha ideia de quem poderia estar se aproximando da casa. Os passos fortes de Wellswar a caminho da porta ecoaram por todo o corredor.

Na janela, ela viu lorde Aberley apeando do cavalo. Ele usava um longo casaco azul escuro e o chapéu que o protegia contra as intempéries. Era óbvio que ele veio cavalgando desde Londres. O cavalariço foi pegar o cavalo e agora ela também conseguia ver o Sr. Wellswar.

— Não estávamos esperando a sua volta — disse Wellswar.

— Não, eu não mandei nenhum aviso — respondeu Aberley.

Sophie levou os dedos à boca enquanto pensamentos corriam por sua cabeça. Aberley estava de volta. Significava que tudo voltaria a mudar. Como ele tendia a fazer, ele vinha e mudava tudo. Ao que parecia, o mundo girava ao redor dele.

Deu um passo, parou e verificou se tudo nela estava em ordem. Sem nunca falhar, os olhos dele sempre pareciam encontrar seus defeitos.

— Milorde, o senhor voltou — disse ela enquanto chegava no corredor central. — Não esperávamos que estivesse de volta tão cedo.

— Sim — disse ele, os olhos dele ficaram nela um pouco mais, só para garantir que o seu desconforto aumentasse. — Há coisas das quais preciso cuidar.

— É claro — disse ela, sem saber do que ele falava, mas também não sabia nada sobre administração de propriedades. — Teria ficado feliz de cuidar de qualquer assunto, caso tivesse se comunicado comigo. — Realmente não havia necessidade de ele ter percorrido todo esse trajeto. Sempre se considerou muito capaz em diversos aspectos. A falta de habilidades equestres talvez fosse um déficit. — Mas já que o que o senhor voltou, há algo que eu gostaria de dizer.

— E o que é? — disse ele. Por que tudo o que ele dizia soava como uma acusação?

— Penso que sua afirmação sobre os benefícios de ser capaz de montar está correta. Acho que tanto eu quanto Alfie deveríamos aprender a montar.

— Eu posso ensinar.

Não era isso o que ela tinha em mente.

— Oh, certo. É muita bondade. Como o senhor é um homem ocupado, um instrutor de equitação deveria ser contratado para... quando o senhor precisar partir novamente.

Ela tinha acabo de insultá-lo? Por que parecia que sim?

— Tenho certeza de que poderemos tomar providências quando for necessário. Se me der licença, descansarei um pouco, antes de o jantar ser servido.

— Sim, é claro — disse ela, sentindo-se meio boba.

Com um rápido meneio de cabeça, ele subiu as escadas, dois degraus por vez. Ao que parecia, eles não teriam mais os jantares informais por enquanto. Quanto tempo será que ele ia ficar?

A tensão subiu pelos seus ombros enquanto o observava se afastar. Alfie ficaria feliz com este acontecimento, mas Sophie ainda não confiava completamente nele no que dizia respeito ao coração bondoso do filho. Certo, as coisas estavam indo bem melhor do que tinha esperado. Aberley não era tão indiferente quanto temia, mas ele ainda tinha um mau gênio que dava as caras de vez em quando.

Voltando para a biblioteca, ela voltou a pegar o livro, mas ele tinha ainda menos apelo do que antes. Em breve teria que se vestir para o jantar e eles se sentariam na sala de jantar formal. Embora não tivesse certeza de que o Sr. Herman seria convidado. Na verdade, ela não tinha certeza se seria convidada, mas ele parecia insistir que eles jantassem juntos sempre que ele estava por perto.

Ao ouvir passos se aproximando, Sophie ergueu o olhar e viu Alfie.

— Meu pai voltou?

Quando ele tinha se tornado ‘pai’ aos olhos de Alfie? Talvez aquele fosse apenas um fato com o qual ela deveria se acostumar. Respirou fundo e então sorriu.

— Sim, ele acabou de chegar.

— Quanto tempo ele vai ficar? — A animação nos olhos de Alfie era óbvia.

— Eu não sei. É melhor você perguntar a ele, mas você deve voltar para a aula, porque lorde Aberley pode ir até lá vê-lo quando ele acabar de ser vestir.

Os olhos de Alfie se arregalaram e ele saiu correndo da biblioteca, indo em direção às escadas. Fez uma prece silenciosa para que Aberley não destruísse a fé que o filho tinha nele.