A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 35 de 43

Páginas do PDF

A Esposa Desprezada

Capítulo 35

 

Com a porta muito bem fechada, Sophie ficou de pé com as mãos nos lábios, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Aberley tinha... afeto por ela. Aquilo ao menos era certo? Na verdade, ela não podia definir exatamente o que era aquilo, mas ele estava com ciúme. Tudo era fruto do ciúme. Como tal coisa poderia ter acontecido? Eles se odiavam.

A maçaneta da sua porta virou levemente e ela deu um passo ao lado enquanto Alfie aparecia.

— Oi, docinho — disse ela, convidando-o a entrar.

— Nós vamos embora? — perguntou ele.

— Não, é claro que não — respondeu ela, percebendo que ele estava preocupado por causa da briga. — Tristan nunca vai pedir para você ir embora. — Ele poderia pedir para ela, mas aquilo era uma coisa completamente diferente. Na verdade, toda essa coisa com a atração que ele estava sentindo era muito perturbadora e deixava as coisas muito mais complicadas. Como eles lidariam um com o outro agora?

Ele estava atraído por ela. Aquilo era um absurdo.

Naquele momento, entretanto, ela precisava reassegurar Alfie, quem estava obviamente preocupado.

— Sabe quando você briga com seus amigos? Bem, adultos fazem o mesmo. Eles só precisam arejar as coisas, e seu pai e eu só tivemos um desses momentos. — Mesmo enquanto dizia isso, ela notou o quanto soava como se fossem uma família, e Aberley estava preocupado que ela o estivesse substituindo. De certa forma, ele estava certo. Na cabeça dela, ela o tinha excluído do retrato, uma figura distante muito pouco vista que nunca saiu de Londres. Não tinha pensado que isso faria um desserviço a ele, não imaginou que ele precisava tanto de um relacionamento com Alfie, muito menos um com ela.

Relacionamento, soava como uma palavra muito importante. Eles não tinham um relacionamento, mas aquilo era uma sugestão de que eles deveriam ter? O nervoso a fez sentir um frio na barriga e ela teve que se forçar para não torcer as mãos, porque Alfie iria interpretar mal aquele gesto.

— Está tudo bem — disse ela com um sorriso. Não era verdade. Estava tudo em suspenso, só não o fato de Aberley jogá-los na rua. — Não há nada com o que se preocupar. — Aquela foi uma declaração da qual ela também não podia ter muita certeza. — Agora preciso me aprontar para o jantar — disse animada. A voz dela soou animada demais aos seus próprios ouvidos. — E você vá procurar Mary, ela vai levar seu jantar daqui a pouco.

Alfie se demorou um momento a mais.

Sophie se virou para ele enquanto ela sentava à penteadeira.

— O que você acha de eu começar a aprender a montar amanhã?

Um sorriso iluminou o rosto dele. Aparentemente, enfrentar os seus medos e colocar a sua integridade física em risco era tudo o que precisava fazer para aliviar os temores do filho.

— Podemos montar juntos.

— Com certeza. Você acha que Aberley pode arranjar um pônei para mim também?

— Não, a senhora precisa de um cavalo. — É claro que ela precisava. Um cavalo grande, e uma queda maior ainda.

— Agora, chispa daqui.

Virando-se para o espelho, Sophie se olhou. Sentiu como se estivesse prendendo o fôlego. A tensão tinha fincado as garras nos seus ombros. Tinha sido um dia tão longo e estranho, e ela já estava ficando sem tempo para se vestir. Para não mencionar que agora ela tinha três vestidos novos, os quais não tivera a intenção de comprar; correção, Aberley os comprou, porque os vestidos dela mostravam mais do que ela imaginara. Ficou ainda mais nervosa.

Com os dedos trêmulos, ela alisou o cabelo.

Descendo as escadas, Sophie jogou o xale sobre os ombros, assegurando-se de que ele cobria o suficiente. Com um sorriso tenso, entrou no salão, onde Aberley e lady Woolwich estavam sentados.

— Aí está ela — disse lady Woolwich. — Eu estava acabando de contar para Tristan o maravilhoso dia que passamos em Bournemouth.

— Sim, é claro — disse Sophie, sentando-se na beirada do sofá. O xerez de sempre foi entregue a ele por Wellswar e ela o sorveu agradecida.

— Compramos uns vestidos maravilhosos para Sophie.

Sophie se sentiu encolher por dentro, desconfortável com a ideia de que Aberley tinha comprado vestidos para ela. O que aquilo queria dizer? Agora ela teria que ser grata. Aquilo seria mal interpretado? Tudo seria tão estranho a partir de então.

Lady Woolwich os observava com atenção, e nem ela nem Aberley olhavam um para o outro, ou interagiam de qualquer forma. Sophie não podia se obrigar a olhar para ele, ou reparar nos calções negros que ele tinha posto. As cores escuras ficavam bem nele. Fazia com que os olhos frios e claros ficassem ainda mais realçados.

— Eles devem ser entregues daqui a uma semana, pelo que entendi — prosseguiu lady Woolwich quando ninguém falou nada. — Embora eu não tenha certeza se estarei aqui para vê-los chegar.

— Oh, você está de partida? — perguntou Tristan. — Será uma pena.

— Tanto quanto eu goste de ficar aqui, não posso ficar para sempre, posso?

A ideia de lady Woolwich partir pareceu como se um tapete estivesse sendo arrancado de sob os pés de Sophie. Se ela fosse embora, seriam apenas ela e Aberley ali, dia após dia. Lady Woolwich era o amortecedor entre eles.

— Sua companhia tem sido tão agradável.

— Sim, gostaria de pensar que nos tornamos amigas — disse a mulher com um sorriso animado, até que a atenção dela foi roubada por Wellswar vindo avisar que o jantar já estava pronto.

— Depois de você — disse Tristan, e esperou que ela passasse, completamente ciente da presença dele atrás dela enquanto entrava na sala de jantar e tomava o seu assento. Quando se sentou, ela sorriu e voltou a verificar o xale para se certificar de que ainda estava coberta. Ela nunca mais seria capaz de se sentir confortável em seus vestidos, e rezava para que os novos chegassem logo. Com quanta frequência tinha se exposto na frente dele? E naquela vez que pegou chuva. A vergonha começou a se espalhar pelo seu corpo.

A sopa foi servida.

— Poderia me passar o sal? — Tristan perguntou e Sophie notou que o sal estava no seu lado da mesa.

— É claro — disse ela, e se inclinou para pegá-lo, entregando-o a ele. Os dedos se tocaram levemente, e a sensação percorreu o seu braço.

— Os invernos devem ser passados em Londres — disse lady Woolwich. Sophie não tinha ideia do que dizer, já que a atenção dela ia de um para o outro. Lady Woolwich parecia estar falando com os dois. — Fiquei sabendo que a temporada de teatro será excelente este ano. Você gosta de ir ao teatro? — O foco dela agora estava em Sophie, com certeza.

— Sim. Costumávamos ir a concertos sempre que possível.

— A Filarmônica, é claro. Você gosta de música, não gosta, Tristan?

— Eu não desgosto de música.

— Então deveríamos ir juntos neste inverno.

— Não tenho certeza se pretendemos... — começou a dizer Sophie.

— É claro que você tem que ir. Esta casa estará fria e desconfortável demais no inverno, não é mesmo, Tristan?

— Fica muito frio mesmo — disse ele, o desconforto era aparente. — Você é, é claro, bem-vinda a passar os meses mais frios na casa de Londres.

O sorriso dela devia mais parecer uma careta, porque Sophie não sabia muito bem como agir. Passar o inverno em Londres nunca tinha sido mencionado e Sophie não sabia o que dizer.

— Eu posso lhe apresentar os melhores salões de Londres — prosseguiu lady Woolwich.

— Eu não acho que esta seja uma boa ideia. As coisas são muito complicadas — respondeu Sophie. Ela ainda era a divorciada que foi expulsa do casamento em poucos meses, e isso sem levar em conta a sua origem mais modesta. A última coisa que queria era ser apresentada nos salões de Londres.

— Eu não acho que Sophie vá gostar da sociedade — disse Tristan. Ele a estava defendendo? Ou estava envergonhado por ela? A incerteza e a confusão queimaram em sua mente. — A menos, é claro, que a senhora assim o queira.

Todos estavam dizendo ‘é claro’ muitas vezes.

— Não, eu não tenho o desejo de ser conhecida nesses círculos.

— Oh, eu acho que eles sabem sobre você — disse lady Woolwich. Sophie voltou a prestar atenção nela, e Tristan fez o mesmo. — Todos os amigos e inimigos dele estão a par da situação. Bem, principalmente os inimigos. Tenho certeza que você sabe que os amigos dele são poucos e esparsos.

O sorriso forçado não deixou o rosto de Sophie, mesmo ela não tendo ideia de como reagir a isso. Tecnicamente, ela era um daqueles inimigos. Mas eles eram inimigos agora? Tudo o que os envolvia era tão incerto. E também parecia que toda a sociedade estava a par dessa curiosa situação. O nervosismo voltou a fincar as garras. Eles não eram o tipo de pessoa que ela queria conhecer.

— Está tudo bem com Alfie? Ele pareceu um pouco ansioso hoje — prosseguiu lady Woolwich, mudando o assunto, felizmente.

— Sim. Ele estava um pouco descomposto. — Sophie corou, envergonhada que os problemas deles tenham afetado o filho. Era inconcebível ela ter estado tão distraída e determinada que não percebeu isso. — Eu precisei prometer a ele que eu ia aprender a montar com ele amanhã.

— Eu lhe ensinarei, caso queira — disse Tristan, e Sophie se virou para ele.

— Entenderei completamente caso seja uma inconveniência para o senhor, mas agradeceria se me emprestasse um dos seus cavalos. Preferencialmente o menor deles.

— Eu lhe comprarei um.

Sophie piscou.

— Não, não é necessário, tenho certeza.

— Não dará trabalho, e eu ficarei feliz em lhe ensinar a amontar.

— Não poderia me impor.

— Não está se impondo.

Lady Woolwich prestou muita atenção naquela interação. Ninguém podia deixar de reparar o quanto eles eram estranhos quando estavam juntos, mas ela não podia evitar, nem ele, ao que parecia.

— Esplêndido — disse ela finalmente. — Está tudo resolvido. Planos importantes para amanhã. Tristan será um professor esplêndido. Sob a atenciosa tutela dele, tenho certeza de que, logo, logo, você estará muito hábil na sua montaria.

Um rubor se arrastou pelas bochechas de Sophie, incerta de que lady Woolwich quis implicar aquele duplo sentido. Ela tentou sorrir. Como ela conseguiu convencer-se a deixá-lo ensiná-la a montar?