A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 2 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 2

 

Enquanto tomava um gole de whisky puro malte, Tristan analisava as cartas que tinha em mãos e o seu oponente, o cansativo lorde Haddock, que acreditava que a própria sorte era melhor do que realmente era.

— Quatro rainhas — disse Tristan, colocando as cartas sobre a mesa do antro de jogatina que não aguava as bebidas. Era algo tão simples, mas muitas pessoas não podiam entender como ele tomava suas decisões sobre onde passaria tempo baseado apenas naquilo. Uma perfeita lógica que escapava a muitos.

— Diabos, homem — disse Haddock. — Você tem uma danada de uma sorte.

Sim, bem, ele realmente tinha sorte nas cartas; ou a habilidade de ver a rodada como um todo, quando necessário. Olhando para baixo, analisou as cartas. As rainhas o encaravam também. Não tanta sorte no que dizia respeito às mulheres. As mulheres só eram agradáveis quando se pagava por elas. E esse fato não era um problema por ali. Todo tipo de mulher estava disponível, por um preço.

E ele tinha se juntado a cada tipo, mas naquela noite, não queria se dar ao trabalho. A mais básica das boas maneiras estava fora do seu alcance, principalmente quando tinha a ver com mulheres. Se pudesse passar sem aquela necessidade básica, passaria. Aquilo nunca tinha lhe favorecido, muito menos as mulheres.

Em casa, enfiado em uma gaveta, estava o anel de noivado que tinha pegado de volta. De início, aquela vaca gananciosa havia insistido em ficar com ele, mesmo depois de ele tê-la forçado a admitir que ela tinha seduzido o Conde de Pilkerton na esperança de que ele pediria a mão dela. Mesmo tendo concordado com o noivado, a ávida rameira tinha ambicionado um título mais importante. Soube que a aposta dela tinha dado certo.

Tristan não pôde se obrigar a relevar aquela indiscrição, mesmo que não tivesse grandes esperanças de qualquer tipo de lealdade. Talvez devesse apenas ter seguido em frente com o casamento enquanto teve a oportunidade, então poderia engendrar um herdeiro, mesmo se não tivesse certeza que fosse seu.

Mulheres eram criaturas interesseiras e mesmo protegendo-se contra elas, tinha sido vítima – mais de uma vez. Sob ameaças de acabarem com a reputação da irmã, tinha sido obrigado a se casar com aquela primeira criatura. Os embusteiros o tiveram nas mãos, e ele não teve outra escolha que não casar com uma messalina de baixo escalão sem meios ou berço. Tinha sido a coisa mais vergonhosa pela qual já passara.

A morte da irmã pusera um fim àquela farsa, e a qualquer coisa que aqueles vagabundos tinham contra ele. Um irmão e uma irmã. Bem, aquilo não foi nada útil para eles no final das contas, e as bebidas neste lugar eram muito caras para gente daquela laia. Não tinha visto rastro deles desde então, o que era bom, pois provavelmente os teria açoitado.

Não, não teria. Nunca desceria tão baixo ao ponto de tornar público o desdém que sentia pela mulher com quem tinha sido coagido a se casar. Em particular, no entanto, qualquer miséria que se abateu sobre eles teve sua total aprovação.

O problema era que precisava de uma mulher para ter um herdeiro, mas havia fatores alarmantes. Nenhuma das amantes que teve ao longo da vida ficou grávida. Uma bênção sob muitos aspectos, mas ao contrário de qualquer homem em sua posição, que tinha gerado uma verdadeira ninhada de crianças, legítimas ou não, ele nunca tinha produzido uma única em todos os seus trinta e oito anos de idade. Sua situação era preocupante, pois lorde Forthworth tinha caído morto de repente, e o homem era apenas quatro anos mais velho que ele.

A necessidade de um herdeiro tinha se tornado vital. Foi de ter ficado tão ofendido por ter sido obrigado a se casar com uma mulher abaixo do seu status, a considerar se casar com qualquer mulher só para que pudesse engravidá-la.

Estava exagerando, mas, eventualmente, teria que se atar a alguma criatura vil para poder realizar seu dever mais importante e mais urgente. Isto dito, ele poderia muito bem pensar em não honrar a família e só deixar o título cair no esquecimento. Gerações de lordes Aberleys se revirariam em seus túmulos.

Talvez ele ainda não tivesse percebido com exatidão o quanto desprezava as mulheres. Elas eram muito agradáveis a curto prazo, quando ele as provia com o que queriam: dinheiro. Diziam que homens que tinham irmãs eram mais dóceis com o sexo frágil, mas o jeito fútil e insípido da irmã não o tinha deixado muito empático. Ainda assim, a pessoa que mais gostava era uma mulher, Minette, e embora tivesse muito carinho por ela, ele sabia muito bem o quão mercenária ela era quando queria alguma coisa. Ela, no entanto, era tão aberta sobre seu esquema maquiavélico, que ele não conseguia desprezá-la. Era a mentira e os engodos o que o deixavam realmente enojado. E ela também o aceitava pelo que ele era, o que era raro. Infelizmente, Minette era uma em um milhão e não havia outras como ela. Já havia procurado em todas as partes.

A morte da irmã era algo que ainda girava em sua mente. Para começar, tinha sido um alívio quando não teve mais que lidar com o fardo da indiscrição dela. Não que ele sentisse falta da irmã, mas à luz da sua amizade com Minette, uma parte dele se arrependia pelo que podia ter sido. Ele a amara, de alguma forma, mesmo que revirasse os olhos para a maior parte das coisas que ela dizia e fazia. A idade o devia estar amaciando, já que agora suspeitava que era possível amar alguém mesmo não sentindo qualquer respeito pela pessoa.

Até mesmo Minette não contrariaria quem dissesse que ele era um homem cruel. Era uma consequência da forma com que foi criado, nunca viu motivo para dizer o contrário. A perda da irmã, ou talvez o conhecimento de que nunca tinha lamentado por ela, era a única coisa que lhe fazia pensar.

Mulheres dançavam no palco, erguendo as saias e mostrando as meias de babados, as ligas e a roupa de baixo. O calor familiar o aqueceu, mas recusou-se a se deixar levar. Preferiu observar os jovens salivantes, que viam as mulheres como criaturas maravilhosas. Já fazia tempo que Tristan se maravilhara com alguma coisa.

Erguendo a mão, ele pediu outra dose de whisky.

— Quer jogar uma partida? — um homem disse e Tristan desviou o olhar das meninas dançantes.

— Lorde Torpington. É um prazer vê-lo.

Outro homem se juntou a eles. Ele lhe pareceu familiar.

— O senhor já conhece o meu irmão, Charles Lawrence.

— É claro — Tristan disse e meneou a cabeça. Agora ligou o nome ao rosto. Um advogado que tomou parte nos trâmites do seu divórcio. Alguém deveria representá-la, então Tristan não guardou rancor contra ele. — É um prazer vê-lo.

Uma garota sorridente deu as cartas e eles começaram a jogar. Tristan tinha uma mão mediana, mas sabia que Torpington tinha baixa tolerância ao risco. Ele se remexeu no assento, desconfortável. Sendo incapaz de controlar as emoções, o homem não deveria tentar a sorte nas cartas, mas as pessoas não gostavam de ouvir o que era melhor para elas.

— Fiquei sabendo que o senhor está fazendo algumas aquisições no Congo. — Bem, era óbvio que alguém andou conversando.

— Venho procurando por negócios interessantes.

— Adoraria ouvir o que o senhor acha de investimentos nessas regiões.

E Tristan preferia não dar esse tipo de informação. Por que compartilhar seu conhecimento e compreensão com os outros? A razão dos investimentos não era tomar decisões que outros não tomaram? Tristan não respondeu, preferiu rearranjar as cartas.

O whisky chegou e ele tomou um bom gole.

— E o senhor, Sr. Lawrence, o que anda acontecendo nos sagrados átrios da justiça esses dias?

— A Lei de Saúde Pública está trazendo uma série de questões à luz.

— É mesmo? — Tristan disse, totalmente desinteressado. — Tentando fazer as pessoas pararem de causar danos a si mesmas?

— É mais complexo que isso — o homem declarou, olhando feio para ele. — É frequente que pessoas inescrupulosas causem mal às outras por pura ganância. — Este homem não gostava dele, não que isso o incomodasse o mínimo. Ele tinha sido o defensor da sua querida ex-mulher, e pelo que parecia, ainda era. O que ela fizera para ganhar tal lealdade? Era certo que ela não tinha meios para conservar um homem assim.

— O senhor era advogado da antiga lady Aberley, não é mesmo? — Tristan inquiriu, sabendo muito bem que era verdade. Só queria ver como ele reagiria. Exercia um pouco de humor negro ao se referir a ela como lady.

— Ainda sou.

Tristan ergueu as sobrancelhas. Não estava a par disso.

— Ela ainda está maus lençóis?

— Não sei nada sobre maus lençóis. O marido dela faleceu.

Tristan não ficou surpreso por ela ter conseguido ludibriar algum homem para se casar com ela. Tinha ouvido algo do tipo. Certamente não era ninguém de importância.

— Camarada de sorte.

— Tuberculose — o advogado disse com certa rigidez em volta da boca.

Não era uma morte fácil. Tristan preferiu ficar calado. Não havia dúvida de que agora ela estava sem um centavo, totalmente desamparada. Isso significava que ela bateria à sua porta com um chapéu na mão? Ele bufou.

— Espero que o senhor a tenha aconselhado dizendo que não há nada que ela possa ganhar com a própria história.

— Ela não está pensando nisso — o homem disse. — Acredito que ela tem a intenção de se sustentar.

— Por favor, diga — Tristan disse com um sorriso de desdém. — Como exatamente ela pretende fazer isso? — Talvez ela finalmente tenha chegado ao nível a que sempre pertenceu: o de mulheres que se vendiam por dinheiro.

— Uma loja de instrumentos musicais, acredito.

— Uma loja de instrumentos musicais? — Não era o que esperava ouvir. Vindo dela e do irmão, tinha esperado algo ilícito ou completamente ilegal. Até mesmo ser levada para a Austrália teria sido uma surpresa menor do que ela possuir uma loja de música.

— Isso lhe dá meios suficientes para sustentar a si e ao filho.

— Filho? — Tristan repetiu. Também não tinha sabido disso, embora tenha se certificado de saber o mínimo possível sobre a ex-mulher.

— Até mesmo pela educação dele.

Tristan colocou o copo sobe a mesa sem dar um único gole.

— Educação. Quantos anos ele tem?

— Seis, acredito.

Seis. Isso significava... Os cálculos não faziam sentido em sua mente. Ela engravidara na noite de núpcias?

— Quando ele nasceu? — A tensão e o calor inundavam cada parte do seu corpo, e sentiu um aperto no peito.

O Sr. Lawrence deu de ombros.

— Nunca falamos disso.

Tristan observou o homem sabendo que ele não falaria nada mais, prendendo a informação como prendia as cartas junto ao peito.

Seis, repetiu baixinho. A mente estava aos berros, dizendo que havia algo de muito importante ali.