A Esposa Desprezada
Capítulo 15
Abaixando os documentos que segurava, Tristan olhou para a mesa. O relatório do investigador reportava as malditas atividades de Oliver Bancroft, incluindo as trapaças, as barganhas e a pura fraude.
Seus instintos diziam para ele ir correndo para Holborn e pegar o filho antes que ele fosse ainda mais influenciado por aquelas pessoas. O exato papel que Sophie tivera naquele desastre era algo que ainda não conseguira descobrir, mas o irmão dela com certeza era o cabeça da operação. O que ela era, ele ainda não sabia, mas acreditava que a resistência daquela mulher à sua proposta era alguma visão distorcida de proteger o filho.
Se ela era ou não uma boa influência para o menino era discutível, já que ela estava, por vontade própria, relegando o menino à pobreza baseada apenas em suposições e amargura. Aquilo não a fazia uma boa influência para o menino, mas ela lutava por ele com unhas e dentes, o que era admirável, Tristan supôs.
Falou do diabo, e ele apareceu à sua porta. Do lado de fora da janela, ele pôde ver Sophie subindo os degraus. Aquilo era inesperado. Talvez ela tivesse recuperado o bom senso.
Enquanto ele escutava, Smyth abriu a porta e ouviu os murmúrios que chegaram ao seu escritório.
— A Sra. Duthie está aqui para vê-lo — disse Smyth à porta.
Por um segundo, Tristan teve vontade de lhe negar entrada, mas ele sabia que aquilo não faria nenhum bem aos seus propósitos. Ela tinha vindo, e só podia ser porque ela queria negociar.
Smyth desapareceu novamente.
— Você fez isso, seu homem horrível — acusou ela assim que entrou na sala. — Como você pôde? Não há limites à profundidade que você é capaz de descer?
Tristan ergueu uma sobrancelha. Os insultos eram injustificados.
— Qualquer que seja o infortúnio que se abateu sobre você, você é a responsável por ele.
— Não, eu nunca causei nada a mim mesma. A interferência das pessoas é a causa dos meus infortúnios.
— É o que cada canalha diz quando apanhado — ele disse com acidez e ela franziu ainda mais os lábios, o que o fez imaginar se eles iriam desaparecer. Era provável que ela fosse golpeá-lo em breve, recorrendo à violência quando não conseguisse o que queria.
— Você fez o meu irmão ser preso.
— Ah. — As coisas estavam vindo à luz. Que fortuito. — Odeio desapontá-la, mas ele fez isso consigo mesmo. Embora, a julgar pelo que acabei de ler, era só uma questão de tempo. Furto, fraude. Era só uma questão de tempo até que ele fosse pego.
— Você está insinuando que isso não foi obra sua?
— Sim, mas eu provavelmente teria seguido este caminho, no final das contas. Esse assunto está se arrastando por tempo demais. Então, o que você deseja? Você quer que eu mexa uns pauzinhos e faça o seu irmão ser solto? Isto está além das minhas capacidades.
— Meu irmão já foi solto — disse ela, com a voz baixa e controlada. — Mas como era a sua intenção, meus meios de prover por mim e por Alfie não existem mais.
— Você teve que abrir mão da sua loja — disse Tristan. Por um lado, ele sentia muito por ela. Tinha sido apenas uma questão de tempo, e aquilo tinha se resolvido sem que ele precisasse tomar qualquer atitude. O irmão dela sempre tinha sido a maior responsabilidade dela, e os pecados dele fizeram a casa cair, ao que parecia. Mas era óbvio que ele não foi acusado por algumas das coisas que o investidor tinha descoberto, ou Sophie não teria sido capaz de libertá-lo. Isso significava que o julgamento por algumas das atividades dele ainda não tinha acontecido. Bom saber.
Ela ficou ali parada, meio desajeitada, sem saber o que fazer. Aquele orgulho ainda estava arraigado nela, mas ela estava derrotada. O desconforto saía em ondas dele e podia dizer que ela estava à beira das lágrimas. Talvez ele não estivesse apreciando a derrota dela tanto quanto havia imaginado.
— Farei o advogado preparar a papelada necessária — disse ele finalmente. — Espero você e o menino esta noite. Ambos serão tratados com a maior deferência e... benevolência.
Ela soltou um bufo de descrença.
— Eu não lhe desejo nenhum mal, e com certeza não desejo para o meu filho. Ele será bem cuidado, educado segundo os mais altos padrões.
— Assim como você foi, vê-se a pessoa calorosa e generosa que você se tornou.
— Você não encontrará falhas na minha hospitalidade.
Respirando fundo, ela virou as costas e saiu sem dizer adeus. Aquilo foi grosseiro, mas tendo em conta as circunstâncias, talvez, naquele momento, aquilo estivesse fora do alcance dela. Felizmente, nem todas as boas maneiras estavam, ou ele poderia se ver responsável por educar dois indivíduos lamentavelmente inadequados.
Aqueles confrontos com Sophie tinham sido tão abrangentes que não percebeu que realmente seria um pai para o seu filho. Seria os seus próprios olhos que ele veria olhando para ele. Seria a primeira vez que estaria tão perto do menino. Ele pareceu tão pequeno ali enquanto segurava a mão da mãe. Seis anos de idade, ao que parecia. Tristan não podia se lembrar de já ter tido seis anos de idade. Não havia memórias. Ele devia ter estado em Sommerfield Hall, a propriedade senhorial em Dorset, onde tinha passado a maior parte da infância.
Sophie estava certa quando disse que tinha sido uma prisão solitária, mas, naquela época, ele não sabia. Foi tudo o que sempre conheceu, então nunca questionou. Tinha havido muitos criados e o seu tutor. Até mesmo quando jovem, tinham lhe ensinado que os criados deveriam ser ignorados, o que lhe deixava apenas o tutor sisudo e rígido como companhia.
Talvez entendesse as objeções de Sophie. Ela temia o que aquela criação causaria ao filho. Ela temia que o filho se tornasse alguém como ele. Ele dificilmente era agradável, mas nunca antes alguém tinha insinuado que ele fosse uma consequência indesejada. Na verdade, ninguém se atreveria. Além do mais, não havia nada singular na forma com que foi criado. Sua criação não foi atípica; era comum as crianças serem mantidas longe até que atingissem a maturidade e tivesse alguma utilidade na sociedade.
Levantando-se da cadeira, saiu do escritório.
— Sr. Smyth? — chamou.
— Milorde — ouviu dizerem baixinho logo atrás dele.
— Teremos convidados. — Provavelmente fosse verdade ele precisar trazê-los ali antes de levá-los para Sommerfield. — Mande preparar os quartos.
— Quantos convidados nos agraciarão com a sua presença?
— Dois. Uma mãe e um menino. A Sra. Duthie, na verdade.
— Ela não pareceu muito feliz quando saiu.
— Eu lhe garanto que não estava, mas devemos esperar a chegada deles esta noite.
— É claro — Smyth disse com sua inabalável reverência. — Vou me assegurar de que eles tenham tudo o que precisam.
— Então você entende que o lugar deles nessa casa terá uma natureza mais permanente. — Assim que o homem visse o menino, ele iria descobrir o parentesco. — Suponho que esta casa tenha um quarto de crianças. Talvez precisemos de uma babá. Deixarei a mãe do menino determinar as necessidades, mas assegure-se de que ela tenha tudo o que precise.
— Como quiser.
— Onde é o quarto das crianças?
— É no terceiro andar, tem vista para os jardins do lado direito. O lugar precisa ser arejado.
Provavelmente. Ninguém o usava há mais de trinta anos.
Assentiu distraído, seguro de que Smyth cuidaria de tudo.
— Isso é tudo. — O homem fez uma mesura e saiu.
Seria estranho ter pessoas na casa. Ninguém mais morou ali desde que Sophie se mudou para lá no curto período do seu infeliz casamento. A ideia de ter que tolerá-la novamente caiu mal em seu estômago, mas era um fardo que ele deveria carregar.
Subiu as escadas lentamente e prosseguiu até chegar ao terceiro andar, onde ele nunca tinha ido. Na verdade, não tinha certeza que outros quartos havia lá. Quartos de hóspedes, talvez. Bem, eles raramente eram frequentados, de qualquer forma. Existira uma tia em algum momento, lembrava-se muito vagamente, mas ela já tinha desaparecido da sua memória. Achava que ela tinha morrido. Quando bebê, a irmã foi enviada para ser criada por uma tia antes de ser mandada para o continente para ser educada.
Encontrou o quarto à direita do jardim e abriu a porta. O cômodo era azul claro e agora ele lembrava dali. Uma fina camada de poeira cobria cada superfície. Não recebia atenção e limpeza com muita frequência. Havia uma cama no canto. Ele dormira ali. Velhos brinquedos dispostos em prateleiras baixas. Devem ter sido dele também. Eram vagamente familiares. Na verdade, o menino que uma vez vivera ali também era vagamente familiar. Ele ficava muito mais em Sommerfield. Era raro ele ir até a cidade.
Quando cresceu, teve seu próprio apartamento, e aquilo tinha servido muito bem a ele e ao pai, mas o arranjo não durou muito tempo, pois o pai morreu inesperadamente por causa de uma febre. O homem que ele nunca tinha conhecido de verdade. Não foi até que ele morreu que Tristan percebeu que tinha perdido a oportunidade. Os prazeres de ser um homem jovem na cidade o distraíram. De vez em quando eles jantavam juntos, mas falavam de pouca coisa que não a administração da propriedade. Não tinham amigos nem conhecidos em comum. E também nenhuma preocupação mútua. O pai não tinha ficado muito interessado nas palhaçadas que ele fazia com os amigos, ou até mesmo com os seus estudos em Oxford. Até mesmo um imbecil poderia fazer as atividades necessárias para passar, o pai acreditara. Os acadêmicos não eram um interesse dele.
Nenhum deles tinha sabido lidar com Alicia quando ela voltou do continente. Ele tinha sido posta aos cuidados da Condessa Ogledal para que debutasse, o que, em retrospectiva, tinha se provado uma péssima decisão, mas o pai de Tristan não viveu para ver aquilo. Tristan foi deixado para lidar com a desgraça dela e a chantagem que se seguiu. Alicia, sendo uma total idiota, tinha se rendido ao charme de Oliver Bancroft, e o homem que não tinha um pingo de honra, tinha usado o acontecimento para melhorar a própria posição através da irmã.
Ocorreu a Tristan que agora ele estava devolvendo o favor, as decisões imbecis do irmão tinham sido a queda dela. Aquele homem tinha causado tudo aquilo, para início de conversa. Havia certa justiça no acontecido. As más decisões estavam batendo à porta. Infelizmente, eram as pessoas em volta de Oliver Bancroft que tendiam a sofrer, então talvez não fosse exatamente justiça.
Dando um passo atrás, ele fechou a porta do quarto das crianças, o que o fez imaginar onde acomodaria Sophie. Smyth podia ser tentado a colocá-la em seu antigo quarto no segundo andar, o quarto destinado a uma esposa. Talvez fosse mais apropriado acomodá-la em um dos quartos de hóspedes do terceiro andar. Daquela forma, ela estaria perto do filho, e não haveria confusão resultante por colocá-la no quarto que era destinado a uma esposa.
No calor do momento durante a última discussão deles, ele tinha se referido a ela como sua esposa. Aquilo soou estranho e desencaixado aos seus próprios ouvidos, mas ele tinha dito. Talvez tivesse que deixar muito claro para ela que ela era uma convidada, embora não achasse que houvesse um grande risco de ela ficar confusa com o assunto. Ter sido chamada de esposa dele a deixara chocada e consternada, ao ponto de ela negar imediatamente.
Obviamente, ao morar na casa dele sendo uma mulher solteira; uma viúva, tecnicamente; ela perderia seu lugar na sociedade. Seria uma persona non-grata. A reputação dela seria destruída. Aquela era uma decisão que ela teria que tomar. Tendo se casado com um músico frágil e fracassado, a reputação dela não era nada digna de nota, diga-se de passagem. A outra opção que ela tinha era deixar o menino aos cuidados dele, mas aquilo causaria um enorme desgosto a ela.