A Esposa Desprezada
Capítulo 3
Os quartos pareciam desolados, como se eles também estivessem de luto. Havia uma quietude, como se todo mundo sentisse que o sofrimento de Doug tinha chegado ao fim, e isso era uma bênção. Colocando um pouco de carvão no fogão, Sophie preparou um ensopado para o jantar.
Enquanto crescia, não tinha sido preparada para cozinhar. Era uma época boa quando seu pai estava vivo, mas com a morte dele, a fortuna tinha minguado. Muitas das meninas com quem tinha crescido a viam como um conto desses que têm lição de moral, um conto de fadas que se transforma no mais absoluto desastre. Só que, não foi um desastre. Ela tinha recursos para sustentar a si e ao filho. O fato podia valer muito pouco nos salões mais elegantes, mas significava muito para ela.
Em uma das cadeiras estava a roupa de cama que acabara de chegar da lavadeira, o que fez com que arrumar a cama fosse a sua próxima tarefa, logo depois que eles jantassem.
Alfie se sentou à mesa com o livro de leitura que ela tinha pegado para ele. Ele queria começar na frente na escola e Sophie tinha se maravilhado com o quanto ele era pragmático. Sob certos ângulos, a personalidade dele era totalmente diferente da de Doug.
Servindo o ensopado em dois pratos, eles comeram à mesa, ambos aproveitando o silêncio da sala, longe do agito da cidade. Nunca fazia silêncio em Holborn. Era uma vizinhança respeitável o suficiente, o bairro dos comerciantes e dos mercadores. Sophie gostava de lá. Não ficava tão ao leste quanto Spitafields e Cheapside, mas era uma boa vizinhança para aqueles que queriam trabalhar duro e ter uma vida sossegada.
O Movimento da Temperança era forte e manteve os piores desordeiros longe de Holborn. Sophie tinha ido para algumas reuniões. Mas cuidar de Doug tinha restringido as suas saídas, até mesmo para os concertos que ele tanto amava.
Parecia desleal dizer isso, mas havia um monte de coisas que poderia fazer com Alfie agora, como visitar o Crystal Palace, o zoológico e andar de barco pelo Tâmisa. A vida deles praticamente girava em torno da doença de Doug, mas talvez já fosse hora de explorar a cidade um pouco mais.
Alfie estava entretido com o livro, os lábios se moviam enquanto ele tentava ler. Ele era tão independente, recusava-se a deixar que ela o ajudasse. Como sempre, queria fazer as coisas por conta própria, era uma questão de satisfação pessoal.
Às vezes, ficava imaginando o quanto ele tinha do pai. Para ser honesta, sabia muito pouco sobre o homem que foi seu primeiro marido; ao contrário de Doug, de quem ela conhecia cada sonho, cada esperança, cada anseio. Foi atingida por uma onda de tristeza, mas logo a reprimiu. Era triste demais e não podia mais suportar sofrimento. Então, por agora, iria simplesmente ignorar seus sentimentos.
Era mais fácil pensar em lorde Aberley. Um homem bonito, sem dúvida, sombrio e misterioso com aquele constante olhar de desgosto. Ela realmente tinha pensado que um conto de fadas estava se tornando realidade quando o irmão lhe informou que ela se casaria com aquele homem. O mais belo que já tinha visto.
Mas ele nunca deixou de ser desgostoso ou misterioso. Nada do que fazia agradava a ele, e só lembrava dela quando estava bêbado, como se lidar com a esposa fosse algo desagradável. O fato de que eles nunca tiveram uma lua-de-mel deveria ter sido um sinal, mas era jovem e ingênua demais naquela época.
E então, em um passe de mágica, ela tinha sido obrigada a ir embora da casa dele, sem levar absolutamente nada. Até então, não tinha entendido muito bem o que estava acontecendo. O divórcio tinha sido mencionado enquanto a carruagem a esperava para levá-la aos aposentos de solteiro do irmão.
O irmão tinha gritado e berrado, a culpara; e ela tinha acreditado em tudo aquilo. Pensara ter feito algo muito errado, e não entendia o que tinha sido. Questionou cada aspecto de si.
E quando descobriu que estava grávida, o irmão ficou completamente lívido, e Sophie tinha se sentido a mais vil das criaturas. Acreditava que nunca poderia perdoar o irmão por tê-la feito se sentir daquela forma. Mas agora estava mais forte.
Afastou-o de suas vidas tanto quanto foi possível, e não foi muito difícil, já que ele não conseguiria ganhar nada com ela e com Doug. Foi o irmão que a presenteou com Doug, era um meio de não ter um filho fora dos laços do casamento. Foi a melhor coisa que ele já tinha feito por ela, mesmo que Oliver visse isso como uma consequência de um fracasso absoluto.
Havia alguém batendo à porta, e Sophie fechou os olhos. Era só pensar no diabo que ele aparecia.
— Olá — Oliver chamou, abrindo a porta com familiaridade. Entrando na sala, ela viu que ele parecia mais janota que nunca em sua casaca preta e usando uma cartola. Estava vestido como um cavalheiro pronto para uma noite de diversão, mas o traje estava um pouco gasto nas bordas. Aquele era o seu irmão: sempre com a pretensão de ser melhor do que realmente era. — Sophie, meu amor, sinto muito pelo seu amado marido. Mas sempre soubemos que era inevitável, não? Doente do jeito que ele estava, mas aguentou firme até o fim, não foi? — Oliver disse enquanto caminhava pela pequena cozinha. — Detesto ver você em tal miséria, mas se ver livre daquele fardo possibilita novas oportunidades para você. Venderemos a loja, é claro.
— Não faremos isso — Sophie disse.
Oliver se virou para ela com as sobrancelhas erguidas pela surpresa.
— Mas, Sophie... — ele começou a falar como se ela não entendesse.
— Eu vou ficar com a loja. Ela vai sustentar a mim e a Alfie.
— Você é uma mulher linda.
— E você não vai me vender como se eu fosse um cavalo premiado. Eu sou uma viúva com renda própria. Você não tem nenhuma autoridade sobre mim.
— Renda? Você chama isso de renda? — disse ele com um gesto de desdém. O bom humor dele estava se desfazendo bem rápido e ela podia ver que ele xingava em seus pensamentos. O irmão se acalmou. — Você sofreu um trauma. Eu entendo. E não está pensando com claridade.
— Não, eu estou pensando com muita clareza. Eu sou a única responsável por minha vida agora, e você não tem outra função que não ser o meu irmão. Não vou me casar novamente. E com certeza não vou participar de nenhum dos seus embustes.
Ele se sentou na outra cabeceira da mesa e cruzou as pernas. Sorrindo como se estivesse achando graça dela.
— Você mudará de ideia com o tempo.
— Se for este o caso, eu mesma escolherei o meu marido. Você não terá voz ativa neste assunto. — Ela manteve a cabeça erguia, desafiando-o. Ele precisava entender que ela não era mais uma garotinha sujeita aos caprichos dele, nem idiota o bastante para acreditar que ele realmente queria o melhor para ela. Para o irmão, ela era apenas um trampolim, mas estava decidida a não entrar naquele jogo de novo.
— Você acha que será feliz sendo uma lojista pelo resto da vida? E quanto a Alfie? Que oportunidades você está negando a ele por causa desse seu patético pensamento de que há nobreza na pobreza? Você está sendo ridícula.
— Eu já decidi o que vou fazer — Sophie declarou e se recusou a ceder. Oliver não esteve por perto para saber que ela tinha mudado: não era mais a garotinha maleável que um dia foi.
Ele se levantou bruscamente, amaldiçoando.
— Por que você sempre está falhando comigo?
— Porque a missão da minha vida não é fazer as coisas por você. E não vou fazer isso agora, então é melhor você se conformar com o fato de que sua irmã é uma humilde lojista.
— Você sempre foi uma decepção — disse ele com crueldade. Oliver tinha a tendência de perder a compostura quando as coisas não saíam do jeito que ele queria e culpava quem estivesse por perto. Provavelmente ele tinha feito o mesmo com a pobre esposa, cuja fortuna ele já tinha feito desaparecer. Pobrezinha. Homens como o irmão nunca entenderão por que uma mulher se agarra com todas as forças à independência. Teria que ser um homem muito maravilhoso para fazê-la pensar na possibilidade de voltar a se casar; e com certeza não seria para qualquer benefício que o irmão procurasse para si mesmo.
A porta bateu enquanto ele saía e Alfie olhou para ela com preocupação.
— Não precisamos de mais ninguém em nossas vidas — disse a ele. — Estamos muito felizes, não estamos?
— Eu não quero outro pai — disse ele depois de um tempo.
Foi apunhalada pela culpa. Quanto tempo mais deveria esperar para contar a ele que Doug não era o pai dele de verdade? Não agora quando a dor da perda é ainda tão recente.
— Somos só eu e você, meu amor — disse. — Não precisamos de nada mais, não é mesmo?
— Não — disse ele com um sorriso amarelo. Felizmente, Oliver nunca tinha investido muito em seu relacionamento com Alfie, então ele tinha pouca influência sobre o menino.
Sorrindo, ela tentou esconder o quanto estava com raiva do irmão. Como ele tinha coragem de ir ali para tentar usá-la novamente? Ele acreditava mesmo que ela permitiria que ele a conduzisse a outro desastre? Só Deus sabe o que ele tinha em mente. Ela ainda era uma divorciada, o que significava que o prometido tinha que ser alguém bem desagradável para aceitar uma falha dessas na noiva. Talvez Oliver não estivesse pensando em casamento. Seu estômago revirou. Não pensaria nisso. Não voltaria a dar ouvidos a ele, e se ele voltasse, deixaria as coisas muito claras para que ele entendesse. Sophie agora era uma mulher independente e não abriria mão daquilo por qualquer um.