A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 19 de 43

Páginas do PDF

A Esposa Desprezada

Capítulo 19

 

Estava frio no dia que eles foram para Dorset. Aquela seria uma longa viagem, mas a carruagem de lorde Aberley era confortável e tinha um bom amortecimento. Os baús foram postos na parte de trás e eles saíram pouco depois do café da manhã. Alfie estava animadíssimo.

Para sua surpresa, lorde Aberley se juntou a eles. Talvez ele quisesse se certificar de que eles não fossem fugir para algum lugar no meio do caminho, Sophie imaginou enquanto se sentava em frente ao lugar onde pensou que ele sentaria. Uma seda clara cobria o interior do veículo e os bancos tinham um tom similar em veludo. Era de longe a carruagem mais elegante que já tinha visto. Ela não se lembrava dela de antes, mas eles não foram para lugar nenhum durante o breve casamento.

Nunca estivera em Sommerfield Hall, e provavelmente aquele seria o seu lar por algum tempo. Ao menos até que Alfie estivesse mais velho, e talvez até mesmo depois. Alfie seria o futuro senhor da mansão.

Sorrindo, ela olhou para Alfie, que estava claramente animado sobre sair de Londres. Em sua curta vida, ele nunca teve a oportunidade de viajar para lugar nenhum, exceto pelas estranhas viagens de trem. Ainda era difícil imaginar o quanto a vida dele mudaria. Mais ainda à medida que ele fosse crescendo. A preocupação a fez franzir a testa. Temia que ele se tornasse um jovem afetado e que abraçasse todas aquelas regras e tradições sufocantes.

As molas rangeram enquanto lorde Aberley entrava na carruagem e fechava a porta. O veículo pareceu menor com ele lá dentro. A presença dele causava desconforto, especialmente por estarem sentados tão perto. Os joelhos quase se tocavam.

De início, observaram em silêncio enquanto Londres passava pela janela da carruagem. Eles iam para o oeste e levou pouco tempo para chegarem aos limites da cidade. A maior parte de Londres ficava para o outro lado e os campos começaram a passar pela janela, logo depois o cenário ficou um pouco mais rural.

Com pouco além de paisagem para olhar pela janela, era difícil ignorar o homem sentado bem em frente a ela. Começou a chover, e gotas gordas batiam no vidro da janela. Até mesmo Alfie tinha voltado a atenção para o interior do veículo.

— Você gostará de Sommerfield Hall — disse lorde Aberley por fim. — Tem tanto espaço quanto possa querer. Teremos que arranjar um pônei para você montar.

Alfie arregalou os olhos.

— E um cachorro?

— Alfie! — repreendeu Sophie, mas lorde Aberley sorriu. Ficou assustada porque nunca o tinha visto sorrindo antes. Não sabia que ele era capaz de fazer aquilo.

— Sim, você pode ter um cão. Há até cães de caça lá. Um deles poderá acompanhá-lo quando for montar.

— Nunca andei de cavalo.

— Você vai aprender. Aprendi a montar mais ou menos na sua idade.

— Cavalos mordem.

— Só se você não souber como lê-los.

— Dá pra ler um cavalo?

— Oh sim. Cavalos lhe dizem tudo o que estão sentindo, se souber para onde olhar.

— O senhor vai me ensinar?

Aberley parou por um instante, mas Sophie não pôde discernir o que ele estava pensando. Infelizmente, ele não era tão fácil de ler quanto um cavalo, mas ela também não podia lê-los.

— Se você assim desejar — disse ele finalmente, e Alfie sorriu.

— O que mais tem lá? — Alfie perguntou. Estava claro que Alfie estava muito curioso sobre esse homem que era o pai dele. Era um relacionamento importante para ele e aquilo a preocupava, porque relacionamentos não significavam nada para Aberley; o que tivera com ela não tinha significado, e agora ainda não importava. Se ao menos pudesse se assegurar de que Alfie não seria a parte prejudicada na busca de lorde Aberley por um herdeiro. Às vezes era melhor não ter pai do que ter um pai ruim.

— Bem, há um arroio onde você pode pescar.

— Eu não sei pescar.

— Acho que também poderei ensiná-lo. Sua educação tem algumas lacunas gritantes. — Bem, aquilo soou como uma alfinetada. Sophie se recusava a morder a isca, então preferiu continuar olhando pela janela manchada pela chuva.

— Há pastos com vacas — prosseguiu Aberley. — Ovelhas também.

Sophie nunca tinha vivido fora da cidade. Até mesmo quando os pais estavam vivos, sempre moraram em Londres. Tivera uma criação confortável, mas não do tipo em que eles tinham uma propriedade em algum lugar para onde iam quando queriam paz e tranquilidade. Ela quase temia o silêncio.

— Você vai se casar com a minha mãe? — perguntou Alfie.

— Alfie! — ralhou Sophie novamente. Um sorriso se passou pelos lábios de Aberley, mas logo desapareceu. Ele não estava olhando para ela, apenas para Alfie.

— Não. Nós já fomos casados, mas não somos mais. Sua mãe se casou com o Sr. Duthie. — Não é que aquela justificativa se esquivou de todo o drama e fez soar como se tudo fosse culpa dela? Quem sabe como Alfie entenderia tudo aquilo. — Mas agora nós dois teremos que cuidar de você.

— Porque o pap... Doug morreu?

— Sim — disse Aberley.

— Minha mãe ficou muito triste — prosseguiu Alfie. Aquela afirmação soou muito pessoal para o gosto de Sophie, mas ela também não queria interferir na forma com a qual Alfie via o mundo. Era verdade e ela não queria negar aquilo e confundi-lo ainda mais.

— É triste quando alguém morre — respondeu Aberley.

Ao menos Aberley não estava desmerecendo Doug na frente de Alfie. E ela foi grata por aquilo. Alfie amara Doug como a um pai. Agora ele tinha outro pai, um que ele não conhecia. Tudo devia estar confuso para ele. Embora parecia que Alfie tinha presumido que eles se casariam. De onde ele tinha tirado aquilo? Nunca tinha discutido com ele a possibilidade de voltar a se casar.

A mudança de assunto fez Alfie ficar mais retraído e o coração de Sophie se apertou pelo quanto ele deveria estar confuso. Ele era tão novinho. Tomara que ele não esquecesse Doug completamente.

Alfie começou a brincar com um pequeno elefante com rodas que estava na bolsa dele. Era feito de madeira e as rodas rangiam um pouco enquanto ele as rolava por suas coxas.

— Era meu — disse Aberley. — Há muito tempo.

Alfie voltou a sorrir, observando o homem que era tão parecido com ele. O relacionamento deles estava ganhando vida, um em que ela não tinha relevância. Seriam pai e filho, independentemente dela, e eles teriam um relacionamento sobre o qual ela não teria controle.

Por um momento, ela observou o homem que uma vez tinha sido seu marido. Não de verdade. Sempre tinha parecido falso: uma ilusão. Aprender aquilo tinha sido uma lição dolorosa. O fato de ele nunca tê-la querido provavelmente fosse mais doloroso do que ele expulsando-a da sua vida. Uma lição lenta e dolorosa que aconteceu no silêncio e na completa ausência de qualquer coisa acontecendo: simplesmente a realização de que aquele belo homem com quem se casou tinha feito isso apenas no papel, e realmente desejava nunca tê-la conhecido.

Ele observou enquanto Alfie brincava com o elefante. O que será que ele pensava por trás daqueles olhos penetrantes? Estavam suaves agora, mais suaves do que já tinha visto. Ele só assistia. Ele seria capaz de amar o menino ou teria o mesmo preconceito que tinha por ela? Ele tinha lutado por aquele menino com todas as forças. Tomara que aquilo tivesse mais significado do que o aborrecimento por ter sido contrariado.

Ela realmente queria que os dois tivessem um relacionamento amoroso. Como poderia não desejar aquilo para o próprio filho? Mas não tinha controle sobre como Aberley agia ou deixava de agir. Era verdade que ele não iria apenas escondê-los no campo. Ele até mesmo prometeu ensinar Alfie a montar e a pescar. E depois? Eles não se veriam por anos? Aquilo deixaria Alfie magoado?

Prosseguiram em silêncio por um tempo. A chuva os fazia ir mais devagar, mas não havia nada que pudessem fazer quanto a isso. Alfie se remexeu e brincou com o elefante no banco, perdido no próprio mundo, enquanto Sophie temia o que estava por vir.

A chuva parou e eles puderam voltar a olhar pela janela. Milhas e milhas de campos e pastagens.

— Com quanta frequência o senhor vai a Sommerfield Hall? — perguntou ela por fim, enquanto se forçava a olhar para o ex-marido. A pergunta era para ser: com quanta frequência você pretende voltar?

— Principalmente nos verões. Às vezes na Páscoa.

Sophie fez que sim.

— Por que pergunta?

— Apenas por curiosidade — disse ela com um sorriso tenso. A última coisa que queria era que tivessem uma das suas discussões na frente de Alfie. Ele com certeza não sabia que os dois brigavam todas as vezes em que se falavam, ou se sentavam em um silêncio desconfortável como agora na intimidade forçada pelo pequeno espaço do interior daquela carruagem. — O senhor precisará de alguma coisa de mim já que raramente estará presente?

— Precisar de que forma? A senhora é uma convidada na casa. Não precisa fazer nada. Pode fazer o que quiser.

— Obrigada. É muito generosidade sua. — Parecia que ela tinha se engasgado com as palavras, mas talvez ele estivesse certo em determinar que a conversa cortês fosse a melhor forma para lidar com a situação em que se encontravam. Nenhum deles se comportava particularmente bem quando deixavam a cortesia de lado.

— Como eu disse, uma pensão está disponível para a senhora.

— Não é necessário.

— A propriedade tem conta em todas as lojas da cidade mais próxima, estará disponível para qualquer coisa que precisar. Tecidos, por exemplo. Você precisará de um guarda-roupa mais robusto para enfrentar o inverno no campo.

Sophie sabia muito bem o que Aberley pensava de suas roupas.

— E como deverei me apresentar?

— Bem, isso é mais complicado. Tenho certeza de que muitos na região estão cientes sobre o meu casamento e o meu divórcio. A senhora é, claro, a mãe do meu herdeiro. É uma situação complexa. Como acha que deveria ser apresentada?

— Se não mencionarmos qual é o nosso relacionamento, pensarão que Alfie é seu sobrinho ou um primo.

— Suponho que esteja certa. Irei reconhecê-lo como meu filho.

— Então terei que me apresentar como sua ex-mulher.

— Isso é extremamente incomum.

Mas seria ela quem seria julgada. Aquilo não incomodava Sophie. O divórcio não era algo que simplesmente desaparecia.

— Talvez eu diga a eles que fugi com o meu amante — disse ela baixinho, assegurando-se de que Alfie estivesse distraído. Dizer aquilo às pessoas seria embaraçoso para Aberley. Não contribuiria muito para a imagem dela também. Mas ela não conseguiu se conter. Até mesmo quando jurava que iria se comportar de acordo com a etiqueta cortês, não podia se abster de alfinetá-lo.

Ele estreitou os olhos.

— Sempre podemos contar a verdade. Há certa virtude em dizê-la.

— A verdade seria dolorosa para todos — disse ela por fim. E por todos ela queria dizer para Alfie.

— Concordo. — Aquela devia ser a primeira vez que eles concordavam um com o outro, e ela estava segura de que eles estavam de acordo no que dizia respeito ao bem-estar de Alfie.