A Esposa Desprezada
Capítulo 4
Baixando a navalha, Tristan pegou a toalha de mão com o Sr. Smyth e secou o rosto. Apesar da noite que teve, ele conseguiu se barbear sem se cortar. A conversa da noite passada ainda dava voltas em sua cabeça.
— Parece que a antiga lady Aberley tem um filho — disse casualmente, principalmente porque precisava dizer em voz alta. Talvez devesse chamá-la de senhorita Sophie, embora agora ela tivesse algum outro nome do qual não podia se lembrar, ou nem sequer sabia. Deveria ter perguntado. A notícia sobre a criança tinha sido muito assombrosa para que ele se preocupasse com coisas mais práticas.
— Entendo — Smyth disse. Smyth sempre ouvia, mas nunca começava a conversa. Às vezes, a perspectiva do idoso era bastante valiosa. Uma pessoa confiável para quando não havia mais ninguém com quem pudesse falar.
Smyth lhe entregou a camisa branca e engomada que tinha acabado de ser passada, ainda quente do ferro.
— Seis anos de idade — Tristan prosseguiu.
— Há chance de ser seu?
— Quem pode saber? O tempo sugere que existe a possibilidade. — Houve algumas vezes em seu casamento quando ele se obrigou a cumprir com o seu dever. Não era algo de que tinha gostado muito, já que aquele casamento era algo que jamais desejara. Até ali, o dever de engendrar um herdeiro o tinha forçado, assim como o forçara recentemente a pedir a astuta e manipuladora senhorita Cecilia Hartright em casamento.
— Um herdeiro livraria o senhor da necessidade de fazer outra incursão casamenteira — Smyth disse com o mesmo tato e seriedade de sempre.
— Sim, isso é — Tristan respondeu. Na verdade, isso resolveria muitas coisas. O título sempre vinha com restrições. Sendo o único herdeiro, ele não tinha podido viajar, pois algo inesperado poderia acontecer, e com a morte do pai o dever para com o título tinha se intensificado ainda mais. Um herdeiro significava que a obrigação tinha sido cumprida.
Também significava que ele não precisaria se contentar com uma noiva para a qual não suportava olhar.
— O que lady Woolwich opinou sobre o assunto? — Smyth perguntou.
— Não disse a ela. — Minette não se aguentaria de curiosidade. Provavelmente veria tudo com bons olhos, já que pensava que ele fosse um misógino.
Ele e Minette tinham sido parte do mesmo grupo quando jovens e a amizade tinha perdurado. Havia alguns benefícios em ter uma amiga, particularmente no que dizia respeito aos conselhos sobre como lidar com as mulheres.
Se contasse a ela sobre os últimos acontecimentos, ela o faria ir atrás da criança, mas Tristan sentia certa incerteza com esta perspectiva.
Quando jovem, suas expectativas quanto à família tinham sido bem diferentes do que acabou acontecendo. Esperava ter uma esposa que amava e uma família feliz. O problema foi que não encontrou ninguém a quem pensou amar, e então o seu casamento tinha sido um desastre desde o momento em que o nome da garota foi mencionado. Sophie. Até mesmo o nome dela o deixava enojado.
Assim que se livrou dela, pôs os olhos em Cecilia Hartright, que vinha de uma boa família, de um lugar certo e da classe social certa. Mas isso não a fez se comportar melhor que a humilde Sophie, infelizmente. Agora tudo o que podia ver era a ganância e o ardil. Ou as meninas eram muito obtusas ou eram as mães as gananciosas ardilosas.
— O que você fará? — Smyth perguntou.
— Sobre o quê?
— Sobre a criança.
A criança. Será que era dele? Não seria difícil descobrir se a criança tinha sido concebida durante o casamento. Se fosse o caso, Tristan provavelmente poderia identificar a noite que a tinha gerado, porque cumpriu seu dever pouquíssimas vezes. Mas poderia se assegurar de que Sophie tinha sido sincera em sua afeição? Não havia afeição ali, então não era algo inconcebível ela ter um amante em algum lugar. Neste caso, ela deve ter sido bem discreta, porque Smyth teria lhe reportado qualquer atividade fora do comum.
— Se a criança foi concebida durante o casamento, então eu posso reclamá-lo como meu herdeiro. — Seria um escândalo, mas, até então, todos os seus envolvimentos com mulheres tinham acabado em escândalo. — Ela é uma lojista — disse ele com escárnio. — É mais que provável que eu só tenha que oferecer uma quantia pelo garoto e ela vai aceitar feliz e contente.
— Talvez — disse Smyth, da forma que ele fazia quando não concordava muito com alguma coisa. Havia mais que Smyth não estava se permitindo dizer.
— Uma criatura daquela estirpe... ela venderia a própria mãe em troca de uma bolsa de ouro.
Smyth ficou calado.
— Acredito que já faça algum tempo que a mãe dela morreu.
Tristan revirou os olhos. Smyth tendia a ser distraído pelos fatos quando Tristan fazia as suas conjecturas. A questão era: de quanto teria que ser a oferta?
— O menino pode até mesmo estar adoentado, já que viveu por anos em uma casa com um tuberculoso.
— Você não está comprando um cavalo, milorde.
— Mas parece que estou.
— Se a criança for mesmo sua, e sendo tão jovem, ele vai precisar da mãe.
— Eu já estava sem a minha mãe muito antes dessa idade. — Certo, Minette realmente o acusava de ter uma pedra de gelo no lugar do coração. — E sobrevivi.
— Como quiser, milorde. — Era provável que Smyth fosse concordar com a declaração de Minette.
Um filho a quem ele poderia ensinar a investir, a administrar homens e dinheiro. Seria uma educação que poucos têm. A ideia de poder investir em uma pessoa era estranha.
O problema era que ele não tinha ideia de onde a criança estava, só tinha a informação de que a mãe tinha uma loja de instrumentos musicais em alguma parte de Londres. Ele poderia perguntar ao Sr. Lawrence, mas pela cara do homem na noite passada, Tristan suspeitava que ele não seria nada solícito. Ainda assim, ele poderia enviar uma proposta para que o advogado levasse para a cliente dele, mas neste investimento em particular, não tinha certeza se queria se comprometer sem ter a oportunidade de dar uma olhada antes. Não se tratava de minas no Congo. Este era o menino que poderia vir a ser o seu herdeiro. E quem sabe que tipos de problemas uma pessoa como Sophie poderia criar?
— Devo ver o menino — decidiu Tristan. — Mas eu não sei onde ele está.
— O Sr. Joseph pode ser capaz de contratar um homem para investigar as lojas de equipamentos musicais até Sophie ser encontrada.
— Sim — Tristan disse distraidamente. — Esta provavelmente é a melhor abordagem.
*
Uns dez dias depois, chegou à sua casa uma carta enviada pelo investigador contratado pelo Sr. Joseph, o homem de negócios de Tristan. E havia lá um endereço de Holborn.
Deixando a missava de lado, Tristan começou a bater os dedos sobre a mesa. Durante grande parte da sua vida adulta, a pressão para produzir um herdeiro sempre esteve presente, e agora havia a chance de simplesmente adquirir um.
— Smyth — chamou ele, e o homem apareceu. — Prepare a carruagem. — Poderia ir à cavalo, mas queria privacidade para o que ia fazer. — Não, melhor, contrate uma carruagem.
Não se jogava cartas bem se colocasse todas na mesa, então não iria na carruagem onde está o seu brasão. O anonimato era a melhor solução até ele conseguir controle sobre a situação e decidisse o que fazer.
A carruagem levou dez minutos para chegar. O veículo até que era confortável, um pouco melhor que uma carruagem de aluguel comum, e eles partiram para o longo trajeto até Holborn, as ruas ficavam cada vez mais congestionadas à medida que eles seguiam para o leste, e então para o norte.
Depois de um tempo, o condutor parou e Tristan se inclinou para a frente para poder olhar pela janela. Eles estavam bem em frente à loja de instrumentos musicais, que ficava em uma esquina, e as janelas amplas foram de muita ajuda. Ele podia ver todo o interior da loja, e localizou Sophie instantaneamente: mais velha, mais madura do que se lembrava.
O cabelo estava preso em um coque singelo e ela usava um vestido azul que era simples tanto no modelo quanto no tecido. Por alguma razão, não tivera nenhuma expectativa de vê-la, mesmo ele tendo ido até ali.
Com uma vassoura na mão, ela varria o chão. Uma tarefa servil bem apropriada para os da laia dela. No entanto, as marcas da depravação não se mostravam no rosto dela, conforme esperava que fosse o caso, mas lá estava a tristeza. Seria pelo marido ou pela perda da posição em uma sociedade superior à que vivia agora? Ela ainda usava a aliança de ouro no dedo.
Enquanto ele observava, ela parou de varrer e sorriu quando um cliente entrou na loja. Depois de ouvir o pedido dele, ela foi até uma das estantes e procurou umas brochuras que deveriam ser partituras, então foi até a mesa e a embrulhou em papel pardo. Moedas foram entregues a ela e então ela sorriu com simpatia para o cliente antes de colocá-las na gaveta.
Por um momento, ele imaginou que cara ela faria se ele entrasse lá. Não podia nem imaginar. Só lhe ocorreu agora que ele não a conhecia muito bem, não ao ponto de poder prever as expressões que ela faria.
E então um menino saiu dos fundos da loja. Cabelos escuros e olhos da cor do gelo, assim como os dele.
E Tristan expirou. Não havia dúvida de que o menino era dele. Era como uma olhar para uma versão mais nova de si mesmo.
Sophie o puxou para os braços e o menino aceitou o gesto com indiferença, até que ela falou e ele olhou para ela. Beijando-o na cabeça, ela se afastou e tirou uma moeda da gaveta. O menino a aceitou com avidez e Sophie sorriu enquanto o observava sair correndo da loja para ir comprar o que quer que fosse que lhe tinha sido prometido.
Tristan sentiu o impulso de agarrá-lo quando ele passou correndo por ele.
Aquela criança era sua, era seu filho.
Não havia dúvida. Sophie deu à luz ao seu filho. A raiva começou a fazer uma aparição. Por que ela não o informara? Mas a resposta estava muito clara. Porque ele teria que usar esta informação como uma oportunidade de explicar a ela exatamente aonde todos aqueles ardis a levaram. A lugar nenhum. Na verdade, ele não a teria deixado entrar para que ela pudesse lhe contar. Tinha dado a ordem de que ela não poderia entrar na casa sob nenhuma circunstância.
Agora havia uma criança. Arrepios percorreram a sua pele. O menino era seu herdeiro: o futuro do nome e do título Aberley. Agora só precisava reconhecer o menino como dele.