A Esposa Desprezada
Capítulo 22
Havia coisas a serem resolvidas em toda propriedade, coisas que foram adiadas e ignoradas, pois eram complicadas demais para serem revolvidas sem ele estar ali. A ponte que ligava as duas margens do arroio precisava de manutenção. Não estava tão estável quanto costumava ser, e era só uma questão de tempo até ela ruir. Ninguém por aqui tinha habilidade para lidar com o problema. Na verdade, seria necessário que um engenheiro viesse avaliar o que poderia ser feito, o que era uma despesa que o capataz não estava confortável em permitir, e ele também achava que isso estivesse fora de sua alçada.
Agora que Tristan estava ali, ele poderia ir em frente e resolver o problema, pedir que um engenheiro de Bournemouth fosse até ali.
As práticas de cultivo também precisavam ser atualizadas. Melhorar a qualidade das sementes, a saúde da criação e o manejo do solo.
Ouviu passos atrás dele, virou-se e viu Alfie com uma cenoura na mão. Tristan sorriu.
— Veio dá-la a Artex?
— O Sr. Herman disse que cavalos gostam de cenoura.
— Todo mundo gosta de cenouras.
O olhar que Alfie lhe deu mostrava que ele não concordava.
— Mamãe diz que cenouras deixam você forte.
— Talvez ela esteja certa. Os cavalos gostam dela, afinal das contas, e eles são fortes. — Alfie pareceu aceitar o argumento. — Por aqui — disse Tristan e ele levou Alfie até o estábulo, indo em direção ao reconfortante cheiro de feno. Ele amava os estábulos quando era menino. Parecia que era o seu refúgio. — Artex está bem ali, mas a boca dele fica do outro lado da baia, você terá que ir até lá. Mas você não tem experiência com cavalos e não sabe como interpretar o que eles sentem. — Olhos arregalados olharam para ele. — Às vezes, eles não querem ser perturbados e você precisa respeitar, ou então haverá consequências. Entendeu?
Alfie fez que sim.
— É melhor tocá-los devagarinho na anca para que eles saibam que você está aqui. Se eles se moverem para o lado, significa que estão o convidando a entrar. É melhor também você fazer barulho quando está se aproximando. Eles não gostam de surpresas. Não é uma boa ideia surpreender um cavalo, pois eles dão coice.
Ele passou a mão na anca do pônei, e o animal se moveu. Tristan tinha escolhido este pônei porque ele era dócil e se dava bem com crianças.
— Agora pode ir lá dar a cenoura para ele, mas não aproxime os dedos da boca. Eles não são bons em diferenciar as coisas.
O menino estava nervoso enquanto se aproximava. Mas ele era corajoso. Estava disposto a enfrentar o medo.
— Eles também gostam muito de comer as folhas.
Alfie voltou a sair da baia.
— Você deveria dar uma cenoura a ele todos os dias. Dessa forma ele ficará esperando a sua visita.
— Eles também gostam de maçã.
— Eles nunca dizem não para uma maçã.
Tristan saiu do estábulo e o menino o acompanhou. O menino foi com ele até a selaria e Tristan pegou a própria sela. Na verdade, Alfie estava estudando todos os seus movimentos.
— Eu preciso ir até a ponte, em direção ao oeste.
— Eu e Artex podemos ir?
Tristan parou e pensou no que dizer.
— É uma longa cavalgada. — Levar o menino atrasaria bastante as coisas, mas a criança o estava seguindo como um cachorrinho. Uma boa cavalgada era o melhor jeito de fazê-lo se acostumar com a sela. — Seu traseiro vai ficar dolorido. Estou dizendo agora para que não reclame mais tarde. — Aquilo não pareceu deter o menino, que parecia cada vez mais ansioso. Não estava nos planos de Tristan levar uma criança junto, mas era difícil dizer não para o rosto ansioso do menino.
Seu pai teria dito não, não queria que uma criança se intrometesse e atrapalhasse. Era esse o tipo de relacionamento que Tristan queria com o filho? Não seria uma grande aborrecimento ir mais devagar para levar o menino. Ele iria, afinal de contas, embora da propriedade em breve e não veria a criança por um tempo.
— Então, é melhor aprender a selar um cavalo. Você pode pegar aquela sela?
Alfie foi em frente e pegou a sela de Artex. Ela parecia maior que o menino, mas ele conseguiu. Obviamente, ele não tinha ideia de como selar um cavalo, mas o entusiasmo não o desencorajou ante tais praticidades. Tristan teve que ensiná-lo e o menino observou tudo. Tristan não sabia se algum dia já tivera uma audiência tão interessada.
O menino ainda tinha que ser posto na sela, mas ele parecia estar estável o bastante enquanto esperava que Tristan montasse. Eles pareciam descombinados, ele em seu cavalo de dezesseis palmos e o pequeno pônei de Dartmoor. Artex o seguiria obedientemente sem dar trabalho, mesmo se Alfie não tivesse ideia de como conduzi-lo. O menino copiou a forma como ele segurava as rédeas e eles partiram devagar.
Era um dia bonito. O sol estava brilhando e fazia um calor confortável. Já fazia muito tempo que não montava a uma velocidade tão lenta. Alfie era mais conduzido por Artex do que o contrário, mas haveria tempo o bastante para ele aprender a conduzir a montaria.
*
Sophie estava de pé do lado de fora usando seu xale muito simples quando eles voltaram. Ela parecia nervosa, mas sorriu assim que viu Alfie.
— Olha, mamãe, eu cavalguei por todo o campo. — O orgulho na voz dele era evidente. Cumprindo com sua palavra, o menino não reclamou, mas era óbvio, pela forma que ele se remexia, que o traseiro estava dolorido.
O cavalariço veio recebê-los e Tristan apeou. Por um momento, Tristan considerou se deveria deixar Alfie tentar descer sozinho, mas algo lhe disse para não deixar aquilo acontecer enquanto Sophie estivesse olhando, então ele desceu Alfie.
— Boa noite, Artex — gritou Alfie enquanto o cavalariço levava os cavalos embora. O menino foi correndo até Sophie. — Você me viu montando? Percorri todo aquele caminho.
Tristan ficou tenso, meio que esperando que Sophie estivesse brava por eles terem saído para montar. Ela reprovava tudo o que dizia respeito a ele, então provavelmente sentia que ele estava sendo relapso com a segurança de Alfie, mesmo o menino não estando correndo qualquer tipo de perigo. Havia a chance de o cavalo poder dar um pinote, mas era improvável de acontecer.
— Entre e vá se trocar — disse Sophie e afagou o cabelo do menino. Era óbvio que ela queria trocar umas palavras, e Tristan imaginou que tipo de descompostura ela passaria nele.
— Só há uma forma de se aprender a cavalgar — disse ele, respondendo antes que ela tivesse a oportunidade de começar.
Ela cruzou os braços e pressionou os lábios em reprovação, mas então ela deu um sorriso sem graça.
— Você se tornou importante para Alfie — disse ela.
Não era exatamente a descompostura que ele esperava, mas era difícil discutir com aquilo. O menino praticamente o seguia por aí. Havia uma certa admiração que Tristan estava descobrindo só agora. Talvez não fosse tão surpreendente, já que era pai do menino. Ainda assim, de certa forma, não tinha esperado que o garoto fosse se interessar por ele.
Mas, naquele momento, ele não sabia como responder.
— Talvez seja inevitável. — Ainda havia uma grande questão que ele tinha que responder: que tipo de pai queria ser. Era uma decisão que também não tinha previsto. Sua criação não precisava servir como modelo para a forma com a qual o menino seria criado. Era pela criação dele que Sophie temia. No início, tinha tomado as reservas dela como um insulto, mas agora estava claro que o menino queria passar tempo com ele, que queria a sua aprovação.
A presença e a avidez do menino estavam trazendo à luz ainda mais mágoas e anseios que Tristan tinha esquecido. Ele também ansiava pela aprovação do pai, e nunca a recebera. O que teria significado para ele caso a tivesse recebido? Uma parte dele sempre tinha pensado que a sua criação o fizera forte. Mas também o tinha deixado frio e distante, e não havia como argumentar contra aquilo. Não foi apenas Sophie e a forma como ela e o irmão se aproveitaram dele que o deixou assim, e ela sabia.
— Por favor, esteja ciente que o senhor está se tornando uma parte muito importante da vida dele — prosseguiu ela. Ela estava dizendo para ele se afastar? Ou o contrário? — Ele perdeu muitas coisas nesses últimos tempos.
— Ele ganhou também.
— Espero que sim. De verdade.
Ela não estava falando da casa ou do tutor, ou de quaisquer luxos e confortos que havia ali. Ela estava falando dele, dizendo a ele que ele estava em uma posição que causaria um impacto profundo na vida do menino, como se, por escolha dele, Alfie fosse se tornar frio e indiferente por causa da falta de interesse e aprovação. Era uma responsabilidade bem grande.
Ainda assim, Alfie tinha algo que Tristan nunca tivera, uma mãe que iria suavizar qualquer golpe que o menino sofresse na vida. Aquilo não significava que a criação do menino deveria ser tão rígida e enfadonha quando a dele tinha sido.
— Estou ciente — disse por fim.
Parecia que ela ficou satisfeita com a resposta, pois deu meia-volta e entrou na casa. Tristan a observou se afastar. Com toda honestidade, não estava certo sobre o que queria fazer, o que devia fazer, mas estava ficando ciente de que ser pai era algo muito mais importante do que só arrumar um herdeiro. Aquilo já estava garantido, e agora ele precisava pensar seriamente no tipo de pai que queria ser para aquele menino.