A Esposa Desprezada
Capítulo 29
No todo, Sophie não se importava tanto com a presença de Aberley, não mais. Ele estava mal humorado e emburrado na maior parte do tempo, mas ela era perfeitamente capaz de ignorar o comportamento na maioria da vezes. Eles não estavam mais se debicando, o que era uma grande melhora. Estava claro que Alfie adorava tê-lo ali em Sommerfield, embora ele ainda não tivesse dito quanto tempo ficaria.
Obviamente, ele ainda a fazia se sentir desconfortável sempre que entrava em uma sala. Aquela tensão nunca tinha sumido completamente. A desaprovação ainda emanava dele, mas ela se recusava a permitir que aquilo a aborrecesse. Ele era apenas uma presença na sua vida. Sombria e agourenta, talvez, mas ela era perfeitamente capaz de sair de uma sala caso se sentisse sobrecarregada demais. Por outro lado, porém, ele tinha ficado estranhamente quieto. O Sr. Herman, que detestava imensamente o silêncio, normalmente se encarregava da conversa.
Entre chuvas, Sophie caminhava pelo jardim, ficava perto o bastante da casa para que não fosse pega desprevenida novamente como daquela desastrada vez. Herman e Alfie estavam nas aulas, e Aberley no escritório. Ela não tinha ideia do que ele fazia ali. Parecia que ele passava a maior parte do tempo lá dentro.
Respirando fundo, ela sentiu o ar fresco. O ar era incrivelmente doce comparado ao de Londres, e aromas diferentes vinham com o vento. Tanto quanto tivesse lutado com Aberley para não ir para ali, precisava confessar que aquilo tinha feito muito bem a ela.
O Sr. Herman era encantador, é claro, mas não importa o quanto desejasse, não sentia por ele nada além do apreço que se sentia por um amigo. É óbvio que não estava com pressa. Ela tinha todo o tempo do mundo. Não era como se precisasse de um homem para tomar conta dela. Sua situação era estável, desde que Aberley não mudasse de ideia. Mas ela gostava de cuidar de alguém e que alguém cuidasse dela. Talvez não tanto cuidado como tinha sido com o marido próximo ao fim, quando tinha sido mais enfermeira que esposa. Aquela ternura ainda estava lá, e sentia falta dela.
Ela também sentia falta da parte física. Até mesmo no casamento não tinha sido capaz de explorar aquela parte completamente, precisou reprimir aqueles desejos por muito tempo. E depois esteve triste demais e perdida para sentir qualquer coisa por algum tempo. Agora as coisas tinham se assentado, não havia tristeza, e coisas difíceis e prementes para enfrentar. Alfie estava feliz, eles não estavam encarando a penúria, e até mesmo Oliver tinha sido resgatado. Esperava que dessa vez ele tivesse aprendido a lição.
Passando a mão pelas plantas, ela sentiu as texturas na sua pele: gramíneas macias, suaves e delgadas. Fechando os olhos, deixou os pensamentos dispersarem, e eles não foram para o sóbrio e confiável Sr. Herman. Eles foram para o sombrio e agourento.
Abrindo os olhos de repente, ela afastou aqueles pensamentos. Rejeitou-os. Por que ficava pensando naquele homem que a magoou tanto? Uma vez, ele tinha sido seu cavaleiro de armadura brilhante, mas tudo tinha sido uma ilusão. Alguém constante e confortável estava no seu futuro; tinha certeza. Tinha sido feliz com Doug, mesmo que o casamento com ele não tivesse queimado nos mais profundos recessos do seu corpo. Que utilidade tais impulsos tinham?
Virando-se, ele viu um homem se aproximando dela e prendeu a respiração, então viu que era o Sr. Herman e relaxou instantaneamente. Ele não deveria estar vagando por lá naquela hora do dia.
— Está tudo bem com Alfie? — perguntou ela.
— Sim, está — disse Herman. Havia uma luz nos olhos dele que ela nunca tinha visto antes. Ele deve ter chegado a alguma conclusão, pensou. Ele estava tomando alguma iniciativa?
— Vim falar com você. A coisa mais curiosa aconteceu. — A animação era óbvia nas feições dele. Nunca o tinha visto desse jeito.
— Oh?
— Esta família, um membro muito antigo do Departamento Colonial me ofereceu uma posição com eles, e eles estão indo para o Cairo.
— Cairo? No Egito?
— Sim, no Egito. Você pode imaginar? Assim do nada. É um sonho se tornando realidade.
Sophie piscou. Ele tinha um emprego, mas ele estava muito animado com aquilo. Um sonho realizado, disse ele.
— Eu tenho que partir agora mesmo. Eles estarão navegando imediatamente. A pessoa que eles tinham em mente ficou doente, entende.
— Entendo.
— Eu só vim... dizer adeus. Tornamo-nos tão bons amigos, mas eu não posso recusar uma oportunidade dessas. Diga que você entende.
— É claro — disse ela com um sorriso que não pareceu certo. Óbvio que estava feliz por ele, mas isso pareceu tão... conveniente. Uma oferta dessas encontrando-o bem aqui em Dorset. — Como foi que eles ficaram sabendo de você?
— Eu não sei bem. Só me entregaram uma carta. Lorde Aberley foi muito compreensivo.
— Aposto que sim — disse ela, seca, tentando manter o sorriso colado em seus lábios. O Sr. Herman não enxergava realmente o relacionamento difícil que havia entre ela e Aberley. Ele não era muito observador no que dizia respeito às pessoas.
— Escreverei, é claro, contarei a você e a Alfie sobre as maravilhas que encontrarei.
— Alfie vai amar.
Inclinando-se, ele beijou-a na bochecha, o que foi o primeiro e único beijo que eles trocaram. Não haveria mais beijos, nenhum desenvolvimento no relacionamento deles, porque o Sr. Herman estava indo para o outro lado do continente.
— Preciso me apressar. Lorde Aberley teve a bondade de me oferecer a carruagem dele. Acredito que ele tenha entendido a urgência.
— Foi muita bondade da parte dele — disse Sophie entredentes.
O Sr. Herman foi correndo para a lateral da casa, o que era algo que ela também nunca o tinha visto fazer. O sorriso desapareceu do seu rosto e ela ficou de pé ali, olhando para a casa. Ele tinha feito aquilo; Aberley tinha feito aquilo. Novamente impedindo qualquer felicidade que ela encontrava. Verdade seja dita, ela não sentiu uma paixão imediata pelo Sr. Herman, mas tinha esperança, e Aberley, sendo observador como era, tinha percebido.
Envolvendo os braços em torno de si, ela marchou para a casa. Enquanto caminhava, pôde ver que a carruagem já estava seguindo pela estrada. Ele realmente não queria perder tempo.
Foi direito para o escritório, abriu a porta e viu Alfie sentado na cadeira que ficava de frente para a mesa de Aberley.
— Alfie, querido, você poderia subir e ir para o seu quarto? Preciso ter uma conversinha com lorde Aberley. — Ela tentou soar despreocupada, mas não estava certa de que tinha conseguido.
— Sim, mamãe — disse ele e deixou a sala. Aberley não a olhou nos olhos, em vez disso, ficou olhando pela janela, os lábios franzidos. Talvez ele soubesse que ia levar uma severa reprimenda.
Esperou alguns segundos para que Alfie não pudesse ouvir.
— O senhor fez isso — acusou ela. — O único amigo e companheiro que eu tinha. Por que achou que precisava me afastar dele?
— Eu não fiz tal coisa.
— Então o senhor não teve parte?
— Eu só o mencionei para um amigo que estava em uma situação difícil.
— O tutor de Alfie. Alfie gostava demais dele. O senhor fica tão indignado ao ver um pouco de felicidade em outras pessoas que tem que fazer o possível para arruinar tudo? Ou sou apenas eu que não posso ter amigos?
— O homem tinha um sonho. Eu apenas o ajudei. Nem tudo é sobre a senhora. Eu deveria ter me privado de deixá-lo fazer tal conexão só porque a senhora gostava de tê-lo por perto? Não seja tão egoísta.
— Eu estou sendo egoísta? O senhor está se ouvindo? — Incapaz de medir suas ações, ela deu a volta na mesa, pronta para atacá-lo. Ele obviamente previu o que ela faria e ficou de pé, segurando os seus pulsos. — Seu homem mesquinho e vingativo.
— Nada disso foi feito para magoá-la. Sua reação deixa mais que evidente que você tinha ambições para com aquele homem, mas acredite em mim, ele saltou à oportunidade.
Libertando o pulso, ela o estapeou, o som ecoou pelas paredes. Ela também não pôde acreditar que tinha feito aquilo. Ele tinha a capacidade de rebaixá-la à violência, cutucava e incitava até que ela perdesse completamente a compostura.
Dando um passo atrás, ela se afastou dele e saiu da sala. Ele voltara a magoá-la, tentara arrancar a sua felicidade. Por que ele era tão odioso? A vida ali seria infinitamente mais difícil sem o Sr. Herman.
Agora seriam só ela e Aberley, pelo menos até que ele fosse embora. Não havia dúvida de que ele consideraria que a sua tarefa de infligir dor e insultos estava concluída e, mais uma vez, ele iria embora. Tinha esperança de que fosse naquele mesmo minuto. Queria que ele fosse para Londres e que nunca mais voltasse.
Seria tão solitário ficar ali sem o amigo. E, verdade seja dita, um futuro que tinha imaginado acabara de escapulir por entre os seus dedos, como se fosse areia. Aberley entendia aquilo muito bem. Homem detestável.
Em algum momento mais tarde, quando ela não estivesse com tanta raiva, admitiria que a escolha de deixar Alfie e ela não tinha segurado o Sr. Herman por mais de um segundo. Havia algum homem confiável no mundo? Doug tinha sido o único a ter um coração forte, em um corpo frágil.