A Esposa Desprezada
Capítulo 20
A viagem para Sommerfield foi árdua. Viajaram durante a noite, mas era uma viagem apertada com os três na carruagem. Parecia uma bênção para Tristan ter um tempo só para si. Alfie tentava se distrair, mas, às vezes, a monotonia levava a melhor. Sophie até mesmo tinha tentado entretê-lo. Ela contou histórias e brincou com ele, mostrando uma reserva infinita de paciência.
Chegaram em Sommerfield no final da tarde. Wellswar, o mais antigo empregado do pai, os encontrou assim que chegaram. Com os joelhos doloridos, Tristan desceu da carruagem logo depois de Sophie e Alfie.
Alfie olhava maravilhado para a casa.
— Este é o seu novo lar.
— Eu ficarei perdido.
Tristan sorriu com aquela declaração.
— Há lugares onde se esconder. — Tinha sido uma das suas atividades favoritas enquanto crescia, esconder-se de quem quer que o quisesse encontrar. Ele olhou para Sophie. — Penso que os dois serão muito felizes aqui. Há uma aldeia logo depois do bosque com algumas lojas, caso a senhora precise de alguma coisa. Como eu disse, temos conta nelas.
Se ela fosse tirar vantagem da oportunidade, ele não se atreveria a fazer suposições. Só podia ter esperança depois da longa viagem que fizeram tendo nada mais para fazer além de observar a ela e a aquele vestido que obviamente não contava com um espartilho. O corpo dela não precisava de um, mas o fino tecido do vestido não oferecia muito sustento para as irregularidades da estrada. Não tinha sido capaz de não notar aquilo também.
— O Sr. Herman está na residência? — Tristan perguntou para Wellswar.
— Ele chegou há uns dois dias — respondeu o homem.
— O tutor — disse Tristan. — Suponho que se a senhora o conhecer e tiver alguma objeção, teremos que discutir as alternativas.
Sophie fez que sim e não disse nada.
— Há alguém para cuidar do conforto do mestre Alfred? — perguntou ele a Wellswar.
— Mary pode fazer isso.
— Excelente. Iremos procurar nossos quartos para descansarmos antes do jantar, eu acho.
— Por aqui, milady — disse Wellswar para Sophie.
Teria que discutir, discretamente, com Wellswar a forma como deveria lidar com ela, mas aquilo podia esperar. Estava cansado demais para lidar com qualquer coisa que não fosse um cálice de bebida.
Tristan foi direto para o quarto, tirou o casaco de viagem e trocou a camisa. O quarto tinha sido arejado e o fogo, aceso. Fazia alguns dias que mandara mensagem para Wellswar dizendo que eles estavam indo. Já havia algum tempo que tinha ido lá, não se lembrava bem de qual tinha sido o motivo de não ir. Talvez o lugar ainda fosse uma prisão, assim como tinha sido quando era criança.
Era provável que Sophie fosse fazer daquela experiência algo diferente para Alfie. Pelo que tinha visto, ela era uma mãe atenciosa e amorosa. Afagava a cabeça do menino quando ele colocava a cabeça no colo dela para dormir. Não era como se ele estivesse com inveja, mas nunca tinha conhecido a intimidade maternal. Talvez o próprio pai devesse ter tentando mais para prover alguma influência materna na vida de Tristan. Provavelmente o homem nunca tinha pensado que fosse necessário. E a menos que Sophie tivesse forçado, ele também não teria visto aquilo como uma necessidade. Mas ao vê-los juntos, entendeu melhor o relacionamento deles.
Wellswar apareceu à porta, sem fazer barulho, para ver se ele precisava de alguma coisa.
— Acho — começou Tristan, — que convidaremos o Sr. Herman para jantar conosco esta noite. — Por um lado, ele queria a aprovação de Sophie, porque ela sempre desaprovava tudo o que ele fazia. Por outro, ele queria provar a ela que ele poderia tomar decisões excelentes no que dizia respeito a Alfie.
Tomou um banho rápido e se sentiu melhor, sentia-se como se fosse precisar daquela bebida o quanto antes. Vestindo-se, ele desceu as escadas e foi até a sala de estar, onde Wellswar serviu uma boa porção de whisky para ele bebericar enquanto esperava pelos comensais.
O Sr. Herman não demorou a aparecer, ele usava preto, como era esperado de um homem de sua posição, e eles trocaram um aperto de mão. Ele era jovem, quase trinta anos talvez, com um rosto bondoso e simpático. Talvez não fosse o mais belo dos homens, era alto e esguio, mas havia vigor nele. O homem pareceu satisfeito com o convite e eles conversaram amigavelmente sobre Oxford até que Sophie chegou.
Um vestido diferente agraciava o corpo dela, mas ainda assim era simples demais. O cabelo tinha sido penteado e arrumado. As bochechas estavam rosadas, mas parecia que a viagem tirara um pouco da força dela.
— Sra. Duthie, permita-me apresentá-la ao Sr. Herman, o tutor de Alfie.
— Estou muito feliz por conhecê-lo. — Sophie ofereceu a mão para ele e o homem se curvou para beijar os dedos dela.
— Espero que a viagem não tenha sido muito cansativa.
— Não mais que o esperado. Viagens cansam o corpo.
Wellswar apareceu.
— O jantar já está servido.
— Sinto muito pela morte do seu marido — disse Herman para Sophie, e por um momento, Tristan imaginou se o Sr. Herman não estava tentando causar uma boa impressão à mãe do seu pupilo. Talvez isso fizesse a vida dele mais fácil.
— Obrigada. Tem sido uma época difícil para nós. Alfie está aguentando bem. As crianças são tão resilientes, mas imagino se ele compreende a mudança pela qual a vida dele está passando.
E assim ela fez a mudança para uma vida suntuosa e protegida soar como se fosse um árduo sacrifício. Tristan rangeu os dentes enquanto se sentava à cabeceira da mesa. Ainda parecia errado sentar-se no que parecia ser o assento do pai. Estar em Sommerfield trazia algumas recordações, o que talvez fosse a razão para ele se sentir desconfortável lá.
— Onde você morava antes, Sr. Herman? — disse Sophie, sorrindo. Ficou surpreso ao ver o quanto ela era curiosa e conversadora. Eles não eram quando estavam juntos, mas esta estranha que conversava amigavelmente era curiosa e interessada.
— Eu vim de Dartmoor, não é muito longe.
— Que pitoresco. Eu sempre quis ir lá.
— Você é uma romântica — disse Herman com um sorriso, e Tristan sentiu que tinha perdido o total controle da conversa. Sobre o que eles estavam falando? — É um lugar inspirador, não há dúvida. Foi o que sempre pensei.
— Um poeta, talvez? — sugeriu ela. Sophie estava flertando?
— Algo assim, suponho. Minha verdadeira paixão é a história. — Tristan estava prestes a revirar os olhos. Bem, parecia que Sophie tinha aprovado o tutor que ele tinha escolhido. Aquilo era algo, ao menos. Ela não poderia reclamar agora.
O Sr. Herman olhou para o seu anfitrião e empregador.
— Fiquei sabendo que a sua família tem vivido nestas terras há muito tempo.
— Por volta de quatrocentos anos. Desde o reinado de Eduardo III.
— A era de ouro — disse Herman.
A sopa foi servida. Algo cremoso com peixe. Os sabores se misturaram na sua língua. A comida era melhor em Sommerfield, mais fresca e saborosa. Tudo era pegado ou colhido na propriedade. Em Londres, ele não fazia ideia de onde vinha a comida.
— Está delicioso — disse Sophie.
Bem, o encarceramento dela ali teve um lado positivo, pensou. Talvez aquelas crenças sobre a vida insignificante e precária que eles levavam em Holborn estivessem começando a se dissipar.
— A casa tem uma horta enorme, então todos os ingredientes são frescos.
Sophie sorriu rapidamente, então tomou outra colherada de sopa. Ela segurava a colher com delicadeza. As boas maneiras estavam lá; ela tinha sido treinada quando criança. Mesmo ela não tendo estado em uma sala de jantar nos últimos seis anos. Parecia que ela podia desenterrar as boas maneiras quando necessário.
— Também há uma sala de música, mas tenho certeza de que os instrumentos precisam ser afinados — disse Tristan.
— Posso afiná-los — ofereceu Sophie. Tristan não tinha esperado que ela fosse oferecer, mas ele não tinha razão para dizer não. Ainda assim, não era uma tarefa que ele normalmente pedia aos convidados.
— O marido da Sra. Duthie era músico. — Ele não conseguiu se obrigar a dizer que ele trabalhava em uma loja de equipamentos musicais. Ainda era difícil conciliar a vida dela com o marido e o novo papel que ela tinha como mãe do futuro senhor desta casa.
— A educação de Alfie incluiu um pouco de música. Você ensina música, Sr. Herman?
— Não, infelizmente. Nunca fui muito inclinado à atividade.
O sorriso de Sophie não falhou, mas Tristan sentiu como se fosse uma acusação, uma coisa que ele tinha feito errado.
— Estou certo de que poderemos achar alguém no distrito para dar continuidade à educação musical dele — disse Tristan, irônico.
O olhar de Sophie foi para ele e então voltou para o Sr. Herman.
— Alfie iria gostar muito.
Criança alguma jamais gostou de lições de música, mas Sophie estava tentando manter alguma semelhança com a vida antiga de Alfie. Novamente, Tristan tentou não se sentir ofendido. Do jeito que Sophie pintava, Doug Duthie era quase um santo, que, neste exato momento, estava cantando no coro celestial.
O prato principal foi carne de porco assada e Tristan tinha que admitir que derretia na boca. O prazer era óbvio no rosto de Sophie. Com certeza agora ela não poderia declamar sua preferência pela vida em Holborn. Aquilo estava divino. Tristan não tinha certeza se alguma vez tinha gostado tanto de um jantar. Talvez o cansaço da viagem estivesse fazendo com que ele se sentisse lânguido e saudoso.
Houve algumas mudanças profundas na sua vida das quais ele também poderia reclamar. Ele tinha um filho, e isso causava um impacto mais profundo do que tinha esperado. O menino parecia tanto com ele e estar na presença dele trazia de volta todas as esperanças e danos da sua infância.
E então havia Sophie, com quem ele só podia dizer que o relacionamento era hesitante. Era certo que ela não era a criatura quieta e reservada que tinha conhecido quando eles foram casados. Ela era completamente diferente. Mais franca do que tinha esperado, mas, de tantas outras formas, ela não era nada do que antecipara. Os interesses dela não eram iguais aos do irmão. Não sabia se aquilo era porque ela nunca tinha estado no mesmo time que o irmão, ou seria simplesmente porque a maternidade a mudara. Podia-se apenas acreditar no que as pessoas diziam, mas, cada vez mais, as ações revelavam o caráter dela. Não havia sombra de dúvida de que ela era teimosa. Ela não se rendia a nada, a não ser que fosse estritamente necessário, apenas pelo filho, e também pelo irmão.
Aquilo era um problema. Tristan temia a influência que Oliver Bancroft poderia exercer sobre Alfie. O homem não tinha escrúpulos e poderia conduzir Alfie a todos os tipos de problemas caso ele não fosse resguardado. A posição de Sophie ainda precisava ser determinada, mas não havia dúvida de que ela correu ao resgate do irmão quando ele precisou.