A Esposa Desprezada
Capítulo 5
Sophie sentia saudade de Doug todo santo dia, mas também estava grata pelo sofrimento dele ter chegado ao fim. Era uma estranha mistura de sentimentos que às vezes eram difíceis de conciliar. No entanto, eles teriam que se ajustar a uma vida diferente.
Todos os dias recebia condolências dos clientes, que realmente eram pessoas muito gentis. Os músicos tendiam a ser pessoas mais reservadas, mas eles sentiram muito ao ficaram sabendo sobre a morte de Doug.
Alfie estava animado para começar a estudar. A escola não ficava muito longe da rua onde moravam, e finalmente chegou o dia em que Sophie o deixou lá enquanto ia para a loja pela manhã.
Ficou aliviada por não ter visto nem rastro de Oliver, e isso foi uma bênção. Estava claro que eles nunca chegariam a um acordo, mas ela também sabia que ele voltaria com alguma outra proposta, provavelmente para ela ser amante de algum ricaço. Oliver não entendia que ela não dava valor para as mesmas coisas que ele; e ela tinha certeza que não seria um peão para que o irmão pudesse conseguir o que queria.
Ela e Alfie tinham tudo o que precisavam, e ela iria proteger aquilo com todas as suas forças, mesmo que isso significasse manter Oliver bem longe das suas vidas.
O ar da manhã estava fresco quando ela entrou na loja. Os donos das mercearias estavam colocando as mercadorias para fora, já fazia muito que as padarias tinham aberto. Seus clientes normalmente não acordavam cedo. Era difícil que alguém entrasse na loja antes das onze, mas a parte da manhã era boa para fazer a limpeza, rearranjar e posicionar as mercadorias novas.
Ela também teve a sorte de vender um piano outro dia, o que preencheu as finanças já exauridas.
Destrancou a porta e a deixou aberta para que o ar circulasse na loja. O cheiro do papel no qual as partituras eram impressas era bem aromático e, como ela tinha muitas, era bom arejar a loja logo pela manhã.
Estava quieto lá dentro, e Sophie se sentou no banquinho de madeira que ficava atrás do balcão. Sentia saudade de passar tempo com Doug ali. Com a habilidade que ele tinha, ele podia aconselhar os clientes muito melhor que ela, mas aprendeu muitas coisas com ele, o suficiente para administrar a loja por conta própria. E sentia falta da música dele. Ele adorava tocar e o fazia todas as noites, até que ficou fraco demais.
Uma sombra apareceu em sua visão e ela soube que alguém tinha entrado na loja. Sorrindo, ela se voltou para a pessoa, e ficou surpresa ao ver o Sr. Lawrence. Ela piscou algumas vezes. Ele nunca tinha vindo à sua loja antes e ela ficou preocupada na mesma hora.
Ele parecia levemente ameaçador em seu terno escuro de corte elegante.
— Sra. Duthie — disse ele, e tirou o chapéu.
— Sr. Lawrence — respondeu ela, com um sorriso inseguro. — Espero que não haja nada de errado com o pecúlio. — A preocupação que a abateu foi tão forte que começou a ficar enjoada. A última coisa que precisava neste momento eram mais problemas. Parecia que eles estavam apenas começando a se recuperar de uma tristeza severa e de um período desgastante. Por favor, não permita que o prazo da moratória tenha chegado ao fim, ela orou.
— Não, não — disse ele, olhando ao redor da loja. — Está tudo bem com o pecúlio.
Suspirando aliviada, ela se deixou relaxar, mas apenas um pouco, pois ele estava ali por alguma razão. A imagem de lorde Aberley se arrastou em sua mente, mas não conseguiu imaginar por que. Ele não queria nada com ela, mas sempre existiu aquele medo de que ele fosse aparecer e destruir tudo, vigando-se pelo dano que ele achava que ela tinha causado a ele. E então havia um outro medo mais premente no que dizia respeito a Alfie.
Mesmo antes de a gravidez começar a aparecer, Doug tinha chegado com a proposta de casamento, dizendo que assumiria a responsabilidade pela criança e que seria o pai dela em todos os sentidos. Ela tinha poucas opções, e provavelmente teria acabado em uma workhouse, as famigeradas casas de trabalho para indigentes, onde a pobreza e a doença acabaria matando os dois. Oliver podia não cuidar dela, e o estigma de ter uma irmã com um filho nascido fora do casamento iria acabar com ele também, algo que ele não conceberia. Além do mais, ele tinha persuadido Doug a se casar com ela, e aquela foi a única coisa boa que Oliver já tinha feito por ela.
A mente de Sophie tinha ido para longe e ela voltou a se concentrar em qualquer que fosse a situação alarmante que tinha trazido o advogado à sua loja naquele dia.
— Como posso ajudá-lo? — perguntou enquanto se levantava do banco e ia até onde ele estava.
— Vim trazer uma proposta. — Ele não parecia muito feliz e ela ficou ainda mais preocupada.
Era Oliver que estava tentando atingi-la por intermédio do advogado? Não, ele nunca foi tão discreto a esse ponto.
— Certo — disse ela, tentando manter a voz estável.
— Lorde Aberley — Sophie fechou os olhos e desejou estar em outro lugar — deseja assumir os cuidados com Alfie — prosseguiu o Sr. Lawrence.
— De jeito nenhum. O senhor pode dizer a ele que não.
Embora ela visse por que o Sr. Lawrence a tinha procurado para tratar desse assunto em vez de chamá-la para ir ao escritório como normalmente fazia.
— Tive a sensação de que a senhora reagiria assim. É uma oferta generosa, uma grande soma para...
— Para quê? — disse ela, com rispidez.
— Para a senhora abrir mão dele.
Sophie arregalou os olhos. Sempre tivera medo de que lorde Aberley fosse aparecer com uma proposta dessas. Por um tempo não tinha esperado este desenrolar, até que ouviu dizer que o noivado dele tinha chegado ao fim. Se ele tivesse um filho não iria querer nada com Alfie. A criança não teria um bom pedigree, teria dito ele.
— Diga a ele para se casar e produzir o próprio filho. Ele não terá Alfie. Nem por cima do meu cadáver. — O sangue aqueceu e ela não pôde mais ficar parada. — Nunca. Mesmo se eu morrer, garantirei que lorde Aberley não fique com ele. Podemos fazer isso?
— Eu lhe asseguro que poderemos tomar providências com instruções específicas para que lorde Aberley não tenha direito à criança. — O Sr. Lawrence pareceu bem feliz com a ideia. — Não estou chocado em lhe dizer que ele espera que a senhora aceite a proposta.
— Bem, por tudo o que me importa, ele pode muito bem gritar isso aos quatro ventos. Alfie é meu e é filho de Doug, e permanecerá assim.
— Transmitirei seus sentimentos a lorde Aberley, se me permite.
— Faça o que achar melhor, só não volte aqui com alguma outra proposta ridícula. Estou falando muito sério, apenas por cima do meu cadáver e nem mesmo assim.
— Posso ver que a senhora é contra a ideia.
— Acredito que isso seja um eufemismo.
A vontade de se movimentar era tão grande que Sophie não conseguia ficar parada. Como ele se atrevia a fazer uma proposta para comprar o filho dela? Nunca.
— Como herdeiro de lorde Aberley, seu filho teria uma posição muito privilegiada.
— Sob os cuidados de lorde Aberley — disse ela. — O senhor o conhece?
— Sim.
— O senhor colocaria uma criança sob os cuidados dele? — Talvez estivesse falando com a pessoa errada, mas como mãe, ela teria que estar completamente louca para deixar uma criança sob os cuidados de um ser tão frio e insensível. — Nenhum dinheiro no mundo valeria isso. Alfie está muito bem do que jeito que está. Ele não precisa de um título. Um conceito totalmente obsoleto por tudo o que me diz respeito. Ele tem seis anos. E com certeza não precisa ser criado por um monstro.
— Se é assim que a senhora se sente, transmitirei sua opinião a lorde Aberley.
— Certifique-se disso — disse Sophie com um meneio de cabeça e erguendo as costas. Pedindo licença, o Sr. Lawrence saiu e a loja ficou subitamente calma e vazia. Parecia que o momento de paz que tinha encontrado chegara ao fim. A pior coisa possível tinha acontecido. Lorde Aberley tinha decidido que queria Alfie, mas ela se certificaria de que teria que estar morta antes de permitir que aquele homem horrendo transformasse o filho em uma versão mais jovem de si mesmo.
Pessoas como lorde Aberley pensavam que o poder, a riqueza e o título que possuíam significavam tudo. Um homem como ele pensaria que ela abriria mão do filho em troca de dinheiro. As vantagens que ele teve na vida normalmente davam a ele tudo o que desejava, mas ele não teria Alfie. Em primeiro lugar porque aquilo era desprezível, e em segundo lugar, ele achar que ela abriria mão do filho só mostrava que o homem não tinha nenhuma noção sobre mães. Ele pensar que aquilo era uma possibilidade só mostrava o tipo de pai que ele seria.
Tinha a esperança de que aquela história pararia por ali e que lorde Aberley entenderia que ele não teria o que desejava. Ele só estava fazendo isso porque queria um herdeiro, um ser humano que ele manteria afastado até que fosse a hora de servir aos propósitos dele.
Dinheiro, e a busca por riqueza, era a fonte de todos os problemas da sua vida. O dinheiro nunca lhe trouxe felicidade, e mesmo nas épocas mais difíceis, ela tinha sido feliz com Doug. Tinham um ao outro e isso era tudo o que precisavam. Sempre tiveram o que comer e nunca passaram frio.
Os indigentes suportavam muitas coisas ruins nessa cidade e, se não fosse por Doug, o menino que lorde Aberley queria reclamar para si teria sido um por causa da própria negligência dele. Lorde Aberley podia oferecer riqueza, mas Alfie viveria em uma casa fria, sem um grama de amor. Como pessoa, ele estava muito melhor em suas circunstâncias mais humildes, uma em que eles tinham tudo de que precisavam. E o mais importante, sem contato com o tipo de homem que estava sempre perseguindo ou guardando o próprio dinheiro.