A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 1 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 1

 

Londres, 1853

SEGURANDO A MÃO do filho com força, Sophie o protegeu da chuva que caía sem parar sobre a sombrinha preta. O vigário não tinha proteção e ficou debaixo da chuva enquanto fazia o sermão fúnebre. Dois homens esperavam pelo término do ritual para que pudessem começar a jogar terra sobre o túmulo do seu marido.

A doença, finalmente, o tinha reclamado, como ela sabia que aconteceria. Mas mesmo assim foi um choque quando aconteceu, era como se ela nunca tivesse realmente acreditado naquela possibilidade. Doug tinha morrido, e o vazio do pensamento fez doer o seu coração. Ela amava o marido. Ele tinha sido um bom homem.

Por que as pessoas ruins continuavam vivendo enquanto as boas morriam? Não havia justiça nesse mundo? Como um homem bom como Doug tivera um fim tão trágico enquanto um homem horrível como lorde Aberley continuava vivo e respirando?

Sophie parou de pensar no ex-marido e segurou o filho com mais força. Para que guardar mágoa? Lorde Aberley tinha, mesmo apesar de tudo o que ele era, dado o presente mais valioso que já lhe deram, e o divórcio a conduziu a um homem que ela realmente amava, e que a amava também.

Muitos tinham visto o seu segundo casamento como uma prova de quão baixo ela tinha caído, casar com um músico pobre e fracassado. O casamento tinha sido comprado, mas isso não o impediu de ser bem-sucedido. Com o dinheiro que Doug recebeu para dar um nome ao filho dela, eles arranjaram os equipamentos musicais e os suprimentos para a loja em Holborn, a qual pagava pelos dois cômodos em que moravam, em um local não muito distante de lá, e acabou que aquela foi uma vida muito feliz.

Seu filho, Alfie, cresceu rodeado pela música e pelo amor. Esse foi o primeiro golpe que ele recebeu da vida e ele a olhava com aqueles olhos azuis muito claros que ela tanto amava.

— Nós ficaremos bem — disse ela com um sorriso triste. — Sabíamos que esse dia ia chegar.

— Ele não vai sentir frio lá embaixo?

— Seu pai está no céu agora. Ele nunca mais sentirá frio.

Alfie não sabia que Doug não era o pai dele mesmo que os cabelos escuros e os olhos da cor do gelo mostrassem que não havia laços de sangue entre os dois. Mas ela ainda não estava preparada para discutir a verdadeira paternidade com o menino. Era melhor assim. Melhor um pai morto que o amava do que ele saber que era a descendência de um homem monstruoso e cruel.

— Venha, meu amor, está na hora de ir — disse, e começou a se afastar. Parecia cruel simplesmente deixar Doug para trás, mas tinham que fazer isso. Doug morreu e não fazia sentido fingir que não era verdade. De certa forma, a morte dele tinha sido um ato de misericórdia. A doença tinha sido cruel no final, e agora ele não sofria mais.

Precisava abrir a loja. Ela tinha ficado fechada com muita frequência nestas últimas semanas. Contando os gastos com o funeral, as finanças tinham sofrido um golpe expressivo.

A carruagem de aluguel esperava por eles, conforme foi pedido, e os levou embora do cemitério. Foi um longo trajeto até Holborn e eles foram em silêncio. A chuva praticamente escondia a cidade. As ruas estavam vazias e grande parte do barulho tinha se calado. Era um clima que favorecia o pesar. Era quase como se toda a cidade estivesse sofrendo a perda de um homem amável.

Suspirando, Sophie puxou o filho para si. Eles ficariam bem. Tinham a loja, os quartos e dinheiro suficiente para a educação de Alfie. Não havia nada de que estivessem necessitando. Eles só seguiriam em frente.

A carruagem de aluguel os deixou em frente à loja, e Sophie tirou a chave de bronze da bolsa reticule e destrancou a porta. A saia preta molhava o chão de tábua corrida enquanto ela e Alfie entravam. Alfie foi correndo para os fundos, em direção ao recanto onde ele gostava de ficar. O pesar o deixara perdido e, por vezes, ele precisava ficar sozinho.

Ela desprendeu o chapéu e o colocou no cabideiro e então foi até a porta para virar a placa de “Fechado”. Não haveria muitos clientes naquele dia, mas ansiava por um pouco de normalidade e estar na loja era o mais próximo de normal que conseguiria.

Pegou a vassoura e varreu o chão, depois tirou o pó das partituras. Havia instrumentos pendurados nos ganchos ao longo das janelas. Era uma loja iluminada, situada em uma esquina. No inverno era muito frio por causa do grande número de janelas: era o preço que tinha que pagar pela luz, mas Sophie preferia que fosse assim.

 

*

 

— Está tudo em ordem, Sra. Duthie — disse o Sr. Lawrence, de pé, com seu terno escuro, atrás da mesa de mogno do seu enorme escritório mal iluminado. Sophie nunca gostou do lugar. Tinha passado muito tempo ali cuidando de assuntos desagradáveis. O advogado a tinha auxiliado quando o pai morreu, com o casamento e o divórcio, e agora com a morte do segundo marido. — A senhora só precisa assinar aqui.

A crinolina do traje de luto se moveu quando ela se inclinou para assinar o documento com a pena de metal que o Sr. Lawrence tinha lhe oferecido.

— Está tudo certo. A loja e tudo o que há lá dentro são seus, desde que pague o aluguel em dia.

O Sr. Lawrence tinha a tendência de dizer o óbvio, como se ela nunca tivesse pensado que teria que pagar o aluguel; aparentemente, nunca ocorreu a ele que ela vinha pagando todas as despesas da casa nos últimos seis anos.

— Obrigada, Sr. Lawrence — disse, ainda grata ao homem, pois ele tinha oferecido seus serviços a um preço diferenciado devido às suas atuais circunstâncias. A piedade do homem tinha sido despertada quando lorde Aberley se divorciou dela e ele a manteve como cliente mesmo quando ela praticamente não tinha como pagá-lo.

Ele deu um sorriso forçado enquanto pegava o documento.

— Está livre para se casar novamente, caso for do seu desejo, e de acordo com as suas instruções, seu filho agora é o principal beneficiário do seu testamento no caso de alguma calamidade vir a acontecer com a senhora. — O testamento tomava também providências para o cuidado dele. A vida lhe ensinou que ela precisava ser precavida no que dizia respeito aos cuidados das pessoas. Por vezes demais se viu esbofeteada pelos propósitos que outras pessoas tinham para ela.

— Não, não quero mais saber de maridos — disse com um sorriso contrito.

O Sr. Lawrence piscou. Ele não entendia que uma mulher escolheria reduzir as chances e limitar a renda em vez de preferir os cuidados providos por um marido.

— A senhora é ainda muito jovem.

— Não me sinto tão jovem neste momento.

— Tenho certeza que com o tempo virá a pensar de outra forma.

Ela duvidava, mas não havia por que dizer isso ao Sr. Lawrence. Para ele, como para muitas pessoas, um marido era o único meio de subir na vida, e de conseguir cuidados. Mulheres solteiras, e viúvas, eram apenas um aborrecimento para a sociedade.

Neste momento, para ela, as coisas eram diferentes. O estigma do divórcio já não existia mais, era bem melhor ser viúva do que divorciada.

— Muito obrigada pelos seus serviços, Sr. Lawrence. Como sempre, o senhor foi inestimável.

O homem sorriu. Mesmo sendo pomposo e arrogante, ele tinha um bom coração e ela era o receptáculo da caridade dele.

— É melhor eu voltar para Alfie.

— Sim, é claro. — O Sr. Lawrence também era uma das poucas pessoas que sabia que Sophie estava grávida antes de se casar com Doug Duthie. E Doug, sendo a alma perdida e solitária que era, não teve ninguém para notar ou comentar que o filho da esposa tinha nascido bem antes.

Foram de estranhos a um casal que desfrutou da paternidade juntos. O leito conjugal só se tornou um lugar para dormir à medida que a doença de Doug piorava. Sophie tinha aceitado. Mas aquilo afligia Doug ainda mais, mas não havia muito o que ele pudesse fazer para remediar a situação.

Despediu-se do Sr. Lawrence e saiu do escritório esperando que levasse um tempo até que precisasse vê-lo novamente. O homem ainda estava aborrecido pela recusa direta de lorde Aberley de prover qualquer suporte a ela depois do divórcio, mas Sophie estava resolvida a não aceitar o dinheiro, ou qualquer outra coisa, dele. Aquela foi uma época de sua vida que preferia esquecer.

Por um curto período, teve ao seu alcance todos os meios, cada luxo do mundo, mas aquilo não a fazia feliz. Era muito jovem e esperançosa na época, não entendera que lorde Aberley não era um príncipe que saíra dos contos de fadas para levá-la a uma vida bela e luxuosa. A verdadeira face do seu casamento só ficou clara para ela depois do divórcio. Lorde Aberley não tinha se casado com ela por livre e espontânea vontade. O intenso ódio que ele sentia por ela ficou logo aparente. Na maior parte do tempo, ele simplesmente se recusava a notar que ela estava lá.

Ainda não sabia os detalhes do acontecido, mas lorde Aberley se casou sob coação, e pouco depois de a irmã dele morrer no parto, ele abriu o pedido de divórcio. Era óbvio que havia algum elo entre esses acontecimentos.