A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 17 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 17

 

Na primeira noite, Sophie chorou de um jeito que nunca tinha se permitido chorar. Nos dois anos que antecederam a morte de Doug, ela tinha lamentado a tragédia que estava por vir, sabendo que ela viria aos poucos e seria implacável, mas não tinha se permitido prantear. Doug precisava que ela fosse forte, e então naquele dia horrível quando Doug morreu, Alfie precisava que ela fosse forte. Nunca tivera privacidade para chorar, para abrir mão daquela angústia que sentia por tanto tempo.

Pela manhã, sentiu-se drenada de tudo. Todo o temor e mágoa haviam sido lavados pelas lágrimas, e ela sentiu que não havia mais nada.

Alfie era muito mais resiliente, estava tão animado para explorar essa casa enorme e interessante. Cada canto e recanto tinha algo que interessava a ele.

De alguma forma, ele entendia que havia algum laço entre ele e lorde Aberley, mas Sophie não sabia se ele entendia exatamente o que aquilo significava. Esta casa seria dele algum dia. Tinha sido um lugar onde ela tinha sido extremamente miserável, mas será que aquele seria um lugar de felicidade para ele? Gostava de pensar que sim.

Doug voltou à sua mente. Precisava deixá-lo ir, ela precisava aprender a voltar a viver. A morte esteve caminhando ao lado dela, paralisou-a por muito tempo. A morte dele tinha sido um ato de misericórdia no final, um alívio de todo aquele sofrimento. Era o que parecia ter sido e era quase estranho que eles não estivessem se afundado sob aquele peso. Talvez fosse bom eles terem finalmente terminado aquele capítulo. Doug não existia mais, a loja não existia mais, nem o lugar onde eles moravam. Doug devia estar feliz. Ele tinha pedido, com fervor, que ela seguisse em frente e se lembrasse dele com carinho. Ele tinha falado daquilo tantas vezes que a tinha aborrecido e afligido, mesmo ela sabendo que era algo que ele precisava fazer.

A morte era um processo difícil e custoso. O pai que ela tinha perdido rapidamente: um momento ele estava lá, e no próximo, não. Todo tempo ela não conseguia se obrigar a pensar no que tinha acontecido e para onde ele tinha ido. Mas foi muito diferente com Doug.

Mas ela tinha sobrevivido a isso; os dois tinham. E agora ela precisava viver. Estava livre, só precisava saber como. Óbvio, era difícil imaginar uma vida já que agora era prisioneira de um homem que a odiava. Não importa o quanto lutara, de nada adiantou. Era meio que como a morte, não dava para lutar contra.

 

*

 

Sophie jamais pensou que estaria de volta na sala de jantar da casa de lorde Aberley, mas aqui estava ela sentada pacientemente à mesa, mais uma vez se vendo na posição em que esperava a chegada de lorde Aberley.

As paredes cobertas por seda e os candelabros com velas não tinham mudado. Na verdade, nada na casa tinha mudado desde que ela tinha ido embora. Talvez se sentisse melhor quanto a estar ali se algo tivesse sido alterado desde aquela época, mas nada parecia diferente, exceto o fato de ela não estar no mesmo quarto que antes, o que tinha uma porta entre o quarto dela e o dele.

Como era jovem da última vez que estivera ali, embora tivesse percebido naquela época que sua senhoria não tinha muito respeito por ela, nem estava animado por tê-la ali. Havia dias nos quais ele jantava com ela em casa, mas tinha ficado sozinha naquela sala mais vezes do que podia lembrar. A vida de casada não tinha se tornado nada parecida com o que ela esperara.

Naquela época, ela não tinha entendido o quão relutante ele estivera com aquele casamento. Em retrospectiva, ela talvez pudesse ter compaixão da situação em que ele estivera.

Sentada ali agora, Sophie imaginou se não seria melhor jantar com Alfie no quarto das crianças, mas o Sr. Smyth informou que sua senhoria esperava a sua companhia para o jantar às sete. O relógio sobre a cornija da lareira mostrava que dois minutos já tinham se passado, e ele não estava ali.

Ouviu um leve som de passos se aproximando e soube que era o Sr. Smyth, e não lorde Aberley. Até mesmo agora, em algum lugar da sua mente, ela sabia a diferença entre os passos deles. O Sr. Smyth apareceu.

— Boa noite, Sra. Duthie.

— Sr. Smyth — disse ela, com um sorriso amarelo. — A sua senhoria pretende jantar esta noite? — Era verdade que tinha esperado que ele tivesse mudado de ideia, porque parecia que ele estava fazendo daquele jantar uma prioridade. Mas não sabia por que ele quereria aquilo.

O segundo som de passos se aproximando era definitivamente de lorde Aberley. Ele não andava sem fazer barulho. Aquela era a casa dele e ele caminharia do jeito que achasse melhor. Quando ele apareceu à porta, Sophie sentiu um nó no estômago. Por que ele tinha insistido para que eles jantassem juntos? Era óbvio que ele não queria a companhia dela. Eles mal tinham sido civilizados no jardim naquela tarde. Ela até mesmo chegou ao ponto de dizer que não tinha inclinação para as boas maneiras e as falsidades que se passavam em cenários como este.

Ficou triste ao se lembrar dos jantares em família com Doug, onde eles só se sentavam juntos e conversavam sobre música e sentimentos. Parecia ter sido há tanto tempo, e se entristecia ao pensar que Alfie talvez não se lembrasse daquelas noites quando crescesse, porque Doug tinha ficado cada vez mais doente, e, por fim, tinha sido obrigado a comer na cama.

O Sr. Smyth teve a consideração de guiá-la até o meio da mesa, e não para a outra cabeceira, onde ela costumava se sentar. Era uma clara demonstração de que ela tinha sido rebaixada, não que se importasse. Não sentia falta de ser a senhora daquela casa, nem tinha aspirado por isso.

— Fiquei surpresa pelo seu desejo de que eu jantasse com o senhor. Eu ficaria muito feliz jantando lá em cima.

Lorde Aberley colocou o guardanapo no colo e finalmente olhou para ela com aqueles olhos azuis da cor do gelo. A pior parte do seu rebaixamento era que agora ela sentava muito mais perto dele, o que não acontecia quando ficava na outra cabeceira.

— Senti que era importante estabelecer este precedente por causa de Alfred. Não é apropriado que a mãe dele jante no quarto das crianças. Adultos fazem a refeição na sala de jantar.

Sophie não sabia o que dizer, sentia-se como se estivesse sendo repreendida, como se ele estivesse lhe informando que ela não estava criando o filho do jeito certo. Todas essas regras sem sentido onde todo mundo era colocado no lugar e mantido lá era algo contra o que lutava.

— Quanta consideração da sua parte — disse ela entredentes, escondendo o sarcasmo. Este homem estava criando Alfie para ser um cavalheiro e talvez ela devesse só se conformar com isso, porque lorde Aberley não iria ceder.

A sopa foi servida, um delicado caldo de carne com vegetais. Este tipo de comida era tão diferente da refeição simples que eles normalmente faziam. O cozinheiro de lorde Aberley sempre tinha sido excelente, e ele nunca poupava nos ingredientes.

O silêncio era estranho. Não tinham nada sobre o que falar. Era quase doloroso sentar lá, tentando sorver a sopa sem fazer um único som. Mas também era embaraçoso que ela conseguisse não dizer uma única palavra, qualquer que fosse. O que havia para falar? Eles não tinham nada em comum, talvez exceto o irmão dela, quem tinha sido liberado da prisão. Agora, aquele seria um ótimo assunto.

— As rosas no seu jardim devem florescer em breve — finalmente conseguiu dizer.

— Irão? Não estou a par do ciclo de vida das rosas. Na verdade, não tenho ideia de como elas foram parar lá.

— Eu as plantei.

— Oh, certo. Bem, pode ficar à vontade para fazer o que quiser com elas.

Com um sorriso tenso, ela imaginou como deveria interpretar aquela declaração. Deveria agradecer por ele ter lhe dado a liberdade para cuidar de rosas que ele sequer notou estarem lá?

— Você pode, é claro, ficar à vontade para plantar o que desejar em Sommerfield. O jardim é daquela forma desde quando consigo me lembrar.

— Na verdade, não sou muito inclinada às plantas. Eu as plantei porque pensei que era o que eu deveria fazer. Desde então, desisti de qualquer pretensão à jardinagem.

— Então o jardim permanecerá do mesmo jeito que sempre foi. Os jardineiros têm habilidade o bastante para mantê-lo. Há um lago que será muito bom para Alfie nadar no verão, caso ele queira. Ele sabe nadar?

— Tivemos pouca oportunidade para isso. Pegamos o trem para Brighton uma vez, mas estava frio demais para nadar. O ar marinho era... benéfico. — Por que ela estava falando daquilo? Não era melhor eles ficarem em silêncio?

— Ele terá que aprender a nadar, é claro — disse lorde Aberley, indiferente.

A carne assada foi servida. O cheiro estava maravilhoso e ela foi acompanhada por um molho escuro e encorpado. Mais uma vez, eles comeram em silêncio, só os passos suaves do Sr. Smyth podiam ser ouvidos.

Lorde Aberley pigarreou quando terminou.

— Normalmente eu não como sobremesa, então não há nada no cardápio, mas no futuro a senhora pode ficar à vontade para informar ao cozinheiro caso queira comer algum doce.

— Não, assim está bom. Acho que não posso comer mais nada. Estava delicioso. Sr. Smyth, por favor, informe ao cozinheiro.

O homem sorriu.

— A senhora se juntará a nós no salão? — ele perguntou a ela.

— Sim — intrometeu-se lorde Aberley. — Acho que é o melhor. — Oh, que maravilhoso, esta farsa duraria ainda mais tempo. — Como eu disse, devemos agir com tanta normalidade quanto for possível. As pessoas aprendem as regras de etiqueta em casa.

— Não tinha percebido que o senhor era um ativista da causa. — Talvez não devesse ser uma surpresa. Quando esteve lá antes, ele sempre se agarrava à mais básica das regras de etiqueta. Mas naquela época ele ficava quase que o tempo todo fora de casa.

Levantando-se do assento, ele esperou que ela o seguisse. Havia realmente uma razão para fazer aquilo? Alfie estava lá em cima.

Com um sorriso forçado, ela foi em direção ao salão. Era desconfortável lorde Aberley estar atrás dela, onde não podia vê-lo. Não que achasse que ele fosse atacá-la, mas ainda assim era desconfortável. Eles se sentaram em sofás opostos em frente à lareira. Sophie observou o fogo estalar por um tempo. No meio do inverno, seus quartos ficavam tão frios que eles podiam ver a respiração se condensando. Temia por Doug naquelas noites. Lorde Aberley mantinha essa casa quente do amanhecer ao anoitecer.

— Aceita um cálice de xerez? — o Sr. Smyth sugeriu.

Sophie sorriu e fez que sim. Um drinque e então pediria licença. Respirando fundo, ela mediu o homem sentando em frente a ela.

— Eu senti muito quando fiquei sabendo da morte da sua irmã. — Só ficou sabendo do acontecido durante o divórcio e ela nunca teve a chance de dar as suas condolências.

Lorde Aberley ergueu a sobrancelha.

— É mesmo? Foi esse o motivo da sua ruína. — E fácil assim eles escaparam dos limites da conversa educada. Ao que parecia, este exercício de etiqueta só se aplicava quando convinha a ele.

— Não foi a minha ruína. É surpreendente, mas acho que ambos podemos concordar que o resultado foi muito bom para nós dois.

— Eu perdi seis anos da vida do meu filho.

Sophie conseguiu não estremecer quando tentou pensar em como teria sido passar os últimos seis anos ali; e nunca ter conhecido Doug.

— Bem, eu tentei informar a você. Eu até cheguei a vir a esta casa, mas fui dispensada.

— A senhora estava banida. Mas não se empenhou muito. — Também não era assunto para uma conversa educada.

— Não, suponho que não — admitiu. Ela tinha feito uma tentativa, e quando viu que não lhe permitiriam a entrada, não tentou mais. E quando Doug concordou em se casar com ela, ela meio que concluiu que ele seria o pai e eles formariam uma encantadora família pequena. Ele ter concordado com os arranjos fez com que fosse possível. O tempo que passou naquela casa não era algo que queria recordar.

— A senhora não acha que me devia isso?

— Dada a forma como fui tratada, não pensei que o senhor fosse se importar.

Ele a observou, inexpressivo. Talvez tenha sido um erro não informar a ele. Era uma culpa com a qual teria que conviver.

— Eu encontrei felicidade e formamos uma pequena família. Esperei que o senhor fosse voltar a se casar. Por um tempo eu até entendi que o senhor estava disposto a fazer exatamente isso.

— Não deu certo. Aparentemente, ela encontrou um título melhor.

— Oh. — Sophie não sabia. Aquilo parecia meio mercenário. — E além do mais, o divórcio deixou muito claro qual era a opinião que tinha sobre mim. Eu não iria impor meu filho ao senhor.

— Eu não tenho o hábito de culpar uma criança pelos pecados de seus pais.

— Fico feliz por saber disso, porque o senhor certamente me culpou pelos pecados do meu irmão, e me puniu; várias vezes, na verdade.

— Eu a aceitei sob coação, e então a senhora teve a audácia de manter o meu filho afastado de mim. A senhora não podia estar esperando que eu simplesmente desistisse, podia?

— Francamente, eu tinha essa esperança.

Ele a encarou, mas ela não conseguiu saber o que ele estava pensando. Nunca foi muito boa em ler as expressões dele. Havia uma frieza praticada que ele usava para esconder o que sentia. De início, ela tinha acreditado que não havia sentimentos, mas nas últimas semanas, ela tinha visto aquele exterior frio rachar uma vez ou duas. A raiva e o desdém tinham levado a melhor sobre ele.

— Parece que nenhum de nós está preparado para desistir.

— Não — concordou ela, encarando-o da mesma forma que ele fez com ela.