A Esposa Desprezada
Capítulo 39
Tristan não podia fazer nada além de andar para lá e para cá. A igreja estava fria, mas o lugar não ficava aquecido nem mesmo nos dias mais quentes do verão. Alfie estava com ele, vestindo o seu pequeno terno. Não era tão formal quanto Tristan teria desejado. Apesar de parecer lógico agora, este casamento não tinha sido premeditado. Mas Alfie estava com ele, então não havia muita chance de Sophie simplesmente fugir.
Com o passado deles, o aparecimento dela no altar hoje não era algo que ele dava por garantido, mas precisava que ela estivesse. Havia um desconforto sobre não ter resolvido isso, como se um medo latente esperasse que tudo fosse dar errado. Talvez porque, no passado, foi o que aconteceu.
Dito isto, ele estava muito mais nervoso dessa vez do que da primeira que esteve no altar esperando por ela. Estivera fumegando de ódio naquele dia, embora tivesse feito um trabalho muito bom escondendo aquilo.
Virando-se de repente, ele voltou para o lugar de onde veio. O vigário estava de pé com a sua estola, esperando pacientemente. Como aquele homem conseguia lidar com casamentos com tanta frequência? Era desesperador.
Alfie também parecia nervoso, o que não era a intenção de Tristan, então ele foi até o menino e se abaixou.
— Você entende o que está acontecendo hoje?
— Você e a mamãe vão se casar — disse ele.
— Isso mesmo. Eu serei marido dela e ela será a minha mulher, e nós seremos uma família. Como deve ser.
— E quanto ao Doug?
— Bem, o Doug cuidou de Sophie quando eu não estava lá para fazer isso. Eles foram casados, porque Sophie e eu não podíamos estar. Não entrarei em detalhes. E, como você sabe, Doug estava muito doente e faleceu. Ele era um bom homem e sempre haverá um lugar para ele em seu coração, e no de sua mãe. — Na verdade, ele queria muito arrancar aquela parte e jogá-la longe, mas aquele não seria um gesto maduro, e tanto Sophie quanto Alfie precisavam que ele respeitasse Doug Duthie e o papel que ele teve em suas vidas. — Mas agora nós vamos nos casar, porque nós também nos amamos. Pode não ter sido sempre assim — disse ele com uma risada, — mas nos amamos. E talvez se o seu pai não fosse tão cabeça dura, ele teria percebido esse fato muito tempo atrás. Você acha que devemos nos casar?
Para o alívio de Tristan, Alfie fez que sim. Para um menino de seis anos, talvez fizesse sentido que o pai e a mãe fossem casados. De certa forma, era Alfie quem a estava entregando agora, e ele pareceria feliz em fazer isso.
— Eu também acho. Irei tratá-la tão bem quanto puder, melhor, tão bem quanto ela me permitir. Porque quando sua mãe não está feliz, todos nós ficamos sabendo, não é?
Alfie fez que sim novamente, e Tristan pegou a mão dele e eles esperaram enquanto o cascalho fazia barulho lá fora. Ela tinha chegado. O alívio e a esperança o invadiram. Para ser sincero, ele não amava essas emoções que tomavam conta dele só por pensar nela, mas era bem melhor estar com ela do que sem ela. Uma questão de necessidade, foi o que pensou. Agora que ele teve permissão para entrar no corpo e no coração dela, não havia outro lugar onde precisasse estar.
Era um salto de fé da parte dela. Ela estava se colocando aos cuidados dele, ao poder dele, e ela não tinha outra razão para fazer isso a não ser por vontade. Era uma honra e um privilégio que ele reconhecia. E talvez pelo fato de ela poder estar gerando o próximo filho deles naquele momento. A satisfação o acalmou. Ele foi de dispensá-la a precisar dela muito rápido, talvez não tivesse sido assim, porque se livrou de uma dor que sentia e que nunca tinha conseguido identificar. Ela parecia estar em seus ossos, mas jamais a reconheceu porque nunca soube que as coisas poderiam ser de outra forma.
Minette apareceu primeiro com um sorriso animado. De certo modo, ela era a responsável por este desenlace. Tristan não via as coisas desse jeito, mas não viu problemas em permitir que Minette levasse o crédito. A amiga gostava e lutava por Sophie, e aquilo o deixava feliz. Atrás dela, Sophie apareceu usando um vestido azul claro de brocado de seda. Era esplêndido. Minette tinha escolhido bem.
Olhos claros o receberam. Ela estava tendo dúvidas? Não parecia o caso. Ela sorriu para ele. Céus, ela era linda, e parecia uma lady: lady Aberley. Como ele pôde tê-la dispensado do papel quando ele se encaixava tão bem nela?
O reverendo Narstop pigarreou enquanto Sophie se juntava a Tristan, colocando a mão sobre as dele. Era isso, eles estavam se casando. Eles seriam uma família de verdade, em todos os sentidos da palavra.
No passado, tinha temido isso, fugido; temendo o poder que ela teria sobre ele. Porque ela tinha. A dor dela, o descontentamento dela, era algo que agora ele sentia profundamente. Era assustador, mas o prêmio superava o risco. Aquilo não era exatamente uma escolha. Não podia se imaginar voltando a ficar sozinho, sendo mantido longe da cama dela.
Eles brigariam, e fariam isso bastante, mas fariam as pazes.
Os olhos dela estavam claros enquanto olhavam para ele. Ele mal ouviu as palavras que o vigário estava dizendo. Só disse sim quando precisou e então colocou o anel no dedo dela. Tinha pertencido a algum familiar, mas agora era dela. O anel com o qual se unia a ela.
Não achara um anel que servisse nele. Teriam que comprar um em algum lugar, mas a ligação que ela tinha com ele nunca dependeria de um pedaço de metal.
E então estava feito. Eles eram marido e mulher. Tinha tudo transcorrido bem, nada de mal aconteceu. Ela era dele. O alívio percorreu o seu corpo.
— Parabéns — disse Minette enquanto Sophie se movia para pegar Alfie. — Acho que isso é simplesmente perfeito. Imagine todo o tempo que você desperdiçou. Se ao menos você a tivesse visto pelo que era desde o início.
— Acho que eu não estava pronto.
— Não, talvez não estivesse. É muito melhor quando um homem se casa por amor. Isso me apraz. Eu queria ver meu amigo assentado e feliz.
Tristan só podia esperar que eles fossem felizes. Ainda havia um risco de as coisas darem errado, mas nada de bom era conseguido sem algum risco. Sabia disso. Mas nunca tinha se aventurado em algo que tivesse tanto em jogo: seu coração. Talvez aquela fosse a coisa mais assustadora que já tinha feito, mas precisava confiar nela, não havia outra coisa a se fazer. Se tudo desmoronasse, aquilo iria destruí-lo e ele teria que aceitar.
— Bem, então — disse Minette. — Acredito que meu trabalho aqui esteja concluído. Preciso voltar para Londres e ver o que está sendo feito do meu marido. Eu também posso ter que regalar Cecilia com este conto. Por baixo da bravata, ela não parecia muito satisfeita. Eu não pensaria que os desejos de felicidade dela sejam sinceros.
— Eu não dou a mínima para Cecilia.
— Cuidarei dela, caso ela tente algo calamitoso. Acredito que ela tenha essa propensão.
Por muito tempo, ele tinha ficado descontente por Cecilia ter se recusado a casar com ele, mas olhando para trás, não podia sequer imaginar o inferno que aquele casamento teria sido.
Sophie estava colocando Alfie na carruagem e Tristan foi ajudar tanto ela quanto Minette a subirem. Eles tinham uma festa planejada, um tipo de recepção, mas não tinha convidado ninguém das redondezas. Não houve tempo. Então planejaram algo simples onde até mesmo a criadagem tinha sido incluída. Pouco convencional, mas tudo sobre eles era pouco convencional.
Vendo a carruagem partir, ele montou em seu cavalo e a seguiu. Poderia até dizer que agora ele via a propriedade com outros olhos. Tinha sido uma fonte de renda, mas de outra forma, era um aborrecimento: um lugar preenchido com más memórias, mas agora era o lar e a fortaleza da sua família. Era a força e a privacidade deles. Sophie poderia nunca apreciar Londres ou a sociedade a qual Minette com certeza iria apresentá-la. Talvez eles tivessem que ser uma dessas família que estavam sempre enfurnadas em sua propriedade do campo. Tristan nunca entendeu a inclinação que alguém tinha para se isolar dessa forma, mas agora entendia.
As damas desembarcaram da carruagem e entraram, mas Tristan notou alguém se aproximando em um fiacre; não era a carruagem de Narstop, quem estaria vindo para a comemoração em breve. Ele não queria ninguém vindo para a casa, mas, definitivamente, alguém se aproximava.
Tristan apeou quando a carruagem estava perto, e saiu de lá um homem mais velho com os cabelos grisalhos e o rosto avermelhado. Um homem que Tristan não tinha visto antes.
— Lorde Aberley? — perguntou o homem, saindo da carruagem. — Sou o Sr. Veech. Acredito que o senhor esteja me esperando.
— Certo, sim — disse Tristan com um sorriso. Tinha esquecido completamente que este homem estava vindo. Olhou-o com curiosidade, considerando-o. Perfeitamente pouco atraente. Ótimo. — O senhor chegou em uma ocasião bastante auspiciosa, e de certa forma, infeliz.
— Oh, minha nossa. Espero que não — disse o homem com preocupação. Pela cara dele, ele não fez uma boa viagem.
— Eu me casei hoje, veja bem.
— Neste caso, o senhor tem as minhas mais ferventes congratulações.
— Por favor, junte-se à comemoração, e eu irei lhe apresentar, mas o fator mais relevante é que Alfred está vindo para a lua-de-mel conosco. Mas o senhor é bem-vindo a ficar e se acomodar. Ficaremos fora por alguns meses.
Veech piscou e pareceu confuso enquanto Tristan o encorajava a entrar na casa. Então, ele simplesmente se resignou. Seria um início tranquilo para o emprego dele ali, mas ao que parecia, o homem poderia muito bem cochilar na biblioteca por alguns meses, talvez mais.