A Esposa Desprezada
Capítulo 7
Saber que lorde Aberley estava a par da existência de Alfie era desconfortável. Uma ansiedade persistente tinha abalado a paz que ela finalmente sentia depois de ter superado a angústia e a preocupação que fizera parte de sua vida por tanto tempo. Agora isso. Só conseguiu umas poucas semanas de paz.
Às vezes, Sophie imaginava se o mundo a odiava. E pensar que ele faria uma oferta para que ela vendesse o filho. Era um absurdo, porém era uma representação perfeita daquele sujeito. Apesar de ter sido angustiante na época, o divórcio foi o maior favor que aquele homem fez para ela. Por que ele não podia simplesmente ficar longe da vida dela?
Tirando a panela do fogo, ela serviu o rico ensopado nas duas tigelas que estavam sobre a mesa. O pão estava fresco e macio. Era uma ótima refeição e Alfie estava entretido com a lousa que tinha sido emprestada pela escola.
— E como é o professor? — perguntou ela enquanto se sentava. Conhecera o Sr. Proctor quando foi matricular Alfie. Ele não era um homem dado aos sorrisos, mas tinha uma boa reputação em educar garotos.
— Rígido.
— Neste caso, é melhor você fazer o que ele pede. — Ela tinha alguma experiência com professores rígidos. A Escola de Sandra Lawry para Moças tinha uma diretora que aplicava severas reprimendas até mesmo para as menores das infrações. Era uma boa escola para meninas que vinham de família respeitáveis. Mas, com a morte do pai, sua vaga lá foi rapidamente cancelada. O único dia que a diretora Sandra Lawry foi bondosa com ela tinha sido o dia em que a sua matrícula fora revogada. Sophie ainda era agradecida pelo tato que a mulher demonstrou. Tinha sido uma pequena gentileza em um período realmente difícil.
Tão pouco da riqueza era possuída pela pessoa que tinha feito algo realmente relevante para merecê-la. Era pura sorte, na maior parte do tempo, tudo dependia da família em que se nascia, e também ao fato de o provedor continuar vivo. Perder a fortuna era algo muito recorrente. Bem, isso nem sempre era verdade, mas pelo que Sophie sabia, a riqueza dificilmente tinha a ver com a pessoa que a possuía.
Uma pena que nem todo mundo pensasse assim. Olhou para o filho, ergueu a mão e afastou o cabelo negro da testa dele. Ele parecia tanto com o pai, mas não deixaria esse menino encantador se tornar frio e indiferente como ele. Era pedir demais. Lorde Aberley teria que procurar um herdeiro em outro lugar.
O fato de ele não ter casado realmente a surpreendeu. Assim que se livrou dela, e da sua péssima origem, por que ele não encontrou uma mulher adequada e da mesma classe social que ele? Lorde Aberley era um homem rico e bonito, e provavelmente havia muitas mulheres dispostas a fazer vista grossa para a frieza dele em troca dos privilégios que ele ofereceria. Ou melhor, havia muitas mães que o veriam como um bom marido para suas filhas. Ainda assim, por algum motivo, ele permaneceu solteiro.
Podia-se dizer que ele não estava pronto para ser um marido quando se casou com ela, seja qual fosse a razão que o irmão usou para forçá-lo ao casamento. Assim como ele não estava pronto para casar agora já que estava querendo fazer de Alfie o seu herdeiro em vez de ter o próprio filho com uma esposa, o que lhe parecia uma solução muito mais razoável.
— Hora de dormir — disse ela enquanto terminavam de comer. O assento duro do sofá-cama no canto da cozinha se levantou revelando um colchão macio e Alfie vestiu o pijama e foi para a cama levando o giz e a lousa. O fogo o manteria aquecido durante a noite e a luz banharia o aposento até bem depois que ele dormisse.
— Boa noite, meu homenzinho — disse ela, e o beijou na testa. — Não comece a escrever agora. Se eu ouvir sons de rabisco, vou tomar a lousa de você.
Alfie colocou o objeto na mesinha ao lado do sofá-cama, mas ela suspeitou que ele fosse pegá-la assim que ela entrasse no quarto.
Dando um último olhar severo, saiu da cozinha e entrou no quarto onde a cama ocupava uma parede inteira. O cômodo não tinha lareira, então era bem frio. Não se deu ao trabalho de acender uma vela, preferiu fazer uso da luz da lua enquanto se despia e então se deitou na cama fria. Suspirando, ficou de costas e olhou para teto. Como sentia falta de Doug ali. Era só ela agora e a cama parecia que nunca mais ficaria quente.
*
O dia não começou bem. Alfie estava mal-humorado e cansado, e Sophie percebeu que tê-lo deixado com a lousa tinha sido um erro. Ele estava com uma determinação de aprender as letras que não o permitia parar. Aquela característica não viera dela, aquela obstinação em realizar uma tarefa assim que a visse. E agora ele estava sofrendo por causa da teimosia que o manteve acordado e treinando muito depois de ela ter se retirado.
— Não cause problemas ou você correrá o risco de ser apresentado à bengala do Sr. Proctor.
— Sim, mamãe. — Até mesmo naquela frase ela pôde ver que ele estava sem paciência nenhuma. Por um momento imaginou se deveria levá-lo para casa, mas decidiu que ele precisava lidar com as consequências de suas ações.
— Você está cansado e por isso está impaciente. Você precisa se controlar hoje, ou arrumará problemas. É por isso que não deve ficar acordado até tarde. Essa é a consequência e agora você precisa lidar consigo mesmo e com o seu cansaço.
Alfie fez que sim e correu para o portão da escola. Tão ansioso para aprender e dominar todo o conteúdo. Com um sorriso, Sophie se afastou e seguiu para a loja. Era uma curta caminhada de cinco minutos. Um carrinho espirrou lama na saia de Sophie e ela amaldiçoou baixinho. A principal tarefa da manhã seria limpar a lama da saia.
A loja ainda estava silenciosa. O tempo nublado que fazia naquela manhã sugeria que aquele seria outro dia sem movimento. As janelas faziam com que não estivesse escuro o suficiente para que fosse necessário acender qualquer tipo de luz, mas ainda assim a loja parecia sorumbática.
Começou a cair uma chuva fina lá fora, o que só serviria para deixar as ruas ainda mais lamacentas. Os vendedores se amontoavam sob as marquises e os clientes corriam para as suas casas. Sophie foi para os fundos da loja para limpar a lama da saia, mas foi interrompida quando a sineta da porta tocou. Um cliente tinha entrado.
Largando o pedaço de trapo, Sophie foi em direção à frente da loja e viu a sombra do homem parado no meio da loja. Mesmo antes de vê-lo, sabia que era ele: lorde Aberley. Foi o cheiro que secretamente lhe contou que era ele quem estava lá ou foi apenas a frieza que emanava dele?
Por alguma razão, ele tinha saído de Belgravia logo de manhã para ir até lá, e só podia ser por uma razão. Ele não aceitou a rejeição da proposta.
Parando onde estava, ela imaginou se deveria simplesmente voltar para onde estava, mas ele sabia que ela estava lá. Ele sempre foi grande desse jeito? O homem parecia ocupar grande parte da loja. A capa escura que estava sobre os ombros dele o fazia parecer ainda maior e mais ameaçador.
— Lorde Aberley — disse ela com um sorriso que não alcançou os olhos. — Que surpresa vê-lo. Presumo que você não esteja aqui para falar sobre apetrechos musicais. — O que ele não estava. A música não tinha importância para ele, até onde sabia nunca o tinha tocado ou inspirado de alguma forma.
— A senhora sabe muito bem por que estou aqui — disse ele, a voz profunda e decidida com aquele sotaque das classes mais abastadas que ela tinha ouvido quando o viu pela primeira vez no dia do casamento deles.
— O Sr. Lawrence não o informou que a minha resposta é não?
— Parece que a senhora continua sendo a mesma criatura irracional de antes.
— Sim, bem, foi um prazer vê-lo. As ruas estão um pouco enlameadas hoje, então é melhor o senhor voltar para Belgravia o quanto antes.
— Ele é meu filho.
Sophie não disse nada, pressentindo que o Sr. Lawrence deveria tê-la aconselhado caso algo assim acontecesse. Dar a entender que Alfie era filho dele enfraqueceria a sua posição? Era algo que lorde Aberley poderia usar contra ela? Lorde Aberley era esperto e nunca deveria ser subestimado. Ela sabia muito bem disso.
— Ele é meu filho — disse ela por fim.
— Eu darei a ele uma casa grande, a melhor educação e perspectivas tão boas que a senhora não pode nem imaginar.
— Eu já morei na sua casa e não desejaria tal destino a ninguém, que dirá a uma criança.
— A senhora sequer tem fundos suficientes para velas? — disse ele bufando.
— Eu gosto de ficar no escuro — disse ela com as costas retas e o queixo erguido. — Mas para sua informação, tenho fundos suficientes para tudo de que preciso.
Lorde Aberley deu um passo à frente, os passos dele ecoaram pela loja.
— Esta loja — disse ele com desdém. — Parece estar bem movimentada.
— Músicos não costumam acordar cedo. — Ela não gostou da aproximação dele. Era como se ela estivesse com medo dele, ele nunca tinha sido violento com ela, mas ela se lembrava muito bem da censura que emanava dele.
Mas ele não veio em sua direção, em vez disso, ele andou pela loja olhando as mercadorias.
— Você não vai ficar no meu caminho — disse ele finalmente. Até mesmo durante o casamento ela não o conhecera muito bem, mas sabia que ele era cruel até os ossos. Isso se tratava do filho dela e, por ele, ela enfrentaria um urso se fosse necessário.