A Esposa Desprezada

Camille Oster · Capítulo 9 de 43

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A Esposa Desprezada

Capítulo 9

 

Sophie ficou de vigília perto da janela para o caso de lorde Aberley resolver aparecer de novo. Não podia evitar. Não importa o quanto tentasse se concentrar em outras coisas, ela sentia a necessidade de vê-lo chegar. No pouco tempo que passaram juntos, não conseguiu conhecê-lo bem, mas foi o suficiente para saber que ele era persistente.

Sua cabeça dava voltas e mais voltas. Legalmente, ele não tinha direito. Por que o diabo daquele homem não se casava? Pela sua experiência, ele não era um desses eternos solteiros a que alguns se referiam como fogosos, mas talvez ele fosse, ao que parecia era um ato que ele preferia fazer com uma certa quantidade de álcool no sangue. Quem sabe o que ele fez depois que ela foi embora de casa?

Um alarme soou em sua cabeça e ela procurou pelo problema que obviamente tinha visto e a mente estava tentando chamar a sua atenção. Olhando pela janela, ela viu o irmão se aproximando, ele estava usando uma cartola marrom-claro e um terno de cor similar. Oliver costumava se vestir como um dândi quando as finanças permitiam. Era óbvio que ele estava conseguindo dinheiro em algum lugar, porque a roupa parecia imaculada.

Não se atrevia a perguntar o que o irmão fazia por dinheiro.

Por um momento chegou a cogitar trancar a porta e fingir que não estava lá, mas, bem naquela hora, ele olhou para cima e a viu. Um sorriso cândido se espalhou pelo rosto dele. Algo o deixara feliz.

A sineta da porta tocou enquanto ele entrava e Sophie fechou os olhos.

— O que quer que seja, a resposta é não.

— Você ainda nem sabe o que eu vou dizer. — Mas o sorriso ainda mostrava que ele estava excessivamente satisfeito. — Todos os seus problemas foram finalmente resolvidos.

— Não, nada foi resolvido — disse ela inflexível, sabendo agora que lorde Aberley tinha ido procurar o irmão. O que é ainda mais perturbador é Oliver sequer ter pensando em vender Alfie para aquele homem.

— Você nunca vai adivinhar quem eu encontrei ontem à noite.

Ela tinha uma boa ideia. Cruzando os braços, voltou a olhar pela janela e observou os arredores. Vendedores ambulantes elogiavam as suas mercadores, carrinhos e carruagens passavam.

— Eu não vou vender o meu filho — disse ela com tanta rispidez que a voz ecoou na quietude da loja.

— Quem falou em vender? Uma casa fantástica, uma excelente educação, um futuro com mais riqueza do que ele jamais vai precisar. E, é claro, nós também seríamos providos. Ele ofereceu duas mil libras. Não é vender, Sophie. Alfie terá a oportunidade de viver uma vida com a qual nós só podemos sonhar.

— E ser criado por aquele homem. Você sabe como ele é?

— Eu sei que ele paga as contas com bastante generosidade.

— A resposta é não.

— Você não pode dizer isso, Soph. Esta não é uma oportunidade que aparece todos os dias. Só seria melhor se descobrisse que uma tia solteirona da qual nem sabia da existência está lhe deixando a propriedade de herança.

Sophie bufou. Provavelmente era algo com que Oliver vinha sonhando há anos.

— Alfie e eu estamos bem. Eu não o entregarei para ser criado por um monstro insensível.

— Monstro? Do que você está falando?

— Ele é insensível. Não há nenhuma alegria naquela casa. E você — disse ela, brandindo o dedo para ele. — Você não tratará Alfie como se ele fosse seu cofre. Ele não existe para lhe garantir vantagens. Ele é seu sobrinho e você deveria estar preocupado com o bem-estar dele.

— Eu estou. Você é a única que parece não estar interessada no bem-estar dele.

— Por que você é tão encantado com essas pessoas? — Desafiou-o Sophie. — Elas são horríveis. Todas elas. Miseráveis, egoístas e não se importam nenhum pouco com quem magoam. Você está tão cego pelo dinheiro deles que sequer vê a quem está adorando.

— Parece Doug falando — disse Oliver, com indiferença.

— E acontece que eu concordo com ele. — Doug tinha opiniões muito fortes sobre o que era a felicidade e que a riqueza não causava nada além de ganância. — Não permitirei que meu filho seja criado em uma casa gélida com ninguém além dos criados cuidando do seu bem-estar. Eu sou a mãe dele. O lugar dele é comigo.

— Você está sendo egoísta — acusou Oliver.

— Egoísta? — disse ela, aproximando-se dele. — É você quem espera lucrar com o próprio sobrinho. Bem, eu lhe prometo uma coisa: você não vai lucrar à custa de Alfie. Você não conseguirá nada com ele. Eu me certificarei disso, e eu estou pedindo para você sair daqui agora, só por você estar tentando, e não volte mais.

Oliver a olhou como se ela tivesse enlouquecido. Para ele, ela provavelmente estivesse, mas já tinha chegado ao limite com Oliver conduzindo-a pelo mau caminho. Ele nunca tinha boas intenções. Ela tinha sido o trampolim dele para a riqueza e agora ele estava tentando fazer o mesmo com Alfie. O pior era que ele não via, ou não se importava. Todo mundo que não seguia os planos dele era egoísta. Tinha sido assim desde que eram crianças. Se ela não consentisse, ele se recusava a ser irmão dela. Bem, agora era a vez dela recusar.

A sineta soou e a porta bateu enquanto ele saía. Ele estava com raiva. Oliver costumava intimidá-la com aquela raiva com bastante frequência, mas agora ela se recusava a ser intimidada. Sua lealdade era do filho, e talvez já fosse hora de Oliver aprender isso. Era hora de lorde Aberley saber também; e quem mais ousasse tentar manipulá-la. Ela não ajudaria mais nas maquinações de ninguém.

Virando-se, ela olhou para a loja e sorriu enquanto um rapaz entrava. Os calos nos dedos mostrava que ele tocava algum instrumento de corda.

— Olá — disse ela, animada. — Posso ajudá-lo?

Ele estava procurando a canção da qual todo mundo estava falando. Às vezes aquilo acontecia, uma nova canção tomaria a cidade de assalto e ela venderia cópias e mais cópias de partituras. Nesta época, ela deixava as cópias na mesa para onde o estava levando.

Aceitou o pagamento e sorriu enquanto o cliente saía, então sentiu o sorriso desaparecer quando voltou a ficar sozinha. Havia muitos desafios na sua vida agora, e hoje ela percebeu que talvez deveria mesmo cortar os laços com o irmão. Ele era a única pessoa que ela tinha além de Alfie, mas agora ela precisava ser forte pelo filho.

Guardou as moedas na gaveta e olhou para o dinheiro que mantinha lá. Uma parte dele iria para o Sr. Lawrence antes que tudo isso acabasse. Parecia que ela mal conseguiria se manter, todo o dinheiro desaparecia ao mesmo tempo que entrava. Mas faria o que fosse necessário para proteger Alfie.

Se estivesse minimamente convencida de que lorde Aberley estivesse interessado em Alfie por que ele era o pai dele, ela talvez tolerasse um relacionamento entre eles, mas ele queria um herdeiro; alguém para manter longe dos olhos e da mente, para quem, mais tarde, pagaria um estipêndio para que continuasse da mesma forma até que chegasse o dia que ele realmente precisaria do herdeiro, então ele seria arrastado para o funeral do pai e receberia um título.

Tinha visto a evidência com os próprios olhos. O homem com quem se casou tinha sido o produto, e ele acreditava que mães ficariam felizes em entregar os filhos em troca de uma recompensa. Um homem assim não poderia ficar a cargo da criação de Alfie. Só por cima do seu cadáver que ela entregaria o filho amável e gentil para tal monstro. Então, quanto quer que fosse que tivesse que pagar para o Sr. Lawrence para assegurar a proteção do filho, ela pagaria, e provavelmente acabaria endividada.

Por que não a deixavam em paz? Parecia que no momento em que começava a ir à tona, alguém a puxava para o fundo, e ela ainda tinha que lidar com o luto. O desespero a ameaçou por um instante, mas não podia ceder.

Fechou a gaveta com força, se ergueu e respirou fundo. Eles ficariam bem. Tinham um ao outro e isso era tudo do que precisavam. Alfie era feliz, e a fazia feliz. Se tivesse que manter todos os predadores longe dele, faria isso só para assegurar que aquele sorriso nunca deixasse o rosto do filho.

Ainda assim, ela sabia que seu nêmesis não tinha terminado o ataque. Ele voltaria, mesmo que ela não soubesse como. Talvez com uma quantia ainda maior. Ela quase ficaria decepcionada com ele, se ele assim o fizesse. Isso só mostraria que ele realmente não entendia o coração de uma mãe. Talvez não entendesse. Ele não teve uma, afinal de contas. Saber daquilo a deixou um pouco mais empática quando se casou com ele, mas aprendeu bem rápido o quão frio e cruel um menino criado sem mãe poderia se tornar.