A Esposa Desprezada
Capítulo 21
O quarto de Sophie era grande e confortável. A cama era perfeita e ela dormiu de uma forma que não dormia há muito tempo. Ir até lá teve um efeito calmante sobre ela, talvez porque soubesse o que enfrentava agora. Era ali que eles viveriam, e era maravilhoso, de verdade.
Os jardins eram lindos e muito bem mantidos, as plantas já estavam plantadas há muito tempo e em plena floração. Havia muitos campos e um lago. Uma biblioteca bem abastecida e até tinha o próprio salão.
Nos últimos dias, aquele nervoso enjoativo que havia dentro dela estava começando a amainar. Ele estava lá há muito tempo, desde antes de Doug morrer.
O estresse com a aparição de lorde Aberley só lhe causou ainda mais aflição, mas ali, finalmente, sentiu como se pudesse deixar as armas de lado, pelo menos um pouco. O fato de Alfie estar feliz deixava as coisas muito mais fáceis. Ele amava tudo em Sommerfield Hall e explorou cada parte da propriedade. O Sr. Herman era um excelente tutor e Alfie ansiava pelas aulas.
Sophie não precisava brigar por nada. A tensão com lorde Aberley ainda existia, mas diminuía quando estava longe dele. De certa forma, era um pouco como se eles estivessem competindo pelo mesmo prêmio, o que era ridículo. Ele apenas era um homem desagradável, era parte de quem ele era.
Ela só o via todas as noites na hora do jantar. Ele precisava cuidar da propriedade, o que, ao que parecia, tinha sido bastante negligenciada por ele, o que significava que ele não estava lá grande parte do tempo.
Pela primeira vez em anos, Sophie tinha tempo livre. Quando Alfie estava nas aulas com o Sr. Herman, ela não era necessária para nada. Até mesmo as tarefas domésticas da casa não eram dela. Era uma convidada, não a senhora da casa. Isso significava que realmente não tinha nada para fazer.
Ela passava a maior parte do tempo na biblioteca ou afinando os instrumentos na sala de música, o que incluía um cravo em vez de um piano. Era bem possível que os pianos ainda não tivessem sido inventados quando esta sala foi usada pela última vez. Era tanto interessante quanto instrutivo tentar afinar um cravo.
Mesmo estando velhos, todos os instrumentos eram de excelente qualidade. Alguns teriam que ser descartados por causa dos danos da idade. As partituras estavam quebradiças e desbotadas.
Talvez devesse falar com lorde Aberley sobre um piano, mas ela se recusava a aceitar a ajuda dele, ou a pedir por ela.
Lorde Aberley não gostava das roupas dela e ela entendia que elas estavam terrivelmente desencaixadas ali, mas aceitar a ajuda dele novamente a faria se sentir em débito, mesmo se ela jamais fosse ganhar o dinheiro para adquirir o tipo de roupa que ele queria que ela vestisse.
Pegou o xale de lã e saiu da casa, indo para o jardim. O solo estava fofo por causa das últimas chuvas. À direita ficava a parte mais prática da propriedade com o celeiros, estábulos e equipamentos agrícolas. A propriedade era extensa. Ficou sabendo que o administrador da fazenda tinha um escritório ali. Na verdade, a aldeia também não ficava muito longe dessa parte da propriedade.
Era difícil pensar que tudo aquilo, um dia, seria de Alfie. Parecia estranho, e a ideia ainda a punha nervosa, mas ele poderia já ser um idoso quando isso acontecesse. Lorde Aberley era um homem forte e saudável que poderia viver por muitos anos.
Na verdade, ela o viu perto da área da fazenda falando com um homem que presumiu ser o administrador. Eles estavam observando algo em um saco, erguendo o material e o deixando cair. Sementes, talvez, ou cereais. Fazendas e essas coisas estavam muito além do seu conhecimento.
Lorde Aberley estava falando e eles verificaram outra saca. Ela nunca o tinha visto fazer alguma coisa antes, não de verdade. Este era um lado dele que nunca tinha visto, o administrador de propriedade que se importava com coisas como sementes e cultivo. Por muito tempo ele tinha sido essa enorme muralha de reprovação e negatividade.
De certo modo, não tinha nada que os incomodasse agora, exceto os detalhes sobre como Alfie deveria ser ensinado ou tratado. A vida deles seria confortável ali. Lorde Aberley voltaria para Londres para lidar com o que quer que ele fazia, e eles ficariam na propriedade. Alfie recebendo instrução e ela sendo uma hóspede eterna.
Ao menos o Sr. Herman era bastante cordial. Talvez eles até mesmo continuassem jantando juntos depois que lorde Aberley fosse embora.
*
Alfie estava desenhando em um pedaço de papel sentado no chão do salão de Sophie. Era uma casa enorme com figuras dele e dela, depois lorde Aberley e o Sr. Herman. Sophie não podia dizer quem era quem ao observar o desenho. Talvez essa fosse a forma como Alfie via o seu novo mundo. Sentiu uma pontada de tristeza por Doug não estar ali. Talvez Alfie fosse esquecê-lo completamente.
De certa forma, parecia certo libertar Doug, ele fazia parte de um capítulo da vida dela, um que ela tinha imenso carinho. Talvez ela estivesse tentando se agarrar a ele por mais tempo, e isso foi parte do motivo para ter lutado tanto para manter lorde Aberley longe deles. As outras razões ainda eram verdadeiras. Ela temia mesmo que Alfie ficasse igual a ele.
Havia certa contenção em lorde Aberley. Seria exagero dizer que ele ficava confortável perto de Alfie, ou qualquer coisa do tipo. Aquela parecia ser uma vida bem solitária, uma que tinha sido passada mantendo as pessoas a distância. Mas talvez ela tivesse entendido errado e ele tivesse uma turba de amigos que ela nunca tinha visto, e a mais agitada e recompensadora vida social. Mas, quando chegaram ali, não havia convites de moradores da área, e nenhum havia chegado. Pelo que entendeu, a vida dele era basicamente em Londres, então talvez não fosse de todo surpreendente.
Sophie ainda tinha que se apresentar ao vigário. Quando lorde Aberley partisse, ela o convidaria para o chá. O Sr. Herman, é claro, seria muito bem-vindo a se juntar a eles. Eles dois eram novos ali e aquela seria a casa deles por muitos anos.
A porta do salão se abriu de repente e lorde Aberley entrou. Era incomum que ele fosse procurar por ela, e Sophie imaginou o que o levara até ali.
— Aí está — disse ele, olhando para Alfie. — Tenho algo para você.
— Para mim? — disse Alfie, a alegria iluminava as feições dele.
— Venha.
Alfie se levantou e seguiu Aberley para fora da sala. Colocando o livro de lado, Sophie foi atrás deles. Aberley os conduziu pela escadaria principal e saíram pela porta da frente antes de seguirem para os pátios, onde estava um cavalinho.
— Este é o Artex — disse Aberley e parou perto do cavalariço que segurava as rédeas. — Ele é um pônei de Dartmoor, e é seu.
— Meu? — Alfie disse, encantado. Ele estava com um pouco de medo de se aproximar. Cavalos sempre foram algo do qual ele tinha que ficar longe, tinha sido ensinado desde cedo a ficar o mais longe possível dos cascos e das pernas.
— Você precisa tratá-lo bem e aprender a montá-lo. Pôneis precisam ser exercitados, ou eles ficam preguiçosos e coxos.
O pônei tinha a pelagem marrom e a crina e as patas eram negras. Ele era bem pequeno, mas ainda assim era mais alto que Alfie. Ele se aproximou lentamente e o pônei curioso cheirou a mão que ele tinha oferecido.
— Ele também tem seis anos — prosseguiu Aberley. — Assim como você. Nós temos uma sela. Você deseja montá-lo?
O entusiasmo de Alfie era óbvio, mas aquilo ultrapassava a experiência dele.
— Sinto informar que Alfie nunca montou antes — disse Sophie. Ela tinha trazido o xale, mas não esperara que eles fossem para fora. Não esperara que Aberley tivesse comprado um pônei. Dentre os cavalheiros, montar era um requisito, então talvez ela não devesse estar surpresa.
— Então você vai começar hoje. A sela está pronta? — Aberley perguntou para o cavalariço, quem entregou as rédeas para poder ir pegá-la.
Sophie começou a ficar aflita. Ela também não tinha experiência com cavalos e temia que Alfie fosse cair. Mas imaginou que se fosse para aprender a montar, o pônei seria a melhor opção.
O rapaz voltou com uma sela pequena e foi selar o cavalo.
— Esses são os estribos — disse Aberley. Alfie não era capaz de alcançá-los, então Aberley o levantou e o colocou sobre a sela. — Acho que teremos que conseguir um banquinho para você.
Alfie sorriu orgulhoso enquanto se sentava na sela e tentava colocar os pés nos estribos. O pônei movia as pernas robustas enquanto o cavalariço o conduzia ali em volta.
— Muito bem — gritou Aberley. — Segure-se com as pernas. Aperte os flancos do cavalo.
Alfie, na verdade, agarrou a sela. Sophie podia dizer que ele estava assustado, mas também animado. Aquilo era uma aventura para ele. E se aprendesse a montar, toda aquela propriedade seria um parquinho para ele. Mas ele era tão pequeno. Parece que foi ontem que ele era um bebezinho em seus braços.
— É um belo pônei — disse Sophie, notou que o animal não era arisco. Não sabia mais o que dizer. De certa forma, aquele parecia um presente extravagante demais, mas Aberley não era um estranho dando um presente ao menino, ele era o pai de Alfie e tinha todo o direito de dar um pônei para ele. Além do mais, aprender a montar tinha propósitos muito práticos, mesmo ela lutando para aceitar a generosidade dele.
— Sim — disse Aberley, virando-se para ela. — Você, obviamente, pode fazer uso de qualquer um dos cavalos, se for do seu desejo.
— Acho que vou manter meus pés no chão.
— Aqui pode ser bem isolado se alguém não soube montar. A senhora deveria reconsiderar. Talvez devesse aprender a montar junto com Alfie.
Havia mérito nas palavras dele. Provavelmente seria mais feliz se tivesse alguma mobilidade, mas poderia aprender a conduzir. Algo dentro dela lutava para que Aberley não visse sua completa falta de jeito em qualquer departamento. Tanto quanto depreciasse a frieza e a indiferença dele, ele era um homem notavelmente capaz.