A Esposa Desprezada
Capítulo 34
— Já estou farta de você me culpando pelas ações do meu irmão, terei que começar a culpar você pela ação da sua? Só posso imaginar o tipo de tola que cairia na lábia dele. Responda isso.
— Não fale mal da minha irmã.
— Oh, mesmo? Você pode falar mal de todo mundo, inclusive de mim, mas eu não posso dizer nada de ruim sobre ninguém?
— Seu irmão é um salafrário.
— Você é um salafrário. É tão ruim quanto ele.
— Retire o que disse.
— Ou o quê?
— Ou irei bani-la dessa casa. — Aparentemente, aquela foi a coisa errada a dizer, porque ela o estapeou, e não se conformou com apenas um tapa.
— Você acha mesmo que darei ouvidos ao seu banimento? Eu lhe dei ouvidos uma vez. Sou toda ouvidos agora. Você não tem nada de bom a dizer.
Bem, de certa forma, ela tinha, porque ele era legalmente o pai de Alfie e aquilo não poderia ser desfeito.
Quão rápido eles tinham ido de serem razoavelmente civilizados um com o outro à violência, e considerando quem teria a custódia em uma batalha legal? Óbvio que seria ele, mas aquilo seria drástico, uma atitude que deixaria Alfie devastado. Tristan percebeu aquilo, mesmo que no início ele tivesse sido bem obtuso. Talvez entendesse por que Sophie tinha lutado com tanto empenho. E, pelo visto, ainda estava.
— Pare de me bater. — Ele voltou a segurar os pulsos dela, contendo-a. — Eu não disse a ninguém que você se reuniu com homem nenhum. Nem sequer insinuei. Eu posso ter dito que eles estavam encantados por você. — Ou foi Minette quem disse, e depois foi e contou tudo para Sophie? O que ela estava tentando fazer?
Sophie se contorceu, o que não fez nenhum favor a ele à luz do desconforto que ele estava sentindo mesmo antes de ela entrar em seu escritório como uma Valquíria.
— Você me chamou de sedutora?
— Bem...
— Bem, o quê?
— Você não está ciente do impacto que exerce nos homens à sua volta? Usando esses vestidos? Eles deixam muito pouco para a imaginação.
— Do que você está falando? Meus vestidos são muito recatados.
— Eles mostram muito bem quando você está com frio. — Incapaz de se impedir, ele arrastou o olhar para baixo. — E, ao que parece, quando você está com raiva.
Sophie olhou para baixo e arrancou as mãos das dele para cruzá-las sobre o peito.
— E quando estão molhados, eu posso até mesmo ver o seu umbigo — disse ele com rispidez, como se tivesse ganhado pontos com esta declaração.
— Então não olhe.
— Eu sou um homem. Você não pode simplesmente me dizer para não olhar. É como dizer para não olhar para um cometa brilhante riscando o céu noturno. Se você não é uma sedutora deliberada, então o é sem querer.
— Foi por isso que lady Woolwich acabou de comprar três vestidos para mim? Vocês andaram conspirando contra a minha pessoa?
— Sim, porque eu acabei de comprar três vestidos para você. Por alguma razão, você é totalmente contra aceitar qualquer ajuda de minha parte.
— Eu jurei não aceitar nada de você.
— Por que você tem que brigar comigo o tempo todo? Ao contrário do que acredita, eu não lhe desejo nenhum mal. Bem, não ultimamente. Pode ter havido vezes em que eu desejei que você caísse em um buraco escuro e profundo. Mas estamos criando uma criança juntos e precisamos cooperar um com o outro.
— Como poderemos fazer isso se está falando coisas tão vis às minhas costas?
— Eu não falei.
— Parece que falou.
Por um momento, Tristan quis estrangulá-la, ou estrangular outra pessoa.
— Eu posso simplesmente ter dito, ou insinuado, que eu não quero homens vindo a esta casa para ficarem comendo você com os olhos. — Aquilo talvez não fosse o que ele tinha dito, mas o foi em essência.
— Poderia ter havido um futuro entre mim e o Sr. Herman e você fez de tudo para destruir essa possibilidade. Por que faria algo assim para mim? Você acha que eu não mereço ser feliz? Você está decidido a me punir. Pelo quê? Por favor, diga.
Isso era mortificantemente estranho.
— Eu não estava punindo você — ele teve que admitir. Em uma conversa tão franca, era covardia se esconder atrás de meias-verdades. — Eu posso ter me sentido ameaçado.
— Como isso era uma ameaça? Como poderia ser uma ameaça?
— Você estava tentando me substituir. Levar minha família para longe e encontrar um novo pai para Alfie.
— O quê?
— Eu sei que é ilógico, mas foi como eu me senti. Então, sim, eu fui em frente e consegui um novo emprego para ele. Eu confesso. Está feliz agora?
Sophie só o encarou e Tristan não sabia para onde olhar. Era embaraçoso confessar esses impulsos para outra pessoa.
— Talvez eu seja, de forma involuntária, um pouco possessivo.
— Possessivo? Nós não somos casados.
— Sim, bem, mas às vezes, não parece ser o caso. — Era doloroso de admitir, mas talvez ela merecesse saber a verdade. — E talvez eu realmente sinta que você seja uma sedutora baseado na minha experiência pessoal.
Ela ficou boquiaberta, como se fosse dizer algo, mas nada saiu.
— Quando eu tentei seduzir você? É claro, eu tentei ser o mais dócil possível enquanto estávamos casados. Dei o meu melhor, mas nós raramente tínhamos contato. Eu nunca fiz nada para...Se acha que eu ter sido surpreendida pela chuva foi algum ardil para tentar seduzi-lo, o senhor está muito enganado.
— Talvez tenha sido um processo gradual — admitiu ele, a mortificação queimava dentro do seu corpo.
Finalmente, olhou para ela, os olhos dela estavam arregalados, olhando para os dele. Não havia mais raiva. Até mesmo os mamilos dela comprovavam isso.
— Eu — começou ela. — Eu não sei o que dizer.
Tristan deu de ombros. Ele também não sabia.
— Uhm, acho melhor deixarmos as coisas assim. — Dando um passo para trás, Sophie reconsiderou. — Você sempre ficará carrancudo caso um homem venha para esta casa?
— Provavelmente.
— Oh, entendo. Então para que saiba, o reverendo Narstop vem jantar aqui amanhã à noite.
— Foi o que fiquei sabendo.
— Não estou interessada nele, só para que você esteja ciente. Pode ficar tranquilo.
— Ficarei, obrigado, enquanto ele come você com os olhos durante o jantar.
— Ele não me come com os olhos, ele é um homem muito bom. Um homem de Deus, devo dizer.
Tristan não disse nada, porque havia um risco real de que ele fosse fazê-la ficar com raiva novamente. A batina não fazia de um homem um santo, especialmente os jovens e solteiros.
Finalmente, ela fez um meneio de cabeça e saiu do cômodo. Parecia que ficou muito por dizer, mas não era hora de falar sobre nada disso. Foi golpeado pela exaustão e se jogou na cadeira, então serviu-se de uma generosa dose de whisky. O que tinha acabado de acontecer?
De certa forma, ele tinha acabado de confessar sua paixonite por ela, e nenhum dos dois sabia o que fazer agora. Era óbvio que as coisas tinham mudado. Até certo ponto, ele estava apaixonado por sua convidada, ex-mulher e mãe do seu filho. Não havia porque negar agora. Ele se sentiu inquieto quando ela saiu dali, e não foi por aversão.
Era esta a raiz de toda a discórdia entre eles? Ao que parece, o amor cria mais problemas do que os soluciona.
Tomou outro bom gole do whisky e tentou acalmar o coração. De certa forma, parecia que um enorme peso tinha sido tirado do seu peito, mesmo ele não estando totalmente confortável com a essência do que tinha acabado de declarar.
E Minette. O que ela estava pensando ao colorir tudo o que ele disse sob uma luz tão pouco favorável? E ele nem tinha certeza de que tinha dito aquelas coisas. Ela estava se intrometendo.
Ainda assim, já teve confrontos suficientes por hoje, e não teria estômago para outro. Enquanto Sophie era suave como uma marreta, Minette era escorregadia como uma enguia.
Os documentos estavam sobre a mesa, de frente para ele, mas não sabia como poderia verificá-los agora. Mas, novamente, havia certa calma que ele não tinha sentido antes. Pegando a pena, voltou à correspondência em que estivera trabalhando com renovada clareza.
Uma cabeça apareceu perto da porta, chamando sua atenção para o garotinho.
— Olá, Alfie — disse ele animado, enquanto o menino o olhava com suspeita. — Isso me lembra uma coisa. Acho que encontrei um tutor perfeito para você. O nome dele é Sr. Veech. Ele parece ser um homem muito bom. — E velho, muito velho.
Ressabiado, Alfie entrou no escritório.
— Eu pedi para ele vir, assim você, sua mãe e eu poderemos conhecê-lo.
A imagem se formou em sua cabeça. Aquela era a sua família e ele realmente a via assim. E aquele não foi um pensamento que o desagradou.