A Esposa Desprezada
Capítulo 37
Mais uma vez, Sophie estava de pé atrás da porta do quarto com os dedos pressionados nos lábios. Ela ainda podia sentir a pressão dos lábios dele. Tinha sido glorioso, e ela não tinha feito uma única coisa para colocar um fim naquilo.
As emoções estavam em colisão dentro dela. Só ficou parada lá e deixou acontecer, ela participou. Verdade seja dita, já fazia muito tempo que tinha sido beijada daquele jeito, com tal paixão. Na verdade, era provável que aquilo nunca tivesse acontecido.
Mas o que aquilo tinha significado e por participar, estaria ela prometendo coisas que não pretendia fazer? Nenhum deles falou sobre qualquer promessa. Tinha sido só um beijo. Uma expressão de...
Ela não sabia o que dizer sobre aquilo. Ele a desejava, o que poderia ser pelo fato de que ela era a única mulher por ali, exceto a querida amiga dele, mas ele tinha ido para Londres e tinha sido arrastado de volta. De acordo com as próprias palavras dele, ele admitiu aquilo.
O que aquilo significava? A pergunta dava voltas e mais voltas na sua cabeça. O que aquilo significava além de desejo? O que ele queria dela? Era óbvio que não uma esposa, e ele com certeza tinha gostado muito pouco dela antes de ter sido afligido por esta atração.
Mas então ele também disse que sentia como se eles fossem casados. O que aquilo queria dizer? Por que aquele homem não se explicava?
Aborrecida, Sophie se afastou da porta e caminhou pelo quarto, mas só conseguiu chegar à penteadeira, onde ela acabou perdendo o fio do pensamento novamente.
Fisicamente, a atração era mútua. Não havia como negar. Ele era um homem muito bonito e, em algum momento, pensara que ele fosse o homem mais belo do mundo, mas a personalidade dele, e também o veemente desdém que sentia por ela, tinha afogado aquela atração. Por muito tempo, ele a culpara por tê-lo enganado para casar com ela, tinha visto aquilo como uma grande falha no caráter dela.
Por que ele beijaria alguém de quem ele tinha tão baixa opinião? Por que ela beijaria alguém que pensava aquilo sobre ela? Ambas as situações não eram igualmente ruins?
Uma batida soou na porta e Sophie congelou. Seria ele? Ele quereria se explicar ou qualquer outra coisa ainda mais incompreensível? Pressionando os lábios, ela imaginou o que poderia fazer. Se ela o deixasse entrar, sucumbiria novamente, dessa vez em um quarto, com a conveniência de uma cama. Um arrepio de nervosismo percorreu todo o seu corpo.
— Sra. Duthie? — Era Wellswar. Os ombros de Sophie relaxaram e ela foi atender a porta. Wellswar sorriu daquele jeito estranho que ele sorria, como se não fosse uma expressão natural para ele. — Lady Woolwich perguntou se a senhora deseja se juntar a ela para o chá.
— Certo — disse Sophie. Uma distração. Talvez aquilo a ajudasse a colocar os pensamentos em ordem. — Sim, seria ótimo tomar o chá. — Ela estava sedenta na verdade, ou seria aquele nervosismo constante e onipresente que sentia desde o momento que saiu de casa naquela manhã?
Sophie encontrou Minette no salão, sentada em um sofá de brocado no canto.
— Aí está você — disse ela e deu um tapinha no sofá. — O tempo está pavoroso, não? Acho que Tristan saiu. Alguma coisa com a ponte. Como foi a aula de equitação?
Pigarreando, Sophie tentou impedir que o rubor subisse por suas bochechas.
— Boa. A cavalo me pareceu prudente.
— Sim, prudente. Exatamente o que se quer em um cavalo. Chá?
— Por favor.
— Precisarei partir em breve. Eu e Alfie nos divertimos muito esta manhã. Vocês precisam mesmo contratar outro tutor para ele.
— Preferencialmente um que Aberley não mande para longe.
Minette sorriu.
— Ele está com ciúme. Esta é, tenho certeza, uma nova emoção para ele.
Sophie aceitou a xícara, e não soube como responder.
— Na verdade, eu não acho que ele saiba o que fazer com as emoções no todo. Homens como ele são uns patetas quando se apaixonam.
— Eu não acho... — Sophie começou a argumentar.
— Eles não têm ideia do que fazer. São tão capazes na maioria dos assuntos, mas no que diz respeito às mulheres, eles não têm nenhuma noção.
A resposta escapou de Sophie. Recusava-se a pensar naquilo. Apaixonado. Era totalmente ridículo.
— Se ao menos ele tivesse aberto os olhos sete anos atrás, as coisas teriam sido muito diferentes, mas não importa. As coisas sempre se encaixam no final, não? É como se fosse para ser.
— Eu não acho...
— Bastante romântico. Um homem tão prático. Quem diria que ele guardava isso dentro de si?
Romântico? Aberley? Não, não parecia nada como ele.
Mas nada do que Sophie dizia afastava Minette daquela linha de pensamento.
— Não é fácil para ele, você precisa entender. Ele sempre foi sozinho, desde criança. Tenho certeza de que ele está bagunçando tudo. — Ela riu um pouco. — Mas você precisa dar margem a ele. Ele não tem nenhuma referência, tanto como pai quanto como marido. Nem mesmo como amante. Mas o que faríamos com homens assim? Simplesmente desistiríamos deles?
— Eu...
— Não, precisamos ser compreensivas. Mas não é algo que nos diz respeito, é? Diz respeito só a você.
— A mim?
— Sim. É por você que ele está apaixonado.
— Eu não acho...
— Não? Então você não deve ter notado. — Minette bebericou o chá com delicadeza.
Sophie abriu a boca, mas não sabia o que dizer.
— Mas, por favor, não brinque com ele. Eu odiaria vê-lo se retrair mais do que ele já é. Ele já é muito difícil de alcançar do jeito que está. Eu não acho que ele se recuperaria.
Fechando os olhos, Sophie desejou enterrar a cabeça nas mãos. Era tudo complicado demais.
— Na verdade, eu não acho que ele goste mim.
— O que gostar tem a ver com amar? É contra o amor que ele luta, não contra você, querida.
— Não acho que você entenda a situação.
— Você está dizendo que eu não entendo o meu mais querido amigo? Eu o entendo, provavelmente melhor do que você. — A voz dela ficou ríspida e Sophie sentiu como se estivesse sendo repreendida. — Se não pode ver o que ele é, então não está olhando.
Talvez houvesse verdade naquilo. Tinha passado tanto tempo pensando em Tristan como inimigo e imaginando qual seria o próximo movimento dele, que não tinha olhado para ele, até que ele a beijou. Evidentemente, havia aquela pequena parte de ele admitindo que afastaria qualquer homem que chegasse perto dela, se ela desejasse ser exigente com isso.
— Aí está ele — disse Minette, olhando pela janela, vendo Aberley se aproximar no lombo de um cavalo. Ele parecia tão sério, tão compenetrado. Ele estava pensando nela? Sobre o beijo?
O nervosismo a fez sentir um frio na barriga, como se o chão tivesse cedido sob os seus pés.
Com graça, ele apeou e passou as rédeas sobre a cabeça do cavalo antes de afagar o focinho do animal. Ele era bondoso com cavalos, e cachorros, e com o filho deles. Minette estava certa; ele era muito contido e distante. Tudo nele. Ainda assim ele mantinha amizade com alguém como Minette, porque ele precisava dela.
Era ridículo pensar que aquele homem estava apaixonado por ela. Minette tinha que estar errada, mas aquele beijo. Um beijo de fome e necessidade.
— Devemos ir cumprimentá-lo? — Minette sugeriu e levou uns segundos para Sophie entender a pergunta. — Venha, vamos dizer olá.
Pegada pelo braço, Sophie foi arrastada para a entrada principal, onde a porta logo se abriu e ele entrou. Os olhos dele a buscaram e focaram nela. Ele poderia mesmo estar apaixonado por ela? Amor era algo importante, era o que ela queria mais que riqueza, mais que status. Tinha conhecido o valor do sentimento, e se ele o sentia, ela não poderia culpá-lo por ir atrás dele.
Ela poderia amá-lo? A resposta era sim, ela sabia que era.
— Oh, esqueci o meu livro. Que distração a minha. Wellswar, ajude-me a encontrar o livro. Você pode ajudar Tristan com o casaco, não? — Minette disse, empurrando Sophie para frente. — Wellswar. Agora.
Aberley estava molhado. A chuva tinha encharcado a roupa dele.
— Sim, é claro — respondeu Sophie, finalmente. Então se virou para o espaço vazio onde Minette tinha estado.
Dando um passo à frente, ela foi ajudá-lo a tirar o casaco, o qual estava pesado e quase agarrado nele. Ela teve que retirá-lo de sobre os ombros dele, sentindo o calor dos músculos firmes sob os seus dedos.
— Parece que conseguimos nos molhar bastante.
— É o campo.
Ele deveria estar com frio.
— O senhor encontrará a morte.
— Não sou assim tão frágil — respondeu ele depois de um momento. Ela tinha ficado tremendo e com muito frio quando se molhou, e tinha precisado do calor dele. Uma emoção fez vibrar o seu ventre com aquele pensamento.
— Posso pedir a Wellswar para lhe providenciar um banho. — A camisa dele não estava completamente molhada, só algumas partes. O calção devia estar, ao menos perto dos joelhos.
— Parece pior do que é, e eu não acho que Minette vá deixá-lo voltar neste momento. Ela está determinada a se intrometer.
— Foi o que percebi — disse Sophie, corando. — Ela está... preocupada com o senhor.
Eles ficaram lá por um momento, nenhum dos dois sabendo o que dizer. Mas ele não ia lá para cima se trocar.
— Acho que ela deve ter visto o beijo — disse ele finalmente.
Sophie franziu o cenho.
— Então Alfie deve ter visto também.
— Você acha que ele ficaria feliz? Se nós nos... beijássemos?
— Ele pode achar confuso.
— Você acha confuso?
— Sim — admitiu ela.
— Há uma solução muito simples para tudo isso. Bem, simples talvez seja um eufemismo. Nada sobre esse assunto tem sido simples. Mas eu acho que seria simples, no final das contas. Minette, acredito eu, pensa que é simples de se resolver.
— É mesmo?
— Acho que cheguei a uma conclusão.
Sophie abriu a boca, mas nada saiu. Ela não teve tempo de pensar em nada, porque, dando um passo à frente, ele estava lá, com os lábios pressionados nos dela. Bem, naquele contexto, talvez as coisas fossem simples. Um beijo apagava o passado e tudo o que aconteceu entre eles. Era só tomar este atalho.
O calor da boca de Tristan se infiltrou na dela. O frio da camisa molhada debaixo dos seus dedos, e a firme pressão do corpo dele junto ao dela. A língua dele explorava, provava, provocava. Cada pensamento sumiu de sua cabeça e foi substituído pela sensação: sabor, cheiro, sentimento e até mesmo o gemido baixinho que escapou da garganta dele. Parecia que cada tensão que sentia tinha desaparecido, porém, foi substituída por uma outra mais recente, mais arrebatadora.